Notas iniciais
Hey yo~ Mais um capítulo postado, uhul! *joga confete* Não conseguimos betar esse cap, então pedimos desculpas por prováveis erros ;;' E agradecemos cada recadinho dado

Capítulo XVII:

Luciano olhava para o relógio pela milésima vez. Não estava tão tarde assim, afinal, só tinham passado cinco minutos desde a hora combinada, mas começava a preocupar-se se não teria acontecido alguma coisa com a belga.
Nem meio minuto depois, ela apareceu a correr ofegante e sorriu ao vê-lo:

– O-Olá, Luci! Desculpa o atraso!
A culpa tinha sido de Hansen, é claro, que de forma manhosa a tinha abraçado e pedido por mais mimo, coisa que ela não sabia recusar.

Luciano sorriu alegremente e quase que correu de encontro a belga, abraçando-a apertado. Fazia quase três semanas que não se viam e pouco se falavam.
– Tudo bem, Bella. O que importa é que você veio. – houve um aperto no abraço – Caraca, que saudade!

Ela riu e retribuiu o abraço, dando-lhe palmadinhas nas costas.

– É verdade~ – afastou-se um pouco para o encarar e sorriu – Como estás?

O moreno chegou a cogitar contar tudo o que acontecera desde que saíra da pensão — desde o beijo até as duas noites que dormira com Afonso-, entretanto preferiu manter-se discreto.
– Estou bem. E você? – outro abraço, outro sorriso – Você está ainda mais linda! Aconteceu algo?

A mais velha corou um pouco e sorriu:

– Oh, nada de especial...Eu só... Tenho umas novidades para te contar. – segurou-lhe nas mãos, dando um pequeno aperto – Vamos almoçar?"

O mais jovem piscou, porém logo voltou a sorrir.
– Claro. Vamos almoçar onde?
A loira pensou e depois retribuiu o sorriso.
– Mc Donald's~.
Luciano riu e assentiu. Os amigos deram as mãos e seguiram para o restaurante da franquia mais perto, onde prefiram seus lanches e sentaram numa mesa mais reservada, onde podiam conversar tranquilamente.
– Então? Conta tudo que estou curioso. – piscou o olho e comeu suas batatinhas.

A belga corou novamente e deu uma mordida no seu hambúrguer,.

– Quando tu disseste aquilo, eu fiquei com vontade de te matar.
Luciano inclinou o rosto, um pouco confuso:

– O quê?
– Quando saíste de casa...

Luciano parou de mastigar as batatas, suas bochechas cheias dando-lhe uma aparência de esquilo a se alimentar. O brasileiro pareceu perdido, e Bella suspirou. Era tão parecido com os irmãos ibéricos...
– Antes de ires embora...
– Eu não fui embora... Só deixei a pensão.
– Certo. – ela sorriu e depois tomou um gole de seu refrigerante – Dissestes para me declarar para o Hans que eu teria uma surpresa.
Luciano riu.
– “Hans”?
Ela corou e franziu o cenho:
– Que tem?
– Nada, é fofo. – sorriu – Prossiga.
A loira pigarreou e mordeu o lábio inferior, contando ao amigo tudo o que acontecera desde que o brasileiro deixara a pensão, desde sua idéia de abandonar tudo e ir morar com alguma amiga até a noite de amor – essa sem grandes detalhes, e Luciano sequer pediu.
Comendo seu hambúrguer, o sul-americano sorriu e segurou a mão de Bella.
– Estou feliz por você, Bella.

A loira suspirou e retribuiu o sorriso, o seu acanhamento já tinha desvanecido ao longo da narração.

– Obrigada... Mas isso não muda o facto de eu quase ter tido um ataque de coração por tua culpa. – disse na brincadeira, com um sorriso travesso e apertou-lhe a mão – E tu? Não tens novidades para mim?

O brasileiro corou levemente, usando a mão livre para levar o hambúrguer até a boca.
– Hn... N-nós... – suspirou – No dia em que saí da pensão nós tínhamos nos beijado... E umas semanas atrás, aconteceu outro beijo, mas... – baixou os olhos e trouxe as mãos para o colo – Nada.

Bella pestanejou.

– Nada? Mas isso é alguma coisa! – na verdade, era bem mais avançado do que o que ela esperava – Quero mais pormenores, Luci! O que é que se passou mais? Olha que eu vi uma certa foto fofa com vocês os dois~

Luciano suspirou, coçando a nuca.
– Nós também dormimos juntos duas vezes... – ao perceber o sorriso malicioso da amiga, corou ainda mais – M-mas foi inocente! E-ele se agarrou em mim e eu não tive coragem de acordar ele, e na segunda vez nós acabamos adormecendo na frente da lareira... J-juro que não aconteceu nada!

A belga apoiou a cara nas duas mãos e encarou-o com um sorriso quase como o do Gato Cheshire:

– Não tiveste coragem ou não quiseste? Vá Luci, sabes que podes confiar em mim. Foi só mesmo isso?

A conversa já estava ficando incômoda.
– Você sabe que ele não gosta e nunca vai gostar de mim. De que adianta eu tentar algo? – terminou seu lanche – Prefiro ficar só na amizade, por isso não tento nada.

– Como sabes? – ela disse depois de um suspiro – Luci... Eu conheço o Afonso desde criança e ele sempre foi um pouco introvertido mas isso não signifique que não goste das pessoas e tu a essa conclusão já deves ter chegado, certo? – suspirou mais uma vez – A escolha é tua, é claro, mas pessoalmente eu acho que o Afonso fica diferente quando está contigo, uma diferença boa, acho que é um erro desistires assim.

Luciano mantinha sua atenção nos papéis sujos de ketchup sobre a bandeja, porém assentia a cada confirmação de Bella. Ele sabia que Afonso era uma pessoa tímida e que eles estavam mais próximos naqueles dias, porém uma coisa era certa: o português amava – e se não amava, gostava demais – Arthur, e o brasileiro não conseguiria vencer o britânico. Arthur era um homem fino, de bens, e já estudava para conseguir seu doutorado, apesar de ter a mesma idade que Afonso, enquanto Luciano era um pirralho sul-americano que só tinha o ensino médio concluído. Em matéria de conhecimento, Arthur era muito mais interessante que Luciano.

– Eu sei, Bella. Eu sei que o chefinho é tímido e tudo mais, mas... – ele suspirou, afagando seus cachos macios e de fios grossos – Eu não vou... eu não quero lutar por uma causa perdida: ele ama aquele babaca britânico! E o que eu poderia oferecer para ele? Bella, eu tenho dois empregos e nem assim consigo comprar um aparamentosinho que seja! Quer que eu... – outro suspiro, um gole de Coca-Cola – Não tem como eu oferecer algo para ele... Só a minha amizade.

A belga sorriu um pouco, achava aquele brasileiro tão ternurento...
Tornou a pegar numa mão dele.

– E o teu coração... Luciano... Ouve com atenção... Te garanto que o Afonso não liga nada a isso, ele não é assim. – acarinhou-a levemente, brincando com os seus dedos – Ele ficaria muito feliz nem que lhe desses só um post-it com algo escrito por ti.
Encarou o mais novo quase com pena, porque lhe custava ouvir o seu amigo falar tão baixo de si.

– O Afonso e o António tiveram uma infância muito complicada, sabes? Ele sempre se fechou muito e só precisa de alguém em quem confiar e que tome conta dele e não de alguém que lhe pague jantares caros ou viva em mansões. O carinho e o afecto, Luci, não há dinheiro nenhum no mundo que compre.

O moreno apertou a mão da amiga, dando um meio sorriso em seguida.

– E eu vou dar muito carinho para ele... Mas como amigo.

– Mas, Luci-- – Luciano balançou a cabeça para os lados, e a belga se calou.

