O Segundo Reino
15 XV - Alie
Notas iniciais
A ideia inicial de Johnny era apenas me usar para vencer as batalhas do apocalipse e tomar o trono de Lúcifer. Quando tudo estivesse como planejou, ele me mataria. O que o fez mudar de ideia? Não sei, mas estava cada dia mais difícil conviver naquele covil de demônios... Descobria um segredo atrás do outro e isso me afastava cada vez mais dele. Era como se tudo que vivemos fosse de papel e nas primeiras tempestades se desfizesse.
A rapidez com que descobria as coisas, corroía o sentimento bom que eu tinha por ele. Lembrava-me da noite em que ele me possuiu e chorava demasiadamente. Lamentava amá-lo tanto ao ponto de me entregar, porque mesmo eu pertencendo a ele, ele não deveria me ter tão facilmente, porém, falhei. Fracassei do pior jeito, implorei, clamei para que ele me tivesse em seus braços... O arrependimento batia forte, mas não havia mais nada a ser feito. Era um fato consumado. E além de tudo, sabia que tinha sido com amor...
Só pretendia compreender a mudança absurda que houve nos últimos tempos. Uma hora, estava feliz por ele me amar e na outra, o odiava por me odiar. Nossa relação era imprevisível, impossível de resistir as lutas travadas no meu âmago. Tinha quase certeza de viver uma ilusão, uma absurda ilusão...
Mas o pior de tudo, fora as decepções que tive. Fatos que mudaram totalmente o rumo de nossas histórias. Passei de uma rainha adorada a uma rainha odiada. Fui caçada feito uma bruxa, queriam me atirar na fogueira de qualquer jeito, só para terem o prazer de me verem queimar. Tolos. Mal sabiam que eu controlava o fogo, que desejavam me jogar.
Ao descobrir os planos de Alie, não pude deixar de ir conversar um pouco com ela.
Ela planejava me matar ao concluírem os planos de batalha contra Lúcifer e Elohim. Johnny não concordou com o plano dela; então ele mesmo foi colocado na lista de morte. Assim, o grande Oráculo poderia livrar-se do seu irmão e de seus sobrinhos com a minha ajuda, e ao matar a mim e a Johnny, poderia reinar soberana em todos os reinos, sendo superior a todos.
E pensar que eu pude me deixar enganar por alguém assim...
O plano ridículo não me incomodou, longe disso. O que me incomodou, de verdade, foi a confiança que depositei nela. As vezes que ela acalmou meu pranto e me deu colo, considerei-a uma mãe para mim. Seu jeito meigo e calmo era um disfarce para uma face horrorosa de um demônio. Máscaras eram tão comuns...
Fiz questão de arrancar com minhas próprias garras a sua máscara de boa moça. A ingênua ali era eu, não ela. Mas Alie estava erroneamente enganada se pensava que deixaria a sua farsa passar em branco.
No dia em que consegui ouvi-la dizer tudo, como uma confissão as sombras do Principado, foi o momento de esperar. Ouvi tudo e aguardei a hora certa de atacar. Não fui atrás Johnny, ele também era uma vítima dela.
Observei o salão se esvaziar e Alie ficar ali planejando sua grande vitória em cima dos aliados. Ela só havia contado e contorcido uma parte das coisas para o Johnny. Ele achava que ela queria que eu fosse um tipo de sacrifício para matar Lúcifer. De início, ele concordou com tudo, mas não era nada disso; ela só pretendia despistá-lo da verdade.
Agora eu aprendi. Não posso nem pensar em confiar em alguém, devo depositar toda a confiança em mim mesma, na minha parte humana.
Alie não se surpreendeu ao me ver ficar visível, achou tudo normal e ainda comentou:
— Está aprendendo mesmo com os livros. — sorriu gentilmente me analisando. — O que te aflige, menina?
