O Silêncio Dos Lobos
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Sentiu uma ansiedade crescente e uma dor de cabeça ao acrescentar mais essa questão ao emaranhado de pensamentos que a assombrava. Soltou o cabelo e decidiu que iria terminar o que começou; fugir dali.
A cortina balançava com o vento. Ao longe, podia ver as meninas voltando da escola, descendo a rua rindo.Teria de ser rápida, ou elas a veriam.
Olhou para o quintal. A cerca era baixa e poderia pulá-la facilmente e ir pela outra rua, para não encontrar com elas. Se pendurou na janela e respirou fundo, olhando para o gramado abaixo dela. Haviam ali, no mínimo, uns cinco metros. Será que conseguiria ? Estava receosa, mas uma parte dela via aquilo como brincadeira. Como sendo fácil.
Respirou fundo novamente e sem olhar para trás, saltou.
Sentiu o ar sair de seus pulmões e todos os seus membros enrijecerem com a queda. Não conseguia me mover, falar, respirar; nada. Tudo passou como um borrão e de repente estava no chão, dando uma cambalhota e em seguida, em pé.
Não pensou sequer um segundo, amortecer a queda com uma cambalhota foi puro instinto. Como se já soubesse como fazer naturalmente, sem precisar pensar. Agradeceu por isso, apesar de não entender. Se não fosse esse instinto, com certeza eu estaria toda dolorida agora.
Colocou a mão no bolso de trás para ter certeza que tudo estava lá, e estava. Correu para a cerca e a pulou com muita facilidade.
Será que fez muito isso antes de perder a memória ? Ela tem força, habilidade, e sentidos aguçados. Olhou para suas mãos. O que elas já tinham feito ? Haviam algumas pequenas cicatrizes nelas, sinal de que já fez coisas piores do que pular cercas. E a cicatriz no braço direito, em um local onde provavelmente se aplicam injeções.
Foi pensando nisso que ela continuou andando, á esmo, procurando algum lugar para se esconder.
Estava cansada de ficar parada, iria buscar por respostas. Mesmo sem nem saber por onde começar.
• • •
–- Ela vai ficar e ponto, Victor. — Disse Rose encarando o garoto com os olhos semicerrados.
–- Ela é um deles !
–- Como se ela tivesse culpa !
–- E se ela tentar nos matar como a Kamile fez ? — Rose respirou fundo e passou uma das mãos pelo rosto. Aquele assunto a fatigava, a deixava tensa. Foi beber um copo de água para se acalmar.
–- Victor – Disse ela, colocando o copo na pia. Ele a encarava com um olhar suplicante. — Eu não posso deixá-la por aí por isso. Ela vai ser morta, ou vai voltar para aquele lugar. Não entende que ela pode nos ajudar ?
–- Ajudar ? — Ele deu uma risada sarcástica. — Ela perdeu a memória ! Talvez esteja até fingindo. Talvez esteja aqui por outro motivo, talvez seja proposital. — Rose ergueu uma sobrancelha. Victor era desconfiado até o último fio de cabelo e isso ás vezes o fazia ter hipóteses completamente fora da realidade. Ele percebeu a descrença da vó no que ele acabara de falar e segurou firme uma cadeira que estava á sua frente, claramente nervoso, e olhou para o chão.
–- Vou falar com ela – Disse Rose. — Deve tê-la assustado. — E saiu, indo em direção á escada. Victor suspirou e se sentou na cadeira. Á sua frente, em cima da mesa, havia um garfo. O pegou e ficou girando-o com uma mão, uma forma de canalizar a ansiedade. Não confiava naquele garota, na verdade, não confiava em ninguém além de sua avó e seu tio. E, além de tudo, não acreditava nas pessoas, só via o lado ruim de tudo.
Colocou a mão livre em sua nuca, sobre a cicatriz saliente que lhe despertava tantas memórias ruins. Ele também já teve números ali, mas cortou a superfície com uma prestobarba até ficar na carne viva, para tentar apagar seu passado. Mas a cicatriz que ficou o impedia disso.
