O Som Do Coração
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Capítulo XVI:
– Eu quero ver!
– Eu também!
– Vá lá, Lovi! Mostra-nos essa foto. – Elizabeta bufou impaciente enquanto que a belga fazia olhinhos de cachorro para conseguir o que queria.
A italiana sentou-se entre as duas e abriu o computador, mostrando-lhes a foto que tirara ao português e Luciano na noite anterior:
– Aqui está~
As reações das amigas de Lovina não foram muito diferentes uma da outra: Elizabeta riu e bateu palmas, enquanto Bella deu um gritinho agudo ao mesmo tempo em que enrubescia.
– Que fofos! – a loira dizia.
– E vejam como o Luci está corado! – Elizabeta apontava.
– E a calmaria do meu cunhado? – a italiana sorriu maliciosa – Nem aqui ele dorme tão confortavelmente.
Elizabeta sorriu de lado e cruzou os braços.
– Acho que temos aqui um caso interessante.
– Bastante. – Lovina concordou, dando um pequeno suspiro depois – Mas precisa ainda de muito trabalhinho.
– Uma mãozinha deve bastar. O Luci já me confessou que gostava dele.
As morenas encararam Bella, piscando os olhos.
– O que?!
– É verdade... Faz um mês ou dois... antes do Natal, tenho certeza.
Elizabeta e Lovina piscaram outra vez, em seguida se encarando e sorrindo.
– Então será mais fácil do que pensamos.
– Sim, sim! – a húngara sentou-se na cama da italiana – Mas e o Afonso?
– Que tem ele? – Bella passou a mão direita pela barriga.
– Ainda está com o Arthur?
A italiana abanou negativamente com a cabeça:
– Que eu saiba não. Eu vi-o no outro dia com aquele loiro bonitinho...
– O Francis?
– Esse mesmo!
Elizabeta suspirou e encarou as amigas.
– Então o Luciano ainda tem uma hipótese, certo?
Lovina deu de ombros.
– Não sei... Sabes como o Afonso é teimoso.
– E orgulhoso. – a belga disse.
As três suspiraram, ficando em silêncio por um tempo. Bella, então, resolveu mudar de assunto:
– Meninas? – suas amigas lhe encararam na hora – A-ahn... – corou – A-aconteceu...
– Aconteceu? O que? – a italiana fechou a foto e desligou o computador, espreguiçando-se.
Bella sorriu timidamente e encolheu os olhos, as maçãs coradas.
– Eu declarei-me ao irmão-- Hans... E aconteceu.
Lovina e Elizabeta encaram-se perplexas e depois ambas abraçaram-na.
– Quando é que isso aconteceu? Como?
– O que lhe disseste? O que é que ele disse?
Fizeram mais umas quinhentas perguntas, todas ao mesmo tempo e foram-se tornando cada vez mais minuciosas ao ponto da belga ficar rubra e pigarrear:
– Meninas... Calma.
As morenas, com dificuldade, calaram-se, fixando os olhos verdes na figura encolhida entre si.
Bella, então, suspirou e entrelaçou os dedos das mãos, colocando-as sobre o colo. Explicou-lhes tudo desde o começo – a briga entre Martin e Luciano, e a aparição de uma amiga do brasileiro que ninguém conhecia. Comentou o medo que sentira quando se viu “encurralada” – sem saber que seu irmão morria de ciúmes e de medo de perdê-la – e a ideia idiota e impensada que tivera de fazer as malas e fugir para a casa de uma das morenas. Como ambas eram ocupadas e viviam com seus respectivos casais, a belga não disse ao certo para qual amiga ia pedir socorro antes – a italiana tinha duas filhas e a namorada da húngara lhe dava medo. Claro que suas amigas lhe sorriram e garantiram que estaria sempre ao seu lado.
E estavam sendo verdadeiras.
A loira sorriu também, logo contando que encontrara o holandês sentado em frente a sua porta, de guarda. Simplificou a briga deles e sentiu-se encabular quando repetiu “amo-te” várias vezes, percebendo o sorriso faceiro e malicioso das amigas. Quando chegou a parte interessante, parou.
– E então nos beijamos e aconteceu. Já sabem. Fim. – sorriu timidamente.
Lovina deu uma gargalhada e abanou com o dedo:
– Nãh, nãh. Ainda agora começou.
