O Segundo Vietnã
2 Capítulo 1
Capítulo 1
Uma guerra, muitas histórias
Dois homens cruzaram rapidamente um dos corredores do Pentágono. Um deles era o general Antony Harris. O outro, o major William Mason, fiel escudeiro do primeiro militar.
Os dois entraram numa sala onde o general Michael Harper, homem do Presidente para assuntos relativos à América Latina, fumava um charuto cubano – emblema de qual era a maior preocupação da política externa do país para com o continente nos últimos 60 anos. Mas essa preocupação estava mudando, principalmente desde que o governante anterior, Barack Obama, iniciara a retomada de relações com os irmãos Castro. A maior preocupação dos EUA agora era com a crescente ameaça de a vida humana não ser mais sustentável no planeta. E isso incluía um ponto estratégico em seu próprio continente... porém sob a soberania de outra nação.
– Está satisfeito, Harris? – perguntou Harper. – O presidente autorizou a operação. O Congresso votou “sim” em esmagadora maioria.
– Já estou sabendo, Michael – riu Antony. – E então? Trabalharemos juntos?
– Por favor, entregue isto ao Secretário de Defesa, Mason – disse Harper, entregando um documento ao major.
– O que é isto? – perguntou Williams.
– Não sabe ler, major? É minha demissão.
Colocando seu quepe, Harper deixou a sala.
Mason estava atônito. Harris, porém, sentou-se na cadeira de Michael, e, sorridente, começou a fumar um charuto. Parecia uma criancinha que conseguira dobrar a mãe.
– Sabe por quantos anos esperei por este momento? – perguntou Antony.
– Não sei, senhor.
– Doze anos, Mason. Doze longos anos.
– Quer mesmo prosseguir com isto, senhor?
– Você tem alguma dúvida?
Mason pegou um celular que estava sobre a mesa e ligou para a mulher. Após alguns instantes, ela atendeu:
– Alô?
– Sou eu, querida.
–William! Há algo errado?
– Assista ao noticiário noturno. As crianças gostarão de me ver na TV.
– Mas, William, são seis horas da manhã!
– Desculpe-me – a rotina no interior das paredes do Pentágono muitas vezes fazia-o perder a noção do tempo. – Diga às crianças que as amo.
– Há algo errado, querido?
Mason desligou. Olhando para Harris, perguntou:
– O que fará agora?
– Você não vê, Mason? Estamos galopando num cavalo em que ninguém queria subir. Nós o domaremos!
– E então?
– Vou contatar nossas forças em Granada. Temos que iniciar a operação antes das oito!
– OK.
St. George, Granada.
Várias unidades da Marinha americana se encontravam estacionadas no paraíso caribenho. Enquanto a maioria dos fuzileiros acordava, o coronel Jefrey Baker recebeu a ordem vinda do general Harris. Surpreso, abriu uma garrafa de uísque e encheu um copo com a bebida. Nisso, surge o sargento Gary Medison, grande amigo do coronel.
– Parece preocupado, senhor – disse o sargento. – O que houve?
– Meu Deus... – murmurou Baker, passando a mão direita pelo rosto, atordoado.
– O que houve, senhor?
– Em cerca de três horas, entraremos em combate, sargento Medison.
– Como assim, coronel?
– Não discuta. Apenas arrume suas coisas.
– Sim, senhor.
O sargento retirou-se, enquanto Baker enchia a cara.
*
O tenente Miguel Filho, após fazer a barba, lavou o rosto e, ainda sonolento, ganhou o amplo pátio da Escola de Cadetes da Força Aérea em Pirassununga, interior de São Paulo.
Amanhecia um novo dia, o horizonte tomado pelo laranja. O militar, cruzando o pátio, se dirigiu até a sala do coronel Rubens Mendonça, mentor e amigo.
– Bom dia, tenente – saudou o superior.
– É mesmo uma bela manhã, senhor.
– Sente-se.
Miguel sentou-se numa confortável cadeira. O coronel, levantando-se, olhou para a Bandeira Nacional hasteada do lado de fora por um instante e perguntou:
– Como vai a Mônica?
