O Sol e a Lua - Um conto em três dias
2 O Dia e o Sol
Passaram alguns dias desde a história incomum de vovó, ela também havia voltado a contar as velhas histórias e todo mundo simplesmente se esqueceu daquele dia, desde então eu fiquei observando a Lua todas as noites e cada uma das estrelas, era tudo tão bonito de uma forma tão macabra...
A marca em carvão na minha mão ainda estava lá, tinha medo de tirar e descobrir algo que não queria, mas todos haviam tirado e apenas riam de mim quando me viam ainda com aquele símbolo nefasto. Ainda assim algumas coisas me intrigavam e eu queria respostas e eu sabia onde podia saber mais sobre o Sol. Fui até o chefe da tribo e pedi que ele me contasse sobre as histórias do rei Sol, as verdadeiras que nunca foram contadas. Ele pegou duas lanças, apesar de velho ainda era bem forte.
—Vamos andar um pouco, vou te contar sob o próprio Sol para te provar que tudo é verdade. — disse ele com um olhar vazio para mim, o chefe era cego.
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O chefe andava tateando o chão com a lança para saber por onde ia, mas não tropeçava ou escorregava em nada, às vezes se movimentava mais rápido e melhor do que eu.
—Bom... Você conhece as antigas histórias sobre o Sol, as que o próprio Sol criou para poder diminuir parte de seu fardo.
"Há muitos anos atrás existia apenas o Sol, a Lua e a Terra onde vivemos, sem nada mais lá, nem animais, nem humanos, nem deuses, nada nunca acontecia e o dia e a noite eram perfeitamente divididos entre si.
"Entretanto o Sol, um dia se cansou com tanta calmaria e criou os animais, que governavam o mundo por bastante e, de acordo com algumas lendas, depois de alguns anos governando o mundo eles deram origem aos deuses, mas vamos nos ater à história do Sol e da Lua.
"Os deuses nasceram na Terra e com seus poderes criaram tudo o que existe hoje, entretanto a Lua, sentindo pena e assumindo o lado das trevas, cedeu parte de seus poderes e domínios para os deuses e criaturas malignas que habitavam o mundo."
—Vovó disse que ela sentiu pena e achava que todas as criaturas mereciam viver, por isso dividiu seus poderes com eles para protegê-los. — falei.
—Ora, me desculpe se você sabe mais que eu, acho que não preciso contar mais nada. — disse o chefe irritado.
—Desculpe.
—Continuando...
"Apesar disso o Sol não se importou muito com o que ela fazia, contanto que aquelas criaturas permanecessem longe de seu reino e escondidas nas trevas, ele não precisava se preocupar. Entretanto, um dia um pequeno morcego entrou no reino do Sol mandado pela Lua, o Sol com raiva da criatura queimou e cegou-a e exilou de volta para o reino da Lua, que logo tratou do pequeno morcego e lhe deu ouvidos que podiam ver por onde ele voa.
"Os deuses na Terra então criaram os humanos para apaziguar a briga que podia acontecer e pediram para que o Sol e a Lua zelassem por eles durante o dia e a noite em seus respectivos reinos, o Sol deu aos humanos a força e a inteligência para caçar e iluminou cada canto escuro da terra para que pudéssemos ver, entretanto nós nunca poderíamos olhar diretamente para ele ou ele queimaria nossos olhos e tomaria nossa visão para si.
"Já a Lua, com inveja de tudo aquilo que deu aos homens, separou os sexos deles, homens e mulheres. Os homens seriam fracos diante de emoções e pensamentos e as mulheres deveriam sangrar a cada ciclo da Lua para poderem um dia se reproduzirem, e para sempre necessitariam um do outro para se reproduzir. O Sol sentindo pena dos humanos deu ao homem a força pra lidar com os pensamentos e emoções além de lhe dar a semente da vida e para a mulher deu a resiliência para que pudesse aguentar mais dor até do que um deus poderia suportar.