– Exacto. – Elizabeta concordou – Queremos pormenores.
– M-M-Mas--
– Todos os pormenores! – as morenas disseram uníssono e continuaram a encarar a belga, que corava cada vez mais.
Bella mordeu o lábio inferior e respirou fundo, começando a detalhar cada momento daquela noite – a voz sempre baixa, obrigando as outras a ficarem ainda mais próximas de si, a abraçando.
Disse como o beijo de Hansen era diferente, calmo e excitante; como os toques dele a deixavam sem chão; da voz que se tornava ainda mais rouca ao lhe sussurrar ao ouvido, mesmo que fossem poucas coisas; da maneira como ele a amou e a levou ao limite... tudo real, tudo ainda mais apaixonado.
– Eu nunca estive tão feliz na minha vida. – a loira sorriu, e suas amigas a acompanharam – O Hans me ama e eu posso beijá-lo sem ser rejeitada, mas...
– Mas? – questionaram em uníssono, desviando o olhar da belga de cabeça baixa uma para a outra.
– M-mesmo sem termos o mesmo sangue... somos irmãos. Não nos podemos casar, e ninguém aceitaria nosso relacionamento... – outra mordida no canto da boca – Eu o amo, ele me ama... Mas continuaremos a nos esconder, não um do outro, mas da sociedade. Tenho medo de que acabem por descobrir e tenhamos de nos mudar para longe.
Elizabeta suspirou profundamente e deu um aperto no abraço:
– Vocês não são irmãos de sangue nem sequer são da mesma familia, isso é que importa. A “sociedade” não tem nada que se meter na vida alheia e tu não vais deixar de ser feliz só porque as outras metem-se na tua vida, pois não?"
A loira abanou negativamente com a cabeça e encolheu-se un pouco.
– A Liz tem razão, não podes deixar que isso te afecte.
A belga sorriu e limpou os olhos úmidos.
– Eu amo vocês, suas cuscas~
As morenas apertaram o abraço, fazendo Bella dar um guincho por ter sido demasiado forte.
– Tu também és cusca~
As três riram e se puxaram para trás, deitando-se na cama da italiana enquanto encaravam o teto.
Bella sentiu naquela amizade de anos uma proteção acolhedora, e isso a fez sorrir.
~※~
Quando Luciano acordou na manhã seguinte ficou atrapalhado por perceber que tinha ficado junto de Afonso a noite toda. Tentou afastar-se antes que o menor acordasse e se formasse uma situação embaraçosa. Porém, estava preso: o português tinha-se enroscado nele e o usado como almofada.
Respirou fundo e engoliu em seco:
– Chefinho...? – tirou-lhe o cabelo, que se soltara durante a noite, da frente do seu rosto – Acorde...
O mais velho abriu um olho.
– Já é dia?
– ...É.
Afonso resmungou baixinho mas depois sorriu abertamente e tornou a esconder o rosto no peito de Luciano.
– Bom dia~
Estava quentinho e tinha dormido tão bem... O cheiro a canela do brasileiro era agradável-- Espera, brasileiro?
Apoiou-se no peito dele e levantou a cabeça muito rápido, o seu cabelo agora parecendo uma juba de leão.
– Onde-- Como é que eu vim aqui ter? Quando? – encarou Luciano – Por que é que estamos aqui?
Luciano enrubesceu um pouco e coçou a nuca.
– B-bem... Você dormiu na casa do seu irmão e eu tive que dirigir e... – o calor do corpo de Afonso sobre o seu não o ajudava a pensar e nem a controlar seu coração – Quando... quando eu te deitei na cama, v-você não me soltou... E-eu juro que ia dormir no sofá, eu s-só estava esperando uma o-oportunidade!
O português corou imenso e voltou a deitar-se, ocultando o rosto junto ao pescoço do mais novo.
– P-Podiam ter-me acordado! Não queria dar trabalho! E as fotografias de família? – ganiu baixinho – D-Desculpa...
Um tanto atrapalhado – imaginava que Afonso fosse lhe xingar ou algo assim –, Luciano desviou o olhar para a parede.
– Você parecia estar tão cansado e dormindo tão bem... Não quisemos te acordar. – sem perceber, acarinhou os cabelos do europeu, penteando os fios – A Lovina disse para marcarmos outro dia, as meninas também dormiram...
