O Segundo Reino
4 IV - Revelações
Notas iniciais
As batalhas sempre aconteciam na floresta; enquanto isso, o castelo ficava trancado. Eu tinha que ficar no quarto, duas sombras ficavam de guarda protegendo a porta. E hoje, pela primeira vez, pude ouvir um anjo celeste se aproximar, ele gritava a cada ataque e o tilintar das espadas era intenso do lado de fora.
Estava começando a temer aquela demora para o fim da batalha, então fechei os olhos tentando enviar alguma mensagem de ajuda para Johnny. Não sei se me ouviu, mas segundos depois ele chegou para matar o anjo, soube que era ele no momento em que o celeste urrou e o som oco de um corpo jogado no chão pôde ser ouvido.
"Não tenha medo, estou aqui."
Uma onda de paz veio junto daquela frase. Minha vontade era sair e abraçá-lo, porém, sentia que ele já havia voltado para a batalha. Era difícil saber que tudo aquilo se dava pela minha presença, não queria que ninguém morresse por minha causa, nem mesmo as sombras. Ficava pensando se Johnny era tão poderoso a ponto de conseguir vencer todos os dias e quanto tempo mais duraria aquilo tudo...
Olhava pela janela, quando vi algo voar acima das árvores. A medida em que se aproximava, vi que era ele, o Johnny. Asas negras saíam das suas costas desnudas, mal pude acreditar. Era magnífico! Fiquei encantada com o brilho das penas... Me lembrei das cicatrizes em suas costas e deduzi serem as suas asas escondidas. Havia tanto a descobrir neste lugar...
Alie abriu a porta, me fazendo despertar dos devaneios.
— Acabou. — ela sentou na cama e ficou me observando por alguns segundos. — Cuidado, menina. Ele não é o que parece ser, não se iluda.
— Como assim, Alie? — a olhei séria, esperando uma resposta.
— Ele é um monstro! Não sabe amar, então não o ame. Evite ter mais sofrimento... — ela disse tirando um pano do bolso do vestido. — Venha, vou limpar as marcas.
— A senhora sabe o que são essas marcas? — virei começando a tirar as amarras do espartilho.
— Marcas da promessa.
— Que promessa? — agarrei os lençóis da cama quando ela passou o pano sobre as feridas, ardia.
— Sua mãe estava grávida de você quando tudo aconteceu. — ela fez uma pausa passando o pano com mais força nas minhas costas. — Seu pai tinha envolvimento com as sombras e fez um elo com elas muito antes de se casar com a sua mãe. O trato era que no momento que ele conseguisse o que queria, tinha de dar seu primogênito, mas ele se negou e as sombras o perseguiram até ele refazer o elo prometendo não o primogênito, mas sim, você.
Ouvia tudo com o estômago revirando de tanta raiva.
— O que ele tanto queria? — quase não consegui pronunciar a frase por causa dos dentes cerrados de dor.
— Dinheiro, querida... Os terrenos são capazes de tudo por dinheiro. — concordei com a cabeça. — Mas não ligue com isso, o rei deve agir em breve em relação a eles.
— Agir? — virei para enxergar seus olhos, mas ela olhava para baixo.
— Já falei muito, princesa. A propósito, está pronta para a coroação? — ela sorriu animada.
— Não sei... É tudo muito confuso ainda, sabe? — levantei olhando para fora. — Eu não fiz nada para estar aqui e, mesmo assim, não tenho a mínima escolha.
— Você fez, menina. — disse ela ao levantar. — Você nasceu...
Fiquei calada observando-a sumir ao atravessar a porta. Ela tinha razão, tudo que eu fiz foi nascer... Mas agora não importa, vou aceitar o meu destino, seja ele qual for. Preciso mais do que nunca me vingar. O ódio toma conta do meu corpo lentamente, como um veneno se alastrando e me matando. Matando cada pedacinho bom...
O dia da coroação estava chegando e eu não fazia ideia do que isso significava. Não sabia o que devia fazer, só sabia que ia ser coroada como rainha, mas tinha certeza que esse dia não me guardava apenas uma coroa na cabeça e fim. Algo maior aconteceria nesse dia e eu ansiava descobrir o que era o mais rápido possível. Cheguei a me esconder e ouvir a conversa de Johnny com algumas sombras, porém ele me via e ria descaradamente da minha falta de habilidade em espionar...
— Preciso te ensinar melhor como se espiona alguém, não é? — ele sorria satisfeito ao me ver emburrada e me mandava para o quarto. Mas isso nos primeiros dias, depois passou a me dar tapas e socos a cada vez que me pegava tentando ouvir algo.
— O que tanto quer descobrir?
Lutava para pensar na coisa mais vazia e tola para despistá-lo, mas algo me dizia que ele sabia perfeitamente, me esbofeteava por pura diversão e isso doía tanto...
Fazia de tudo para agradá-lo, para ter sua atenção... Ele me retribuía sendo o ser mais estúpido possível. Uma vez ou outra, me abraçava e pedia para que eu ficasse longe, alisava meus cabelos e me deixava ver as suas asas... Uma vez eu disse:
— Parecem asas de anjo...
Foi um dos piores erros que cometi. Ele virou e me segurou pelos ombros, seus olhos estavam completamente tomados por uma coloração preta e ele me mordeu, arrancando um pedaço de carne abaixo da minha clavícula. Comeu o pedaço de carne na minha frente e sumiu. Passei dois dias na cama, Alie cuidava do ferimento e ele não foi me ver esses dias...
Aprendi a não falar nada que fizesse a mínima referência a Elohim e ao Céu. Entendi que, como demônio, ele os odiava e eu deveria fazer o mesmo para o meu próprio bem...
Ficava mais segura de mim e, às vezes, até achava que ele tinha algum sentimento por mim, mas lembrava dos conselhos de Alie... Ela era a única que parecia se importar com o meu bem-estar no castelo e isso me trouxe perguntas sobre ela. Tentava descobrir porquê era normal como eu e o Johnny, não era uma sombra. Parecia tão humana...
— O que você é? — a questionei.
— Sou o espírito do Oráculo de todos os reinos. Venho da descendência da estrela da manhã, Lúcifer... Digamos que sou meio que uma irmã dele. — riu ao falar e eu só acenava com a cabeça. — Vivo aqui porque o Johnny é o meu favorito.
— Favorito? — quase ri ao pensar nele como o favorito de uma senhora tão boa.
— Se conhecesse os outros irmãos dele você entenderia, menina... — assenti imaginando o quanto eles deveriam ser cruéis... — Descanse.
Algo me dizia que logo conheceria todos eles e isso não seria nada bom...
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