O Segundo Reino
14 XIV - Éramos Únicos
Notas iniciais
Confiança era algo que não passava pela minha cabeça, nos próximos dias, no castelo. Comecei a perceber a minha importância, não só para o Inferno Florestal, mas para todos os reinos. Eu era, realmente, a arma mais forte que eles tinham e nada poderia acontecer comigo.
Tanta proteção me deixava estupefata, achava estúpido o modo como todos estavam me usando, principalmente, o Johnny. Talvez ele não amava, só precisava de mim para conseguir vencer o pai e toda a guerra contra Elohim. Isso me frustrava...
Um sentimento de revolta explodia dentro de mim. Fugia de conversas com Johnny o quanto podia, espionava, buscava qualquer coisa que pudesse me provar que ele não me amava. Fiquei cada dia mais forte, mais veloz, e meus poderes só aumentavam, mas como ele acreditava que eu o amava cegamente, não imaginava que eu pudesse tentar machucá-lo algum dia. Até que esse dia chegou...
Camuflei a minha presença e fui para a biblioteca aguardar. Logo o vi entrando com Alie, discutiam sobre o que eles intitulavam de a última cartada.
— Acha mesmo que ela ficará ao seu lado? — Alie questionava com o semblante de preocupação aparente.
— Sim, ficará. — ele sorria abertamente. — Ela me ama, o amor é um sentimento digno para os humanos e ela o valoriza muito.
— Não se garanta tanto. Ela está em constante mudança esses dias... — fez uma pausa pondo a mão nas têmporas, as massageando. — Passa a maior parte do tempo na arena de treinamento, aperfeiçoando os poderes. Mal fala comigo e a vejo muito pouco, para falar a verdade.
— Eu a conheço! Haven é fraca, é uma simples humana sentimental. Não oferece risco algum.
Até o momento, havia me mantido firme e controlado a vontade de enfia-lhe minha adaga, mas quando ouvi suas palavras amargas, não me contive e sai de onde estava os observando.
A surpresa nos seus rostos foi penosa, porém, continuei como planejado. Andei devagar por entre as prateleiras de madeira, notava cada respiração, cada olhar de aflição. Johnny engoliu em seco e aproximou-se. Tolo!
— Haven... — sua mão foi de encontro ao meu pulso, o agarrando forte. — O quanto ouviu?
— O suficiente, Johnny. — o delírio desse amor impossível me dava socos no estômago, estava acordando para a realidade.
O cheiro da hipocrisia me enjoava, me causava nojo... Vê-lo daquela forma era agonizante. Era ele quem eu amava com todas as forças e foi cruelmente doloroso ter que agir com a razão pela primeira vez.
O encarei e depois foquei os olhos na sua mão me segurando. Sussurrei para ele me soltar, não o fez. Evitei pensar por mais de uma vez e fiz um movimento rápido e doído. Minha mão esquerda, que estava livre, se chocou contra a sua face rudemente. O estalo fez Alie correr porta à fora, retirei a sua mão de cima de mim e quase cai. Ah, doeu mais em mim do que nele!
— Você me bateu? — sua voz trêmula me fez arfar. Minha visão embaçou, nossos corpos também estavam unidos, a bofetada me atingiu com a mesma intensidade.
A minha dupla personalidade era tão inconstante que nunca podia pensar na hipótese de sentir ódio por Johnny. No momento seguinte, o amava ardentemente e isso era recíproco. Odiei-me por ter agido assim. Já me arrependia, porém, não havia como voltar, estava feito.
— Johnny... — dei alguns passos segurando seu rosto. — Perdão...
Nossas faces expressavam um horror tão cruel, tão agudo... Ele não sabia que eu seria capaz de chegar a tal ponto, não sabia mesmo. Não foi uma bofetada qualquer, minha força era maior de que a dele próprio. Mas a dor física não foi nada comparada a visão de vê-lo sofrer.
Então, tudo que eu sofrera na batalha contra o escolhido, ele sentiu. Sentiu cada golpe, cada arranhão, cada corte...
Ele tentou fugir, porém, consegui prendê-lo nos meus braços. Pus seu rosto colado ao meu peito, senti sua respiração acalmar, seus músculos relaxarem e pararem de tremer. Ergueu o rosto e me fitou rapidamente.
— Eu deveria ter te contado... — minha raiva voltou ao lembrar o que o ouvira dizer.
— Cale-se.
O silêncio que invadiu a biblioteca fez morada por longos minutos. Nos estudamos com olhares cautelosos e inúmeros pensamentos trocados. O amor era uma estupidez quando não usado da maneira correta. Era mais destrutivo do que qualquer arma, mata mais que qualquer veneno...
Amas alguém? Então ame sabendo que sairá ferido, estraçalhado, partido ao meio. Mas quando o amor é verdadeiro, não há escapatória, todas as tentativas de fuga serão inúteis. As correntes de ar mais fortes te carregarão para encontrar o amor. E quando duas pessoas que sentem o mesmo sentimento trocam olhares... Ah, não há saída, não há...
Foi isso que aconteceu comigo. Todos os meus esforços foram falhos, só me levaram de encontro aos braços de Johnny, como a corrente de ar que acertava meus cabelos na primavera...
Nossa indiferença nos atraiu. Nosso beijo foi iniciado, o caminho para o quarto foi guiado por seus olhos pequenos brilhando em meio ao escuro do corredor. Suas mãos me tocavam com firmeza, apertava meu corpo contra o seu. Logo eu estava livre de roupas, nua como a virgem envergonhada que era. Era. Não havia como não o buscar, não clamar pelo contato de sua pele fria roçando contra a minha... Seus lábios explorando a extensão do meu colo, depositando beijos sobre as minhas marcas...
Seu corpo. Havia tantas marcas quanto as minhas. Marcas diferentes, marcas iguais. A pele pálida parecia reluzir sob a luz fraca que emanava de um lugar desconhecido. Implorei para tê-lo. Queria ser sua, assim como desejava pertencer somente a ele.
Entre sussurros fomos nos envolvendo, ficando mais perto, nos conectando plenamente. Assim, como uma rosa desabrochando, com lentidão e beleza. Eu era a sua rosa negra. Sentia o aroma fluir de mim, como das rosas ao lado da cama, éramos um. Eu, ele e as rosas.
Não haveria palavras para descrever, nunca saberia como explicar todas as sensações vividas naquela noite de frio intenso. O segundo reino havia parado para nós dois. Éramos únicos, infinitos. Sabia que não teríamos fim nunca. Seríamos eternos enquanto existíssemos...
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