– Bem, senhor.
– Ela ainda faz aquele delicioso brigadeiro?
– Sim, senhor. As crianças adoram.
Os dois militares riram por um instante. Sempre achavam graça em como os filhos de Miguel costumavam confundir o nome do doce com a patente militar – à qual prometiam ao pai coruja um dia ascender. Súbito, Mendonça tornou-se sério e frio, como costumava ser quando tinha más notícias, e, após um instante de silêncio, disse:
– Tenente, você sabe que as três forças armadas estão em estado de alerta máximo. Os americanos ameaçam intervir militarmente na Amazônia e o presidente Costa está extremamente preocupado.
– Eu sei disso, senhor. Ameaçam a soberania nacional.
– Ótimo. Aqui está sua ficha de transferência.
O coronel estendeu um documento ao tenente, que, atônito, perguntou:
– Para onde estou indo?
– Planalto Central. Goiás.
– Mas e os meus cadetes?
– O tenente Oliveira cuidará deles. Eles precisam de você em Goiás, tenente. Não deve recusar.
Conformado, Miguel pegou o documento.
– Está dispensado, tenente.
– Sim, senhor.
Navio Raposo Tavares, rio Amazonas.
A médica e bióloga Bianca Magalhães encontrava-se extremamente atarefada. Na enfermaria da embarcação, cuidava de alguns índios doentes. Um deles, idoso, tinha uma séria infecção no pulmão.
– O senhor está se sentindo melhor com o remédio? – perguntou Bianca ao índio.
– Um pouco... – disse o velho, com voz fraca. – Estamos perto da minha aldeia...
– Sim. Estamos perto. Quer rever sua filha?
– Sim...
– Não fale. Poupe energia.
O navio se aproximava de uma aldeia Yanomani. Bianca, arrumando suas coisas, preparava-se para sair da embarcação. Logo o Raposo Tavares acomodou-se no improvisado cais como um homem obeso numa poltrona pequena. A bióloga ganhou a aldeia junto com dois enfermeiros e alguns soldados, todos carregando vacinas e remédios.
– Organizem uma filha no centro da aldeia! – exclamou Bianca. – Todos serão medicados.
– O cacique quer ver a senhora – disse um jovem índio, que vestia camiseta sem manga, bermuda e chinelos de dedo.
– Senhorita – ela corrigiu um pouco desconcertada.
– Vamos.
Bianca seguiu o nativo até uma oca simples, porém limpa e bem organizada, com um rádio sobre uma mesinha de pernas bambas. O cacique encontrava-se deitado numa rede rasgada, que ameaçava cair.
– O senhor quer me ver? – perguntou Bianca.
– O cacique não fala português – explicou o índio. – Traduzirei o que ele falar.
– OK.
O velho cacique disse algo em sua língua. O jovem traduziu a sentença:
– Como a senhorita sabe, estamos para entrar numa guerra.
– Guerra? – espantou-se a bióloga. – Não haverá guerra. A crise diplomática já está acabando.
O velho rosnou algo naquela incompreensível língua indígena. O jovem traduziu:
– A senhorita concordaria comigo se soubesse das coisas que ouço nesse rádio.
– Que coisas? – perguntou Bianca.
O cacique exclamou algo. O outro índio, como das outras vezes, traduziu:
– Haverá uma invasão. Tudo já está pronto.
– Uma invasão? – surpreendeu-se a bióloga.
– O cacique está certo – disse o jovem índio. – Os americanos estão tramando algo.
– Eles invadirão a Amazônia? Estão certos disso?
– Sim, senhorita!
Bianca parecia alarmada. Saiu da oca e, caminhando na direção do centro da aldeia, onde alguns índios já faziam fila, sentou-se sobre um improvisado banco de madeira. Olhando para alguns soldados, começou a rir sem controle. Acabara de ouvir uma besteira e tanto. Como um simples cacique poderia ter descoberto os planos da nação mais poderosa do mundo?
Os enfermeiros começaram a aplicar vacinas nos índios. As crianças choravam, com medo da injeção, mas aquele era um mal necessário. Os idosos faziam exame de vista, enquanto alguns bebês doentes eram medicados.