– Vamos tomar um sorvete? Hoje até que está quente.

A belga suspirou tristemente... Só queria o melhor para os seus dois amigos.

– Vamos lá. Mas só se pedires um sabor diferente do meu e me deixares provar.

O brasileiro riu e concordou.
– Eu quero de creme!

– Óptimo, é o meu preferido. – a loira sorriu e começou a arrasta-lo para a fila – Vou querer chocolate. Ou preferes morango?

A resposta viera rapidamente:
– Morango! É o sabor que mais gosto!

– Optimo~
Pediu o seu gelado e o de Luciano, insistindo que pagava o dele e nem lhe dando oportunidade de reclamar, e depois perguntou se ele gostaria de ir caminhando enquanto comia mas lá fora, já que estava um dia bonito da primeira que despontava.
O moreno, tomando seu sorvete, assentiu e sorriu, entrelaçando seu braço no da amiga.

– Faz tempo que não vejo um dia tão bonito e agradável. Quer ir a algum lugar em especial ou o que?

– Podiamos ir... sei lá, ao parque? Tu trabalhas hoje? – perguntou, encarando-o por cima do ombro – Eu precisava de flores para levar à campa dos meus pais.

– Campa? – ele demorou para entender, e assim que o fez, coçou a nuca – Ah, tá. Trabalho sim, tenho mais uma hora para ficar com você. – sorriu – Precisa de ajuda para escolher as flores?

Ela sorriu agradecida e acenou afirmativamente.

– Sim, queria algo bonitinho e ninguém melhor que tu para ajudar.
O moreno sorriu e roubou sorvete da amiga.
– Ué, mas o chefinho faz arranjos ainda mais bonitos que os meus.

A belga riu e roubou o gelado dele.

– Mas isso é porque ele trabalhou a vida toda na floricultura e tem muitos anos de práctica.

Os dois sorriram e trocaram de sorvete.
– Por isso os arranjos dele são melhores que os meus. – ele se lambuzou com o sorvete, limpando o doce derretido com o dorso da mão – Por que não pede para ele?

– Porque ele já fez muitos para mim e eu agora queria um teu~!

O mais jovem riu outra vez, levando uma generosa quantidade do doce rosa para a boca.

– Tá certo. – levou a mão na cabeça pelo sorvete ter “gelado seu cérebro” e voltou a rir – Mas se ficar feio, peço desculpas aos seus pais.

Ela riu com o gesto dele e acenou com a cabeça.

– Não te preocupes, tenho a certeza que eles vão gostar.

O moreno abraçou a amiga pelos ombros, lhe beijando a testa.
Estava um dia lindo de céu azul, e a praça estava cheia de crianças brincando. Uma de bicicleta quase atropelou Luciano, que riu e começou a brincar com elas.

Entretanto Bella tinha-se sentado num banco, terminando o seu gelado, e observava Luciano andar pelos baloiços a empurrar as crianças e a ser arrastado para os escorregões.
Sorriu ao vê-lo tão divertido no meio das crianças. Era impossível não gostar de Luciano.

Luciano tinha um sorriso faceiro no rosto, uma alegria sincera e pura e Bella, sinceramente, achava-o tão infantil quanto as crianças com quem brincava, às vezes. Entretanto, a belga não conseguia ver maldade nas atitudes do mais jovem, concordando que aquela sutil infantilidade, talvez, fosse a razão do brasileiro ser tão feliz. Ele possuía um pouco da Síndrome de Peter Pan, e manter-se criança por dentro o permitia aquela felicidade invejável.

O brasileiro tinha uma roda de crianças a sua volta, e duas delas se dependuraram em seus braços fortes e morenos, cada uma em um. Luciano ergueu os braços ao senti-las firmes e começou a girar em seu eixo, sem sair do lugar. As risadas faceiras das crianças chegaram aos ouvidos de Bella de forma gostosa, e a loira não conseguiu evitar sorrir ao ver que uma menininha, mais jovem que Sofia, tomava o sorvete de Luciano.

– Oh, mas que rapaz adorável. – uma senhora, que parecia cansada, sentou-se ao lado de Bella, apoiando-se em sua bengala bonita e simples – É teu namorado, querida? Não paras de olhar para ele.

A belga sorriu e abanou com as mãos:

– Nada disso, senhora. É só meu amigo. Na verdade, é uma das minhas criancinhas. – disse a brincar e a senhora retribuiu o sorriso.

– De facto, quase que disfarça de uma no meio delas. – voltou a encarar o lugar onde as crianças brincavam com o brasileiro – A minha neta está alí, é muito raro querer brincar com as outras crianças. – apontou para uma menina a quem Luciano pegava ao colo – Sabe, ela nasceu com um problema: é surda. Então tem dificuldades em se dar com os outros meninos da idade dela...

Bella piscou e em seguida voltou rapidamente a atenção para Luciano, que conversava alegremente com a neta da senhora, e a fazia sorrir timidamente. A loira sorriu e sentiu o peito aquecer perante a cena.

– Tenho a certeza de que o Luci não se importa com isso.

A senhora olhou também na mesma direcção de Bella e sorriu:

– É capaz de ter razão. Fico feliz por ainda haver juventude solidária.

– Eu também fico. – a belga sorriu e a senhora bateu na própria testa.

– Ora, onde estão meus modos! – riu – Meu nome é Inês, querida.

Bella riu também e ambas apertaram a mão uma da outra.

– Sou Bella, prazer.

Inês continuou a sorrir, porém seu pequeno diálogo foi interrompido por um brasileiro suado e ofegante.

– Bella, Bella! – chamou com a neta de Inês ainda em seu colo – Bella, quero apresentar minha nova amiguinha: a Luíza. – Luíza encarou a belga timidamente, agarrando-se ao pescoço úmido de Luciano.

A senhora piscou e encarou Luciano:

– Como sabes o nome dela?

– Ah, a Luísa escreveu o nome dela na minha mão, né Luíza?

A menina acenou afirmativamente com a cabeça e usando linguagem gestual para dizer qualquer coisa à avó, que logo traduziu para os mais jovens.

– Ela está a dizer que é um prazer conhecê-la, menina Bella.
A loira sorriu:

– O prazer é meu.
Depois da frase ser novamente traduzida, desta vez para Luísa perceber, a menina retribuiu o sorriso e deu um beijinho na bochecha de Luciano.

O riso jovial e faceiro que Luciano soltou ao ser beijado pela menina enalteceu o coração de Inês. Era difícil Luíza se apegar a alguém – até mesmo sua educação estava fraca por ela não gostar da professora –, e alegrava-lhe ver sua única neta no colo de um completo estranho e já íntima dele.

Luciano era especial, Inês logo soube, e a senhora não conseguiu evitar um largo sorriso.

– Menino, fizestes minha neta mais feliz.

O brasileiro piscou e em seguida voltou a sorrir, apertando o abraço em Luíza, que sorriu também.

– Nah. Tenho certeza de que a Luíza é quem me fez mais feliz.

A senhora sorriu mais abertamente:

– Talvez as duas coisas. – esticou-se um pouco e esfregou o braço de Luciano – Obrigada, jovem.

Luciano corou ligeiramente e sorriu, entregando-lhe a neta, que logo se abraçou nela também.

Inês e Luíza se despediram dos amigos e se afastaram, a senhora demonstrando um pouco de dificuldade por carregar a neta no colo.

Quando sumiram do campo de visão de Bella, esta implicou com Luciano, fazendo-o corar ainda mais:

– Consegues camuflar-te tão nem no meio das crianças que elas pensam que és uma delas.

– Boba.

– Mas é verdade~! – a loira levantou-se e olhou para o relógio – Vamos indo? Está quase na hora de entrares.
Luciano ofereceu o seu braço para ela segurar e começara a caminhar para a floricultura.

