O Sol Sempre Retorna
1 Três dias Antes.
Se me perguntassem que tipo de pessoa eu sou, tenho certeza que responderia: O tipo que se perde pensando no tempo. Tenho essa mania, mas não me lamento pelo que deixei de fazer e sim pelo futuro que nunca vai acontecer.
Manhã de terça, faltavam dois dias para o grande feriado de ação de graças, eu terminei os ensaios e fui para casa, morro a alguns quarteirões do colégio, o que ajuda na fuga dos oitos horários de tortura.
Não sou boa em fazer amigos, nunca fui, este ultimo ano tem sido realmente ruim, mas comecei a me adaptar, o tempo que antes eu passava sozinha no intervalo e no almoço passei a ensaiar, meus pais desde pequena, insistiam que eu fosse bailarina, “Você deve ser uma estrela como nós” eles diziam, então comecei a fazer aulas de dança, e acabei gostando.
Chego em casa, abro o pequeno portão que da abertura para nosso jardim, caminho até a porta, quando alguém mexe na caixa de correio atrás de mim.
– Olá, Tes! Trouxe sua correspondência, — Diz nosso vizinho, Oliver, eu o considero um garoto legal, bonito também, com estilo nerd, estante repleta de livros e miniaturas de Star Wars, ele pediu para ser meu namorado, mas eu recusei.
Vou até ele e peguei os envelopes, ele mora no 41B já eu moro no 41ª, e sempre, SEMPRE, os carteiros confundem nossas coisas, jogando-as na casa ao lado. Nossos dedos se tocam e ele segura minha mão, puxando-me para perto.
– Você sabe que eu ainda gosto de você. – Ele da uma piscadela. – Se quiser um livro ou algo emprestado, passa lá em casa.
Ele sorriu e se foi, seu cabelo escuro, olhos estilo superman, olhos castanhos, e um belo sorriso, tudo o que faziam pensar que ele possivelmente deveria ser meu irmão.
Entro em casa, ponho as cartas sobre o raque, e vou até onde meus pais estão, a cozinha esta com um cheiro agradável, mamãe esta pegando os pratos no armário, enquanto papai flamba um omelete.
– Chegou cedo hoje! – Diz minha mãe, que beija minha bochecha e volta para pegar os talheres.
Coloco a mochila, sobre uma cadeira e abraço meu pai, que mesmo junto a mim continua de olho na frigideira.
– Vimos o Oliver saindo daqui, pensamos em chamá-lo para o jantar, o que você acha?
– NÂO! – Grito e começo a gargalhar. – Meu Deus, até meus pais querem me empurrar para cima de um garoto, que horror, entendam, eu não sou o tipo de pessoa que ama alguém.
– Querida, acho que nossa filha é um monstro.
Todos nós rimos, pego minha bolsa e subo as escadas, no primeiro andar temos três cômodos duas salas, e a cozinha, e no segundo andar, dois quartos, o meu, e outro dos meus pais.
Caminho pelo corredor, e vejo que a tela do computador esta ligada, vou com o dedo em direção ao botão de desligar, quando algo na tela me chama atenção, meu nome completo, escrito e marcado em negrito.
A internet esta aberta na aba de e-mails, leio com atenção, meu coração acelera, a cada palavra que passa em meu campo de visão.
– MEU DEUS! – Grito, e escuto o barulho dos pés batendo na escada.
– O que houve? – Pergunta minha mãe, eu aponto para tela do computador, ainda sem acreditar.
– Quando vocês iam me contar?
– Hoje a noite, estamos querendo falar de maneira formal.
Leio novamente, pois nunca imaginaria que isso seria possível.
Sr. e Sra. Heigway,
Temos o prazer de informar que sua filha, Tessa Mayer Heigway, acaba de ser seleciona como uma de nossas alunas de honra, para passar 3 (três) meses conosco em nosso acampamento. Mais informações em breve.
– Como foi que eu consegui? Não lembro de ter me inscrito em nada.
– Nós gravamos sua ultima apresentação no Colégio, e quando vimos que o Eiton Camp estava oferecendo vagas não pensamos duas vezes em mandar seu vídeo para eles, será três meses sem você mas como acreditamos que nossa filha é capaz, pode, e vai ganhar a Bolsa para universidade a deixaremos ir.
– Como assim, “Bolsa para universidade”?
– Nos últimos anos o acampamento esta em parceira com uma das maiores universidades de Arte Sêneca da America, aqueles que se saírem melhor na ultima avaliação ganharam bolsa integral.
Puxo a cadeira e sento-me. Coloco a mão sobre o peito, posso sentir meu coração bater acelerado.
– O que faço agora? – Corro até meu quarto e pego minha velha mala e jogo-a em cima da cama. – Tenho que fazer algo antes. – Vou até o toca discos e coloco a agulha sobre o CD. – Pais, preparem seus ouvidos, pois treinarei “O lago dos cisnes” a noite toda.
– Não hoje, amanhã talvez, se arrume e desça pra jantar.
Faço o que foi mandado, passo um longo tempo pensando no que irei fazer durante esses três meses que passarei longe, como vou me comunicar se nem mesmo tenho um celular, o ultimo que eu tive, o único na verdade minha mãe fez a proeza de deixar cair, a tela se dividiu em milhares de pedaços.
Saio do banheiro e visto-me, percebo que não levei tempo suficiente no chuveiro pois ainda é cedo, pego um dos livros que Oliver me emprestou e sento na cadeira de balaço que fica na sacada do meu quarto.
Não sou fan de romance, nem de coisas melosas, me contento com finais tristes porém opto por ler ficção científica ou um livro de mistério e investigação. No que estou lendo agora começa com uma menina que encontra um corpo na floresta (ainda me pergunto o que ela estava fazendo lá) então começam a procurar pistas, acham símbolos satânicos e descobem que ela foi morta por um lobo, assim começa a trama de uma trilogia com livros mais grossos que Game of Thrones. Com muitas cenas inapropriadas e mortes eu já estou finalizando o segundo livro do meu vício.
Coloco o marca páginas no lugar quando vejo Oliver chegando, desço e me sento a mesa, ele comprimenta meus pais e se senta junto a mim, nossa mesa tem oito lugares o que para mim é desnecessário já que só somos um casal com uma criança e raramente recebemos visitas.
Ao se sentar frente a mim, mamãe por uma sacola de papel sobre a mesa, o logo da marca prensado na embalagem faz meu coração sapatear, tiro uma pequena caixa da sacola, com toda voracidade abro-a, ver meu reflexo na tela de vidro do meu novo celular faz meus olhos lacrimejarem de felicidade.
Penso comigo mesma, se hoje foi um dia perfeito imagine o que virá depois disso?
Pai serve a comida, mamãe conta como foi a odisséia para comprar o novo iPhone, Oliver ouve com atenção e faz comentários que deixam minha mãe animada para contar mais.
Dois dias, mais dois dias passageiros e eu estarei no paraíso.
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