O Segundo Vietnã
3 Capítulo 2
Capítulo 2
Os jovens que conheceram o inferno
Rio Branco, Acre, três semanas depois.
Um avião de transporte pousa no aeroporto da cidade. Havia outras aeronaves já estacionadas ali, e todas traziam soldados que lutariam na selva.
Aos poucos, os combatentes foram saindo do avião. João Pereira, natural de Ribeirão Preto, São Paulo, desceu a escada com medo e ansiedade.
No caminho até a pequena edificação para onde deveriam seguir, alguns soldados, que já estavam ali há alguns dias, semanas e até meses, zombavam dos recém-chegados. Chamavam-nos de otários, bananas, maricas e bebês.
João tentava permanecer impassível a tudo aquilo. Soldado de dezenove anos, deixara para trás um avô doente. Seus pais haviam morrido quando ainda era um bebê. Fora então criado pelos avós maternos. A avó morrera há dois anos. Agora, apenas o avô lhe era de importância afetiva.
– Bem-vindo ao inferno, babaca! – exclamou um cabo, fumando um cigarro. Olhando melhor, percebeu ser um baseado.
A saudação e o aspecto do sujeito assustaram João. Imaginou que a Amazônia houvesse se transformado num Vietnã ou coisa assim nos poucos dias desde o início da ocupação estrangeira. Estava totalmente certo.
Entrando na edificação, o jovem esperou que o soldado antes de si terminasse o “check-in” para se sentar de frente para o major. Este era um moreno de meia-idade, dentes amarelos. Parecia extremamente fatigado. Ao lado de uma enorme pilha de papéis, havia uma garrafa de cachaça quase vazia.
– Cadê a ficha? – perguntou o superior, com bafo fedendo álcool.
– Aqui, senhor – disse João, entregando o documento.
O major leu apenas o nome do soldado, não se preocupando com o resto. Após assinar a ficha com uma caneta preta, tomou um gole da garrafa. Estava completamente bêbado.
– João Pereira? – perguntou o militar. – Você parece um daqueles rapazes certinhos de cidade grande... De onde você é?
– Ribeirão Preto, São Paulo.
– Ribeirão... Estive lá uma vez...
Exibindo os dentes amarelos num sorriso fora de hora, o major carimbou a ficha de João.
– Pode ir, filho – riu o superior. – E, se quiser um conselho, não dê mole para aquelas putas da esquina!
– Prostitutas? – replicou sem entender.
– Boa sorte, meu jovem!
João saiu dali mais assustado ainda. Para ele, antes de descer do avião, todos os combatentes estariam prontos e sóbrios para defender a floresta. Ao menos gente competente para mantê-lo vivo na linha de combate. Concluíra que estava redondamente enganado.
*
As coisas não estavam boas para o Brasil. Em três semanas de combate, os norte-americanos haviam conquistado, praticamente, todo o território do Amazonas, Amapá, Roraima, parte do Pará, e já penetravam no Acre e em Rondônia. Toda a área mais próxima do rio Amazonas e seus afluentes, com exceção das regiões de Itacoatiara e São Paulo de Olivença, já era controlada pelos invasores.
Todo esse avanço se mostrara possível devido a três fatores. O primeiro foi o fato de boa parte da infraestrutura de defesa brasileira (radares do SIVAM, bases militares e centros de treinamento) ter sido destruída logo no início da invasão. O segundo fator foi a presença de soldados americanos na floresta antes da guerra, o que facilitou a ocupação; e o último foi a colaboração dos índios com os invasores. Recebendo em troca relógios, aparelhos celulares, microcomputadores e até dinheiro vivo, os indígenas revelavam a posição dos defensores aos ianques, atraíam a atenção dos brasileiros e até auxiliavam os norte-americanos em combate.
Naquela bela manhã de sol após uma semana inteira de intensa chuva, o pelotão do soldado João Pereira, composto por quarenta e cinco homens, foi chamado até a sala de instruções. Aquele grupo de forças brasileiras, composto por cerca de três mil e quinhentos soldados, estava acampado na divisa do Acre com o Amazonas, perto da cidade de Guajarã. Os norte-americanos vinham tentando conquistar a região há alguns dias, mas os combatentes brasileiros, auxiliados por alguns indígenas e mercenários peruanos, estavam conseguindo conter o avanço inimigo.
O pelotão de João ainda não havia entrado em combate. Apesar de um confronto nas cercanias da cidade, o acampamento não fora atacado. A situação era pior na região de Reconquista, mais ao norte. Lá, às margens do rio Juruá, os americanos haviam estabelecido uma base de suprimentos. Todos sabiam que um ataque eficaz à área atrasaria o avanço ianque em dias.
Após um breve café da manhã, o pelotão alojava-se na sala de instruções. As cadeiras eram poucas e, por esse motivo, mais da metade dos combatentes sentou-se no chão. Uma escola estava sendo usada como quartel-general e, como sala de instruções, um improvisado teatro com um palco para apresentações dos alunos, chão de concreto e paredes com várias infiltrações.
