O Sol e a Lua - Um conto em três dias
1 A Noite e a Lua
Noite de festival, era sempre assim em todos os anos, nós nos sentamos em volta da fogueira e ouvíamos a vovó contar antigas lendas de heróis e monstros que há muito desapareceram do mundo, ou de deuses e reis da antiguidade, nessa época do ano ela nos contava da antiga lenda da rivalidade do Sol e da Lua, a antiga briga que durava milênios e que de tempos em tempos recomeçava no céu, o que os homens de terras mais distantes chamam de Eclipse, para nós é a batalha entre o Sol e a Lua, o bom e o mau, a vida e a morte.
Vovó estava sentada de costas para a fogueira, segurava um graveto na mão e rolava um pedaço de carvão da fogueira de um lado para o outro, para que esfriasse, ela sempre se concentrava bastante no início das histórias e nós não movíamos um músculo sequer esperando que começasse.
Ela pôs algo em seu copo fumegante, tomou tudo de uma golada só e encarou a Lua no céu por alguns minutos, com um olhar raivoso no rosto, como sempre fazia, ficamos apreensivos esperando que ela terminasse aquilo para começar em definitivo, mas daquela vez algo estava diferente, vovó chorou e sorriu para a lua e derramou o conteúdo de seu copo na fogueira para que apagasse. Todas as outras luzes foram apagadas e ficamos no mais puro breu, pouco depois a Lua pareceu pulsar e iluminou onde estávamos com uma luz prateada e pálida tão bonita e assustadora que eu mesmo quase me assustei, mas todos permanecemos calmos, vovó ia começar.
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A Lua pulsou mais algumas vezes ritmicamente, como um coração, e quanto mais o tempo passava mais rápido parecia pulsar fazendo a luz ficar quase constante e todos nós ficarmos apreensivos e assustados.
Após limpar as lágrimas vovó se virou pra nós e falou.
"Eu contei a mesma história pra vocês desde que cada um de vocês nasceu. Há anos é a mesma história, a Lua é a criatura nefasta que nos traz a morte e caos e o sol sempre chega para nos proteger e aquecer, eu sei muito bem que vocês se lembram dessas histórias, de cada uma das lutas entre o Sol e a Lua e como isso nos afetou..."
Ela fez uma pausa nos encarando, pigarreou um pouco e voltou a contar olhando pra Lua.
"Antes mesmo de existir o conceito de Sol e Lua eles já estavam no céu, e a verdade é que eles nem se conheciam, não perseguiam um ao outro e não lutavam uma vez a cada vários anos, na verdade isso foi o que se acreditou com o tempo. A Lua e o Sol não se conheciam, eles sempre foram completos estranhos um para o outro até a chegada dos deuses na Terra.
"A Lua com bondade cedeu seu território para os deuses das trevas e da noite, para as criaturas do submundo e as que se escondem nas sombras. Não por que acreditava que elas fossem boas, ela sabia que não eram, mas cedeu seu reino para que cada criatura tivesse a chance de viver e sobreviver, independente de bondade ou maldade, e para que essas criaturas se protegessem da imponência do Sol ela lhes deu parte de seu Véu, sua manta mágica para se protegerem durante o dia estando seguros como na noite.
"O Sol não se intrometeu nos negócios da Lua, ela era tão independente quanto ele, cada um fazia o que queria com seus domínios e o Sol os liberou para as criaturas mais poderosas, deu-lhes a dádiva de florescer e multiplicar-se e decidiu que a maior parte das criaturas teria de batalhar para sobreviver durante o dia, e assim foi, desde a chegada dos deuses à criação dos heróis. Cidades foram erguidas, vidas acabaram e lendas criadas, a agitação e o vigor da vida pertenciam ao dia, ao Sol. Enquanto a Lua acolhia a todos como a um filho para que pudessem descansar em paz e viver em harmonia.
"Então os deuses criaram os humanos e pediram ao Sol e a Lua que lhes dessem algo de presente para que eles cultuassem também ao Sol e a Lua. O Sol com todo seu poder lhes deu a possibilidade de ver todo lugar por onde passavam, também poderiam plantar e colher que o Sol sempre lhes ajudaria, deu aos homens a força para se defender das mais terríveis criaturas e a inteligência para poder criar as mais poderosas armas.
"A Lua que havia dado seu véu para proteger as criaturas da noite, não sabia o que lhes dar e chorou por isso, ela minguou, sumiu e reapareceu e quando encheu novamente ela tinha o presente perfeito para os humanos, ela daria a eles a dádiva da vida, os humanos poderiam se recriar sempre que quisessem, mas apenas se dois humanos criassem essa terceira vida e sangue teria de ser derramado para que isso acontecesse. No fim, a lua criou o homem e a mulher, também foi responsável pela criação da deusa do amor que foi criada pela primeira gota de sangue derramada para criar uma nova vida entre homem e mulher. E graças à lua cada mulher, que havia sido criada à sua semelhança poderia gerar uma nova criança a cada vez que ela se enchesse novamente no céu, e se essa vida não fosse gerada a lua choraria e suas semelhantes derramariam do próprio sangue."