Não queria nunca mais ter que lidar com isso. Sentia raiva, queria mudar tudo, queria acabar com tudo que sabia que acontecia por baixo dos panos. Mas era uma pessoa só. As pessoas em geral não sabiam da verdade e se contasse, seria preso.
Seus pensamentos foram interrompidos por uma Rose desesperada que apareceu repentinamente na cozinha. Ele até deixou o garfo cair com o susto que levou.
–- Ela sumiu, Victor ! Procurei por todos os quartos, e nada.
–- Deve estar no banheiro, ou em algum canto escondida – Ele disse, completamente calmo, o que irritava sua vó.
–- É sua culpa ! Ela deve ter ficado assustada e fugido daqui. Vai procurar por ela !
–- Mas vó...
–- Vai agora ! — A voz de Rose, quando ela gritava, era estridente e autoritária. Victor encolheu os ombros, devido ao som estridente que entrou em seus ouvidos. Respirou fundo sem dizer nada, pegou seu casaco e saiu, e sua avó se sentou na cadeira que antes ele estava para tentar se acalmar, para que as garotas não desconfiassem de nada.
Ao sair, Victor foi surpreendido pelas meninas chegando da escola. Respondeu aos cumprimentos secamente, sem nem parar para olhar pra elas. Montou em sua moto e saiu, com ás garotas soltando suspirou apaixonados e cochichando ás suas costas.
Como acharia essa garota ? Ela poderia se embrenhar em algum prédio abandonado ou nos velhos vagões de trens em desuso. Quando teve de parar em um semafóro, ficou pensando no que iria fazer. Talvez enrolar meia hora em alguma lachonete, e depois voltar e dizer á sua vó que não a encontrou.
Parou no The Fifties, um bar com decoração á moda antiga e garçonetes de vestidos rodados. Ao entrar, o som de Elvis cantando baixo ao fundo lhe acalmou. Passou pelo balcão, pediu uma dose de uísque com gelo e guaraná e foi se sentar na última mesa, ao lado da janela.
Ir ao Fifties o fazia se sentir acolhido, era uma espécie de mundo particular. Música e comida boa, garotas bonitas e graciosas, dono simpático. O mundo lá fora era tão frio e fútil, e ali o tempo parecia parar. Já saiu com uma das garçonetes dali, Suzanne. Parecia que tudo que vinha de lá era diferente. Suzanne era inteligente, delicada e ao mesmo tempo, de personalidade forte. Diferente das outras garotas com quem saiu. O programa foi o mesmo, mas a diferença era gritante. Mas, infelizmente, ela foi embora da cidade sem mais nem menos. Mas até que não foi ruim. Victor não estava mesmo a fim de se apaixonar por alguém, por isso passou a evitar as garçonetes do Fifties e seus sorrisos de malícia inocente. Isso quando não estavam de decote.
O mais interessante era que tudo aquilo era antigo demais. Era uma decoração ao estilo 1950, as roupas, a música, tudo. Muito antigo mesmo. Mas muita coisa dos anos passados ficaram para trás e só existem em artigos de internet. Ou nem lá.
Depois da Revolução, a censura é tão acirrada que possui até mesmo uma polícia que cuida dessa área. Isso desanimou muitos de serem músicos, pois qualquer coisa pode ser mal interpretada e eles podem ser presos ou até mortos. Com raras exceções, sobraram apenas os antigos. Muitos foram banidos e proibidos de ouvir, mas algumas músicas dessa década foram permitidas.
Tantas coisas não existem mais...
Pesquisando na internet, descobriu que aqueles anos não foram muito bons. Os jovens eram rebeldes, e viviam tentando desbancar o governo. Não foram anos prósperos; a música, salvo algumas, eram pejorativas, a dança também. Haviam muitos escritores que incitavam ao ódio e á divisão, entre outras coisas. Mas isso foi o que lera na internet. E por incrível que pareça, o enorme império da internet é controlado pela censura. Então, não dá para saber se foi realmente assim.
