O Segundo Reino
10 X - Face do Demônio
Notas iniciais
A Terra estava um caos sem dimensão. Os humanos só queriam guerra, desejavam matar, não importava se era um estranho ou o próprio filho. Estavam sem luz para clarear suas mentes, o mal tomava conta de todo o lugar; nem os bons restaram, foram mortos ou partiram para a maldade...
Não sabia dizer, ao certo, como tudo começou. Eles não brigavam por causa dos países, sabiam que tinha algo maior por trás. Alguém maior... Lúcifer.
Foi chocante ver o tumulto. Crianças choravam sozinhas, após se verem perdidas dos pais, no meio de destroços. Cidades destruídas, aniquiladas...
Kaleo ia matando as crianças. Eles não podiam nos ver, voávamos acima de suas cabeças, as mesmas que Kaleo decepava sem piedade...
— Por que está com essa cara? — mirava-me impaciente. — Não me diga que tem pena dessas pragas!
— Não tenho.
Meu tom severo não foi o bastante para satisfazê-lo.
— Venha, pegue a adaga e decepe a cabeça desse mortal. — disse apontando para uma pobre garota, ela parecia nos ver, seus olhinhos castanhos brilhavam olhando para as nossas asas e seu choro cessava aos poucos. — Mate-a!
Fiquei em pé ao seu lado e peguei a adaga, fechei os olhos buscando o demônio dentro de mim. Senti minhas marcas arderem e em fração de segundos a cabeça da garotinha estava a alguns metros do seu corpo pequeno. Nenhum resquício de remorso passou, sorri olhando para o homem ao meu lado.
— Muito bem. — sorriu cinicamente e continuou: — Cheguei a pensar que teria que levar a sua cabeça para o Johnny.
Bati as asas e fiquei olhando a cidade dizimada, do alto. Matamos todas as outras criancinhas que vimos e sentimos. Fomos para mais cidades e continuamos matando.
A morte era a fuga para muitos. Admirava aqueles que se matavam, eram os mais corajosos. Sabiam para onde iriam, mas, mesmo assim, preferiam morrer pelas próprias mãos... Vimos um casal de jovens matar um ao outro em busca da redenção. Matar por amor... Pobres tolos. Pensavam que seriam mais felizes desistindo das vidas e indo direto para o Inferno!
— Esses vão lidar direto com o Naum. — soltou uma risada os observando sangrar. — Deram sorte...
Os humanos faziam a escolha na hora da morte. Escolhiam para que reinos iriam mesmo sem saber de nada.
— Quem vai para o primeiro reino? — questionei. Sempre tive essa curiosidade.
— Aqueles que foram tão ruins na Terra que se tornaram demônios.
— Tipo Hitler? — ri debochando.
— Sim, ele é da nossa ordem.
Não foi nenhuma surpresa descobrir aquilo. Como alguém mataria milhões de pessoas e não se tornaria um demônio? Só esperava não conhecê-lo tão cedo.
Lutamos com dois anjos celestes que tentavam proteger as pessoas escondendo-as em refúgios, porém, nós conseguimos derrotá-los. Eram fracos, o Céu estava poupando os seus melhores guerreiros.
♦
Os segredos de todos os reinos eram revelados dia após dia e o plano de Johnny estava sendo arquitetado por todos do Principado dos Demônios, uma ordem de sombras que se aliaram contra Lúcifer, não aguentando mais a tirania do rei e querendo um novo. Johnny teve sorte de ter tantos aliados, mas não era nem a metade do que precisávamos para a batalha do trono. Ele estudava minuciosamente cada irmão em busca de uma resposta, se poderia ou não contar com algum deles. Logo alguns se fizeram aliados...
Allie era uma das líderes do Principado e desejava com todas as forças pôr um fim no reinado da estrela da manhã. Ela ajudava em todos os planos e guiava-nos com maestria pelos labirintos de confrontos que logo viriam a tona.