– Você estava brincando, certo?
– Não~ És uma criancinha mesmo. – disse por implicação e riu ao ver o moreno ficar mais acanhado.
O caminho até a floricultura, que ficava menos de dez minutos da praça, foi percorrido em silêncio. Luciano tinha as bochechas vermelhas e Bella achava graça de seu semblante envergonhado.

Quando chegaram a Colubris, Afonso sorriu ao ver o brasileiro, e Bella aproveitou para brincar com os dois:

– Afonso! Acabei de conhecer a namorada do Luci. É tão linda! – riu.

O sorriso de Afonso não se desfez apesar de sentir um aperto no seu peito e cruzou os braços. Luciano tinha apresentado Michelle a Bella então?
Odiava sentir cíumes mas era quase impossível não os ter quando se tratava de Luciano.
– E quando é que a trazes cá? Também a quero conhecer.

Luciano, que já estava corado por causa do calor, enrubesceu ainda mais. Como estava de braço dado com Bella, balançou a amiga para frente e para trás.
– Bella... A Luíza tem só quatro anos!

A loira riu e deu-lhe uma palmada leve no braço.

– Estava só a brincar contigo, parvo. – Luciano fez um biquinho amuado e isso fê-la rir ainda mais e encarar Afonso – Vim-te devolver a criança.
Ao concluir a sentença, Bella empurrou Luciano pelas costas, fazendo o brasileiro dar dos passos em direção a Afonso. Mesmo que fosse a intenção da belga, o moreno não caiu nos braços do português, e encarou a amiga:
– Bella, pare de me tratar como criança! – fez beiço.

Ela mostrou-lhe a língua e cruzou os braços, sorrindo:

– Mas tu és uma criançona grande.
Afonso olhou de um para outro várias vezes sem entender o que se passava.

– Estou perdido.
A loira sorriu e comentou que Luciano, ao passarem pela praça, brincou com algumas crianças e que se encantara por Luíza, uma menina tímida e surda.
– Tinhas de ver, Afonso! A menina amou o Luci!
– N-não exagere, Bella...

– Mas foi verdade! Todos os meninos do parque gostaram de ti.
O brasileiro encolheu-se um pouco e pigarreou:

– Exagerada. Eu- Eu vou buscar o meu avental. – disse apressadamente e saiu para a 'Staff Room' onde estavam os seus utensílios de trabalho.
Afonso piscou mais uma vez antes de deixar definitivamente as margaridas de lado e voltar sua atenção à belga, que tinha uma expressão risonha e alegre.

– Bella? Do que estás a falar?

Bella sorriu outra vez e, ao contrário de responder ao amigo, fez-lhe uma pergunta:

– Você vai mesmo perder o Luciano para ficar com o Arthur?

Afonso ficou como um peixinho, a abrir e fechar a boca, corando depois quando as palavras delas fizeram sentido.

– N-Não sei do que estás a falar.

A loira suspirou e colocou uma mecha de seu cabelo para trás da orelha, cruzando os braços em seguida.

– Olha, Afonso. Eu sou apenas tua amiga e não posso meter-me na tua vida... Mas eu conheço bem o Arthur e o Luci. E, acredite, eu sei quem te fará feliz.

O lusitano desviou o olhar e esfregou o seu braço por uns momentos.

– E se eu não precisar de ninguém para ser feliz?

A resposta viera direta e crua:

– Nós sabemos que tu precisas.

– Precisa de que? – a voz de Luciano chamou a atenção dos europeus, e ambos encararam o brasileiro.

Bella sorriu e inventou qualquer coisa, dizendo que Afonso precisava de uma nova estante para arrumar suas centenas de livros, e que o português era muito teimoso por não querer comprar uma.

Luciano, deixando as rosas de caules longos sobre a mesa, começou a retirar os espinhos das flores e riu:

– Eu concordo com a Bella, chefinho. Você precisa de uma estante maior. – ele tomava um grande cuidado para não machucar os caules – Alguns estão com as capas amassadas, já.

Afonso bufou levemente por causa da resposta dela. Desde quando é que alguém precisava necessariamente de outra pessoa para ser feliz?
Mesmo que no fundo soubesse o que ela estava a tentar fazer.
Após ultrapassado o susto por ter ouvido Luciano aparecer, o português suspirou:

– E que tem? Os livros são para ler e ser usados, se os quisesse como novos nunca mais pegava neles depois de ler a primeira vez. – disse com um sorriso.

– Só tentei ajudar, chato. – embora implicante, Luciano sorria, o que deixava Afonso leve.

Bella, que torcia o nariz, esfregou as pálpebras e pediu.

– Luci... Poderias me trazer um pouco de água? Está quente...

Luciano acenou com a cabeça e deixou as rosas em duas pilhas separadas: as com espinho e as sem.

– Sim, senhorita. – seguiu para a sala dos fundos.

Bella suspirou mais uma vez e sentou-se no banquinho extra, pegando uma das rosas sem espinho e passando a brincar com elas.

Estranhando as feições pálidas da amiga, Afonso questionou:

– Bella? Estás bem?

Ela sorriu e balançou a cabeça.

– É só o calor. O Luci fez-me caminhar a manhã toda no sol.

– De certeza? – aproximou-se dela e fez-lhe festinhas no cabelo com uma mão e usou a outra para lhe esfregar o ombro – Se quiseres eu posso levar-te a casa.

A loira soltou um risinho baixo e balançou a cabeça para os lados.

– Se o Hans vê-te, és um homem morto.

Afonso, que não sabia do namoro entre seus amigos de infância, piscou, confuso.

– Por quê?

– Ah! Eu não te disse! – ela se levantou rapidamente, logo voltando a se sentar, zonza – Ugh...

– Bella? Estás mesmo bem?

Ela fez que sim com a cabeça.

– Eu não te disse... Desculpa-me. – sorriu e encarou o amigo – O Hans e eu... Estamos juntos.

O português ficou a encará-la por uns momentos e depois juntou as mãos como se estivesse a rezar:

– Aleluia! Finalmente após tanto tempo!
Bella corou um pouco e semicerrou os olhos, julgando-o:

– Que queres dizer com isso?
– Nada~

– Hunf! És um grande parvo por dizeres-me isso enquanto tu mesmo vive a esconder teus sentimentos. – alfinetou.

Afonso franziu o cenho e entreabriu os lábios, porém Luciano voltara à loja.

– Bella, desculpa a demora, eu-- Você está bem? Está pálida...

A loira bufou e apoiou a cabeça na mão.

– Já disse que sim seus chatos. Só apanhei sol a mais.
Luciano pousou o copo à sua frente e tirou um rebuçado do bolso.

– Quer algo doce? Pode ser queda de pressão...
– Eu estou bem. – repetiu, levando o copo aos lábios para beber água.
O brasileiro insistiu, acocorando-se em frente a amiga e abrindo a tampinha da caixa de tic-tac.

– Não quer mesmo? É tic-tac de canela, você adora.

Luciano passou a caixinha aberta na frente do rosto de Bella, que parou de beber e torceu o rosto numa careta. Em seguida, inclinou o corpo para frente e vomitou, sujando o avental e um pouco das calças de Luciano.

– Bella! – seus amigos exclamaram em uníssono, Luciano jogando os tic-tacs no chão e Afonso pondo os cabelos de Bella para trás.

– D-desculpa-me... – ela disse num fio de voz, mas logo voltou a vomitar – D-desculpa...

Afonso correu para ir buscar um balde e foi Luciano quem passou a segurar-lhe os cabelos.

– Bella! Você já estava doente?
Ela não lhe conseguiu responder e logo Afonso voltou com o balde e uma toalha:

– Não será melhor deitares-te?