Logo sua bebida chegou. Deu um gole, e em seguida depositou o copo na mesa com violência, e olhou pela janela. Gotas de chuva começaram a escorrer. Já não bastava a tempestade que veio mais cedo...
Sem querer, pensou na garota. Como ela estaria agora ? Será que achou algum abrigo da chuva ?
Ou pior, lembrou-se que ela não tem identidade. E se verem os números...
Sentiu seu sangue gelar. Algo nele dizia para ir atrás dela, não era certo. Soltou um resmungo contra sua própria consciência. Bebeu mais um gole, mas a bebida não fazia efeito nenhum. Descia queimando, mas continuava completamente sóbrio.
Droga, pensou. Ele não queria ter esse trabalho. Porque essa garota ficou com tanta frescura ? Porque tinha que sumir ?
Respirou fundo e bebeu o último gole. Se levantou, deixou o dinheiro ao passar pelo caixa e ao sair pegou seus óculos escuros do bolso da jaqueta de couro. Subiu em sua moto e foi, contra a vontade.
“Você me paga, garota” — pensou.
• • •
Sentiu as primeiras gotas de chuva e se assustou. Olhou para o céu, estava cinza. Não, outra tempestade não...
Haryan não fazia ideia de onde estava. Haviam tantas casas, prédios... as pessoas na rua sequer olhavam para ela. Tentou pegar informações de algumas pessoas, mas foi ignorada por todas.
De repente, ao longe, viu a entrada de algo que parecia ser um bosque. Lá, poderia se esconder da chuva. E se lembrou do que Rose disse sobre identidade. Droga ! Porque não se lembrou disso antes de sair correndo ? Se souberem que ela não tem, terá problemas.
Foi calmamente até o bosque e se embrenhou por entre as árvores, desviando de alguns galhos e alerta a qualquer animal ou inseto que pudesse atacá-la. Como prevenção, pegou um galho grosso que achou no caminho.
Ouviu um barulho, algo como um uivo. Estremeceu na hora, olhando para todas as direções. O medo começou a tomar conta dela, suava frio. Lá fora, a chuva engrossava e ela ouviu um trovão. Não fazia ideia de onde vinha o uivo, mas o trovão sim. Correu para qualquer lugar onde não pudesse ouvir.
Algumas gotas conseguiam transpassar as copas das árvores e a atingiam, e os trovôes iam ficando cada vez mais altos. Á alguns metros á frente, avistou uma caverna. Estava cansada, mas a visão daquele projeto de refúgiu a animou e começou a correr mais rápido. Ao alcançá-la, se embrenhou no buraco escuro e colocou a mãos sob os ouvidos, abafando o som dos trovões.
Ao ouvi-los mais nitidamente, como hoje de manhã, aquele som destruía seus ouvidos. Será que era realmente tão alto e estrondoso ? Não se lembra de ter ouvido algo assim... a chuva é bonita, refrescante. Mas porque tem de ser acompanhada por algo tão grotesco ?
Depois do barulho ter quase cessado, se acalmou. O coração antes acelerado agora batia suavemente, sua respiração antes descompassada agora estava normal. Mas continuava a apertar as mãos nos ouvidos, tanto que chegava a doer, e seus dedos estavam brancos. Mas sabia que se soltasse ouviria o barulho estrondoso dos trovões.
De repente, tudo havia passado. Estava silencioso. Tirou as mãos dos ouvidos lentamente e só relaxou quando viu que a chuva realmente tinha passado. Quanto tempo tinha ficado lá ? Não sabia.
Se mexeu para conseguir sair da caverna, mas ter ficado tanto tempo sentada deixou suas costas doloridas. Depois de algum esforço, conseguiu sair, e esticou as costas quando ficou em pé. E para onde iria agora ? Enquanto pensava, olhou para frente, e havia um enorme cachorro a encarando. Se assustou e ia entrar na caverna novamente, mas ele não parecia querer atacá-la. Então ficou parada, encarando o cachorro de volta. Ele começou a se aproximar, devagar, mas sem demonstrar querer agredi-la.