O português ronronou baixinho por causa do carinho e apertou o abraço.
– M-mas assim não tinhas de me carregar...
Luciano sorriu para o nada, e envolveu o corpo do mais velho num abraço.
– Calma. Você é leve, chefinho. – riu – Mas mais forte do que eu imaginei.
O português suspirou em contamento. Amava aquele abraço e por si ficava ali mais tempo.
– Já disse que não sou “chefinho” – resmungou num modo amuado – Tenho peso normal, deixa de ser parvo.
Luciano riu um pouco:
– Se não posso chamar você de “chefinho”, quer que chame como?
– De Afonso.
– Mas assim não tem graça! Você me chama de “Luci”!
– Mas isso é porque “Luciano” é um nome comprido! – continuou a resmungar como um idoso de oitenta anos – Afonso é um nome pequeno.
– Isso não é desculpa! – fez bico – Quero poder chamar você de uma forma especial, porque você é especial!
Afonso levantou um pouco o rosto para o encarar e ficou rubro. Especial?
Pestanejou em pura confusão.
Luciano piscou também, logo percebendo o que havia dito e corando.
– Você pode brigar comigo, mas vou sempre te chamar de “chefinho”.
– E se eu deixar de ser teu chefe? – fez beicinho.
Ele piscou, se afastando de Afonso.
– Perdi o emprego?
O português pestanejou e depois começou a rir à gargalhada:
– Perdeste~ Eu avisei que se me chamasses “chefinho” te despedia.
O brasileiro coçou a nuca e acenou com a cabeça, jogando as cobertas para o lado e se levantando.
– Bem... Obrigado por tudo então, Fonfon...
Ao ver que ele tinha pensado que era a sério, Afonso arrastou-se pela cama e abraçou-lhe a cintura, – Eu estava a brincar, parvo!
Luciano piscou e voltou a se sentar, puxando o menor para perto.
– Você é um chato, Fonfonzinho~
– Sou nada. – fez beiço e corou – “Fonfonzinho”? Isso é ainda maior que “Afonso” e parece nome de animal de estimação.
– Mas será possível que você só reclama? – riu e se afastou outra vez – Assim fica difícil conquistar você. — brincou e piscou-lhe o olho.
Afonso foi ficando cada vez mais vermelho novamente e desta vez deixou-o afastar-se pois parecia-lhe claro que Luciano não queria ficar perto de si, e tapou-se com os cobertores até à cabeça.
– Eu não reclamo!
Luciano gargalhou e retirou as cobertas de cima do europeu, implicando com ele.
– Naah~ Só parece um senhor de noventa anos com dor nas costas.
O mais velho encheu as bochechas de ar como um esquilo ou talvez como uma criança amuada e tentou cobrir-se novamente.
– Não sou assim tão velho! E-e-e eu ando direito.
O mais jovem continuava rindo, impedindo Afonso de se cobrir.
– Você tem cara de guri novo, já disse. Mas reclama como um velho~.
Por birrice, o português puxava as cobertas para si.
– Eu não reclamo assim tanto!
Luciano riu e subiu na cama, tentando fazer cócegas no mais velho, mas mal ele gargalhou, parou.
– Você devia sorrir mais... Seu sorriso é tão bonito.
Para evitar mostrar a sua cara que corou novamente, usou a almofada para se tapar.
– N-não...
Luciano sorriu, desistindo daquilo.
– Venha, vou preparar o melhor sanduíche grelhado que você já comeu. – estendeu-lhe a mão.
Espreitou para ter a certeza que ele não ia fazer mais cócegas ou comentários embaraçosos e segurou-lhe a mão para ele o puxar.
Mesmo após levantar o português, Luciano manteve sua mão junta da de Afonso, e os dois se encaminharam para a cozinha.
– Tem alguma frigideira que eu possa usar?
Acenou com a cabeça e arrastou Luciano consigo para a outra ponta da cozinha só para não lhe largar a mão.
– Está no armário de cima.
O moreno continuou sorrindo e de mão dada com Afonso, se esticando ao máximo para pegar a frigideira sem precisar cessar o contato.
– Obrigado.
Embora não quisesse, soltou a mão do português e seguiu até a mesa, começando a preparar os sanduíches. Foi generoso no recheio e pôs bastante margarina do lado de fora, logo colocando os pães na frigideira quente e usando uma colher para amassar as fatias, deixando que o queijo derretesse bem e o pão ficasse dourado.