Bianca, levantando-se, percebeu que estava um pouco tonta. Cambaleando, começou a caminhar na direção do navio. Um enfermeiro perguntou:
– Está se sentindo bem, doutora?
– Sim. Estou apenas com “medo de guerra”.
E, zonza, ganhou o interior da embarcação.
*
– Odeio mosquitos! – exclamou o cabo Francisco Martins, mais conhecido como “Chico M”, debatendo-se.
– Acalme-se, Chico – disse o soldado Jonas Fidel Marques, mais conhecido como “Marquito”, rindo. – O dia está lindo!
– Lindo? Vai cair o maior pé d’água!
– Ora, vá cagar!
Jonas saiu da barraca, enquanto o sargento Carlos Leite caminhava na direção do jipe atolado na rústica estrada que levava à cidadezinha de Barcelos, às margens do rio Negro. Após observar o céu totalmente nublado daquela manhã de setembro, Marques perguntou ao superior:
– Já desatolaram o jipe, senhor?
– Negativo, Marques – respondeu o sargento. – A chuva de ontem à noite foi devastadora. Vários povoados foram arrasados. Estamos auxiliando a Defesa Civil na procura de pessoas desaparecidas.
– Entendo. Pra variar, o cabo Martins está gripado.
– De novo? Dê algum remédio a ele.
– Sim, sargento.
Leite começou a conversar com o grupo de soldados que tentava desatolar o jipe, enquanto “Marquito”, tirando a foto de uma bela mulher do bolso, murmurou:
– Nos casaremos em breve, minha querida... Não falta muito tempo...
Jonas era apaixonado por Célia Noronha, bela morena de vinte anos. Esta morava em Varginha, Minas Gerais, cidade natal de Marques. Amava o soldado com todas as forças, e o sentimento era recíproco. Jonas sonhava em se casar com aquela linda e sábia mulher, que o auxiliava em todas as situações, tão logo voltasse ao lar.
Deixara sua família para tornar-se um grande militar como o pai. O tataravô lutara na Guerra do Paraguai. O neto deste lutara com grande destreza em Monte Castelo, durante a Segunda Guerra Mundial. Recentemente, o pai de Jonas, Adolfo, incorporara o Corpo de Paz da ONU no Haiti.
Adolfo sempre dissera ao filho que um homem só se torna um guerreiro após participar de uma guerra. Este último queria ser um grande soldado, mas temia um conflito armado. Não queria se separar de Célia. Planejava ter muitos filhos, netos e, quem sabe, bisnetos.
*
Dez e meia da manhã, horário de Brasília.
As águas do Amazonas desembocavam no mar, num processo relativamente calmo. Aquela época do ano não era caracterizada pela pororoca, que atraía surfistas de todos os cantos do país quando ocorria.
Entre o vôo de garças, araras e outras tantas variedades de pássaros, surge, no céu, uma nuvem escura. Parecia um bando de gafanhotos destinado a sugar todas as riquezas naturais da floresta e, de certa forma, realmente era.
Aos poucos, cento e sessenta helicópteros Bell UH-1 e oitenta Black Hawks ganharam os céus da floresta. Compondo invencível armada, que parecia um esquadrão mandado pelos deuses com o fim de castigar o já tão sofrido povo brasileiro, cada helicóptero transportava de sete a doze soldados norte-americanos. Alguns ouviam música. Enquanto os brasileiros em terra ouviam Luan Santana e MC Guime, despreocupados e desatentos, os ianques ouviam Avicci e Pharell Williams, preocupados, ansiosos e, sobretudo, confusos.
As hélices dos helicópteros giravam anunciando o caos que tomaria conta da Amazônia e de todo o país, enquanto os soldados, limpando suas armas, condenavam a vida de milhares de jovens brasileiros que morreriam injustamente naquela guerra horrível.
A sombra das aeronaves assustou alguns indígenas que, vendo engenhos voadores pela primeira vez, concluíram que os helicópteros eram “coisa do demônio”. De certa forma estavam certos, pois a personificação do demônio era a figura de um bélico presidente norte-americano que, a cada dia, demonstrava total ignorância em relação à América Latina.