A belga tremia e, mesmo todo sujo, Luciano servia de apoio para a amiga.

– N-não... E-eu estava bem...

– O hambúrguer! – o brasileiro resmungou – Deve ter sido isso! Você estava bem até nosso almoço!

– Vocês comeram hambúrguer de almoço? – Afonso foi censurar, porém Luciano o encarou.

– Chefinho, liga o carro que nós vamos para o hospital.

– N-não precisa--

– Claro que precisa! – a voz do brasileiro soou firme, e Luciano retirou como pode a sujeira de sua roupa, passando o avental sobre o jeans – Chefinho! O carro!

O português voltou a correr de um lado para o outro, procurando as chaves do carro e da Colubris, o casaco, uma garrafa de água caso fosse preciso...
Deixou a porta de entrada aberta e foi buscar o carro, parando-o bem em frente à entrada. De seguida voltou a entrar na florista e foi ajudar Luciano a trazer a belga.
Luciano sentou-se no banco de trás com Bella, que agarrava sua mão com força. Todas as janelas do carro estavam abertas, para que o vento diminuísse o enjoo da belga. Não estava fazendo muito efeito pelo vento estar quente, porém, quando questionada sobre fecharem as janelas, Bella resmungou:

– N-não quero vomitar no carro...

Afonso dirigiu o mais rápido que pode, e chegou a estacionar em local proibido apenas para que pudessem levar sua amiga até o enfermeiro mais próximo. Por estar demasiada fraca, Bella foi carregada por Luciano, enquanto curiosos eram afastados por Afonso.

Quando Bella foi passada para cuidados médicos, Luciano e Afonso sentaram-se na sala de espera do hospital, lado a lado. O brasileiro tinha a área dos joelhos sujos, e ele fedia um pouco, enquanto Afonso mordia o lábio inferior, nervoso.

– A-acho melhor ligar para o Hansen. – o português murmurou, e Luciano apenas concordou com a cabeça.

Ficaram-se a encarar por uns momentos à espera que o outro desse iniciativa para ligar mas Afonso decidiu que o melhor seria ser ele a fazer o telefonema.
Pegou no telemóvel e marcou o número do holandês, que demorou um pouco a atender:

'Tou?
– Hansen, ouve... A Bella sentiu-se mal e tivemos de a trazer ao hospital. – murmurou, sendo o mais directo possível – Podes vir cá ter connosco?

Hansen nem se deu ao trabalho de responder. Apenas desligou o telefone e saiu correndo até o táxi mais próximo, ameaçando o motorista e conseguindo chegar em cinco minutos.
Ao aproximar-se de Afonso e Luciano, ergueu o brasileiro pela gola da camisa.
– Que fizestes com minha mulher?

O português levantou-se num salto e afastou Hansen, colocando-se entre eles os dois.

– Quieto! Ele não fez nada!
O loiro desviou o olhar para Afonso e rosnou baixo:

– Onde é que ela está?
– Lá dentro. – apontou para uma porta – Ela sentiu-se mal enquanto estávamos na Colubris a conversar.

O holandês franziu o cenho e rosnou para Luciano, que se mantinha quieto e de cabeça baixa.
– O que almoçaram?
O brasileiro encolheu os ombros.
– Hambúrguer...
Hansen resmungou qualquer coisa, e torceu o nariz ao ver que Luciano com as calças sujas.
– Eu vou ter com a Bella.

Afonso rosnou-lhe também mal ele virou costas e aproximou-se de Luciano.

– Não leves a peito... – suspirou e esfregou-lhe o braço – Quando está nervoso ele torna-se rude.

Luciano calçou a cabeça, logo bagunçando seus cabelos.
– Ele tem razão em ficar furioso comigo... Eu devia ter notado que a Bella não estava bem e não ter perdido tanto tempo na praça... – suspirou – Mas a Luíza era tão fofa!

O português respirou fundo e colocou-se em bicos de pés para lhe ajeitar o cabelo.

– Tu não tiveste culpa, Luci. Acidentes acontecem, pronto. O importante é que ela esteja bem.

Luciano continuou se culpando, mas ergueu os olhos quando o enfermeiro que socorrera Bella parou perto de si e de Afonso.

– Vocês são os responsáveis pela senhorita Ackerman?

Afonso balançou a cabeça.

– Não, mas o irmão dela já está no quarto. – disse e viu quando Luciano puxou ar pela boca – Ela está bem? O senhor sabe o que causou o mal-estar dela?

– Nada de mais, senhor--?

– Moreira.

– Senhor Moreira. A senhorita Ackerman apenas se esforçou demasiado e passou mal. – ele sorriu – Nestes dias mais quentes isso é completamente normal.

Luciano soltou um suspiro audível, o que fez o enfermeiro piscar. Já que o irmão da paciente estava com ela, o funcionário do hospital imaginou que o brasileiro fosse namorado de Bella. Para si, formavam um casal lindo!

– Não fique assim, senhor. – outro sorriso, a prancheta sendo segurada contra o peito – Sua namorada está bem. Se quiserem, as visitas estão liberadas, ela está no soro no momento.

Luciano corou um pouco e abanou com as mãos em frente ao corpo.

– Eu- Eu não sou namorado dela!
O enfermeiro tornou a pestanejar.

– Não-? Desculpe o engano!

Ainda com as bochechas levemente rosadas, Luciano tentou sorrir ao mais velho. Ou pelo menos aparentava ser mais velho, uma vez que o pequeno homem – ele tinha a mesma altura que Afonso – lhe parecia muito jovem.

– N-não tem problema, senhor--?

– Pode chamar-me por Toris. – ele sorriu e em seguida voltou a apontar para o quarto onde Bella repousava – A senhorita Ackerman logo receberá alta, só precisa ficar no soro por mais meia hora. – pediu licença e se retirou.

Luciano, agora esfregando os cabelos, soltou um suspiro.

– Eu tenho cara de namoradeiro, por acaso? Virei namorado de todo mundo hoje. – fez bico e em seguida olhou para suas roupas – Não sei se presta eu entrar assim... e se o cheiro incomodar ela? Eu estou fedendo!

O português riu um pouco e depois suspirou.

– Se quiseres eu posso levar-te a casa para te trocares mas eu acho que sinceramente ela não vai ligar a isso.
E novamente por hábito, ajeitou-lhe o cabelo. Não sabia explicar, apenas gostava imenso de mexer nos caracóis de Luciano então qualquer coisa servia para os ajeitar.

E Luciano adorava quando Afonso lhe acariciava os cabelos. Sentir os dedos finos do português por entre seus fios era algo prazeroso, que deixava o brasileiro imensamente feliz.

Era isso que o amor fazia com as pessoas? Transformava as coisas mais simples nas mais importante? Porque, se fosse, Luciano começava a repensar se realmente algum dia amara Martin ou se apenas sentira uma grande atração física e uma imensa dependência emocional pelo modelo. Martin era lindo, porém Afonso era quem fazia o coração jovial do brasileiro apertar enquanto palpitava mais rápido.

Afonso conseguia fazer Luciano se sentir leve, mas, ao mesmo, tempo zonzo. Contente, mas extremamente possessivo. Mimado e muito carinhoso...

O português lhe despertava sentimentos contraditórios, e o desejo e o amor dividiam o mesmo patamar: Luciano queria Afonso só para si, desejava marcá-lo e fazê-lo estremecer de prazer; ao mesmo tempo que tentava fazê-lo o homem mais feliz do mundo.

Sorrindo, Luciano penteou a metade esquerda da franja de Afonso para trás da orelha dele, aproveitando para lhe acarinhar a orelha. Seus olhos escuros fixaram-se nos de expressão confusa, e então ele comentou:

– Você acha mesmo? – a palma da mão de Luciano era quente, e nem mesmo o cheiro forte das vestes dele o deixava menos atraente – Então... Vamos?

