O Segundo Reino
2 II - Castelo das Sombras
Notas iniciais
A frente do castelo era tão alta e bela que, às vezes, chegava a me dar vertigens ao subir os degraus da escadaria. Escorregava nos musgos e esbarrava nas chamas das velas penduradas nos castiçais ao longo do caminho. Elas não apagavam com o frio, muito menos se moviam com a minha proximidade. Tudo ali tinha um toque de mistério e por mais assustador que fosse, eu estava atraída.
Agora, podia ver as marcas da floresta no meu corpo. O sangue seco grudado na minha pele coçava, meu vestido havia rasgado no busto. Me sentia exposta, mas precisava chegar até o topo. Meu corpo tremia tanto de frio, quanto de medo do que encontraria naquele castelo maldito.
Cheguei a parar algumas vezes no meio do percurso, e ao olhar uma das vezes para as grades das janelas de uma das torres, vi monstros se moverem. Me observavam curiosos. Quem seriam? Apressei o passo e cheguei frente a porta de madeira escura. Uma estátua da cabeça de um bode me olhava e eu sabia que havia alguém ali atrás, podia sentir... Permaneci olhando atentamente aqueles olhos de puro ódio e a porta abriu bruscamente revelando a silhueta de Johnny.
— É, você conseguiu. — quase sai rolando escada a baixo de susto, mas ele me segurou a tempo. Aproximou a cabeça perto de um corte no meu braço e inspirou. — Doce aroma... Entre. — segurei seu braço com mais força e aguardei o próximo passo. — Te dei uma grande ajuda, por isso está aqui, minha princesa.
Paralisei ao ver o interior do castelo. A decoração era simplesmente magnífica. Cada cantinho da sala tinha um vaso, um quadro, um tapete e móveis... Tons escuros por todos lados, mas devo confessar que havia mais luzes ali dentro do que lá fora, o que me reconfortava.
— Gostou? Logo você se acostuma. — os seus olhos estavam fixos nos meus e um sorriso brincava nos seus lábios, quase sorri ao vê-lo tão receptivo... — Suba, a Alie vai te ajudar a vestir algo melhor que esses trapos.
Ao completar a frase, puxou o resto do meu vestido, me deixando apenas com as roupas íntimas, no meio da sala.
— Droga! Por que você fez isso? — tentava me esconder com o que sobrou do pano.
— Cala a boca! — me encolhi mais e ele apontou para a escada em espiral ao lado de uma porta. Seus olhos faiscavam.
Subi rapidamente e corri pelos corredores esbarrando em prateleiras de livros ao longo do caminho. Não entendia como ele podia ser tão estúpido comigo, o que eu fiz para ser tão cruel? Ah, é mesmo, ele é um demônio... Meus pensamentos diminuíram quando senti uma mão fria segurando o meu pulso, virei e vi uma senhora loira de uns quarenta e poucos anos me olhando com ternura.
— Venha. — ela me puxou para um quarto. Era simples, só havia uma cama com lençóis brancos, uma cômoda minúscula e uma banheira ao lado. — Não tenha medo, sou a última pessoa que você deve temer neste lugar. — sua voz era suave e me passava uma segurança absurda. — Banhe-se e trarei suas vestes.
Deduzi que aquela era a tal Alie... Fiz como ela disse e me limpei o máximo que consegui. Pela primeira vez, senti como se aquele foi meu verdadeiro lugar, era a minha casa. Apesar dos machucados, do medo, do comportamento do Johnny e o absurdo de estar no inferno... Meus sentimentos estavam se encaixando. E se tudo que ele me disse fosse realmente verdade?
A mulher voltou com um vestido branco pendurado no braço, apontou para a toalha e me sequei. Ela me ajudou a colocar o espartilho e penteou meus longos cabelos.
— Como se chama? — eu já sabia, porém achei que já pudesse fazer perguntas a ela.
— Ainda é cedo, menina...
— Onde ele foi? — a curiosidade gritou dentro de mim e eu tive que perguntar. — Ele está aqui?
— Acho melhor não me meter. No tempo certo ele virá atrás de você. — ela disse e se dirigiu a porta. — Descase. Ele virá.
Pelo modo como ela falou não era nada bom ele vir, mas eu não sentia mais medo. Mesmo que negasse, podia sentir uma vontade de estar junto dele crescendo dentro de mim... Ele me enfeitiçou nos meus sonhos e agora é real!
Sentei na cama e olhei para fora pela janela. A floresta parecia calma dali e isso só me fez relaxar mais.
O que estava acontecendo comigo? Deveria estar tentando fugir, no entanto, queria ficar... Fiquei refletindo sobre os últimos acontecimentos por horas seguidas, nada mudava do lado de fora; sombras, escuro, era a mesma coisa. Deitei e fechei meus olhos. Logo depois, pude sentir uma mão passar no meu rosto vagarosamente e os abri rapidamente, era ele.
— Está bem? — acenei com a cabeça, ele parecia querer que eu estivesse realmente bem. — Chega para lá.
Fui para o lado na cama e ele deitou ao meu lado com um semblante preocupado.
— O que houve? — riu baixinho olhando para o teto e disse:
— Você se importa? — fiquei calada por longos minutos até perguntar o que tanto temia descobrir:
— Eu morri?
— Não, você só está no que no seu mundo chamam de coma. — coma...
— Eu posso acordar? — uma pergunta tão tola que mal tive tempo de consertá-la. Senti o peso da questão no seu olhar.
— Você quer acordar? — seus olhos estavam tristes e eu só queria abraçá-lo. Fiz menção de envolvê-lo com meus braços, mas ele os segurou e apertou.
— Não me machuca...
— Fique longe, Haven... — sinceramente, não entendia mais nada. — É o mais seguro a se fazer.
Ele ficou me encarando e eu tentava descobrir respostas dentro dos seus olhos. Estávamos nos estudando atentamente. Pouco depois, ele se pôs de pé, retirando uma adaga dourada do bolso da sua jaqueta, pediu para que eu virasse de costas, tirou as amarras do espartilho e rasgou a minha pele. Gritei o mais alto que pude e ele só disse:
— Vai passar...
Saiu me deixando com um símbolo marcado com sangue nas minhas costas. Aquilo ardeu por horas e mais horas e eu queimei em febre em cima da cama. Os lençóis já estavam tingidos de vermelho e nem mesmo Alie veio me ajudar...
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