O Segredo do Anjo
32 This Is Your Secret!
Notas iniciais
*Agatha On*
Depois daquele dia com o Rafael eu não me lembro de nada.
Eu sei que não morri. Sei também que cheguei bem perto da morte, mas Lucas me salvou e agora eu sei que ele está vivo. Tudo é escuro nesse lugar que eu estou. Não vejo nada, não sinto nada.
Acho que estou em um hospital nesse momento, mas não tenho como saber. Às vezes eu ouço a voz da minha mãe e do meu pai, mas não sei se é real.
A única coisa da qual eu tenho certeza é que Lucas está aqui comigo.
Era um dia ensolarado, ou fim do dia. Sim, era final do dia. O sol estava se pondo, se juntando lindamente com o mar na praia. Eu estava sentada em uma toalha rosa. E eu observava o mar.
As ondas quebravam perfeitamente, fazendo um desejo de surfar crescer no meu peito. Olhei ao redor, vendo uma barraca montada a uma distancia segura do mar e uma toalha estendida ao meu lado.
Um par de chinelos estava em cima da toalha, segurando-a para que o vento, agora forte, não a levasse pelos ares. Eu não estava sozinha, disso eu tinha certeza, mas quem estava comigo?
Me levantei e notei que estava de biquíni. Limpei meus pés, me aproximando da barraca e ouvindo os últimos acordes de Warrior da Demi Lovato (1) tocando, sempre achei essa musica muito bonita. Estava pensando nela quando começou a tocar The Only Exception da banda Paramore (2) e eu senti minha garganta se fechar...
Lucas havia sido minha única exceção e até onde eu sabia ele podia estar morto, mas então no refrão a música para de tocar e eu ouço uma voz linda cantando o refrão atrás de mim, eu me viro lentamente, já esperando encontrar aqueles lindos olhos verdes me olhando daquele jeito carinhoso que ele sempre me olha...
Mas antes que eu possa me virar completamente vejo uma flecha pelo canto do olho e ela estava vindo em minha direção e meu único reflexo foi tirar Lucas dali, então me joguei em cima dele, o derrubando.
– Que foi Agatha? – pergunta ele me olhando confuso.
– Tinha uma... – comecei a falar, mas então percebi que a flecha tinha simplesmente desaparecido – Flecha.
– Flecha? Do que você está falando? – perguntou ele se levantando do chão e me erguendo logo em seguida.
– Nada – falei achando aquilo estranho – Onde você estava?
– Surfando, é claro – respondeu ele. O olhei de lado. Algo estava errado em seu rosto.
Ele estava mais magro e conforme eu o olhava com atenção o vi seu rosto se modificando e seu corpo aumentando. Ele estava se transformando. Virei de costas pra ele e disparei em direção à água, mas quanto mais eu corria, mais longe a água parecia e mais a criatura se aproximava de mim.
Continuei correndo, mas então pisei em uma pedra e me desequilibrei, caindo no chão. Senti a criatura se aproximar devagar e então suas garras se transformaram em pés humanos e aos poucos a criatura se transformava em um anjo de asas negras.
Rafael.
Ele estava parado em minha frente e não tinha uma aparência muito boa. Seus cabelos claros lhe davam uma aparência terrivelmente assustadora e seus olhos escuros demonstravam um cansaço inevitável. Suas roupas estavam gastas e sua respiração acelerada. Sua aparência era deplorável e eu não aguentava olhar para ele por muito tempo.
– Olhe para mim Agatha – disse ele. Sua voz estava assustadoramente rouca. – Veja o que você fez comigo! Você me destruiu ao me negar. Você é um monstro tão terrível quanto eu. Você matou um anjo.
Sua voz me fez me sentir culpada, mas eu não sabia o que fazer. Sua voz repetia as palavras incontáveis vezes e então me lembrei de algo que minha mãe me disse em um sonho:
– Você é boa Agatha, acima de qualquer outra qualidade que você tenha você é boa. Você não faz o mal, é o bem que reina em seu coração. Não deixe que te convençam do contrário. Antes de tudo mantenha a cabeça erguida e o peito estufado, pois eu sei que ai dentro um coração belo e puro bate forte e saudável. Tenha fé minha guerreira e saiba que eu sempre vou estar contigo.
Isso tinha soado confuso para mim durante aquele sonho, mas agora fazia todo o sentido. Ela havia me protegido desde que eu nasci e por sua causa eu tinha a marca que impedia que monstros me pegassem de surpresa. Nesse momento sua marca estava apagada, sem brilho e isso a motivou a me erguer contra ele. Em um salto ela se colocou de pé e o olhou ameaçadoramente.
– Eu não tirei a vida de nenhum inocente, não tenho nada que me culpar por sua morte. Você teve o que mereceu, se jogou nesse caminho de trevas por sua própria vontade! Não me venha jogar a cara que eu sou o monstro aqui, por que de anjo você só tem o nome e a aparência. Por dentro você é o mais terrível dos demônios. Esse é o seu segredo! Ser um demônio na pele de um anjo.
Conforme as palavras saiam da minha boca o tempo mudava, aquele sol que se punha já não era mais visível no horizonte, a noite havia chagado mais rápido e o vento se agitava ao nosso redor. Percebi que Rafael não parecia tão temível quanto achei que ele fosse.
Seu rosto não demonstrava outra expressão senão medo. Medo de mim.
– Saia daqui Rafael! Você não é bem vindo em Santa Felicidade. – falei essas palavras com uma calma esplêndida, e vi o tempo se acalmando novamente. Seu corpo começou a se desintegrar enquanto ele estendia uma mão para me tocar e seu dedo esticado quase alcançou meu rosto, mas o vento o levou. E para bem longe, eu espero.
Olhei ao redor e percebi que aos poucos os elementos daquela praia se perdiam. As nuvens se dissolviam, a água ao longe era diminuída até sobrar apenas um ponto que logo foi engolido pela escuridão. A areia escorria do mesmo modo que na Arena e eu fui jogada contra uma parede enquanto as pedras, a barraca e tudo o mais desaparecia e a única coisa que sobrou foi um som ao fundo. Meus ouvidos a reconheceu. Era Lucas cantando I Miss You(3). E então meu corpo também sumiu e sobrou apenas a consciência de que alguém segurava a minha mão.
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