Enquanto isso, Afonso aproveitou para ir à casa de banho escovar os dentes e prender o cabelo, que mais parecia um ninho.
Quando voltou já toda a sala e cozinha cheiravam a queijo derretido.
– Dá água na boca...
Como sempre, Luciano sorriu para si, colocando o último sanduíche num prato.
– Come esses aqui, estão mais quentinhos.
– Obrigado~ – pegou num dos pães, com cuidado para não se queimar e provou – Tudo o que tu fazes fica sempre tão bom...
Um rubor adorável e um sorriso contagiante adornaram o rosto moreno de Luciano, que passou a mão direita por seus cachos enquanto desviava, acanhado, o olhar para a parede atrás de Afonso.
– Não exagere. É só um pão.
Afonso sorriu por o ver corado. Era adorável.
– Mas é um pão feito por ti~
O brasileiro esfregou de novo a mão pelos cabelos, mantendo seu sorriso acanhado e faceiro.
– Minha mãe dizia que tudo que a gente faz por gosto é bom. – ele encarou Afonso – E eu gosto de fazer as coisas para você... Afinal, é meu melhor amigo.
O português pestanejou surpreso por aquela afirmação – corou um pouco até, ainda que bem subtilmente – e sorriu acanhado:
– O-obrigado... Então sou um priveligiado pelo meu melhor amigo fazer a melhor comida do mundo?
O brasileiro piscou por um instante, logo dirigindo um largo e puro sorriso a Afonso.
Era bom saber que se tinha amigos, ainda mais depois de abandonar o país em que se vivia por amor. Um amor que já estava esgotado.
Quando Luciano conheceu Afonso, quis de imediato ser amigo do europeu apenas por este ter sido gentil consigo. Pode parecer que o moreno era uma pessoa que buscava nos outros uma pequena prova de que estes lhe seriam úteis no futuro, mas falamos de Luciano e não de Martin. A maior gentileza que o português lhe oferecera não foi um delicioso chocolate quente e sim uma conversa trivial numa tarde fria de chuva. O brasileiro não conseguia se recordar se havia conhecido o sorriso de Afonso naquela noite, mas logo que o teve passou a desejá-lo pura e apaixonadamente.
Ter alguém que se gosta muito por perto é bom, mas saber que aquele que amamos deseja de nós uma singela amizade que seja é ainda melhor.
– Acho que essa honra é minha. – ele riu e mordeu seu sanduíche, um rastro de queijo derretido e quente se formando entre seus lábios escuros e o pão que era afastado – Você cozinha muito melhor que eu.
O português retribuiu o sorriso e sentou-se no balcão enquanto comia o resto da sande. Luciano tinha qualquer coisa de magnético e até de misterioso. Por vezes tinha atitudes infantis mas Afonso sabia que ele era maturo, outras, parecia ter uma inocência que por algum motivo não lhe encaixava bem...
E depois havia as semelhanças entre ambos. À primeira vista, não havia nada de comum entre eles. Luciano era extrovertido enquanto que Afonso era bem introvertido e isso já por si podia ser um factor gritante e dificultante na relação deles. Mas tudo o resto compensava isso. Os temas de conversa, os gostos semelhantes, e até sem saberem, o passado difícil... Tudo isso os aproximava mais.
– Depende. Talvez cozinhe bacalhau melhor que tu mas sou fã dos teus doces.
– Você definitivamente cozinha bacalhau melhor que eu. – uma outra risada. Como Luciano conseguia rir tanto, e aparentemente sem motivos? – Eu só fiz dois peixes a minha vida inteira, e eu pesquei e assei com meu avô.
O brasileiro ergueu o indicador esquerdo, o quarto restante de seu sanduíche entre os dentes, e seguiu até a cafeteira, servindo duas xícaras generosas. Entregou uma ao português e bebericou a outra.
– Espero que goste de café adoçado com mel.
O português provou um pouco e ficou pensativo por uns momentos.
– Acho que fiquei a gostar, nunca tinha provado. – deu mais um gole e depois encarou Luciano, sorrindo um pouco antes de implicar: – Tens um fraquinho por coisas doces não tens?
Os lábios de Luciano torceram-se num biquinho infantil, e o brasileiro sorveu mais um pouco de seu café.