Afonso suspirou de contentamento, fechando os olhos por uns momentos. Podia não admitir, mas também ele era um mimado de primeira por mais simples que fosse o carinho.
Quando tornou a abrir os olhos, sorriu ternamente e acenou com a cabeça:

– Vamos lá!

Houve outro sorriso por parte de Luciano, e logo o português sentiu a mão do mais jovem deslizar rapidamente pela lateral de seu corpo antes de ter seus dedos entrelaçados com os de Luciano. Mais que depressa, Afonso corou.

– Luci, solta-me! – pediu enquanto o brasileiro dava dois passos em direção ao quarto.

– Ué, por quê? – fez um biquinho, porém em seguida suspirou. Soltou a mão do menor e colocou as suas em seus bolsos – Foi mal.

O português suspirou e colocou também as suas no bolso.
Não era que não gostasse do contacto, por que gostava imenso, mas sentia-se mal por ter Luciano de mãos dadas consigo quando ele gostava de outra pessoa.
Foi como se as palavras da belga ecoassem na sua cabeça mas ele tornou a ignorá-las. A ideia que precisava de outra pessoa para ser feliz parecia-lhe estúpida e romantizada mas sempre que Luciano lhe fazia algum mimo ou sorria para si, o português não podia deixar de desejar que ele ficasse ao seu lado para sempre.
Tornou a suspirar e apressou o passo para chegar ao quarto onde a belga estava.
Foi com uma certa hesitação que Luciano bateu a porta do quarto de Bella. Evidentemente que Hansen abriu a porta, e ao dar de cara com o brasileiro, o loiro franziu o cenho e fuzilou o mais jovem com o olhar.

– Se Bella passar mal outra vez por tua culpa, arranco-te o couro.

Luciano balançou lentamente a cabeça e entrou no quarto, forçando um sorriso ao ver a belga deitada sobre a cama.

– Oi, guria... – mesmo que pudesse apanhar de Hansen, Luciano sentou-se na poltrona e ficou perto da amiga – Como você está? Nos assustou, hein?

Bella sorriu tristemente e fez-lhe umas festinhas no cabelo.

– Desculpem... Eu não queria isso.
O brasileiro retribuiu o sorriso e segurou na mão dela.

– Tudo bem, o que importa é que você esteja bem.
Enquanto isso, Afonso encarava Hansen, julgando silenciosamente.

– Ela estaria melhor se não tivesse comido hambúrguer no almoço.

– Hansen. – Afonso rosnou – Faz um favor a todos e cala-te.

Puderam ouvir Bella soltar uma risadinha.

– Hans, o Luci não teve culpa. – o brasileiro lhe beijou a mão, fazendo o holandês remoer-se de ciúmes – Eu quis comer hambúrguer, e se não fosse o Luci e o Afonso, eu ainda estaria a passar mal.

O loiro cruzou os olhos e desviou o olhar. Mesmo assim, não gostava de a ver perto de Luciano.

– Como queiras.
Afonso rolou os olhos e aproximou-se dela:

– Como te sentes?

Bella sorriu e apertou a mão de Luciano.

– Bem... Desculpa-me por sujar tua floricultura... – então olhou para Luciano – E tuas roupas.

Luciano riu um pouco e voltou a beijar a mão da amiga, fazendo Hansen pigarrear e se aproximar do trio mais jovem, pondo a mão no ombro de Luciano e o apertando.

– Posso sentar-me?

O brasileiro sorriu e olhou para o holandês, garantindo:

– Hansen, nós já sabemos que vocês se acertaram. E, eu garanto: posso ser bi, mas a Bella não faz meu tipo.

– Hei! – a loira fingiu estar ofendida, e Luciano deu de ombros antes de se levantar.

– Desculpa, Bella, mas eu prefiro cabelos castanhos. – riu.

A belga sorriu, pois não ia perder uma oportunidade daquelas:

– Cabelos castanhos, Luci? – o seu sorriso aumentou – Longos ou curtos? Ou... sei lá, como os de Afonso, por exemplo?
Dito português corou e encolheu-se um pouco:

– H-hey!

Luciano, assim como Afonso, tinha o rosto tingido por um vermelho vívido, e balançava a cabeça de um lado pro outro:
– N-não, eu-- – a loira aumentou a malícia em seu sorriso, e Luciano acabou por se entregar – Os do chefinho...

O sorriso malicioso dela passou a um de satisfação.

– Que fofo, Luci~
Hansen olhou para os lusófonos e não entendeu porque é que Afonso se tinha encolhido e corado mais. Porém, ele podia ser loiro mas não era burro. Encarou Bella e sorriu de lado:

– Passa-se aqui alguma coisa que eu não saiba?

Bella encarou o irmão e balançou a cabeça:
– Siim~ Nossos amigos estão enamorados e não querem admitir e--
– Bella! – o brasileiro interrompeu a amiga, o rosto vermelho como um pimentão – P-para... E-eu só... – não era legal ter que mentir sobre seus sentimentos para manter a amizade com Afonso – E-eu só gosto do comprimento do cabelo do chefinho. Não é nem muito curto e nem muito comprido...

Os irmãos se entreolharam, percebendo tudo. Luciano estava apaixonado, completamente apaixonado, por Afonso... Mas existia Arthur.
Hansen rolou os olhos. O inglês sempre atrapalhava as coisas, e o holandês o detestava.

Afonso suspirou e aproveitou a deixa para poder desaparecer. Tinha demasiada vergonha e não gostava nada das implicações de Bella, mesmo sabendo que eram brincadeira.
Pigarreou e anunciou:

– Bem... Tu estás bem e acompanhada então desculpa mas eu tenho de voltar para a Colubris. – então encarou Luciano – Se quiseres podes ficar, hoje não devemos ter muitos clientes. – tornou a olhar para os loiros – Até logo e as melhoras.
Antes que alguém, mesmo Luciano, tivesse tempo de o impedir, saiu apressadamente e regressou para a Floricultura.

Ao entrar no estabelecimento, Afonso inspirou profundamente, baixando o rosto em seguida.
Por quê as palavras de Luciano fizeram seu peito apertar? E... Por quê, embora envergonhado, gostara tanto de ter o tipo de cabelo que o brasileiro gostava?
Suspirou. Era ridículo querer tanto Luciano por perto. Amava Arthur, ou assim imaginava, e Luciano era apenas seu amigo... Um amigo que ele não se importaria em beijar mais algumas vezes...
– Estou a ser ridículo.
Afonso soltou seus cabelos – voltando a se lembrar da expressão fofa de Luciano quando este admitiu adorá-los – e os prendeu num rabo alto. Arregaçou as mangas e seguiu para a sala dos fundos, onde pegou esfregão e um balde com água. Uma boa faxina sempre ocupava o corpo e a mente.

Luciano, apesar de ter autorização para faltar, não o fez. Foi a casa tomar um banho e trocar de roupa mas logo que ficou pronto regressou à Colubris.
Abriu a porta e pestanejou surpreendido ao ver tudo brilhar, desde o chão até aos balcões e as flores arrumadas por cores, o que dava um aspecto bonito ao interior da divisão.
– Chefinho? Onde você está?

Afonso apareceu na porta que dava acesso à estufa, piscando ao ver Luciano.
– Que fazes aqui?
O brasileiro, dando de ombros, voltou para suas rosas.
– Eu trabalho aqui, se esqueceu?

O baixinho pestanejou:

– Não mas... Eu disse que podias tirar o dia.
Foi ate ao balcão e foi tratar dos arranjos.

Luciano continuava tirando os espinhos das rosas.
– Mas eu queria ficar aqui.

Afonso suspirou e deu de ombros, dizendo a brincar:

– Como queiras, masoquista.