Num desses helicópteros, o sargento Gary Medison olhava fixamente para o major Jefrey Baker que, frio, limpava sua pistola calibre 45.
– Eu não entendo! – sobressaltou-se Medison. – Por que estamos invadindo o Brasil?
– Eles não sabem cuidar da Amazônia – respondeu Baker, sem sequer olhar para o sargento. – Precisamos assegurar sua sustentabilidade.
– Eles são como nós, senhor! Têm vidas e sonhos!
– Por isso mesmo precisamos dessa mata... Para sobreviver, a longo prazo. Água potável, remédios naturais. Tudo está em jogo.
O sargento, atônito, calou-se. O major falava como um nazista, verdadeiro arauto da “seleção natural”. Ali, literalmente, a “lei da selva” seria testada, num conflito em que prevaleceria o mais forte.
Enquanto isso, de aviões de transporte C-130 escoltados por caças F-16 e F-22, saltavam pára-quedistas da conhecida 82a Divisão Aérea – os Rangers – que teriam a missão de sabotar estações de radar do SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia). Nas praias do Amazonas e na ilha de Marajó desembarcavam mais unidades da Marinha, vindas de vários navios estacionados na costa brasileira, que logo avançaram continente adentro. Do porta-aviões USS Theodore Roosevelt decolavam os bombardeiros B-2 e B-52, que destruiriam instalações militares no território amazônico. Alguns soldados da Força Delta, já há semanas na floresta, armavam os índios que combateriam a reação do Exército brasileiro.
Comando Militar Brasileiro, Brasília, Distrito Federal.
Um militar, apressado e atordoado, cruza rapidamente os corredores do prédio. Entrando na sala do general que era seu superior, diz, entregando-lhe uma folha de papel:
– Veja o que o SIVAM detectou há sete minutos, senhor.
O general, após ler o relatório, pergunta, estarrecido:
– O que significa isto, major?
– Significa que os americanos invadiram a Amazônia, general.
Atordoado, o general passou a mão pelo rosto. Suando, disse:
– Vou contatar vários ministros e, depois, o presidente.
– O que faremos, senhor? – perguntou o major, assustado.
– Não sei ao certo, major. Você está num país cristão. Então reze. E prepare-se para o pior.
Logo a notícia ganhou a capital como uma tempestade repentina.
Todas as unidades do Exército na Amazônia foram colocadas em estado de alerta máximo. A ordem era resistir à invasão.
Jonas Fidel Marques, vendo a agitação que se instalara no acampamento, perguntou ao sargento Leite:
– O que está acontecendo, senhor?
– Os americanos, Marques. Estão invadindo.
– O quê?
– Você ouviu bem. Prepare-se. Defenderemos a cidade de Barcelos.
O sargento distanciou-se, enquanto Jonas, perplexo, olhava ao redor. Vendo “Chico M”, perguntou ao cabo:
– Já está sabendo?
– Já.
– E então?
– É uma merda.
Alguns jipes e caminhões foram se enchendo de soldados. Marques e Martins entraram num deles, onde outros combatentes, alarmados, se encontravam em silêncio brutal. Alguns rezavam. Outros pensavam em suas esposas, em seus filhos, em seus pais, em suas namoradas, em seus parentes, em seus amigos, em sua pátria...
– Eu sabia que eles invadiriam! – exclamou um soldado, agitado. – São todos uns filhos da mãe, uns desgraçados! Malditos ianques! Vou atirar pra matar, na cabeça!
– Não, atire no peito... – riu um outro soldado. – Assim eles sofrerão mais!
– Ora, seus sádicos! – exclamou um cabo. – Não estão vendo que morreremos em questão de horas, talvez minutos? Eles têm napalm e bombas! Nós só temos estes fuzis de merda! Nós todos morreremos!
Jonas, assustado, ouvia calado aquelas amedrontadoras palavras. Perguntava-se se aquilo não era um sonho. Porém, teve certeza que estava no mundo real quando um mosquito lhe picou o pescoço. Imaginou se a dor de um tiro seria tão aguda e súbita quanto aquela.
