O Segundo Reino
11 XI - O Escolhido
Notas iniciais
A guerra destruía tudo que estava no seu caminho. Já não existia dinheiro que pudesse comprar alguns meses de vida. Doenças, bombas, mortes e mais mortes nos campos de batalhas... O fim da humanidade era eminente. Não sobraria ninguém para contar como foi a Terceira Guerra Mundial.
Mas, ao contrário do que todos pensavam, existia uma pessoa...
Do mesmo modo que eu fui escolhida por um demônio, existia alguém que foi escolhido por um anjo. Ainda não sabíamos quem era, mas estávamos procurando incessantemente. A profecia não podia se cumprir, nenhum escolhido salvaria a Terra, nós não poderíamos permitir.
Eu fui a primeira a descobrir sobre essa tal profecia. Estava no livro sobre o apocalipse, que Johnny havia me dado. Não sabíamos se era uma criança ou um idoso, não sabíamos nada. Mas assim como eu, o ser era um prometido dos reinos do Céu, então tomávamos muito cuidado ao procurá-lo.
Logo, todos os reinos inferiores ficaram sabendo da notícia e deu-se início a caçada. Tropas de sombras iam, diariamente, a Terra, buscando nas cidades e vilarejos, mas ninguém conseguia sentir a presença da praga...
Após a minha descoberta, o castelo e todo o reino ficaram com uma máscara de tensão constante. Se a tal profecia se cumprisse, acabaria os nossos planos de derrotar Lúcifer... Johnny estava cegamente distante, passava horas trancado na biblioteca. Cheguei a questioná-lo:
— O que tanto faz na biblioteca?
— Treino. Preciso aperfeiçoar meus poderes. — estávamos sentados em um banco no pátio. Sua mão traçava caminhos pelo meu braço. — Você também precisa treinar.
— Como? — perguntei olhando os corvos voando acima das árvores da floresta.
Apreciava o toque dos seus dedos na minha pele.
— Vou te dar os livros necessários. — ele chegou mais perto depositando um beijo no topo da minha cabeça. — Preciso ir na Terra agora, voltarei em breve.
Ele tinha uma mania, muito irritante, de desaparecer antes que eu pudesse perguntar algo. Simplesmente evaporava no ar.
Fiquei tentando descobrir o que ele tinha que fazer no plano terreno, mas pelo que pude perceber, ele não me contaria... Resolvi ir na floresta ver como as coisas estavam. Foi a primeira vez que pisei naquele lugar após me estabelecer no reino.
Logo ao dar alguns passos, pude ver que o interior não era mais tão escuro, dava para enxergar nitidamente. Acho que esse era mais um privilegio dos demônios. Sombras gritavam a todo instante, mas não as avistava em lugar algum.
Ao caminhar mais um pouco, senti alguém puxar a barra do meu vestido, virei sacando a adaga e vi a sombra de uma criança me olhando.
— Quem tu és? — questionei vendo a silhueta de um rosto sorrir maliciosamente.
— Não sei, rainha. — então sabia quem eu era? Bom.
Decidi ignorá-la e voltar ao castelo, passei por ela e senti seus movimentos antes do ataque, planejava me morder. Virei enfiando a adaga na garganta da sombra e ela desapareceu.
Foi um terrível erro entrar naquele lugar sozinha. Corri para o castelo o mais rápido que pude e me tranquei no quarto. Esperei inconscientemente Johnny voltar para poder me acalmar, o encontro com a criatura medonha me deixou estupefata...
O vi subindo as escadarias calmamente, a passos curtos. Corri para as portas do castelo e o esperei. Apressou o passo ao me ver no topo e perguntou:
— O que aconteceu? — segurei a sua mão e o puxei esperando um abraço, mas ele não o fez.
— Me abraça, Johnny...
Sua expressão admirada se transformou em um misto de dor e preocupação, ele me prendeu em seus braços em um forte abraço, não me soltou para me olhar novamente. Passou as mãos pelo meu rosto e voltou a perguntar:
— O que aconteceu, Haven?
— Eu vi uma criança na floresta... — mal pude declarar todas as palavras.
— Você foi na floresta? — ele gritou e me puxou para a biblioteca. — Eu te disse para não ir lá!
— Eu sei, desculpa... — me soltei do seu braço, que já me machucava. — A criança tentou me morder. Cheguei a pensar que fosse uma sombra, mas ao lembrar da cena, percebi que não era...
— As crianças não vêm para esse reino, elas ficam com o Caled, na Ordem da Imortalidade. — sua boca se contorcia de raiva. — Não há como uma ter chegado até aqui.
Fui para a janela, que já haviam consertado, e fiquei observando a floresta. Mantive-me em silêncio, aguardando uma resposta, mas Johnny também permaneceu calado, refletindo...
— Só pode ser uma coisa... — virei para olhá-lo. — Era o escolhido dos reinos celestes.
Por que ele estaria aqui? Por que eu encontrei ele? Fiquei tonta e Johnny veio para o meu lado, me apoiando. Retirou um frasco com um líquido vermelho do bolso e me entregou.
— Beba. — disse destampando o frasco.
— O que é isso? — minha voz já falhava...
— O que sobrou do Greg. — sorriu para mim e eu bebi todo o sangue. — Decidi matá-lo.
Agora eu não tinha mais ninguém no plano terreno. Minha família foi aniquilada e meu irmãozinho não escapou de ir junto. Senti-me melhor ao tomar o seu sangue, mas logo veio uma reação contrária, minha garganta começou a arder, fechando. Johnny me colocou no colo e me carregou até o quarto. Deitou-me na cama calmamente e sentou pondo minha cabeça em seu colo. O olhava sem entender, tentava falar, mas aquela agonia na garganta não me deixava pronunciar nada. Implorava, mentalmente, por um remédio que cessasse a dor, mas ele ignorava, me embalando nos seus braços.
Cerrei os olhos querendo sair dali, no entanto, não sai do lugar, meu desespero crescia e nada mudava. Consegui levantar meu braço e tocar seu rosto e então, ele disse:
— Calma, vai te fortalecer... — alisava meu cabelo e eu buscava palavras e mais palavras... Queria gritar.
Então, ele deitou ao meu lado me envolvendo com os braços e começou a cantar uma melodia em uma língua estranha, era incrivelmente calmante... Comecei a sentir a dor indo embora, me deixando respirar normalmente, mas ainda não conseguia falar. Ele continuava a cantar e eu fechei os olhos.
— O escolhido tentará te matar... — a surpresa foi tanta que soltei um rugido. — Não tenha medo, eu te protegerei.
O olhei e vi as tatuagens no seu rosto aparecerem e desaparecerem rapidamente, estremeci e funguei contendo o ímpeto de sair de perto dele. Não me sentia mais tão segura próxima a ele, minha cabeça estava uma confusão. Retirei suas mãos de cima de mim e fugi, corri pelos corredores e abri as asas voando para a floresta.
Não voltaria tão cedo...
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