Notas iniciais
Nome do capítulo: Ela Era Um Anjo

*Narrador on*

Nick farejava o ar, à procura de Luz e de Lucas. Tinha certeza de que se achasse ela, o acharia. O anjo o acompanhava, voando alto e vendo o caminho. Nick conhecia a cidade tão bem quanto o irmão, mas diferente desse ele estava disposto a ajudar esses garotos. O que seu irmão estava fazendo era doentio, mas nem quando eram vivos Rafael era uma boa pessoa.

Eles viviam em Paris, na França. Não tinham esses nomes e seus hábitos eram diferentes. Ele tinha 10 anos e Rafael oito quando um lobisomem invadiu a casa onde moravam com seus pais. O lobo entrou quebrando os moveis e as decorações de sua mãe, ela pegou os filhos e correu para o porão, esperando que seu pai desse um jeito no lobo, mas ela já esperava por esse ataque. Ela sabia que o marido tinha dividas altas com aquele bando de lobisomem e com esse em especial. As crianças se encolheram ao ouvir os gritos do pai e os uivos do lobo. Até que seu pai ficou quieto.

Em um silencio profundo a mãe mandou que Nick protegesse seu irmão, e não abandonasse-o por nada nesse mundo e só saíssem de lá quando ela voltasse busca-los. Deu um beijo na testa de cada um e subiu as escadas. Os meninos ouviram os barulhos da luta e se encolheram em seu esconderijo. Passou um tempo e eles pararam de ouvir o barulho da luta, mas não se moveram. Continuaram escondidos.

O barulho das garras do lobo era ouvido, arranhando o piso de madeira polida. Sua respiração era ofegante, mas não cansada. Ele farejou e encontrou os meninos. Nick com seu instinto protetor mandou que Rafael esperasse e se jogou em cima do lobo, batendo e tentando machuca-lo. Se ele fosse alguns anos mais velho e mais forte teria conseguido matar o lobo, mas não era. O lobo lançou-o em uma parede e ele ouviu seus ossos estralarem. O lobo se aproximava dele quando ele sentiu sangue escorrer de sua perna. O lobo havia conseguido morder ele.

Nick sentia suas forças se esvaindo e o lobo chegava mais perto. E então os movimentos do lobo foram interrompidos por uma pedra, mirada para acertar a cabeça, mas danificando a pata dianteira. Nick se virou para o irmão. Ele tinha os olhos esbugalhados e então o que aconteceu em seguida ninguém saberia ao certo o que foi.

O lobo atacou o pequeno Rafael dilacerou seu corpo frágil, matando aquele que Nick deveria proteger com sua vida. Mas assim que percebeu que o menino estava morto o lobo ouviu a sirene da policia, sabia que estaria morto se os caçadores o pegassem. Por isso saiu correndo, deixando Nick no porão da casa que desmaiou minutos depois.

Os policiais o encontraram e levaram ele para o hospital da cidade. Com toda a sua família morta, Nick teve que ficar no orfanato. E ficou lá.

Ninguém adotou Nick. Ele não brincava com as outras crianças, quase não falava e quando o fazia era ríspido e frio. Mas não era de se esperar que fizesse diferente. Quando atingiu a maior idade, oito anos depois, Nick pode sair do orfanato. Encontrou um amigo de seu pai que era dono de uma loja. Se ofereceu para ajudar na limpeza da loja em troca de um lugar para morar. O mercador aceitou, conhecia a historia do menino e teria lhe arrumado um lugar para ficar mesmo que ele não lhe ajudasse.

Nick ajudava o mercador nos dias de semana e nos finais de semana saia para beber e esquecer a tragédia que viveu. Ele tinha pena de si mesmo e sabia que os outros também tinham. Ainda mais com o que lhe havia acontecido e que voltava há acontecer todo mês. Ele sentia seus ossos queimarem e se esticarem. Uma dor enorme tomava conta de cada célula de seu corpo e seus pensamentos ficavam nublados. Ele desmaiava e no outro dia acordava com uma dor de cabeça e nenhuma lembrança da noite anterior. E era nesses dias que ele bebia até se acabar.

De tanto sair para beber a dona do bar lhe ofereceu um emprego em troca das bebidas. E assim se passaram três anos e meio. Ele trabalhava durante o dia com o mercador, de noite ia para o bar e nos finais de semana bebia até desmaiar.

Naquele dia ele acordou diferente, mas logo voltou ao seu humor negro de sempre. Era o aniversario de Rafael. No ano passado ele havia tirado folga e assim como os outros anos bebia e fazia questão de se lembrar de que Rafael havia morrido por sua culpa. Se ele tivesse ouvido a mãe teriam conseguido escapar os dois com vida.

