Corajosos não são aqueles que passam dos limites e sim os que param quando vêem que estão indo longe demais. Eu não fui corajosa, eu fui onde não deveria ter ido, sei que não deveria ter falado aquelas coisas, sinto pena do menino, sinto que estou sendo carregada, então alguém me pões do chão.

– Oliver?

Abro os olhos devagar, não sinto luz em minha pele, percebo que estou deitada, enrolada entre cobertas, pergunto a mim mesma o que aconteceu, vejo que Lissia e Mikka estão dormindo em suas camas.

Procuro pelo celular, o localizo embaixo do travesseiro, seguro-o com uma das mão tremular e aperto o botão Home, um brilho ludibriante invade minhas pálpebras forçando-me a fechá-las.

Com o polegar deslizo o dedo sobre a tela, fazendo subir a barra de edição rápida, assim que consigo diminuir a luminosidade da tela, abro os olhos por completo.

[16 Mensagens de Oliver]

[1 novo email]

Estou muito nervosa, mas não posso culpar o pobre do garoto, clico em abrir, mesmo sabendo que ele não vai me ajudar a lembrar da noite anterior, tenho esperanças.

[Oliver]

* Oii

* Como estão as coisas ai?

* Já estou com saudades!

* Boa noite!

* Eu li uma matéria, então agora você deve estar na Cerimônia da fogueira.

* Falou de Mim pra alguém?

* Quando chegar na sua vez que tal dizer que eu sou o amor da sua vida?

* Mesmo que seja mentira eu gostaria de ouvir você falando isso.

* Vá dormir são 12:35

* Suponho que você tenha aula amanha correto??!!

* Desculpa ta mandando tantas mensagens

* Eu gosto de conversar com você, tu és a única que me faz bem

* Por favor responde

* Não sei se vou aguentar mais um dia sem vc ):

* Saiu!!! Foi liberado o ultimo livro de “Shadows in the Forest – Sombras na Floresta”!

* Comprei o E-book (: Mandei uma copia pro seu email

Tento digitar mais sinto me estranha, levanto da cama correndo, procuro a porta do banheiro em meio a escuridão, não tenho tempo de acender a luz, não posso acordar as outras meninas.

Giro a maçaneta com toda força que tenho em minhas mãos, mais parece inútil, empurro a porta com força ela se abri, por milagre, sem fazer barulho, levanto a tampa do vazo e sinto um liquido queimar por dentro de mim.

Imagino-me vomitando e a coisa acaba saindo, fecho os olhos pois se eu olhar para o vomito não conseguirei parar até que minhas forças estejam nulas.

Levanto e lavo a boca, passo um pouco de pasta na boca, pensando que o flúor livrara o gosto ruim, não tenho forças para sair do banheiro, aperto o botão de descarga e sento me no chão.

Ligo a tela do celular, fico surpresa ao perceber que são 3h15 da madrugada. Clico para responder as mensagem do Oliver.

[Tessa]

* Sinto muito não ter respondido, e eu não posso afirmar se falei ou não de você na fogueira pois EU NÃO LEMBRO DE NADA, pra começar nem lembro o que foi a cerimônia.

* Não seja convencido, você não é o amor da minha vida, por enquanto somos apenas amigos :*

* Puta merda, eu espero que a aula não seja muito completa, suponho que eu esteja de ressaca, mas não tenho idéia do que fiz ontem.

* Oli!! Obrigado pelo livro, vou começar a lê-lo em breve, o final do segundo foi tipo “MEU DEUS” quando o Doutor Synner disse:
– Não se preocupe, você só matou o primeiro deles, muitos de nós então a caminho.
Não acreditei, fiquei tipo “Preciso da continuação!!”

* Obrigado e desculpa por tudo, agora vou tentar voltar a dormir, daqui a algumas horas não quero parecer o tipo de garota que fica bêbada no primeiro dia de aula. Bjos

Sigo para a cama e me enrolo novamente, e abro meu email, acho que lendo conseguirei de acalmar, espero que sim.