Os veículos iniciaram o trajeto na direção de Barcelos, seguindo pela rústica e barrenta estrada de terra. A maioria daqueles soldados nunca mais voltaria a ver aquele acampamento, bem sabiam.
Enquanto isso, numa base de operações do Exército às margens do Amazonas, sete helicópteros Bell se aproximavam. Os brasileiros surpreenderam-se:
–Os americanos chegaram! Desgraçados!
Um soldado, revoltado, jogou uma granada contra um dos helicópteros que pousavam no centro da base. Este explodiu e, de dentro da bola de fogo, saltaram oito americanos em chamas, as primeiras vítimas daquela guerra.
Os outros invasores, vendo que os brasileiros reagiram com hostilidade, saíram dos helicópteros e abriram fogo. O soldado que destruíra o helicóptero inimigo logo caiu morto, atingido por disparos de uma metralhadora M60 nos braços e no tórax. No chão, seu sangue escorreu para dentro de uma poça de lama, enquanto seu uniforme tingido de vermelho era pisoteado pelos soldados americanos que avançavam.
Os brasileiros combatiam com ferocidade fora do comum. A raiva dos norte-americanos contida durante anos veio à tona. Os soldados inimigos eram alvejados mesmo depois de mortos.
A resistência oferecida pelos brasileiros concentrou-se numa barraca. Os soldados, mordendo os lábios, disparavam sem dó nem piedade. Mesmo assim, as táticas norte-americanas acabavam vencendo a destreza dos brasileiros.
Um soldado brasileiro, abrigado dentro de uma barraca e completamente louco, pegou sua faca e, cerrando os dentes, rosnou:
– Vou acabar com esses malditos, um por um!
E, antes que fosse agarrado pelos companheiros, saiu da barraca em disparada.
Esquivando-se de alguns disparos, correu na direção de um sargento norte-americano de meia-idade. Olhando nos olhos desesperados do inimigo, que estava sem balas, exclamou:
– Morra, desgraçado!
Antes que o sargento pudesse reagir, o brasileiro rasgou seu peito com a faca, gritando. Um tanto de sangue jorrou, sujando o rosto do agressor, que foi morto logo depois.
Com uma granada, um soldado norte-americano “limpou” a barraca onde os últimos brasileiros tentavam reagir. Algumas vítimas voaram para fora, em chamas.
O tenente americano que comandava o grupo invasor concluiu que a base estava limpa. Aproximou-se, então, de um mastro onde se encontrava hasteada a Bandeira Nacional. Retirando-a, hasteou, com grande respeito, a bandeira norte-americana, que, imponente, começou a tremular com o vento.
*
Meio-dia. O Brasil parou para testemunhar o pronunciamento do presidente Costa em rede nacional. As maiores redes de TV já haviam espalhado a notícia da invasão, e mais de dois terços da população brasileira já haviam tomado conhecimento do fato.
Abatido, o Presidente da República, olhando para as câmeras, ajeitou seus papéis e começou:
“Cidadãos e cidadãs do Brasil. Estou aqui hoje para lhes informar algo que, infelizmente, perturbará a ordem e afetará nosso futuro. É preciso falar com clareza, sem rodeios, pois se trata de um assunto de vital importância. Há uma hora e meia, horário de Brasília, os Estados Unidos da América invadiram militarmente a Amazônia no Estado do Amazonas, Pará, Amapá e Roraima. Os norte-americanos, empregando bombardeiros, já tiraram de ação boa parte de nossas defesas. Tropas brasileiras, neste momento, travam combate em vários pontos da floresta, tentando deter a força invasora. É preciso tomar uma atitude firme, que não prejudique o resto do país, mas que também não ameace sua soberania. Por isso, estabeleço neste momento um prazo de três dias para que as forças norte-americanas se retirem da Amazônia. Se isso não acontecer, será enviada para a zona de conflito uma força-tarefa composta por quinhentos mil soldados, entre recrutas e reservistas, que combaterá as forças invasoras. Espero que haja cooperação mútua e que esta crise seja solucionada pacificamente”.