Como sempre, ela vinha saber o que me incomodava para passar conforto. Um conforto falso. Sua mão vinha pegar uma mecha do cabelo, que estava caindo no meu rosto, segurei seu pulso antes de ela me alcançar.
— Calma, querida Alie... — meu tom de voz transbordava todo o ódio.
Olhou-me aflita, com certeza viu meus olhos mudarem de cor e as marcas reluzirem.
— Rainha, o que houve? — meio que gritou a pergunta.
— Cala a boca!
Dei uma bofetada do lado esquerdo do seu rosto. Pôs as mãos em concha sobre o local e ficou parada.
— Sua estúpida! Achou mesmo que conseguiria me matar? — dei dois passos e a peguei pelos longos cabelos loiros. — Esse reino é meu!
Fiquei descontrolada. Quebrei alguns vasos que estavam em cima de uma cômoda e as minhas asas, recém-recuperadas, arrebentaram o espartilho e abriram majestosas. A força a jogou no chão.
— Não é nada disso, rainha. — ela agarrou a barra do meu vestido implorando. — Deixe-me explicar!
Johnny entrou e veio correndo me conter, pegou meus braços e os juntou entre nós dois.
— O que você está fazendo? — o grito ecoou pela sala. Sacudi meus braços me livrando dele e fui para longe.
— Conta para ele! — gritei mais alto ainda. — Conta que você quer matar a mim e a ele! Vá em frente, sua imunda!
Corri e chutei seu rosto o mais forte que pude, ouvi os ossos estalarem e peguei as minhas adagas. Johnny nos olhava nervoso.
— Vocês não merecem o reino! — finalmente ela mostrou sua verdadeira face. A cabeça estava ao contrário e os olhos completamente brancos. A voz meio robótica.
— Isso, mostre quem você é, seu monstro. — fiz uma pausa vendo seu corpo rastejar pelo piso. — Johnny, ela está planejando nos matar logo após conseguirmos tomar o reinado do seu pai. Ela quer ficar com o trono. Ela é uma traidora!
Meu grito pareceu zumbir nos ouvidos dele. Pôs as mãos os tampando e Alie aproveitou o momento para atacá-lo. Vi a cena acontecer lentamente, mas meu corpo não se moveu do lugar. Ela retirou uma adaga das costas e colocou no pescoço dele, que ficou imóvel me olhando em súplica.
— Dê um passo e você perderá o seu amado, rainha.
Evitei agir pela emoção e busquei o demônio. Gritei por ele, chamei e ele me ouviu. Cada vez que ele vinha, trazia mais força. Senti a corrente de energia percorrer meus braços, olhei para cima e ela viu meus olhos. Estavam vermelhos, podia sentir.
Ela apertou a adaga contra Johnny e um filete de sangue escorreu. Fiquei parada reunindo a força necessária para matá-la da forma mais simples possível. Não podia deixar que ela o machucasse.
Fechei as mãos e senti meu corpo brilhar. Uma luz negra me fez trancar os olhos rapidamente e ouvi os gemidos de Alie. Usei toda concentração para impedir que a luz atingisse Johnny. Ela soltou um urro seco e ele suspirou forte. Abri os olhos e corri para pegá-lo.
Uma gosma escura saia do corpo caído de Alie. Estava morta, completamente inerte.
Ajudei Johnny a levantar e o abracei, ele me prendeu com uma força absurda nos seus braços. O sangue ainda escorria do pequeno corte no pescoço. Ele me soltou e segurou meus ombros, seus olhos me fitaram angustiado e me beijou. Passei minha mão pela sua nuca e sussurrei entre o beijo que o amava. Ele sussurrou de volta:
— Vai ficar tudo bem. Vou te proteger.
Suas palavras eram capazes de cessar toda a ira. Mesmo que nosso elo tenha ficado fraco, ele conseguiu me abalar. Éramos dois demônios que se odiavam e dois humanos que se amavam. Mas mesmo que o demônio viesse a tona, eu o protegeria do mesmo modo que ele faria comigo...
Fale com o autor