– Você é a última pessoa que pode chamar a minha atenção sobre isso, chefinho.
Voltou a repetir o mesmo de sempre:
– Eu não sou chefinho. – suspirou – Por quê? É verdade~
– Sim, mas você gosta tanto quanto eu.
Luciano desviou o rosto para que Afonso não notasse suas bochechas rosadas. Infelizmente, não obteve muito sucesso e Afonso riu outra vez, chamando a atenção do brasileiro para si.
Piscando seus olhos castanhos – lembravam chocolate derretido, se é que fazia sentido –, o moreno encarou mais uma vez o europeu.
– Que foi? Tenho alguma coisa na cara?
– Tens. – saltou para o chão e caminhou até ele, esticando o braço para lhe apertar levemente a bochecha – Tens a cara vermelha~
A expressão de confusão que se estampou no rosto de Luciano fez Afonso rir mais uma vez, e em seguida o mais jovem sorriu serenamente.
– Ué. Por que estás a sorrir?
O sorriso de Luciano continuava.
– Porque hoje você riu e sorriu mais do que em qualquer dia que nos vimos.
Foi a vez de Afonso corar até ás orelhas e fazer uma expressão atrapalhada.
– I-Isso não é verdade.
A mão de Afonso continuava sobre a bochecha robusta e quente de Luciano, e os dois mantinham o olhar fixo.
“Você sabe que é” era o que o jovem brasileiro ia dizer ao entreabrir a boca. Entretanto, convivera com o português tempo o suficiente para saber que aquilo apenas faria a carranca costumeira voltar.
– Nós... – o polegar de Afonso deslizou pela pele morena – temos que trabalhar, né? – um sorriso – Hoje está um dia lindo de sol.
O brasileiro fechou os olhos por um momento, como um gato a aproveitar o carinho. Claro que preferia ficar o dia todo com Afonso como no dia anterior... Juntinhos no sofá a ver um filme... Ou a fazer guerra de comida e quase ficar demasiado juntinhos.
As bochechas coraram mais só de se lembrar como era ter o corpo do português por baixo de si...
– P-Pois temos...
Afonso mordeu o lábio inferior, seus olhos verdes descendo das pálpebras cerradas aos lábios torcidos num singelo sorriso. A tentação fê-lo aproximar um centímetro o rosto, porém estagnou.
– Pois temos. – ele repetiu e soltou o rosto do mais jovem, que abriu os olhos escuros e lhe sorriu.
– Só vou trocar de roupa.
O mais velho acenou com a cabeça e deu um passo atrás.
– Eu também...
Caminhou apressadamente até ao quarto e quando lá chegou despiu a sua camisola de pijama e atirou-a para cima da cama, abrindo os armários para procurar algo para vestir.
Luciano seguiu até sua mala e a vasculhou por entre as roupas uma camisa em especial. Não que o sul-americano ligasse muito para o que vestia, mas como não teria tempo para um banho antes de ir para o bar naquela noite, ao menos queria usar alguma roupa mais decente.
Entretanto, não adiantou revirar a mala três vezes, a veste simplesmente não estava lá. Soltando um suspiro, rumou para o quarto de Afonso e chegou fazendo barulho, visando não assustá-lo.
– Chefinho, você viu minha--
Luciano estagnou na porta, os olhos sendo piscados várias vezes. Mal proferira a palavra “você”, Afonso havia se virado em sua direção, sua camisa sendo abraçada em frente ao peito, porém o moreno conseguira ver alguma coisa.
– C-chefinho...?
O português empalideceu um pouco, sem ter bem a certeza se o moreno tinha visto aquilo que ele mais odiava no seu corpo: as cicatrizes.
Afonso tinha várias cicatrizes no peito e nas costas, eram apenas riscos finos e irregulares, provenientes de um acidente quando era mais novo, mas o português odiava-as.
Na verdade, Afonso era quase complexado com elas e com o seu corpo em geral. Sempre evitava piscinas e praias cheias porque tinha imensa vergonha e baixa autoestima. Achava-se demasiado magro, baixo e aquelas marcas horríveis ainda pioravam tudo dando-lhe ainda mais vontade de ter o seu corpo tapado.
Engoliu em seco e rezou internamente para que elas não tivessem sido vistas.
– N-Não sou chefinho. – murmurou – Se-- v-vi o quê?