O Brasil parou. Estava na cara que os americanos não sairiam da Amazônia dentro do prazo determinado, e que o presidente buscava ganhar tempo para organizar a reação. Todos se prepararam para uma verdadeira guerra urbana, inclusive nas demais regiões do país, onde a população começou a estocar alimentos. O conflito era inevitável. A meta, agora, era isolá-lo na região Norte.
*
Toda a população de Barcelos se encontrava trancafiada em casa. Além dos soldados brasileiros, que formavam barricadas e preparavam armamentos para a defesa da cidade, não havia ninguém na rua.
Jonas Fidel Marques, que estava dentro de uma escola junto com o cabo “Chico M” e mais alguns soldados, limpava seu fuzil. Mascando chiclete, perguntou ao cabo:
– Que horas são?
– Uma hora e sete minutos da tarde.
– Quando acha que eles aparecerão?
– Logo. Pode esperar.
Um soldado, rindo, perguntou:
– Vocês já ouviram a piada de quando o Einstein foi a uma festa?
– Não – respondeu Jonas, tom incomodado.
– Ele encontrou um homem e perguntou “Qual o seu QI?”, e ele respondeu “Duzentos”. Os dois, então, começaram a conversar sobre relatividade e bombas atômicas. Depois, um outro homem se aproximou e Einstein perguntou “Qual o seu QI?”, e ele respondeu “Cem”. Conversaram, então, sobre política e economia. Depois chegou um outro homem que tinha QI cinqüenta, e eles conversaram sobre a novela, Big Brother, essas coisas. Por último, chegou um outro cara, e Einstein perguntou “Qual o seu QI?”, e ele respondeu “Cem”. O gênio, então, perguntou “E o Corinthians, como é que vai?”.
– Essa foi boa! – riu Jonas.
– Sou corintiano, filho da mãe! Você só pode estar fazendo essa piada por ser torcedor da “Porcada” – zangou-se “Chico M”. – Pare de rir, “Marquito”.
De repente, todos se calaram. O som de hélices girando dominou o ambiente, deixando todos alarmados.
– Chegaram! – disse o cabo.
– São Black Hawks! – exclamou um soldado, olhando para fora através de uma janela. – Estão descendo e...
Um disparo de metralhadora atingiu em cheio o pescoço do soldado antes que concluísse a frase. Agonizando, disse:
– Acabem com esses desgraçados... Com todos eles...
– Pode deixar, amigo! – exclamou “Chico M”, uma mão pousada no ombro do moribundo.
O cabo, cerrando os dentes, disparou contra os invasores, errando.
– Concentrem o fogo nos helicópteros!
– Cadê o sargento Leite? – perguntou Jonas.
– Aqui, filho – respondeu o oficial, empunhando uma pistola.
– O que faremos, senhor? – perguntou o soldado que contara a piada.
– Resistiremos até a morte se for preciso, Ferreira!
– Já é preciso, senhor.
Alguns soldados que utilizavam as janelas para atirar tombavam mortos. Ganhando uma sala de aula aparentemente vazia, o grupo do sargento Leite buscou refúgio atrás das carteiras.
– O pessoal lá fora está sendo despedaçado – afirmou Ferreira. – Logo entrarão aqui, sargento!
– Soldado...
Leite virou-se, olhos fechados e com a boca sangrando. Estava morto.
– Ali, em cima daquela casa, franco-atirador! – exclamou Jonas, vendo o assassino do sargento através de uma janela.
– Ah, é? – riu “Chico M”.
Com um disparo de fuzil, o cabo fez com que o franco-atirador inimigo rolasse pelo telhado e caísse numa ruela ao lado da escola.
– Menos um! – riu Martins.
Jonas estava desesperado. Tinha vontade de se levantar e sair correndo dali. Porém, sabia que se fizesse isso acabaria ceifado pelo fogo inimigo. Olhando para o corpo inerte do sargento, notou que uma lágrima sua manchava o uniforme de Leite, já tingido de vermelho no peito.