–- Oi cachorrinho – Disse, hesitante. Logo viu que não era um cachorro, era um lobo. E era fêmea ! Branca e cinza, e com olhos azuis como nunca tinha visto antes. Ela se aproximou de Haryan e depois de cheirá-la, lambeu sua mão. Haryan a tirou por reflexo e depois riu.
–- Está sozinha que nem eu ? — Perguntou. A loba apenas mexeu as patas dianteiras e depois se sentou, soltando um grunhido. Haryan acariciou a cabeça dela, que parecia gostar. — Bom, agora tenho compahia. Vou te dar um nome... que tal Misha ? — O nome lhe veio á mente automaticamente. Era um bom nome, e tinha a sensação de que já a tinha visto antes. Que já usou esse nome antes...
De repente, Misha olhou para frente e começou a grunhir. Haryan franziu o cenho e se afastou um pouco dela, olhando para a direção que Misha estava olhando. Não havia nada... de repente Misha começou a correr, e Haryan foi atrás.
–- Misha volta ! — Gritou, mas sem sucesso. A loba continuou correndo até que saíram de dentro do bosque. Haryan apoiou as mãos nos joelhos, ofegante. — Vê se pára de correr agora – Murmurou, cansada. Quando olhou em volta, estava novamente na cidade. Porque Misha correu até lá ? Misha começou a latir, fazendo Haryan levar outro susto. Logo uma Harley Davidson cortou a rua e parou na frente delas. Haryan pensou em correr, até ver que quem estava montado na moto era Victor.
–- Finalmente te achei — Disse ele, quando tirou o capacete. — Sobe.
–- O que você está fazendo aqui ? — Perguntou Haryan. Ele revirou os olhos.
–- A vovó ficou histérica quando viu que você tinha sumido e me mandou te buscar. Sorte que essa cidade é pequena. Metade dela ninguém usa mais. E usei meus sentidos de gênio, vindo até o bosque. Quem foge geralmente se esconde em lugares assim. Ou em vagões de trem sem uso. — Ela arqueou uma sobrancelha. Porque esse raciocínio ? Haviam tantos outros lugares que ela poderia se esconder. Mas ignorou as perguntas a esse respeito e deu as costas para ele, voltando para o bosque.
–- Não vou voltar com você. — Ele bufou. Misha grunhiu e colocou uma das patas no focinho.
–- Para de frescura... só porque...
–- É, só porquê você é um estúpido.
–- Olha só... desculpa, tá bom ? Agora vamos, minha avó vai enlouquecer se eu não te levar de volta. — Haryan parou e pensou em Rose. Ela tinha mesmo se desesperado por causa dela ? Talvez fosse egoísmo agir assim. E para onde ia se não voltasse ? Se lembrou de Rose dizendo que era perigoso para ela. Respirou fundo e deu meia volta. Victor deu um sorriso de canto.
–- Boa garota. — Ela revirou os olhos.
Não tinha capacete para ela, então foi sem. Mas não era ruim, ela gostou de sentir o vento no rosto, e ria ao ver Misha tentando acompanhar a moto, correndo e latindo. Observou a cidade e viu que realmente haviam lugares onde não haviam pessoas morando. Prédios desabados, casas vazias... o que aconteceu com essas pessoas ?
Quando chegaram em casa, depois de entrarem e guardar a moto, ele se virou para ela, curioso.
–- Haryan, não é ? Vem cá, você não se lembra de nada mesmo ? — Ela o encarou com indignação. Ele estava desconfiando dela ?
–- Não. — Depois desse enfático 'não', entrou na casa e foi para o quarto, chamando a atenção de todas as garotas que estavam na sala. Em seguida entrou Victor, o que as fez esquecer na hora da menina esquisita que passou batendo o pé por elas.
Victor mal deu atenção para elas. Foi direto falar com a avó, enquanto se perguntava mil coisas sobre Haryan. Será que ela era realmente essa menina inocente ? Será que realmente havia perdido a memória ?
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