As capas costumam trazem um momento obvio do livro, mas com SITF é diferente, levei séculos até perceber que a sombra na capa do primeiro livro era a vitima e não o assassino, no segundo livro Crows in Trees – Corvos nas Arvores, Oli teve que me explicar que a Floresta significava o laboratório, “Quem entras na floresta nunca sairá” o que não fez sentido por o Parker e a Miranda conseguiram fugir de lá, até que o Pobre do Felipe entra no laboratório e sofre da mão do Doutor Synner.

Park é obrigado a matar o melhor amigo, e assim acaba o segundo livro, sinto pena da Miranda pois seu namorado matou o menino que era realmente amava, tornando o romance menos clichê.

Entre a pagina 285 e 320 de “Worth of renascent – Vale dos renascentes” suponho que eu dormi, pois quando vi Lissia, esta sobre mim, empurrando meu braço para que eu acordasse.

– Vamos lá, Bela adormecida, troca de roupas, para gente ir tomar café, a primeira aula começa as 11h10.

Abro os olhos e pulo da cama, vejo que não 9h57, admiro que eu tenha dormido tanto.

Lissia esta vestindo uma camisa branca de renda, que deixa amostra sua tope preto, ela usa calça jeans escura, ela senta na cama e calça um sapato salto alto.

– Sabia que não deveria ter deixado você tomar tantas doses de oprokinut’, ainda mais na sua primeira noite aqui.

Fico confusa, o nome me parece familiar e um gosto amargo em minha boca tambem.

– Oprokinut? – Repito o nome na esperança de que alguém tire minhas duvidas.

– Isso ai, significa “Reviravolta” ou “Derrubar” em russo, misturamos Refrigerante, Whisky e um drogazinha que faz você esquecer das coisas por algumas horas.

– Meu Deus!

– Você ainda nem lembra o que aconteceu, imagine quando lembrar?

– Me conta tudo!

– Você que saber antes ou depois e você começar a beber? – pergunta Mikka que esta atrás de mim no balcão na cozinha, comendo uma barra de cereal.

– TUDO! – Grito.

Elas começam a rir, de mim, e não comigo.

– Eu juro que conto tudo com detalhes mais antes preciso comer alguma coisa.

***

Pelo que entendi só teríamos alguns cafés da manha juntos, o primeiro e o ultimo do mês, o restante dos dias nos seriam entregues caixas com comida e nós mesmo cozinharíamos.

A “Cantina” fica ao ar livre, próximo ao prédio estudantil, onde teríamos aulas. O local era coberto por mesas de quatro lugares sobre a grama verde, havia uma grande casa no meio do parte que parecia ter metros de comprimento, haviam três moças que serviam comida ao alunos, sigo Lissia e pego minha bandeja.

– Uma fatia de bolo de chocolate e pãozinho, por favor.

Lissia faz o pedido e eu peço a mesma coisa, a moça magra sorri para mim, e diz:

– Pela sua cara acho que você precisa de um Tunikorpo!

– O que...? – Estou prestes a perguntar o que era isso, mas Mikka me interrompe.

– Isso mesmo, Lu, serve dois pra ela, a coitada bebeu tanto que quase esqueceu o próprio nome.

Lu cai na gargalhada e pega dois cupcakes debaixo do balcão e põe no prato ao lado da minha fatia de bolo. Seguimos para uma mesa.

Sem mais delongas eu mordo o bolinho, como ele quase todo até que faz efeito, sinto como se estivesse prestes a vomitar quando memórias invadem minha mente.

**

Estamos sentados em circulo ao redor de um monte de madeira em chamas, sinto-me nervosa minha mão esta suando, enxugo as gotas nas mangas da camisa.

– Sua vez, Lauren. Historia ou Desafio!

