O Sentido da Vida
12 Chapel Hill
Notas iniciais
John
Já fazia alguns dias desde que eu havia brigado com meus pais, mas, mesmo assim, ainda não estávamos nos falando. Meu pai quase não dormia em casa, e quando dormia, ia para o quarto de hóspedes ou para a sala.
Muitas vezes durante a noite, eu conseguia ouvir minha mãe chorar, mesmo tentando abafar o choro e os soluços eu ouvia claramente, e isso dava um aperto no coração. Eu queria ir até lá e abraçá-la, pedir desculpas por ter brigado, mas eu não podia. O orgulho não me deixava fazer tal coisa. Ela, mesmo sendo minha mãe, obedeceu meu pai por toda a sua vida, nunca se impôs a ele, e sempre o deixou mandar e fazer o que queria. O fato é que eu não era como ela. Já não aguentava mais ter aquele homem tentando mandar e controlar tudo que eu fazia, além do mais já tenho idade o suficiente pra saber o que é certo e o que é errado e o que quero da minha vida. As coisas agora mudariam, e se não acontecesse, eu sairia de casa. Compraria um apartamento com o dinheiro que guardava há muitos anos e com o restante poderia sobreviver por alguns meses, até conseguir um emprego. Viveria muito melhor do que estava vivendo naquela situação, disso eu tenho certeza.
Eram quase duas da manhã e eu não conseguia dormir. Como em outros dias, conseguia ouvir minha mãe chorar no quarto ao lado do meu, e novamente por ela eu pensava em desistir, contudo esse sentimento passou rápido demais, do mesmo jeito em que chegou. Fiquei por volta de meia hora somente encarando o teto. Provavelmente ela deve ter pego no sono, pois a casa estava em total silencio. E esse silencio permaneceu até que eu ouvi alguém entrando na cozinha derrubando tudo e gritando feito um louco. Do meu quarto pude perceber que se tratava do meu pai chegando em casa tarde da noite e pelo visto bêbado, muito bêbado, tão bêbado que não conseguia nem andar direito. Sai do quarto e fui até a sala de onde conseguia ver a cozinha. Ele estava gritando e xingando a geladeira, devido a ter batido seu pé.
Tive vontade de rir, aquela cena estava hilária, mas me controlei, pois não queria que ele me visse. Se acontecesse, não sei o que seria pior: Ele começar a gritar e acordar toda a vizinhança ou eu acabar me descontrolando e não conseguir manter minha raiva no seu devido lugar.
Subi as escadas para voltar ao quarto, mas antes consegui ver meu pai tentar caminhar até a sala, o que não deu muito certo, já que ele quase caiu três vezes tropeçando no seu próprio pé e somente então caiu sobre o sofá e lá permaneceu imóvel por vários minutos. Deduzi que devia estar dormindo, então continuei caminhando até chegar ao meu quarto.
Deitei novamente na cama para pela trigésima vez tentar dormir, o que foi mais uma tentativa falha, pois não consegui pregar os olhos por um minuto sequer.
***
Acordei com uma forte luz no rosto. Deduzi que já devia ser passada das sete horas da manhã, pois meu quarto já estava totalmente banhado pela luz do sol. Sempre que dormia com as janelas abertas isso acontecia. Não sei ao certo quantas horas dormi, só lembro que a última coisa que fiz foi olhar no relógio e ver as horas. Eram quase cinco da manhã. Droga. Tentei me mexer, mas isso piorava a situação. Meus músculos doíam como nunca doeram. Fazia muito tempo que eu não dormia a noite inteira, nem mesmo lembrava como era sentir essas dores. Simplesmente horrível.
Levantei com todo o corpo doendo e praticamente implorando para ficar na cama. Fui até o banheiro e tomei um longo e demorado banho, era a primeira coisa boa do meu dia. Me vesti e sai do quarto. Nenhum sinal de pessoas pela casa. Mesmo sempre estando bêbado, meu pai nunca perdia um dia de trabalho. Minha mãe devia estar trancada no quarto, onde ultimamente vinha passando a maioria dos dias desde a nossa briga.
Apesar de não estar com muita fome, precisava comer alguma coisa, então fui até a cozinha e peguei uma maçã. Estava de folga, mas tinha um longo dia pela frente. Iria para ir a Chapel Hill, uma cidade a 60km de Oxford, onde fica a faculdade que pretendia ingressar. Sai de casa pouco antes do meio dia e por volta de uma hora depois cheguei na faculdade.
Na entrada havia um enorme jardim, mas a minha real surpresa foi entrar pela entrada principal e ver o quão gigante era lá dentro. Havia um grande corredor, com muitos armários e logo depois as salas. Eram muitas, dos mais diversos cursos. Música, Química, Artes, História... Várias! Como todos deviam estar em suas salas, fui caminhando, olhando tudo com muita atenção. Cheguei ao refeitório que era como todas as outras partes, muito grande. Haviam várias mesas de vários tamanhos, espalhadas por todo aquele espaço. A frente mais corredores que deviam ir até a diretoria e para os dormitórios. Antes de me inscrever decidi primeiramente olhar todo o prédio. Andei até os fundos, que provavelmente era onde os alunos ficavam em horários livres. Lá havia um grande campo completamente coberto de grama e árvores. O lugar era lindo, e me lembrava muito o meu jardim, onde eu sempre ia quando precisava pensar.
Mais longe dali tinha um grande campo de futebol com várias arquibancadas ao seu redor. Do lado oposto uma quadra de vôlei, uma de tênis e outra de basquete. Havia também um grande pavilhão, onde ficavam duas grandes piscinas. Depois de olhar tudo voltei para os corredores e fui até a diretoria. Depois de confirmar minha inscrição, fui até uma pequena lanchonete comer alguma coisa, já que não havia almoçado e já se passava do meio dia.
As aulas começariam em mais ou menos um mês, então teria bastante tempo para me organizar. Já não me preocupava em onde moraria, eu poderia ficar na faculdade em algum dos vários dormitórios espalhados pelo campus.
Passei a tarde inteira na cidade visitando os lugares turísticos e passeando pelas praças. Já eram quase quatro horas quando decidi voltar para minha cidade. No carro, coloquei o cinto, dei partida e fui me distanciando de Chapel Hill, enquanto Oxford ficava mais próxima. Teria que novamente enfrentar meus pais e dizer moraria em outra cidade.
Fale com o autor