Logo chegou o major Alberto Diogo Farias, carioca de Niterói. Todos os jovens se levantaram. Após subir no palco e colocar uma pilha de papéis sobre uma mesa, pendurou um mapa da região num prego na parede de frente para os soldados. Parecia mais um professor prestes a dar uma aula de Geografia.
– Descansar, soldados – disse o superior, pegando um pedaço de giz numa caixinha sobre a mesa.
Sem dizer mais nada, o major circulou a região de Reconquista no mapa e, virando-se para os combatentes, explicou:
– Como vocês sabem, os americanos estabeleceram uma base de suprimentos perto da cidade de Reconquista. Um arriscado vôo sobre a região revelou que seis caminhões de combustível, três de munição e um de comida estão estacionados nessa base, defendida por, aparentemente, setenta e cinco soldados visíveis. Se esses suprimentos forem destruídos, conseguiremos atrasar a ofensiva inimiga e ganhar tempo para um contra-ataque. Como o esquadrão de Fuzileiros Navais responsável pelas operações de sabotagem na área está tentando retomar o aeroporto perto de Valparaíso, o Exército foi encarregado da tarefa. Sei que vocês ainda não entraram em combate, mas não se trata de uma missão arriscada. Trabalharão em conjunto com o pelotão do tenente Fidélis, tendo como objetivo a destruição de todos os suprimentos e a tomada da base. Serão inseridos a sudeste do alvo, distância de três quilômetros. No caminho haverá apenas selva. Alguma pergunta?
– Não, senhor – responderam todos em coro.
– Ótimo. Arrumem suas coisas. Partirão no final da tarde.
Tudo certo. Já sabiam que, mais cedo ou mais tarde, entrariam em combate. Mas tinham que ir junto com o pelotão do Fidélis, com o qual não iam com a cara? Talvez Farias quisesse reconciliar os dois grupos, coisa bem difícil.
Tudo teve início numa noite de chuva. Estavam acampados perto da cidade de Lagoinha. Não tinham nada pra fazer e resolveram jogar buraco. Participaram do jogo o tenente Luis Noronha, líder do pelotão de João, gaúcho de Porto Alegre; o tenente Juca Fidélis, líder do pelotão rival, natural de Palmas, Tocantins; o cabo Ênio Souza, cearense de Juazeiro e membro do pelotão liderado por Noronha; o sargento Lucas Bernardes, paulistano membro do pelotão rival; o sargento Jair Pessoa, outro cearense do pelotão de Noronha; e o soldado Antônio Felipe Escobar, paulista de São José do Rio Pardo membro do pelotão rival, fiel escudeiro e puxa-saco de Fidélis.
Tudo correu bem, até que o Fidélis começou a trapacear. Noronha começou a reclamar e Escobar veio defender o superior. Tudo terminou com um xingando a mãe do outro, fulano dando pontapé no cicrano e cicrano dando soco no olho do beltrano, como descrevia João.
Ninguém acima dos dois pelotões ficou sabendo, mas o major Farias percebeu que um lado não conversava com o outro. João temia que aquela arriscada tentativa de reconciliação acabasse pondo em risco a vida dele e dos demais combatentes durante a missão.
Do lado de fora, João observou alguns pilotos de helicóptero tomando café da manhã ao lado das máquinas. Um deles, Thiago Menezes, perguntou ao soldado:
– A missão será tomar a base de suprimentos, não?
– Sim.
– Já desconfiava... Muito prazer. Sou Thiago Menezes, mais conhecido como Cruzeiro do Sul.
– Um codinome?
– Exatamente.
– Bem, já vou deixar minhas coisas arrumadas. Até mais.
– Até logo, patriota.
A madrugada era escura. Escura como breu. Setenta e nove homens se arrastavam pela selva.
João Pereira pensava na namorada. Ex-namorada, para ser mais exato. Começou a se lembrar dela enquanto caminhava, como se a iminente aproximação da morte escavasse fundo suas memórias.
Era um dia de chuva. João acabara de sair do cinema do shopping junto com um grupo de amigos, após vibrar com “Sniper Americano”.
– Vibrei, cara! – exclamou um deles. – Isso é que é filme!
– Gostei do começo! – disse outro. – O desenvolvimento, nem tanto. Mas a crítica é interessante.
– Mó zoeira, cara!
João, porém, não prestava atenção nos amigos. Seu olhar ganhara os belos olhos verdes de uma jovem de pele clara que, sentada num banco aparentemente triste, sorrira ao perceber o jovem.
– Hei, acorda, cara! – riu um dos amigos, dando um tapa na orelha de João.
– Eu estou acordado, filho da mãe!
Seguiu-se uma daquelas briguinhas em que ninguém acerta o outro, sendo que todos os socos são desferidos sem intenção de atingir o adversário.