Uma menina de vestido florido, cabelo castanho se levanta e grita “Desafio!!”, ela caminha até um garoto moreno e alto, senta no colo dele e começam a se beijar. Viro o rosto, mais fico impressionada, eles estão quase se engolindo.

Será que eu sou a única aqui que nunca beijou??

– Lissia! Historia ou Desafio?

– Historia! – Ela se levanta. e começa a falar. – Eu chupei um cara no verão.

Todos ficam em silêncio, pois só o fato da historia envolver cenas quentes ela passa a merecer atenção de todos.

– Eu estava super, tipo perdidamente apaixonada pelo Mike, e resolvi cantar pra ele no show de talentos da minha escola. Eu cantei divinamente e o que o miserável fez? Beijou a Puta da Andrea! Isso mesmo. – As pessoas pareciam saber quem eram os personagem da historia, mas eu não fazia idéia de como era esse tal de Mike ou essa Andrea.

– Então, eu armei pra ficar com o Tenente. – Mikka sussurra em meu ouvido que esse ‘tenente’ era o apelido do melhor amigo de Mike já que ele era gostoso e forte como alguém do exercito. – Eu pedi pra ele passar na minha casa pra gente estudar, ai quando ele tava sentado no meu sofá, eu o beijei, tirei a camisa dele, ele pegou nos meus peitos, eu abri o zíper da calça dele... Essa parte não posso contar detalhes mas... ERA ENORME!

Todos riram e começaram a bater palma.

**

Encaro Lissia, sem acreditar no que ela fez, todos nos teremos que usar a boca um dia, mas é mesmo necessário contar pra todos?

**

Vejo um garoto de longe, ele esta afastado de todos, mas as garotas cochicham e apontam para ele, muita levantam para cumprimentá-lo, elas passam a mão pelas costas dele, a utilizam as unhas, o que faz o garoto se contorcer, ele esta focado no livro e não da atenção para as garotas que continuam a se revezar e tentar provocá-lo.

– Quem é Aquele? – Pergunto no ouvido de Lissia.

– Aquele loirinho aqui que parece lixo em meio aos urubus?

Assinto com a cabeça.

– Benjamin Telles, filho do diretor, ele parece que tem algum problema, ainda mais depois que a mãe fugiu de casa.

– Como assim?

– Ficamos sabendo que ela tinha um caso com todos os amigos do marido, Sr. Telles, ai depois de uma briga por causa do Ben, Ela acabou dormindo com o melhor amigo do diretor, e ele pegou os dois na cama. Dizem que ela era doente, ninfomaníaca, mas não tem desculpa para isso, ela era uma Vadia!

Como mágica em meio ao silêncio dos sussurros, ele grita.

– Eu sei que vocês estão falando da minha mãe.

Olho para frente e vejo o garoto a alguns passos de distancia, seus olhos profundos estão lagrimejando e seus lábios perfeitamente simétricos tremem.

– Oi? Não estávamos não!

Ele se aproxima bem devagar e fica cara a cara com Lis.

– Pode falar mal dela, eu sei que vocês falam, mas NÃO MINTAM PARA MIM! – Ele grita, e sai, posso vê-lo limpando as lagrimas que escorrem por sua bochecha, olhos tão azul feito água do mar não deveriam chorar.

Sinto-me mal o pelo garoto.

***

Balanço meu corpo para frente e para traz, seu coração é tomado por culpa, bebo um pouco de suco e como um dos pãezinhos.

– Pelo vista a Sleepy Beauty já sabe o motivo pelo qual bebeu tanto ontem a noite.

Faço que sim com a cabeça.

– Não se preocupe, agora temos que ir.

Mikka me olha e entrega um papel dobrado.

Caminhamos em direção a sala da primeira aula; Filosofia da Arte.

Antes de entrar, paro na porta, e leio o bilhete.

“Dica: Caia fora! Benjamin = Problema”