Todos possuem uma vozinha que nos avisa quando certas coisas devem ou não ser ditas ou questionadas, porém, infelizmente, Luciano parecia não saber de sua existência ou, se sabia, a ignorava:
– Chefinho...? P-por que... V-você se... machucou?
O português encolheu-se um pouco, quase se encostando na porta, ainda aberta do guarda-vestido.
– N-Não foi nada.
Tentava esconder-se, pelo menos o seu peito e esqueceu-se que tinha um espelho atrás de si, que exponha as suas costas na totalidade.
O brasileiro não soube o que fazer ou dizer. Seus olhos desviaram do reflexo no espelho para os olhos de Afonso e, por fim, a ponta de seus pés.
As cicatrizes nas costas do mais velho mais pareciam arranhões feitos por filhotes de gato que estavam afiando as unhas – Luciano tivera várias para saber como eram –, mas o brasileiro sabia que não haviam sido filhotes fofinhos que causaram aquelas linhas enquanto brincavam com Afonso. Não pela expressão que o europeu demonstrou ao expô-las.
– Eu...
Pensou em fingir que não havia visto nada, porém já perguntara se Afonso tinha se machucado. Mentir não era mais uma opção.
– Me desculpe. – concluiria a frase com “por não bater”, porém queria mesmo dizer “por me intrometer”. No fim, apenas repetiu: – Me desculpe. – e deixou o quarto.
Afonso ainda abriu a boca para lhe dizer qualquer coisa mas Luciano já tinha saído.
Olhou para baixo e encarou o próprio peito, sentindo o seu coração a apertar um pouco, aumentando o ódio que sentia por aquelas... coisas.
Suspirou profundamente e foi terminar-se de vestir.
Demorou mais que o necessário para deixar seu quarto, e só o fez quando conseguiu engolir a vergonha que estava sentindo e inspirar profundamente.
Abriu a porta e seguiu a passos lentos até a sala, seus olhos procurando nervosa e hesitantemente pelo mais jovem. Encontrou-o sentado no sofá a calçar seus tênis – os que ganhara de Afonso no Natal.
– L-Luci...?
Luciano ergueu o rosto, ainda mantendo o corpo encurvado e as mãos nos cadarços negros. O brasileiro sorriu de canto e piscou o olho para Afonso antes de se levantar.
Acreditava que o melhor a se fazer era fingir que nada havia acontecido.
– Eu achei minha camisa. – levou as mãos na barra da vestimenta e puxou-a para baixo, mostrando a estampa de uma arara-azul sobre o tecido cinza escuro – Acho que eu vim com ela para cá, porque ela estava no varal.
Afonso relaxou um pouco, aliviado por pelo menos não ter assustado o moreno.
– Essa camisola estava em cima do sofá no outro dia, eu pus para lavar e-- Esqueci-me de perguntar que tipo de amaciador de roupa usavas então ficou com um cheiro forte, acho. Sei que algumas pessoas não gostam mas foi mesmo por esquecimento, desculpa. – ajeitou o seu rabo de cavalo e aguardou que ele ficasse pronto para irem.
– Cheiro forte? – ele piscou e puxou o tecido para cima, cheirando-o... e deixando a barriga a mostra – Nah, é bom. – Afonso pode ver que o brasileiro sorria outra vez, porque seus olhos se espreitaram – Você não precisa me perguntar nada, sinta-se a vontade para fazer qualquer coisa. – piscou o olho – Sinta-se em casa.
O português riu um pouco e colocou as mãos na cintura.
– Não se preocupe, senhor. Eu vou fingir que estou mesmo em casa.
Era daquilo que eles precisavam: continuar a agir naturalmente.
– Obrigado, senhor Afonso Moreira. – inflou as bochechas ao fingir ser um homem robusto e rico e começou a gargalhar, não conseguindo manter o ar nos pulmões por muito tempo.
Afonso levantou uma sobrancelha e riu um pouco.
– Isso foi uma fraca imitação de esquilo ou--?
O moreno inflou novamente as bochechas e cruzou os braços. Eles não pareciam se importar de que estavam atrasados para abrir a floricultura.
– Eu estava imitando um chefe gordo e chato.
O lusitano aproximou-se dele e cutucou-lhe levemente as bochechas.
– Espero que isso não seja uma indirecta.
