O Sol Sempre Retorna

7 10 dias antes – Parte I


Pessoas comentem erros, o maior deles é fingir que não importa. Eu fiz isso.

– Fiz minha escolha. – Disse eu, olhando para os olhos do diretor, ele estava tentando manter a pose, ser um homem serio e rígido, e eu entendo que por não ser ninguém diretamente da família, sair do acampamento agora geraria uma punição.

Silêncio ganha um lugar na sala.

– Eu entendo, esta liberada, pode ir fazer as malas e que mandarei um dos secretários levá-la para sua casa. Sinto muito pela perda, soube que o Sr. Grant era muito próximo da família. – O diretor se virou e caminhou lentamente até a porta, esperei que te ele girasse a maçaneta para completar.

– Eu vou ficar.

– Como assim? – Ele se virou lentamente.

– Oliver e meus pais iram entender, eu vou continuar aqui.

O canto de sua boca tremeu, supus que ele esta segurando um sorriso maligno.

– Tudo bem, então venha até a minha sala e ligue para seu pai e sua mãe, eles gostaram de ser avisados sobre sua decisão.

No momento as sensibilidades das minhas pernas desapareceram, encarar o choro de Oliver, e tudo mais me fez quer por tudo para fora, porem mais lagrimas não saíram, só havia dentro de mim uma insaciável vontade de vomitar.

Me levantei o segui para fora da recepção, não contei quanto tempo permaneci ali dentro mas o sol já estava se pondo quando sai, segui o diretor por um curto tempo, passamos em frente de um corredor de quartos, o que me pareceu ser o dormitório dos professores. A ultima casa, que na verdade deveria ser a primeira pós era próxima a entrada do acampamento, possuía um coloração branco, em tons que variavam do gelo para o metálico.

Havia uma porta de vidro, Sr. Telles a puxou e disse:

– Entre.

Fiz o que ele disse, e pude ver que o interior da sala era igual a onde estava antes, a recepção com a senhorita Angel. Ele se dirige até o balcão, tira o telefone do gancho e disca o numero que suponho ser dos meus pais.

Ele estende a mão e me entrega o telefone, ponho na orelha e posso ouvir os bips da ligação.

– Alô? – Diz uma voz feminina do outro lado da linha.

– Mãe?

– Tessa?

– Sou seu, como estão as coisas?

– Oliver esta aqui conosco, estamos no hospital, Senhora Grant esta no centro cirúrgico, faz algumas horas que ele ficou sabendo da morte do pai, esperamos esperando aqui mas, fico imaginando como esta a cabeça dele se receber mais alguma noticia ruim.

– Eu queria poder ajudar...

– Sua presença aqui o ajudará muito, ele precisa de você agora.

– Sobre isso que eu queria falar...

– Aconteceu alguma coisa ai no acampamento?

– Nada importante, mas é que segundo as regras se eu sair do acampamento eu perderei a vaga...

– Meu Deus, como assim?

– Mãe, me deixa terminar de falar, então, se eu for para o funeral do pai do Oli eu nunca poderei ganhar a bolsa pra estudar em Londres, por isso vou ficar, espero que o Oliver entenda.

Por um tempo ela não diz nada, com certeza esta procurando as palavras certas.

– Tudo bem. Acho que pode deveria falar com o Oli.

– Não! Sinto muito, mas não posso falar com ele agora.

– Você sabe que ele gosta de você né?

– Ele já falou que gostava de mim diversas vezes, mas não posso fazer nada, sinto muito, tenho que desligar.

Coloco o telefone de volta ao gancho em uma velocidade que me assusta, gostaria de me sentir mal porem não consigo, eu sei que devo para que tomar a dor do outro e viver a minha vida, pela primeira fez faço isso, mas não tenho certeza de que isso foi realmente uma vitoria.

Penso em sair daqui, ir pro quarto, chorar se for necessário, fazer o que tiver pra ser feito, e continuar no dia seguinte, depois fazer isso de novo, e de novo, usar o tempo livre pra ensaiar por fim ganhar minha vaga no intercambio.

O ser humano precisa perceber que é quase impossível ser feliz sem que isso custe algo de outra pessoa. Para eu ganhar, alguns desses jovens terão que desistir dos seus sonhos.

Quase me sentindo culpada quando uma voz atrás de mim diz:

– Você é uma menina má.

Por um momento chego a suspeitar que ele foi capaz de ler meus pensamentos. O diretor esta sentado na cadeira com as pernas cruzadas me encarando.