Johnny ficou mais próximo e passávamos horas conversando, ele me elogiava e era gentil... Algumas vezes se irritava sem motivo e me empurrava, sumia, passava dias sem ir me ver. Mas voltava dizendo que me amava e que aquilo era para me proteger dele.
— Eu não quero que você me veja com a face do demônio! — ele gritava irritadiço.
— Não me importaria em vê-lo assim! — eu dizia tentando me aproximar.
— Você nunca me viu, de fato, transformado. — empurrava-me mantendo o máximo de distância. — Não quero te machucar...
Custava a entender do que tanto ele queria me proteger... Era difícil conviver com os seus sumiços.
Para onde ele iria?
Teria um lugar fixo para ir?
A brisa gelada que entrava pela janela me fez arrepiar, passei meus braços em volta do corpo. Ele estava de costas procurando um livro em uma das muitas prateleiras, o clima ainda estava tenso...
— Esse livro é raro, foi feito por um dos arcanjos. — ele dizia passando a mão pela capa escarlate do grosso livro. — São previsões do apocalipse.
Ele me entregou o grande livro, o segurei com as duas mãos e ansiava abri-lo, porém, ele me impediu.
— Não, agora não. — pousou suas mãos sobre as minhas e sorriu. — Está sentindo a energia? Tem muito poder.
Poder. Não gostava do som dessa palavra saindo de seus lábios, me sentia mal, receosa... O poder que ele tinha já bastava para destruir tudo. Doía pensar nele assim, como um verdadeiro monstro. Não suportaria ver a face do demônio surgir...
Penso que entendi quando ele me repreendia expondo seus motivos por fugir. Eu realmente não sabia como reagiria o vendo naquele estado. Era deplorável... Uma verdadeira aberração.
— Johnny... — ele me fitou com seus olhos mudando de brancos, vermelhos e negros. Sua pele clareava mais e marcas apareciam em seu rosto, como tatuagens com nomes em hebraico.
Dei alguns passos para trás e ele escondeu a face com o livro. Suas asas abriram e ele jogou o livro para mim e saiu pelas janelas de vidro, as quebrando. Corri para ver se ele havia se machucado, mas só o vi sumir floresta a dentro.
Agarrei o livro sentando na poltrona, fiquei abraçada com ele por longos minutos vendo aquele rosto passar e repassar na minha cabeça. Agora conseguia entender... Como fui estúpida! Ele tinha razão em querer me proteger. Ele não me reconheceria com aquele olhar ambicioso, horrível...
Lágrimas abriram passagem pelo meu rosto inexpressivo, deslizando e caindo sobre o livro no meu colo. As primeiras lágrimas como demônio... A vontade de sumir reapareceu e eu me debrucei deixando toda dor ir embora...
Alie entrou na biblioteca e aproximou-se passando a mão com carinho pelos meus cabelos. Ficou ali parada esperando eu tomar voz de algo, mas não o fiz.
— Calma, menina. — ela levantou meu rosto e prosseguiu: — Não o culpe, ele tentou se esconder, mas mais cedo ou mais tarde você veria.
— Eu sei... — resmunguei baixinho.
— Eu também sou assim e você também é, não esqueça. — me aterrorizou pensar que eu fico assim quando sinto meus olhos mudarem de cor.
Respirei fundo e comecei a chorar novamente. Alie abaixou-se e me abraçou, me aninhei nos seus braços e chorei com o apoio da mãe que eu nunca tive. Agradeci silenciosamente e ela beijou o topo da minha cabeça.
— Oráculos também servem para essas coisas...
Ah, como fui triste naqueles dias... Ele só retornou uma semana depois. O abracei o mais forte que pude quando o vi chegar. O beijei rapidamente e sussurrei que estava tudo bem, ele se ajustou a curva do meu pescoço e ficamos ouvindo nossas respirações frenéticas por um tempo que pareceu infinito...
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