Ele piscou e sorriu:
– Nah~ Você é legal e nada gordo. O que me surpreende, porque em dois dias morando com você eu vi a quantidade de doces que você come...
O mais velho corou um pouco.
– Eu não costumo comer tantos doces assim! – na verdade, até costumava pois Afonso era maluco por coisas doces – E-E a culpa de ter comida foi tua por os teus doces serem bons.
– Pois então você vai ganhar uns quilos. – ele sorriu, o que deixava o mais velho desconcertado – Eu não vou parar de fazer doces para você.
Afonso corou mais ainda, franzindo o cenho enquanto se fingia de irritado e passava a empurrar Luciano até a porta para, finalmente, irem trabalhar.
– E quem disse que tens essa liberdade? – Luciano não conseguiu ver, mas Afonso estava sorrindo, faceiro com a ideia de ganhar mais doces. E de que o brasileiro ia ficar consigo por muito tempo.
~※~
As semanas seguintes passaram normalmente.
Luciano e Afonso não voltaram a se beijar, embora não lhes faltassem oportunidade: uma dança inesperada no meio da sala; uma guerra de travesseiros num domingo à noite; um brasileiro desavisado que escorregou no chão recém-encerado da floricultura e levou seu chefe junto; um encontrão na estufa; uma passada de noite juntos em frente a lareira... Havia desejo de ambos os lados, assim como o medo da repulsa e a certeza de que o outro estava apaixonado por um terceiro.
Os dias começavam a ficar mais agradáveis para o padrão do brasileiro, e Luciano já não reclamava tanto da sala fria de Afonso. Toda manhã ele despertava, tomava seu café da manhã com Afonso e voltava para o sofá, onde ficava até a hora do almoço. Faziam a segunda refeição também juntos – o moreno geralmente levava o almoço para a floricultura em potes e viandas – e Luciano iniciava seu turno. De quarta a sábado o mais jovem trabalhava no bar, o que forçou ambos a mudarem a noite do cinema caseiro – que geralmente se transformava na noite de comer doces enquanto se fala bobagens – para terça-feira.
Estavam ainda mais próximos e a amizade se fortalecia, e cada um notou peculiaridades no outro: enquanto Afonso costumava dormir tarde e acordar cedo, Luciano era o primeiro a adormecer, e só despertava se o chamassem; se sofresse de insônia, o que era incomum, o brasileiro seguia para a janela e tocava violão até o sono vir, e o europeu lia; quando com sono Luciano ficava ainda mais manhoso e não foram poucas vezes que ele abraçou Afonso, pedindo mais tempo para dormir ou um simples mimo nos cabelos. Claro que aquela era a novidade que mais agradou Afonso.
Enquanto isso, Bella e Hansen também mudavam sua privacidade: os irmãos de criação mantinham seu namoro – não oficial – em segredo de todos os pensionistas, porém passavam a noite juntos. Se recolhiam em horários diferentes, como sempre, mas assim que percebiam a pensão silenciosa, um fugia para o quarto do outro. Como o de Hansen era o mais isolado, geralmente era Bella quem mudava de aposento.
Apesar dos barulhos de sua primeira noite de amor, os irmãos tiveram certeza de que ninguém os ouvira. Luciano era ainda mais barulhento e também não sei ouviam seus gemidos quando ele morava ali.
As noites dos irmãos continuavam quentes, porém Bella havia aprendido a controlar seus sons. Mordia fronhas, seu lábio ou até mesmo o ombro do holandês para abafar suas expressões de prazer. Hansen, por outro lado, começava a ser mais sincero vocalmente, para total agrado da mais jovem.
– Hansi? – a belga ergueu os olhos, acarinhando o peito nu do holandês – Hansi, estás a dormir?
O holandês abriu um olho para a encarar, ignorando que ela ria baixinho por o seu peito se arrepiar com o singelo toque.
– “Hansi”? A sério?
Bella corou um pouco e fez beicinho.
– Que tem? Eu quero arranjar um diminutivo fofo e especial que só eu use.
O mais velho suspirou e rolou um pouco para o lado, sendo assim mais fácil abraçar Bella numa espécie de conchinha.
– Sabes que não tens de me dar diminutivo nenhum, certo? Chamares-me pelo nome não deixa de ser especial na mesma. – sorriu um pouco por causa da inocência dela e começou a acarinhar-lhe os cabelos loiros e macios.