– Nem o conheço, mas esse pobre rapaz, Oliver gosta de você, e coitado, alem de perder o pai gosta de uma garota que não sente nada por ele e... O despreza.

– Você não tem direito de falar isso.

Ele ri.

– Eu conheço seu tipo, sempre consegue o que quer. Eu lhe admiro, mas tenho certeza que você não conhece a dor de um amor não correspondido.

As vezes o silencio é a melhor resposta, viro e saio da sala, sinto raiva, não estou triste, isso me deixa surpresa, garotas crescidas não choram.

***

Cheguei no quarto, e tive que ouvir Lissia e Mikka discutindo sobre como postar na linha do tempo do Oliver.

“Será que devo por ‘Sinto muito, meus pêsames’ ou ‘Vai ficar bem, pode contar comigo’?” Disse Lissia.

“A segunda opção é melhor” Respondeu Mikka.

– Serio isso? Vocês mal conhecem o garoto e ficam fingindo que se importam com o que ele ta sentindo.

Não esperei a resposta deles e entrei no banheiro. Quando saio elas estão sentadas assistindo TV, não sei o nome do seriado, mas parece ser legal, pois elas nem piscam, muito menos comentam em voz alta a própria opinião sobre a cena.

– Me desculpem, eu to meio estressada com isso tudo.

– De boa. – Diz Lis.

Deito-me na cama, e cubro-me, não esta fazendo frio natural apesar de faltar alguns dias pra começar o inverno, mas com o ar condicionado ligado posso sentir minha perna se arrepiando.

Ligo a tela do celular, e tento fazer um roteiro pro dia seguinte. Mas ele começa a vibrar, junto com os dispositivos da Lis e da Mik.

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Curte Cinema? Que tal assistir “E.T – O extraterrestre”? Te esperamos no anfiteatro.

Atenciosamente

Direção,

– Merda. – Grita Lissia, — Só porque eu já vesti a camisola.

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Não troque de roupa, venha de pijama.

– Ô gloria. – Grita Lissia.

Pego um casaco, e saímos. Caminha com roupa de dormir as 21h não é uma coisa que eu recomendo, ainda mais se o vento esta tentando te deixar nua.

A primeira pessoa que eu vejo quando chegamos é o Thomas, ele esta sem camisa, o que me faz considerá-lo um garoto corajoso. Porem ele não é o único.

Lis me cutuca, e com a mão direita ela finge estar abanando o rosto.

– Olha só estas barriginhas. Liguem pra ambulância, eu estou passando mal... E, o seu amor não é de se jogar fora, eu pegava.

Olho para ela, queria xingá-la mas não posso culpar-la por estar falando a verdade. Eu mesma não posso esperar pra passar a mão por aqueles músculos definidos.

Thomas nos vê e caminha na minha direção. Segura minha bochecha e beija meus lábios, nossas línguas se tocam e perco a noção, retribuo o beijo na frente de todos.

Entramos no anfiteatro, e se perguntarei como foi o filme, não poderei responder, pois estava muito ocupada conhecendo uma nova língua.

E novos lugares, minhas mãos deslizaram do pescoço para o abdômen, obrigo-me a não esquecer esta sensação, mesmo supondo que farei isso novamente.

Desço mais um pouco e posso sentir o volume em seu short, não me considero uma garota safada mais gosto do que esta nas minhas mão, movo-as até a barrada da cueca, então toco-o, não restando nada entre meus dedos e ele.

Sei que Thomas esta gostando, pois entre um beijo e outro, posso ouvi-lo soltando uns gemidos, abro os olhos para me certificar que não há ninguém olhando. Mas as pessoas estão mais ocupadas com o final do filme.

– Acho que nós deveríamos...

– Menos conversa e mais beijo – Corto-o, mas ele me empurra, afastando nossos lábios.

– As pessoas estão saindo.

– Tudo bem continuamos mais tarde.

Voltei pro quatro, não conversei com ninguém, me deitei na cama e dormi. Quando acordo já é no dia seguinte e estou atrasada pra aula.

Lissia e Mikka ainda estão dormindo, com certeza elas não tem o primeiro horários, mas eu tenho “Cinema e Literatura”, em meio a todo monte percebo que não fiz a carta para Audrey.

Abro a geladeira na procura de leite, quando meus olhos focam em uma pequena torta de morango, três camadas, bolo, chantilly, bolo, chantilly, morangos em todas elas. Não sei de quem é mais roubo um pedaço.