A jovem riu e, em seguida, desviou o olhar.
Mais tarde, por um motivo que João não conseguia lembrar, os amigos saíram de perto por um momento. A jovem levantou-se e se aproximou de João, mais segura devido a ele estar sozinho.
– Você tem uns olhos lindos... – disse o fascinado jovem.
– Muito obrigada!
– Parece triste. O que aconteceu?
– Meu namorado me deu um fora.
– Por quê? Você é tão linda!
A moça abriu novo e belo sorriso. João, sem mais nem menos, viu-se de mãos dadas com a jovem.
– Que tal sairmos correndo daqui agora? – perguntou ela, amavelmente.
– Mas eu nem sei o seu nome!
– É Marta. Marta de Andrade.
Ela o puxou e, rindo, voltaram a se olhar...
– Americanos!
A explosão veio mais barulhenta que cem mil rojões. Três homens do pelotão de Fidélis voaram, dois sem as pernas.
– Merda! Merda! João, cadê você?
A voz do cabo Ênio Souza foi ouvida por João, mas este não sabia de onde vinha. Pensando na morte da bezerra, acabara afastando-se do grupo e o breu da madrugada praticamente o cegara.
– Aqui, João!
O bravo jovem começou a rastejar. Era um trajeto angustiante, sem rumo ou lógica. Tentava seguir a voz do cabo desesperadamente.
Foi aí que a situação piorou. Começaram as rajadas de metralhadora, incessantes. A voz de Ênio ainda chamava pelo soldado, mas agora era impossível dizer a direção de onde vinha.
João estava confuso. O cearense deve ter gritado mais umas duas vezes, mas a mistura de sons, somada agora aos gritos dos soldados, fazia os ouvidos do paulista zunirem.
Até que agarrou alguma coisa. Era uma mão, que aparentemente estava coberta por algum líquido. Era água ou sangue.
– Cabo Souza? – perguntou João.
O soldado empalideceu ao ver que aquele era um homem de seu pelotão, atingido por várias balas de M60. Pela primeira vez a morte passou pelo olhar de João. Sentia algo como uma tontura repentina. Queria vomitar, porém não tinha forças – as próprias entranhas se recusando a se contrair para a subida da bile. Seu corpo todo doía.
– Aqui, João!
Ênio aproveitara uma pausa nos tiros para chamar o soldado, que se encontrava bem próximo.
– Bingo, Pereira!
O cearense sorriu, exibindo os dentes amarelos. Junto dele estavam cinco soldados, mas não conseguia ver seus rostos. Mesmo se pudesse, não conseguiria identificá-los. A expressão facial de um soldado muda drasticamente durante uma batalha.
– Há um ninho de metralhadora ali em cima! – apontou o cabo. – Está nos massacrando!
– Eles podem nos ver aqui? – perguntou João.
– Não, não podem. Pelo menos por enquanto...
Nisso, um dos soldados voou violentamente para trás. João pôde ver um buraco vermelho onde um dia houve um olho. Era possível ouvir os americanos se comunicarem em sua língua. Aquela língua perversa. A língua inimiga. Pela primeira vez desde a adolescência João se arrependeu de não ter feito um bom curso de inglês, para compensar o parco ensino da língua que tivera na escola pública. Ao menos entenderia os desgraçados.
Souza sorriu novamente para Pereira. Tinha uma granada em mãos.
– Quantos americanos você acha que eu mato? – perguntou o cearense, voz baixa.
– Não sei.
– Pois olhe só...
O cabo arrancou o pino do artefato com os dentes e, após um breve instante de concentração, arremessou-o na direção do ninho de metralhadora...
Dois americanos voaram na direção deles, um com as pernas totalmente queimadas, em carne viva. Os tiros cessaram. Enquanto os brasileiros avançavam em meio à mata, Souza se aproximava do inimigo ferido, que, suando, olhava desesperado para o cearense, com a suja cabeça sobre a mata.
– Please, don’t kill me... – implorou o norte-americano.
– Quê? – riu o cabo, enquanto sacava sua pistola, sendo observado pelo atônito João.
– Please, don’t!
– Vagabundo filho duma égua!
E Ênio exibiu mais uma vez os dentes amarelos, que subitamente ganharam tom sinistro. O disparo ressoou por toda a área. João olhou para o cadáver imóvel, com um grande buraco na testa.
– Vamos, Pereira! – disse o cabo.
E João, conformado, seguiu o superior e os outros compatriotas na escuridão da noite.
Ele lembrava-se muito bem daquele dia. Aquela casa espaçosa num bairro calmo de Ribeirão, aquele bolo de chocolate com glacê.
Era o aniversário do avô de João. O jovem e Marta estavam no sofá da sala, abraçados, assistindo à novela das sete. Eram amantes inseparáveis, pelo menos assim pensavam naquela época calma...
Sem se anunciar ou deixar prever, a tormenta veio.
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