O moreno deu um meio sorriso e terminou seu trabalho.
– Hoje eu chego tarde em casa, chefinho... É noite de karaokê no bar.

O lusitano levantou o olhar e acenou com a cabeça.

– Tudo bem. Queres que prepare alguma coisa para comeres quando chegares?

O brasileiro sorriu e balançou a cabeça.
– Não se incomode, chefinho. – aquele sorriso derretia Afonso por dentro – Provavelmente vou comer no bar mesmo.

Tornou a acenar:

– Tudo bem, mas, de qualquer forma, tens bolo que sobrou de ontem no frigorífico, para o caso de te apetecer na mesma.

Luciano agradeceu e espreguiçou-se, passando a recolher as folhas e os espinhos de sobre o balcão.
– Quando eu saí do hospital, a Bella já tinha recebido alta e estava indo para casa com o Hansen... E eu usei a chave extra que você esconde nos arbustos para poder tomar um banho, tá? – estendeu-lhe a chave suja de terra – Você precisa de um esconderijo melhor. – sorriu enquanto lhe piscava o olho.

Afonso corou e guardou a sua chave no bolso, sentindo-se idiota por se sentir feliz só ao poder tocar na sua mão do moreno.
– E-Eu sei... Só não tive hipótese de arranjar um lugar melhor ainda.

Ele riu, em seguida coçando a nuca:
– Chefinho... Desculpa se estou sendo invasivo ou coisa parecida, mas... Estou na sua casa tem um mês e eu não gosto de acordar você para abrir a porta para mim ou procurar a chave extra. Não quero incomodar mais do que já incomodo...
– Sabes que não incomodas... – o português murmurou, tentando entender onde o mais jovem queria chegar.
Luciano sorriu outra vez, passado as mãos em seus cachos.
– Isso é o que você diz, mas sei que incomodo. – suspirou – Estou procurando um lugar para morar, mas tudo é muito longe daqui... – outro suspiro – Enfim... Eu queria saber, sem querer abusar, se posso ficar com a chave extra. S-só nas noites que vou para o bar!

O português levantou uma sobrancelha ainda a tentar perceber ao que ele se referia. Quando o fez, bateu com a palma da mão na testa:

– Claro que sim! Que idiotice da minha parte não ter pensado nisso antes! – tirou a chave do bolso e limpou o restinho de terra que ela tinha ao avental, estendendo-a depois ao brasileiro – Aqui tens.

Luciano pegou a chave e voltou a guardar em seu bolso traseiro do jeans, dirigindo outro sorriso ao europeu.
– Obrigado.

– De nada... – o português murmurou e logo se lembrou do que tinha acontecido no hospital e corou. Como odiava ficar vermelho, pigarreou – Vou terminar de arrumar a estufa e já volto.

O mais jovem piscou, mas acenou com a cabeça.
– Certo, eu vou fazer uns arranjos.

– Okey. Se precisares de ajuda, chama.
Luciano ficou ao balcão, terminando umas encomendas que estavam registadas num caderno. Uma boa meia hora depois, o sininho da porta tocou e um jovem elegante, com uns belos cabelos loiros, entrou e sorriu, falando com sotaque claramente francês:

– Boa tarde! Eu vinha buscar a minha encomenda, está no nome de “Francis Bonnefoy”.

Luciano, simpático como sempre e não sabendo quem o francês era, sorriu e acenou com a cabeça.
– Ah, sim. Os lírios brancos. – confirmou ao ler o pedido no caderninho – Só um minuto, por favor, preciso apenas terminar a decoração do vaso. – sorriu outra vez – Fique a vontade, por favor.

O francês acenou afirmativamente com a cabeça e antes de ele se afastar perguntou:

– Por acaso o Afonfon não está por aí? Não o vejo há muito tempo nem tenho tido notícias dele.

Claro que aquele apelido íntimo e infantil fez Luciano se contorcer de ciúmes internamente, porém o brasileiro controlou sua menção de apertar as mãos em punho e fingiu descaso:
– O chefinho está ocupado e não quer ser interrompido.

Francis fez biquinho e cruzou os braços. Afonso era um amigo de longa data e eles sempre tinham dado bem. Na verdade, eles tinham até namorado por umas semanas quando ainda eram adolescentes mas nada de importante.
– Entendo, se puderes, diz-lhe que o Francis mandou cumprimentos.

Luciano, passando uma fita vermelha pelo vaso também branco, acenou com a cabeça. Talvez fosse se esquecer de repassar o recado, talvez... Quanta infantilidade! O que Afonso era seu para que sentisse tanto ciúmes dos amigos – mesmo que o amigo em especial fosse um francês extremamente lindo e simpático? – dele?

Envergonhado de seu próprio comportamento, Luciano pigarreou para chamar a atenção de Francis.

– Eu vou ver se o chefinho pode atender você. – pediu licença e abriu a porta que dava para a estufa – Chefinho! Cliente!

Demorou apenas uns minutos para Afonso aparecer carregado de flores que pousou em cima do balcão. Ao ver o francês ficou quase sem reacção.
Havia ali uma culpa enorme por saber que Arthur o tinha traído uma vez consigo só que... Não cabia a ele contar isso, ou talvez devesse contar, mas no momento isso não passava nos seus planos.
Suspirou e sorriu:

– Olá Francis, há quanto tempo?
O loiro sorriu ainda mais abertamente que antes.

– Há muito, Afonfon~
– N-Não me chames isso!
– Eu já te chamo isso há mais de dez anos, não é agora que vai mudar.

Embora Afonso soltasse um muxoxo, Francis riu e aproximou-se do balcão, fazendo algo que tanto deixou Luciano confuso quanto enciumado: como um bom francês – ou pelo menos Luciano achava que os franceses faziam –, Francis deu dois beijinhos nas bochechas de Afonso, um cumprimento amigável e respeitoso.

Claro que o brasileiro, enciumado e com certa raiva do loiro – ele era ainda mais lindo que Arthur! –, deixou cair um o vaso que segurava em mãos, fazendo a porcelana se quebrar m vários pedaços.

– D-desculpa! – aquele era o vaso de Francis – E-eu faço um novo agora mesmo!

Ambos os europeus se assustaram com o barulho. Afonso foi logo ajudá-lo a apanhar os cacos, tendo cuidado para não se cortar.
– Não tem mal! Eu tenho tempo...erm...Desculpe, não apanhei o seu nome. – o francês disse encarando o moreno.
Luciano, sem encarar o francês, respondeu-lhe todo atrapalhado:

– Eu sou o Luci-- Quero dizer, o Luciano.

O sorriso caloroso do francês voltou:

– Prazer, Luciano! O meu nome é Francis Bonnefoy. – encostou-se no balcão e encarou Afonso – Nunca mais apareceste no café, Afonfon. Até o Gilbert perguntou por ti e nem o Arthur sabia o motivo.

Afonso se atrapalhou todo ao ouvir o nome do inglês e acabou cortando o dedo num caco, deixando os outros caírem.

– Ai.

Francis piscou e abriu a boca, porém a reação de Luciano fora mais rápida: vendo o filete rubro escorrendo pelo indicador do português, o brasileiro exclamou um “ah” e puxou a mão do menor para si, envolvendo-lhe o dedo com a boca.

Afonso não teve reacção imediata, outra para além de ficar a encarar o moreno com uma expressão surpreendida:

– L-Luci? – não era a primeira vez que ele lhe fazia aquilo e o seu coração aqueceu com todo o carinho que o brasileiro sempre tratava – Eu estou bem, é só um arranhão...

O brasileiro fechou os olhos e tirou o dedo, agora úmido, da sua boca.

– Eu vou buscar um curativo, espere aí. – como se o português estivesse doente, Luciano sentou-o num banquinho e seguiu para a estufa.