Vovó fez uma pausa e pegou a mão de cada um de nós e com o carvão desenhou o símbolo da Lua nas costas de nossas mãos esquerdas, muitos esfregaram e tiraram o símbolo assim que foi colocado sob preceito de mau agouro, mas vovó não ligava, apenas sorria para nós.
—Por isso meus netos, a noite pertence às mulheres e aos demônios e infelizmente a mulheres que querem usufruir mais do poder da Lua e por isso buscam esses demônios... São as bruxas de que ouvimos falar, apesar de não serem tão más quanto dizem, os demônios são.
Olhei por um tempo para a marca da minha mão, depois voltei a olhar para a vovó que agora era emoldurada pela Lua.
"a Lua nunca teve medo de dividir seu poder com qualquer criatura viva, ela era como uma mãe e sempre cuidava daqueles que viviam em seu reino, o Sol era julgador, justo, porém implacável. Matava e dava a vida com a mesma calma e ardor de sempre e isso o fez mais temido por um tempo e ao passar do tempo mais cultuado e ao passar mais e mais tempo, ele foi tido como o justo, enquanto a Lua já não podia controlar as criaturas da noite, nem fazia questão, e essas criaturas matavam as pessoas, de forma cruel ou apenas por defesa, mas mesmo assim, a Lua foi tida como má e isso criou sua má fama, mas mesmo assim ela não ligou e continuou a cuidar de todos nós durante a noite, iluminando os caminhos escuros por onde passávamos e nos guiando com seus fios de prata.
"Até que chegou o fatídico dia em que ela conheceu o Sol e eles se reconheceram e se estranharam, um tinha inveja do outro por certas coisas, a Lua invejava o Sol por sua idolatria e grandiosidade, mesmo que um pouco fosse. O Sol invejava a bondade e a calma da Lua, sempre tranquila e serena sem nunca reclamar ou pestanejar. Passaram um pelo outro sem se falar ou trocar mais que um olhar, e foi assim que se viram pela primeira vez.
"Na noite seguinte a esse encontro um dos deuses, desconhecido pela Lua foi ter-lhe em particular e falou, 'Você poderia dominar o dia se quisesse, governar o mundo da forma que sempre quis e proteger todos da forma que quisesse, por quê não faz? És mais poderosa que o Sol não é?'. A Lua pensou no que o deus dissera por apenas um minuto, que para o deus mais pareceram milênios e então caiu-lhe a resposta implacável, 'Ser poderosa ou não, isso não depende de mim, eu faço o que faço em meus domínios desde antes de vocês chegarem e a mesma coisa o Sol sempre fez, não há motivos para brigas desnecessárias por aqui, agora vá embora.'. E o deus foi.
"O deus disse a mesma coisa para o Sol, e o Sol pensou por um tempo, porém com a sede de poder e força que tinha pediu um favor ao deus, 'diga na terra dos humanos que eu sou o verdadeiro herói e que eu irei destruir a Lua e protegê-los para sempre...'. E o deus assim o fez. Naquela mesma noite a Lua caminhava sobre um lago, o Sol se aproveitou de suas distrações e, esgueirando-se por trás dela apunhalou-a nas costas, manchando sua pele pálida com o sangue escarlate.
"No reino dos humanos eles viram a Lua no céu ficando vermelha gradativamente, e jubilaram-se pela morte daquele ser maldoso que dividia o céu com o Sol. A noite passou e o dia também, tão rápido quanto sempre fora, mas todos estavam em festa e aguardavam pela primeira noite de reinado do Sol. Porém o Sol fora empurrado para fora e no céu estava a Lua novamente, sempre calma e não mais vermelha, sem reclamar ou se enfurecer e apenas para que pudesse tentar mostrar o quão boa era tentou lavar os pés dos humanos com a água do mar e a puxou para que pudesse banhar seus pés. Porém eles não viram isso com bons olhos e logo se trancaram em suas casas com medo do que viria, mas nunca veio.
"De tempos em tempos o Sol tenta matar novamente a Lua e tomar controle do céu, e a Lua jamais cede ou revida aos ataques e continua até hoje a banhar os pés daqueles que a odeiam tentando buscar o perdão por algo que nunca fez."
A Lua estava baixa no céu da noite agora, era hora de dormir, pegamos nossas velas e as acendemos para voltar para casa, calmamente, olhei para trás para onde estava vovó, a Lua se deitava logo atrás dela. Olhei para a marca em carvão em minha mão, cocei de leve e, apenas por um momento em um vislumbre, eu tive certeza de que a marca estava em minha pele com tinta de prata. Olhei novamente para vovó assustado. Ela soltou um risinho baixo e me deu uma piscadinha.
—Hora de dormir, meu filho, o Sol está para acordar.
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