Concentrado naquela contemplação desoladora, ouviu um chorinho de criança. Achou que fosse coisa de sua cabeça, mas “Chico M”, Ferreira e os outros soldados também perceberam o som.
– Acho que ouvi uma criança chorando! – exclamou o cabo.
– Eu também – assomou Ferreira, olhando para os lados.
Jonas se aproximou de uma carteira. Embaixo dela, encolhido e assustado, um menino de cerca de sete anos chorava amarguradamente.
– Porra, meu! – exclamou “Chico M”. – Um menino perdido!
– Temos que tirá-lo daqui! – disse Jonas.
– Como? – perguntou um outro soldado.
– É isso aí! – exclamou o cabo. – Talvez nem nós consigamos sair daqui!
O menino, assustado, olhava com os olhos bem abertos para a face dos combatentes, que talvez estivessem com mais medo que a própria criança.
– E agora? – perguntou Ferreira.
– Vamos sair! – respondeu “Chico M”, deixando com extrema cautela a sala de aula, abaixado junto às paredes.
O cabo foi seguido pelos demais soldados. Jonas, carregando o menino nos braços, esquivava-se de alguns disparos norte-americanos.
Logo o grupo ganhou os fundos do prédio. Apenas uma porta os separava das desoladoras ruas de Barcelos. “Chico M”, preparando seu fuzil, disse, em voz baixa:
– Fiquem quietos!
– O que você vai fazer, doido? – perguntou Ferreira.
Súbito, o cabo chutou a porta e, atirando, fulminou dois soldados inimigos. O primeiro rodopiou sobre o próprio eixo e caiu de bruços. O segundo foi recuando conforme ia sendo alvejado, morrendo encostado a uma parede, com o rosto banhado em sangue.
Jonas não acreditava no que via. Quanto mais presenciava cenas horríveis como aquela, mais achava que estava apenas tendo um pesadelo extremamente real. Com a criança nos braços, Marques seguiu os companheiros, que avançaram por uma rua.
O fogo era cruzado. Os norte-americanos, sobre os telhados e dentro das construções, aniquilavam a parca resistência oferecida pelos brasileiros. De repente, Jonas, que pensava na sua amada Célia, despertou quando um tanto de sangue voou sobre seu rosto. Ferreira caía de joelhos, com um grande buraco nas costas. Agonizante, o soldado apenas teve tempo de dar um desesperado grito, que ecoou por toda a área.
De repente, Jonas percebeu que o menino desfalecera em seus braços. Havia sido baleado mortalmente.
– Seus covardes! – exclamou Marques, tomado por enorme revolta. – Seus crápulas! Filhos da puta! Desgraçados!
De repente, “Chico M” caiu, baleado na perna esquerda. Sorrindo, o cabo exclamou:
– Deixe-me, Jonas! Salve-se!
Marques olhou para trás: não havia mais nenhum brasileiro vivo. Martins mordia os lábios, tentando recuperar seu fuzil, que se encontrava a uma certa distância.
Num movimento rápido, Jonas agarrou um dos braços do cabo e, colocando o corpo da criança morta no chão, começou a puxar o amigo.
Como um louco, Marques cruzou uma rua. Com os olhos fechados, pensava apenas em Célia, que o esperava em sua casa. De repente, sentiu uma dor muito forte num dos ombros. Indo ao chão, sem deixar de puxar o amigo, levantou-se e prosseguiu.
Cruzaram um beco e mais uma rua. Súbito, uma explosão lançou os dois combatentes para frente, e o peso do cabo tornou-se menor. Olhando para trás, Jonas percebeu que puxava apenas a parte de cima do corpo do companheiro, as vísceras saindo pela extremidade rompida e esparramando-se pelo caminho.
Horrorizado, Marques foi tomado por impulso anormal e, correndo o máximo possível, mergulhou na densa floresta, sendo ainda baleado na perna direita.
De olhos fechados, Jonas seguiu tropeçando, metendo a cara em arbustos e raspando o rosto e as mãos no tronco das árvores. Por fim, após percorrer cerca de trezentos metros naquela penosa marcha, veio ao chão, rolando sobre uma poça de lama. A consciência abandonou-o.
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