Francis, assim que o moreno sumiu, sorriu e encarou o amigo.

– Teu namorado?

O português corou até ás orelhas e abanou com a cabeça de forma negativa, encolhendo-se um pouco.

– N-Não. É o meu ajudante e amigo.

– Amigo, hn? – o francês sorriu, o que aumentou o rubor no rosto de Afonso – Não que eu conheça muitos brasileiros, mas pelo que eu saiba, eles não costumam andar a lamber o sangue alheio. – então Francis soltou aquela sua risada característica, recebendo um olhar de reprovação de Afonso – Ah, Afonfon, acalma-te. Estou só a brincar.

Afonso suspirou e pressionou o dedo cortado. Havia sido algo superficial, Luciano não precisava ter agido daquela maneira!

– O que estavas a dizer, mesmo?

Francis piscou, passando a acarinhar a própria barbicha, que lhe era um charme a mais. Não havia dúvidas do porquê Arthur estar apaixonado pelo francês: ele era lindo, carismático, gentil, inteligente... Como Luciano...

Afonso pigarreou, e Francis riu:

– Ah, sim! – outro sorriso – Sentimos tua falta... Faz tempo desde a última vez que foste tomar um café conosco. Até o Gil pergunta de ti... e do Roderich. – piscou, parecendo só agora se lembrar do austríaco – Sabes por onde o “jovem mestre” – tentou imitar seu amigo alemão, sentindo a garganta coçar ao forçar sua voz – anda?

O português acenou que “sim” com a cabeça, soltando um suspiro:

– O Roderich está a morar na pensão da Bella...

– Bella?

– Sim, minha amiga belga, irmã do Hans--

– Oh, a Bella! – a expressão de Francis transmutou-se, e o francês sorriu maliciosamente – Belíssima Bella, claro!

– Não te esqueça do Arthur. – Afonso censurou.

Se havia um único defeito em Francis era que ele amava, demais, as coisas belas. Nunca chagara a trair Arthur ou qualquer outro companheiro – o término do namoro entre eles se deu pelo fato de que Afonso não amava Francis tanto quanto Francis o amava, mas a amizade entre eles permaneceu inalterada –, mas era evidente que ele se entusiasmava perto de pessoas que julgava interessantes e belas.

Oui, oui, mon ami. ele sorriu e apoiou o cotovelo esquerdo na mesa e o queixo na mão – Eu não esqueceria daquele teimoso nem se quisesse.

A frase fez Afonso sorrir, porém sentir outro aperto no peito. Gostava de Francis o suficiente para ter ido para a cama com ele algumas vezes e não o expulsar de casa quando ele estava embriagado demais para dirigir, e lhe pesava na consciência que o traíra com Arthur. Com a pessoa que ele amava. Com a pessoa que eles amavam.

– És um parvo enamorado.

Francis riu um pouco e chegou mesmo a corar, ainda que levemente.

– Ora, não somos todos? Pensei que o amor fosse o que movesse a nossa vida.
O tom dramático fez Afonso rir um pouco:

– Sempre achei que fosse o fado.
– Essa música triste? – o loiro disse com um sorriso matreiro porque esperava já ver Afonso reclamar.
E claro está que ele reclamou mesmo.
– Não são todos tristes! Eu posso provar! – pigarreou e cantarolou num tom de voz baixo:

“Ele passou por mim e sorriu,
e a chuva parou de cair,
o meu bairro feio tornou-se perfeito,
e o monte de entulho, um jardim.”

Luciano, que finalmente encontrara o kit de primeiros socorros, estagnou próximo à porta ao ouvir Afonso cantar.

“O charco inquinado voltou a ser lago,
e o peixe ao contrário virou.
Do esgoto empestado saiu perfumado
um rio de nenúfares em flor.”

A voz do português não era firme e destemida como a de Luciano. Podia-se sentir a hesitação e o acanhamento por entre as sílabas, mas não deixava de ser bela. Era baixa, calma e a maneira como a língua dele parecia tremer e se enrolar dentro da boca para formar as palavras cantadas causava, com certa estranheza, um rebuliço no peito do brasileiro.

Podia uma voz comum fazer-nos tão bem?

“Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor-de-rosa,
eu sou um delírio do amor.”

O brasileiro espreitou pelo vão da porta, e observou Afonso sentado, os pés alinhados um ao lado do outro sobre o apoio do banquinho. Ele mantinha os olhos fechados e o rosto ligeiramente abaixado.

Ele era lindo. Simples e puramente lindo.

– Chefinho, achei o kit. – o brasileiro fez muito barulho, não querendo assustar, e acanhar ainda mais, Afonso.

E mesmo assim viu as bochechas dele se tingirem de vermelho e sorriu levemente, ajoelhando-se ao seu lado:

– Deixe ver o seu dedo.

Ainda mais atrapalhado mas sem sequer passar em desobedecer, Afonso estendeu a mão ao brasileiro para ele fazer o curativo.
Francis observava tudo com imensa atenção. Afinal, ele tinha um bom palpite para romance.

Notou o carinho de Luciano ao limpar o mísero arranhão com o algodão, assim como as mãos cuidadosas que enrolaram a gaze limpa no dedo machucado.

E, claro, no beijinho casto que Luciano dera sobre a área cortada depois de terminar tudo. E em como Afonso parecia um tomate maduro.

– Pronto. Pode terminar o arranjo do seu amigo? Eu preciso varrer isso aqui...

– Acho melhor terminares tu. – Afonso murmurou – Com a ligadura aqui no dedo vai ser complicado dar os nós nas fitas. – levantou-se e foi buscar uma vassoura – Eu trato do chão.

Luciano sorriu e acenou com a cabeça, voltando a arrumar o arranjo para Francis. Este, é claro, observava uma certa sinfonia entre os mais jovens, e sorriu também.

– Espero que o Arthur goste das flores. Hoje fazemos quatro meses de namoro.

– Arthur? – levantou o olhar do ramo para o encarar.
Francis riu um pouco e apoiou o rosto na outra mão:

– Sim, o meu namorado. A Princesa das Sobrancelhas. Ele costuma vir cá ás vezes buscar flores eu acho. É baixo e tem olhos verdes, talvez o conheças?

O brasileiro torceu levemente as sobrancelhas, porém prosseguiu simpático. Não prestava contar ao francês o que sabia sobre Arthur e Afonso.

– Ah, sim. Ele não gosta muito de mim.

Francis ficou sério por uns momentos e depois começou a rir.

– Na verdade, ele não gosta de ninguém. É preciso conhecê-lo um bocadinho melhor para ele ser simpático. Mas ele é um amor, no fundo.

– Quase no núcleo dele. – Luciano alfinetou, mas Francis voltou a rir – Bem, está pronto o seu arranjo. Desculpe por toda a confusão.

Francis balançou a cabeça e sorriu.

– Não foi nada, já disse. – ele realmente era legal, Luciano gostara dele – Poderia, por favor, alcançar-me um cartão?

– Claro... – Luciano sorriu também e, sem atrapalhar a faxina do português, seguiu até o armário e procurou um cartão simples, mesmo que imaginasse que o francês gostasse de coisas chamativas.

Enquanto Luciano se esticava para procurar mais um ou outro cartão no armário aéreo, Afonso percebeu que Francis olhava descaradamente para o traseiro do brasileiro.

Fez biquinho e muito discretamente deu um passo atrás para lhe tapar a vista.
Deu tudo por tudo para não ser ele a olhar agora. Não que não tivesse dado uma vista de olhos antes, e nem era culpa sua! Luciano andava muitas vezes de boxers e t-shirt durante a manhã. E aqueles boxers eram tão justos...
Só depois de Luciano passar de volta é que ele relaxou um pouco e começou a sentir-se idiota por causa dos cíumes.