Sento-me na mesa, com o garfo em uma mão e a canela em outra, começo a rabiscar no papel, o que eu diria se encontrasse a garota na rua?

Querida Audrey,

Quanto tempo, em amiga? Faz séculos que não te vejo, mas então, como vão os namoradinhos? Soube que você casou, eu vi seu filho na rua outro dia. Ele é igualzinho a mãe, LINDO!

Tenho que te agradecer pelos conselhos, agora em relação os beijos eu sou uma pessoa melhor. Você precisa conhecer o Tommy. Ele é meu namorado, eu acho. Ele tem um bom gosto, é diferente dos caras com que você sai, mas eu garanto, Ele é gato!

Não quero ocupar seu tempo, mas foi bom falar contigo, matar um pouco das saudades, até mais bonequinha de luxo.

Beijo,

Assinado: Uma velha amiga.

Jogo os talheres na pia, pego a bolsa e saio.

Eu esta meio enganado, pois quando cheguei a sala estava vazia, localizo o Thomas e sento-me ao lado dele. Dou-lhe um beijo rápido e me ajeito na cadeira.

Poucos minutos depois a professora chega.

– Bom dia alunos, vocês já terminaram de ler o livro que eu passei?

Cerca de quarenta por cento da sala afirma com a cabeça, o resto fica em silencio.

– Que feio. Tudo bem, Quem quer ler seu resumo aqui na frente?

Alguém que eu não sei o nome levantou a mão, a professora sorriu e convidou o aluno para diante de todos.

Tentei prestar atenção mais o resumo do filme ficou mais chato que o mesmo. Thomas é o próximo, agora sim eu presto atenção.

Mentira. Não ouvi se quer uma palavra, pois fiquei ocupada olhando como os lábios dele ficavam fofos se mexendo.

Quando todos que tinha lido falaram, a professora me chamou na frente da sala para que eu lesse a minha carta.

Resultado final foi altas gargalhadas, e Thomas vermelho igual a uma latinha da coca-cola. Senhorita Mary pareceu gostar, ela tambem riu um pouco do texto.

– Ótimo, pode perceber que seu nível de intimidade com a Audrey bem grande. Agora que vocês já tem como exemplo, façam seu texto pra ela, o que gostariam de falar com a atriz?

Na hora de ler o único que me chamo atenção foi o texto do Tommy.

“Oi, Aud. Sou eu, Thomas, namorado, eu acho, da Tessa. Desculpa por tudo, ela foi ser muito extrovertida, mas eu a amo”

Terceiro dia e já escutei uma declaração com “Eu te amo”, isso está mais clichê que os romances do Nicholas Spark.

– Façam um circulo com as cadeiras, vamos jogar uma brincadeira legal.

Fazemos o que foi mandado.

– Aposto que a maioria aqui já leu “A culpa é das estrelas”, está correto?

Garotas assanhadas no fundo começam a gritar e sacudir os braços, eu reviro os olhos, e cruzo os braços, espero com todo meu coração que ela não chame.

– Tudo bem, preciso de dois alunos pra encenar um dos atos.

Ela corre os olhos por nossos rostos até que marca em mim.

– Thomas é August e Roberta a Hazel, Pedro você é o carinha que não tem as bolas.

Eles e levantam e vão até a professora, sinto pena do Thomas, e percebo que o rosto da garota me parece familiar.

Lembro que ela estava na minha festa, conversamos e eu descobrir que ela era aluna de intercambio, uma brasileira se aventurando em novas águas, sinto inveja pela coragem dela.

Pedro arrasta a cadeira até a frente da sala, Thomas senta próximo a ele, e Roberta no fundo, assim como a cena do filme.

– Um, dois, Ação.

***

– Sua vez, Gus. – Diz Pedro.

Thomas sussurra. “Pode ser” e se levanta.

– Sou Augustus Waters. Tenho 18 anos. E tive osteosarcoma há um ano e meio. Como consequência, eu perdi essa bonitona. – Ele Passa a mão sobre o joelho e desliza até o fim da perna. — Agora sou metade robô, o que é demais. Mas só vim porque Isaac me pediu.

Thomas se cala, e a sala fica em silencio, Pedro olha para o papel sobre a mesa tentando se lembrar de sua fala.

– E como você se sente, Gus?

– Uma maravilha. Estou em uma montanha-russa que só vai para cima, amigão. – Ele faz ondinhas no ar.

– Você quer compartilhar seus medos com o grupo?

