O Segundo Reino
13 XIII - Recuperação
Notas iniciais
Despertei em um quarto estranho, olhei para o lado e vi um vaso com algumas rosas negras, estavam murchas... Tentei levantar, mas uma dor lancinante me fez ficar parada, a dor vinha das minhas costas, só então, me lembrei de ter perdido uma asa.
O quarto era enorme, lençóis negros cobriam a cama e outros me cobriam. O piso era coberto por um tapete e havia poltronas e vários livros em duas escrivaninhas. Uma janela ficava ao lado da cama, como no meu quarto. O vento soprava sobre as rosas, mas o aroma não era tão forte como antes, elas estavam morrendo...
A batalha com o escolhido me deixou com marcas profundas, principalmente, no meu interior. Pela primeira vez, lutei inteiramente pela minha sobrevivência. Foi difícil ter que entender que o Johnny tinha que me abandonar, mas, eu poderia estar morta e ele, nada poderia fazer. Como o amor dele pode ser tão fraco a ponto de me deixar só?
Uma mágoa crescia no meu peito, sabia que tinha que entendê-lo, porém, como ignorar o fato de ele ter me abandonado à morte? Mágoa e tristeza brotavam dentro de mim, me enfraquecendo e matando cada pontinho de esperança.
Fechei os olhos e chamei seu nome. Senti sua presença aproximar-se, ficar mais forte, e o frio vinha com ele, a dor cessava com ele... Avistei seu olhar comedido me analisar sorrateiramente.
— Não me analise. — falei virando o rosto com um pouco de esforço.
— Não estou. — senti sua presença ao meu lado.
O olhei ligeiramente. Ele estava sentado na ponta da cama, a ponta de seus dedos deslizavam pela minha perna desnuda. Sentir o seu toque foi como voltar aos tempos de observar o sol, quente e perigoso, porém, atraente e sedutor. Minha boca quase formava um sorriso torto pela sensação do contato com ele, mas logo voltei a mim e retirei a perna para o lado, deixando sua mão no vazio da cama.
— Está se sentindo bem? — chegou mais perto, pegou uma mecha do meu cabelo partido, preto e só, as pontas vermelhas foram arrancadas pelo gume da espada.
— Bem como alguém que acaba de presenciar a morte novamente...
Minha voz transparecia toda a fragilidade em que me encontrava. Sempre guardei rancor das coisas mais bobas e não seria diferente. Não mudaria só porque ele diz me amar. O que ele fez não foi bobo...
— Eu amo você, Haven. — o observei confusa. — Seus pensamentos... Posso alcançá-los.
Estava tão fraca que mal conseguia fazer a barreira dos pensamentos. Suspirei cansada e apontei para as rosas.
— Por que estão murchas?
— Porque você está se recuperando e as rosas vivem de acordo com a sua essência. — sorriu torto prendendo minha mão na sua. — Elas são parte de você...
Senti o aroma aumentar e sorri. Era incrível...
— O aroma. — ele acenou com a cabeça e deitou ao meu lado. — Pude te sentir através delas. Pude saber tudo sobre a batalha por elas.
— Por que não foi me ajudar? — contorci meus lábios.
— Não podia.
Abri a boca para falar, mas as palavras fugiram para longe, tão longe que me sufocaram. Tentei levantar e cai no chão. Soltei um gemido e ele me puxou, me pôs no seu colo e me deitou de volta na cama.
— Você vai ficar bem, só precisa descansar e vai se recuperar. — colou seus lábios junto aos meus por segundos tão curtos que me fizeram querer mais.
Tinha medo, tinha raiva, mas o queria perto, queria cuidados, queria carinho... Sabia que ele podia ouvir meus pensamentos, sabia. Mas sentia que ele não podia ficar, não agora.
— É, não posso. — sua mão percorria o meu maxilar. — Tenho que continuar em reunião com o Principado. Você sabe, precisamos vencer a guerra.
Assenti e fechei os olhos. Ele me deu mais um beijo e se foi.
"Se eu morrer, as rosas também morrem."
Só conseguia pensar no fato de que minha alma poderia estar naquelas rosas. Coisa sem importância agora, mas que me fez ficar horas pensando no porquê de Johnny escolher as rosas...
Recebi uma visita inesperada naquele dia. Ulric bateu à porta do quarto três vezes, com batidas ocas na madeira. Sem ter como mandar entrar ou ir até lá, apenas me calei e esperei-o entrar. Já sabia que era ele, conhecia a sua presença desde que ele passou a me treinar, após a coroação.
— Haven. — sorriu fazendo uma reverência com a mão.
— Ulric. — o imitei cordialmente. — O que te traz aqui?
Ele se jogou em uma das poltronas e observava suas tatuagens, sem pressa de me responder, já que eu não podia fazer nada mesmo, fiquei a esperar. Alguns minutos depois, ele saiu do transe e disse:
— Vim me certificar que a arma dos reinos está bem. — ri com o seu deboche. — Parece que sofreu um pouco em batalha, não?
— Sim, como um pássaro que só sabia voar e ficou sem uma das asas.
Ulric me pareceu ser uma boa pessoa, sempre demonstrava preocupação com todos e isso me encantava. Confiava nele quase como confiava no Johnny, mas ele não. Johnny só confiou o meu treinamento a Ulric porque já tinha experiência suficiente com os novatos e poderia me transformar em uma boa guerreira. Como, de fato, o fez.
— Esse foi só o início. — fez uma pausa olhando os próprios sapatos. — Imagine quando formos enfrentar o exército de papai...
Ah, Lúcifer... Quase consegui ficar sem lembrar de sua existência. O soberano matava o quanto podia no meio da guerra, no plano terreno. Tropas de sombras iam com ele, matando e matando toda alma vivente. O Armagedom só daria início quando humano nenhum respirasse na Terra, aí sim, todos os anjos celestes e sombras estariam completas e prontas para a verdadeira guerra.
A verdadeira guerra, onde eu sou a arma principal. Não sei como seria útil, mas sentia que estava cada dia mais perto de descobrir e isso me assustava estrondosamente...
— Prepare-se, rainha. — Ulric veio até mim e beijou a minha mão. — A guerra logo começará.
Sorri para ele tentando passar a confiança de que eu estaria pronta, ele pareceu cair e se foi... Logo começaria. Precisava das minhas asas inteiras o quanto antes, queria voar até as fronteiras desse reino e desvendar todos os mistérios que Johnny e Alie me escondem. O amor está abaixo da confiança nesse reino.
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