– E se eu quiser?
– Eu não deixo. – disse na brincadeira e segurou-lhe os pulsos com uma mão, usando a outra para lhe fazer cócegas na barriga – E como sou eu que mando, eu é que sei.
A belga contorceu-se por culpa das cócegas, rindo baixinho para não acordar ninguém.
– M-mas eu-- – outra risada – q-quero!
Tentando se livrar de Hansen, Bella envolveu a cintura dele com as pernas, algo que sempre fazia efeito. Hansen era doido pelas pernas da irmã, e parou no mesmo instante.
– Estás a provocar-me, Bella?
Ela pestanejou e sorriu de lado.
– Eu? Eu sou inocente.
O mais velho levantou uma sobrancelha e pousou uma mão sobre a coxa dela, acarinhando levemente com o polegar.
– Muito inocente, diga-se de passagem.
A loira manteve seu sorriso sedutor, e Hansen passou seus olhos pelo corpo dela. A nova posição fazia o lençol, que antes cobria a nudez da mais jovem, deslizasse pela pele clara e macia, e o seio esquerdo dela estava a mostra.
Se aquilo já enlouquecia o holandês, Bella apertar suas pernas foi o limite.
Hansen girou o corpo para a esquerda e se entrepôs as pernas da irmã, logo atacando a jugular pulsante.
– Ah, Hans... — ela gemeu, seus braços ainda presos – Hans, tenho de... Hn... Falar contigo...
O holandês mordeu-lhe e um se esfregou no outro, desejosos.
Hansen não pareceu lhe escutar, ou então não desejava, então Bella prosseguiu:
– Hansi, eu vou almoçar com o Luci amanhã.
O “Hansi” fez-lo parar. Aquela mania da loira de atruir diminuitivos a tudo e todos tinha de parar. No entanto, nem era tanto isso que o preocupava naquele momento:
– Com o Luciano? Por que? – levantou um pouco o rosto para a encarar.
A belga fez biquinho, suspirando de leve.
– Porque ele convidou-me... Sinto saudades dele...
O mais velho resmungou qualquer coisa mais para si do que para ela e não conseguiu evitar deixar de sentir um pouco de ciúmes.
– Mas voltas rápido?
Ela piscou e riu um pouco.
– Hansen, estás com ciúmes?
O holandês resmungou outra vez, se afastando da irmã e sentando-se na beirada da cama. Hansen acendeu um cigarro e tragou, de costas para Bella.
– Não. – foi a resposta curta e grossa, e Bella suspirou.
Engatinhou sobre a cama e abraçou o irmão pelo pescoço, por trás, e lhe mordeu a orelha esquerda.
– Hans, só vamos ao shopping almoçar...
Fez uma nuvem de fumo e ficou em silêncio. Ele já era ciumento antes mas agora podia comentar o facto de não gostar de ver Bella com outros rapazes.
Suspirou passado algum tempo e usou a mão livre para lhe acarinhar o braço. Sabia que estava a ser idiota.
– Desculpa...
Bella sorriu e deslizou sua boca até a nuca do holandês, mordendo e beijando.
– Não devias ter ciúmes do Luci. – Hansen suspirou ao ter o peito arranhado – Foi ele quem disse para declarar-me para ti... – encostou seu peito nas costas do irmão – Eu amo-te, irmãozão. E só a ti.
Ele voltou a suspirar, era simplesmente impossível resistir-lhe.
– Eu não consigo evitar... Mas confio em ti. – disse sinceramente e rodou um pouco, puxando-a com o braço livre para o seu colo.
Bella sorriu e sentou-se no colo de Hansen. Retirou o cigarro de sua boca e tentou tragá-lo, se engasgando com a fumaça e tossindo um pouco.
– Tens um péssimo hábito, irmãozão. — surtiu outra vez e o beijou.
Apesar de querer resmungar com ela – porque o facto dele fumar não implicava que ela pudesse ou melhor, que devesse –, o beijo silenciou-o com sucesso e ele retribuiu, abraçando-a pelo tronco.
O beijo intensificou-se, e logo a belga desceu no colo de Hansen, o cigarro do irmão entre seu indicador e dedo médio direito. Ao penetrá-la novamente, o holandês gemeu mais uma vez e girou o tronco, deitando Bella na cama.
Pela próxima hora, se amariam loucamente.
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