– Esses estão bons? – questionou enquanto espalhava cinco tipos diferentes de cartão sobre o balcão.

Francis, que também fizera um biquinho quando Afonso lhe tapara a visão do monumento brasileiro, sorriu ao moreno e verificou os cartões. Como Luciano suspeitara, ele optou pelo mais chamativo.

– Vou ficar com esse. Pago para você ou para o Afonfon?

– Pro Fonfon. Eu só faço os arranjos.

Afonso aproximou-se de ambos e corou:

– Afonso. O meu nome é Afonso e por amor de Deus chamem-me apenas Afonso.
Francis sorriu de lado e pegou na sua carteira.

– Mas eu sempre te chamei Afonfon.
– Isso porque não conseguias dizer o meu nome quando eramos mais novos! Agora não tens desculpa.
O loiro riu e encarou Luciano:

– Tanto nervosismo faz-lhe mal, não faz?

– Quieto, comedor de rãs. – ele lhe mostrou a língua, e Francis riu mais uma vez.

D'accord, mon ami. – Luciano fazia caretas perante as palavras francesas – Obrigado pelo lindo arranjo, queridíssimo Luciano. – o loiro lhe piscou, e o brasileiro corou – Até mais, Afonfon. Mande lembranças ao Tony por mim~

E, tão chamativo como uma estrela, o francês deixou a floricultura.

O pequeno lusitano começou a reclamar que odiava que usassem nomes idiotas consigo.
Arrumou o balcão outra vez, já que se tinha cheio de folhas por causa das flores.
– Sempre chato.

Luciano riu e comentou:

– Gostei dele... Mas acho que ele estava flertando comigo...

O português começou a rir e atirou as folhas para o lixo.

– Talvez estivesse mesmo, ele faz isso quase naturalmente.
Ainda corado, Luciano pigarreou.
– Ele é legal... Vocês se dão bem, né?

Afonso acenou com a cabeça e sorriu um pouco:

– Sim...Somos amigos de longa data e-- Ele foi meu namorado quando ainda éramos pré-adolescentes.

O ciúme – e um pouco de inveja – pode ser ouvido no “ah” que Luciano exprimiu.
Não mentiria que desejava o português para si, porém desconversou quando Afonso perguntou:
– Luci? Estás... Com ciúmes?
– C-claro que não! Só me surpreendi... – respondeu enquanto piscava.

O português forçou um sorriso.

– Logo vi.
Claro que ele não tinha ciúmes, por que haveria? O brasileiro nem sequer gostava de si, não fazia sentido ter ciúmes...

– Eu também me surpreendi quando ele na altura disse que gostava de mim. – riu um pouco – Mas a coisa durou pouco.

O moreno piscou:
– E por quê? Vocês parecem combinar...

Afonso coçou a nuca.

– Bem... Tu viste como ele é, parece um Apollo ambulante e eu...não. – deu de ombros – Enfim. Vou terminar o que estava a fazer.

Luciano piscou outra vez e pegou Afonso pela mão, puxando-o para si. O europeu corou docemente quando percebeu o olhar castanho sobre si.
– Eu não sei o que é um Apollo... Mas... Chefinho, eu... – o brasileiro também corou – Você é bonito. Muito bonito. E eu não gosto quando você discorda disso e se põe para baixo...

O corado do português aumentou e ele desviou o olhar, sentindo-se mais envergonhado ainda:

– Não é por para baixo, é a realidade. Eu sou absolutamente normal e ainda tenho uma cicatriz estúpida no olho. – deu de ombro – Muito normal em comparação com vocês. O Francis é uma beleza ambulante, tu tens uns olhos, sorriso e uma voz linda, o Arthur tem aquela aparência misteriosa, o Hansen é alto, e nem vou entrar com o António porque já passei a vida a ouvir comparações.
O maior balançou a cabeça e segurou o português pelo queixo, forçando Afonso a lhe encarar mais uma vez. Para evitar que ele fugisse, aproximou seu rosto do dele, aumentando o embaraço entre ambos.
– Você tem olhos lindos, Afonso. – a maneira como Luciano dizia seu nome o derretia por dentro – Seu sorriso é raro e doce e sua voz parece música. Você é diferente... Não alto, não misterioso e nem a beleza ambulante, mas lindo igual.

O português suspirou e mordeu o lábio inferior para evitar morder o de Luciano, tão próximo...

– N-Não...Estás só a exagerar, parvinho.

Luciano também desejava morder o lábio de Afonso. Vê-lo mordiscar o inferior mexia com os sentimentos mais depravados de Luciano.
Aproximou ainda mais seu rosto.
– Estou? Não posso... Só...

O português fechou os seus olhos por um momento porque senão ia acabar por beijá-lo.

– Estás...

Luciano também fechou os olhos, pedindo a si mesmo que se controlasse e não beijasse Afonso.
Estava difícil.
– Não estou.

O português suspirou levemente e acarinhou-lhe os braços, pousando as suas mãos nos ombros do mais novo.
– Se eu digo que estás é porque estás. – sussurrou.

Luciano entendeu aquilo como uma negação por parte de Afonso, e assentiu com a cabeça.
– Desculpe. – ele disse e se afastou.

– Não desculpo~ – disse num tom brincalhão e abriu os olhos para o encarar.
Quem lhe dera poder continuar perto do brasileiro mas... Pelos vistos não era possível.

O brasileiro voltou para o balcão, perguntando a si mesmo como ele podia ser tão idiota a ponto de quase não resistir ao português e beijá-lo.
Quando foi se desculpar mais uma vez, o telefone tocou, e Luciano atendeu:
– Alô?
Afonso estranhou as feições do brasileiro quando ele murmurou “vô?”, e piscou.
Luciano baixou o rosto e abriu a boca outra vez, mas logo afastou o telefone do rosto.
– Vô? Vô, está me ouvindo? – nada – Merda! Caiu!

Afonso foi até ao balcão:

– Luci? Está tudo bem?

Luciano balançou a cabeça e colocou o telefone no gancho, encarando o aparelho branco na esperança de que seu avô voltasse a ligar. Devido ao nervosismo, agarrava com força a pedra de seu colar.

– Luci? – o português colocou a mão sobre o ombro de Luciano, que tremeu – Luci, que foi?

– Meu vô... E-ele ligou para cá, mas a ligação caiu...

O europeu piscou:

– Podes ligar para ele... Não tem galho...

Luciano balançou mais uma vez a cabeça.

– E-eu não tenho o telefone dele...

– Como assim? – ele perguntou, confuso – Não ficou registado no atendedor? – pegou no telefone e foi verificar, dando um estalido com a língua – Ele devia estar a ligar de um telefone público... – encarou Luciano – Não tens o número de mais ninguém da família?

Quando a palavra “família” chegou a seus ouvidos, Luciano baixou o rosto, a tristeza estampada em sua expressão sempre tão alegre.

– Não.

Afonso piscou, não entendendo como Luciano, que parecia se dar bem com todos, podia não ter o número de telefone de um parente que fosse.

– Como assim, Luci? Como é possível não teres--

– Eu não quero falar sobre isso, chefinho. – ele pediu enquanto deixava de segurar a pedra, voltando a implorar quando Afonso abriu a boca mais uma vez – Por favor, não.

O português, mordendo o lábio, assentiu e suspirou, olhando para o relógio de parede atrás de si.

– Já está quase na hora de fechar... podemos ir para casa. – Luciano nada disse – Vamos, eu te faço um lanche reforçado.

Os dois arrumaram a pequena bagunça e fecharam a floricultura, partindo para a casa de Afonso. O europeu perguntava-se mil coisas, mas era Luciano quem possuía os pensamentos conturbados desta vez.