– Meus medos? – Thomas fica em silencio, como se estive tentando recordar o que vinha a seguir. — Ser esquecido.

– Esquecimento?

–Sim. Pretendo ter uma vida extraordinária. Ser lembrado. Meu medo seria não viver dessa forma.

Pedro assente com a cabeça, em seguida olha para os lado letamente.

– Alguém quer comentar?

Olho para o fundo da sala, a podre menina de pele morena que amarou o cabelo em um coque para tentar disfarçar o cabelo longo diferente da personagem com câncer.

Ela levanta a mão, lentamente, de um modo fofo e irresistível.

– Hazel? Inesperado. – Pedro sorri, como se estivesse realmente feliz pela manifestação da menina.

– Vai chegar um dia em que vamos estar mortos. Teve um período antes dos humanos e vai ter um depois. Pode ser amanhã ou em milhões de anos. Quando chegar, não vai sobrar ninguém que se lembre de Cleópatra, Muhammad Ali ou Mozart, muito menos de nós. Esquecimento é inevitável. Se você tem medo, aconselho que ignore isso. É o que todos fazem.

Roberta fala isso incrivelmente rápido, e com seu sotaque estrangeiro acaba dando uma vida extra a Hazel.

– Bem... – Pedro parece surpreso, o que fica engraçado e combina com a cena. É um bom conselho. Gosto muito disso, porque é ótimo ouvir todos compartilhando o que sentem.

– Obrigada.

***

A professora começa a chorar no fundo da sala.

– Isso foi tão... Lindo. Meus Deus. Espero que “Frozen” seja assim. Quem vai ser Elsa? E Anna?

Ela anda pela sala, e olha pra mim.

Merda.

– Jenn é Elsa, Tes é Anna, Matt é Kristoff, Charlie é o Vilão que eu esqueci o nome.

Levanto-me, e ela entrega o roteiro, dou uma lida rápida, e começo a cena.

***

Arrasto os pés no chão enquanto caminho, espremo os olhos e digo:

– Kristoff?

Do outro lado, no fundo da sala, Matt grita:

– Anna!

No lado direito da sala, Jenn tenta enxergar através da nevoa imaginaria. Enquanto Charlie e esta atrás dela.

– Elsa, você não pode fugir disso.

Ela se vira e estica o braço, há lagrimas em seus olhos.

– Só tome conta da minha Irma, okay?

– Sua irmã? – Ele chega mais perto e Jenn se afasta. — Ela voltou da montanha fraca e fria. Disse que você congelou o coração dela. Tentei salva-la, mas era tarde demais. Sua pele era gelo. Seu cabelo ficou branco... – Há surpresa no rosto da Jenn, como se ela fosse a personagem juntando os pontos. – Sua irmã esta morta... por sua causa!

Jenn se afasta, ela da alguns passos para trás, se vira e cai no chão, cobrindo o rosto com as mãos ela parece chorar de verdade.

Minha vez. Eu começo a tremer, fingindo estar frio, abraço a mim mesma e Digo.

– Kristoff?

Matt parece perceber que esta na hora e grita:

– Anna!

Começo a caminhar até ele, mas caio no chão, olho para o lado, vejo Charlie erguendo uma espada, começo a me levantar e corro até Jenn, e jogo-o me na frente da lamina.

Está na hora, paro e fico em inércia. Fecho os olhos por um segundo, tempo suficiente para sentir Jenn me abraçando. Quando ela se afasta posso ver lagrimas reais escorrendo por sua bochecha.

– Oh, Anna... não... não, por favor não.

Mantenho os olhos fechados, mas posso ouvir os soluços de Jenn, a verdadeira Elsa.

Hora de descongelar.

Olho para ela, sou encarada de volta. Ela me abraça apertado, faço o mesmo com ela.

– Você se sacrificou por mim?

– Eu te amo. – Digo.

­- Um ato de amor verdadeiro, derreterá um coração gelado. – Diz a voz da professora

Uma salva de palmas. Curvo-me para agradecer.

– Tão belo que me fez querer propor uma coisa para o diretor. Com a mudança do horário de vocês, não haverá mais Cinema e Literatura. Passarei um livro para vocês e voltamos daqui a quinze dias, então gostaria de poder sair como vocês.

Uma saúva de palmas.

– No próximo Sábado iremos pro Starbucks. Aqui perto. Não se acostumem com isso, pois vocês alunos não podem sair do campus.

As pessoas gritam e berram, mal posso esperar pra contar essa novidade pras meninas.