"Logo os humanos passaram a venerar o Sol como um juiz que dá a sentença final de vida ou morte, mas não era o que ele queria, de qualquer forma, para que jamais um humano pudesse enganá-lo, ele cegou a si mesmo e julgou cada humano que devia ser julgado por ele com ardor implacável e esse foi o seu legado para o mundo, entretanto a Lua passou a deixar que os demônios e deuses malignos que existiam na noite atacassem os protegidos do Sol e passassem a invadir seu reino, então para que ele pudesse sempre vigiar as criaturas das trevas e da noite ele usou os olhos de cada pessoa queimada e morta por ele e as distribuiu no céu noturno criando as estrelas, para sempre manter tanto a Lua quanto seus subordinados sobre seu rígido olhar."
Ele pegou a ponta da lança e com cortes rápidos e superficiais na pele da minha mão, que apenas deram uma leve ardência que em seguida se transformou num calor agradável, ele fez o símbolo do Sol, perfeito na minha mão como se ele não fosse cego. Olhei para ele assustado, mas ele apenas sorriu e continuou.
"Após ficar sob a vigília constante do Sol as criaturas das trevas pararam de atacar durante o dia e passaram a atacar somente durante a noite, mas o Sol não estava feliz com aquilo ainda. Pediu a ajuda dos deuses das tempestades para forjar algo que pudesse prender a Lua e as criaturas que pertenciam à noite. E após dias e dias de tempestades fortíssimas ele criou uma algema com a mais pura energia que ele pôde colocar, e essa algema possuía todas as cores mais belas que os humanos já haviam visto juntas e a algema foi chamada de Íris e logo os humanos que viram aquilo no céu deram outro nome: arco-íris.
"O Sol passou a andar com o arco-íris sempre guardado e sempre que alguma criatura das trevas o ameaçava ele lhe mostrava o Íris e a criatura logo fugia de medo. Porém um dia ele decidiu que iria prender a Lua e foi conhecê-la no canto mais distante do horizonte. Entretanto quando ele a conheceu não conseguiu prendê-la, com seu poder a Lua seduziu o Sol e o fez desistir da ideia de prendê-la e assim cada um voltou para o seu reino sem a vitória definitiva."
Ele havia parado de falar e eu estava prestes a perguntar algo quando ele recomeçou sentando-se numa pedra com o sol do fim da tarde batendo nos nossos rostos.
"No dia seguinte a esse acontecimento um deus foi falar com a Lua e lhe ofereceu poderes que ela jamais poderia imaginar, entretanto ela recusou dizendo que já havia seduzido o Sol e que portanto poderia dominar o dia e a noite quando quisesse, e foi isso o que o deus disse para o Sol, o Sol irritado com o que havia ouvido ordenou que ele espalhasse na Terra que ele mataria a Lua e livraria o mundo do mal que ela havia trazido. E de castigo ao deus por ter oferecido ajuda à Lua ele arrancou-lhe os olhos e os colocou no céu, as estrelas mais brilhantes e que para sempre guiariam os humanos nos mares.
"Durante a noite a Lua caminhava sobre um lago e, distraída, não percebeu a aproximação do Sol que a apunhalou pelas costas retirando parte de seu poder e dominando a noite finalmente, ou era o que pensávamos, pois na noite seguinte, mesmo sobre o protesto dos homens a Lua reapareceu e tentou afogar a todos puxando o mar para cima deles, porém estando fraca do jeito que estava ela nunca conseguiria concluir aquele feito.
"Às vezes a Lua luta novamente com o Sol e tenta recuperar os seus poderes, mas o Sol sempre expulsa a Lua de volta para seu reino como vencedor, e apesar de implacável ele nunca mata a Lua, por ser também piedoso."
Estava agora começando a anoitecer, e o chefe estava apenas sentado na pedra sem se mexer, sorrindo enquanto olhava para mim.
—Temos que voltar... Acho que vão acabar vindo procurar por nós, andamos muito durante o dia.
—Vá na frente, tenho outras coisas a fazer aqui, mas você não pode ficar por aqui?
—Mas eu não sei voltar daqui.
—Não se preocupe, garoto. — falou o chefe olhando pra cima, pra noite estrelada que se estendia pelo céu. — Eu olho por você.
E quando ele disse isso a marca do Sol na minha mão queimou tão forte e tão intensamente que eu apenas desmaiei, mas pude jurar que vi o chefe se transformar em várias estrelas e me levar pelo céu. Ou será que aquilo foi um sonho?
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