O Segundo Reino
3 III - Lembranças
Notas iniciais
"A divisão entre luz e trevas só parece maniqueísta às pessoas que não conhecem o verdadeiro significado da luz e da treva." — Lenora
O ritual se repetiu noite após noite. Johnny vinha até o meu quarto, contava histórias e, antes de sair, cravava a mesma adaga dourada no meu corpo. As feridas iam cicatrizando com uma velocidade anormal, formando vários símbolos e mensagens em hebraico. Tantos que já nem cabiam mais nas minhas costas.
Os sete reinos.
Não conhecia nada sobre essa parte da história, mas com o tempo Johnny me explicou que no Céu e no Inferno existem reinos governados pelos filhos de Lúcifer e pelos arcanjos de Elohim, que devem proteger suas terras a todo custo. A floresta era o segundo reino inferior, governada por ele, o demônio mais forte abaixo de Lúcifer.
A sineta tocava constantemente para avisar aos exércitos de sombras que estava na hora das batalhas contra os anjos celestes, que vinham ao Inferno Florestal a minha procura. Elohim tentava me salvar, mas Lúcifer já tomava partido da situação e eu era a protegida dos reinos inferiores.
As sombras me chamavam de Selo e me idolatravam, algumas delas me contavam as histórias de quando viviam no mundo terreno, outras tentavam arrancar pedaços da minha carne, mas Johnny sempre me alertava do perigo e eu acabava as punindo sem ao menos querer. Elas tinham uma aparência medonha, eram deformadas e todas parecidas umas com as outras.
Com o passar dos dias, comecei a perceber que o temperamento de Johnny era cada vez mais estranho. Olhava-me com ternura e segundos depois, seus olhos vibravam de ódio. Ele era uma incógnita e eu estava completamente disposta a resolvê-la. Às vezes, me odiava por querer estar perto e tentava fugir, mas ele aparecia e me lembrava o porquê de eu estar ali.
O tempo ia passando e eu estava ficando muito diferente do que era antes. Usava os vestidos brancos que Alie me dava, nunca mais vesti outra cor além do branco. A cor dos meus olhos estava mais escura e, certa vez, ao me olhar no reflexo d'água, os vi totalmente negros. Ainda me assustava, chorava e implorava por clemência nas noites em que meus maiores medos vinham me assombrar. Uma sede de matar a minha velha família crescia dentro de mim, mesmo sem saber o resto da história do pacto... Questionava sobre quando ia saber de tudo, ele balançava a cabeça e dizia:
— Agora não.
Nunca mais chegou a me beijar como no dia em que foi me buscar no mundo terreno, nunca dormiu no mesmo quarto que eu e sempre me mantinha trancada à noite. Alie me dizia para não tentar sair por nada e eu obedecia com paciência...
Não comia e nem bebia. Alie me dizia que não era necessário, mas um dia Johnny me trouxe uma taça dourada e disse:
— Mel dos demônios, prove. — estendeu a taça na minha direção, esperando que eu segurasse, não consegui. Era sangue.
Não quis tomar, ele jogou o líquido no meu rosto e ameaçou me fazer tomar o meu próprio sangue; agora, todos os dias, tomo uma taça do sangue de alguém.
Ele passava o dia resolvendo assuntos do reino e eu quase nunca o avistava nesse período. Só assim, podia chamar aquele horário de dia, pois o clima nunca mudava, estava sempre frio e escuro. Às vezes, o via me observando das grades da janela, ele sorria e desaparecia rapidamente.
Um dia, estava no jardim do castelo e ouvi os mesmos uivos de quando estava na floresta, corri para dentro e perguntei a Alie o que eram.
— Lobos. É melhor não chegar perto, são pretensiosos e quase nunca recebem ordens de outro além do nosso senhor e do Ulric. — estava pensando se seriam da mesma espécie do que me atacou, quando ela retrucou: — São.
— O quê? — gritei assustada. A surpresa foi tanta que ignorei quem seria esse Ulric.
— São da mesma espécie do que te atacou na floresta. — minha respiração ficou curta, como ela sabia o que eu estava pensando? — Calma, menina. Todos podem fazer isso aqui se você não bloquear seus pensamentos. Achava que o rei já havia lhe ensinado.
— Não... — foi só o que consegui responder a ela.
Sai a procura do rei. Entrei na biblioteca e lá estava ele debruçado sobre a mesa, lendo um livro velho, seus cabelos estavam para frente tampando a sua testa, quase cheguei a rir com a cena. Ele levantou o olhar e não pareceu feliz em me ver lá.
— Quem te mandou vir aqui?
— Eu. — levantei o rosto o enfrentando, mas ele já não estava atrás da mesa.
— Vejo que está ficando corajosa me desafiando assim. — sua voz veio detrás de mim e quando pude perceber, uma adaga estava no meu pescoço. — Cuidado.
— Por que não me contou sobre o fato de todos saberem o que eu penso? — semicerrei os olhos e ele riu alto chegando mais perto ainda.
— Para te vigiar. Não posso te perder. — ele pegou uma mecha do meu cabelo e acariciou. — Elohim te quer.
— Deus? — ao ouvir a frase, me empurrou com as duas mãos e eu cai frente a uma das estantes de livros.
— Não ouse pronunciar esse nome aqui! — pôs as mãos nos bolsos do terno cinza e ficou me olhando furiosamente. — Vamos, levante-se. Quero relembrar algumas coisas.
Ele veio onde eu estava e estendeu a mão, a agarrei com força, levantando. Arrumei o vestido com a mão e sentei em uma poltrona que ele apontou.
— Lembra-se do Jhon? — Arregalei os olhos percebendo que até agora não havia tido tempo para pensar sobre isso. Meu amigo imaginário, John. — Você me chamava assim... Eu tentei cuidar de você o máximo possível. Quando seus pais te batiam, você tinha apenas dez anos e eu estava lá, lembra?
As lembranças me fizeram tombar, eram como flechadas no meu estômago.
— Eu... lembro. — ele pôs a mão em cima da minha e ficou calado, só se ouvia nossas respirações pesadas.
— Desculpe ter sumido, mas... você estava crescendo e logo acharia estranho ter um amigo imaginário, então eu tive que te deixar...
Seu olhar estava focado nas nossas mãos juntas e ele parecia estar profundamente triste.
— Tudo bem... — pus-me de pé e abri os braços indo abraçá-lo. Dessa vez, ele não negou, mas também não retribuiu. O envolvi o mais forte que pude, até sentir umas cicatrizes nas suas costas e o soltei. — O que são...
A sineta tocou e ele me deixou sozinha na biblioteca. Logo agora que eu estava tão perto de conhecê-lo melhor...
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