Como sempre pediu folga ao dono da loja, mas não foi beber. Ele saiu pelas ruas da cidade, perdido em suas memórias da infância quando chegou a frente ao ultimo lugar que queria ir.

A mansão de sua família. Uma cópia exata da casa onde mora Rafael em Santa Felicidade. Ele entrou na casa com um aperto no peito e viu a destruição que aquele maldito havia feito.

Ele estava agachado em uma poça de sangue, chorando a morte de sua família quando ouviu um barulho vindo do outro cômodo.

Pegou num pedaço de madeira que estava caído ao seu lado e se levantou com um ódio no olhar. Aproximou-se sorrateiramente do arco que dava passagem de um cômodo para outro e assim que sentiu o invasor mais próximo, entrou com tudo e acertou o objeto na cabeça do cara.

– Mas que… — começou o sujeito se virando. E ambos arregalaram os olhos. O homem parado a sua frente tinha os característicos olhos verdes da família Darway. Os dois sabiam quem era o outro, mas nenhum tinha coragem de falar. Nick reconheceria aquele rapaz mesmo que tivessem se passado 60 anos.

– Você… esta aqui?- perguntou Nick, não acreditando.

– Sim, eu estou aqui — respondeu Rafael com lagrimas nos olhos. Eles se abraçaram e Rafael contou sua historia.

Ele havia morrido na frente de Nick, mas Deus havia lhe dado outra chance. Agora ele era um anjo. Nick entendeu a historia e prometeu guardar segredo.

No decorrer do ano Nick parou de beber e se encontrava com o irmão todo final de semana. Rafa estava atrás do lobo que havia matado sua família e a cada informação nova corria contar a Nick, que estava cada vez mais animado com essa historia.

– Eu sinto, sinto mesmo que ele está perto de mim — disse Rafael enquanto Nick limpava uma mesa. Era uma quarta-feira de tarde e os casais apaixonados se misturavam com os bêbados e os que estavam interessados apenas na dona do bar. Era a primeira vez que Nick trabalhara à tarde no bar e Rafael havia decidido aparecer.

– Você disse isso mês passado, irmão — disse Nick Se fazendo de desinteressado, mas no fundo rindo da empolgação do irmão.

– Mas agora é serio! É como se ele estivesse de baixo do meu nariz e eu não pudesse ver. Eu vou acha-lo irmão e eu garanto que ele será morto.

Alguns dias se passaram e Nick sentia que estava chegando a noite em que ele desmaiava. Não havia contado isso a Rafael, era a primeira desde que haviam se encontrado.

Ele bebeu pela manhã e não conseguiu parar. Não foi trabalhar na loja e sentia que estava chegando a hora. Nick pegou uma garrafa de qualquer coisa no bar e saiu da cidade, não deixando rastros para Rafael o seguir. Era quase pôr-do-sol quando ele esvaziou a garrafa. Ele jogou a garrafa em qualquer canto e se sentou em um morro vendo o Sol desaparecer. A Lua chegava ao céu e ele começou a sentir as dores.

Elas estavam mais fracas por estarem sendo anestesiadas pelo álcool. Algo começou a queimar dentro dele e em um clarão de luz ele sentiu seu corpo todo mudar. Ele não era mais um homem e pela primeira vez estava consciente. Ele sentia que estava dividindo o corpo com uma fera, e foi quando ele olhou para baixo. Ele era um lobo, então tudo fez sentido.

Ele se sentiu feliz, como não se sentia há muito tempo. Decidiu correr, pelo simples prazer de sentir o vento no rosto. Ele correu e correu. Seu rabo balançava alegremente e ele corria. Sentiu-se cansado e parou.

Foi quando se lembrou de mais uma vez daquela tragédia e sentiu uma raiva dominar seu corpo. A fera que estava junto com o lobo tomou o controle e logo ele começou a correr por uma floresta escura. Ele estava procurando alguma coisa, quando viu uma cabana no meio da floresta. Farejou o ar e sentiu a presença se outro lobisomem.

Ele rosnou para o vulto escondido atrás da casa, que pensava que estava bem escondido. Logo o vulto saiu de seu esconderijo revelando-se um lobo maior do que Nick. Ele tinha a boca aberta e rosnava para Nick, mas ele não se intimidou e deixou a fera o dominar. Em segundos estava lutando com o outro lobo e estava ganhando.

Ele ouviu uma flecha passar bem perto da sua orelha e acertar o peito do outro lobo, matando-o no mesmo instante.

Nick olhou para trás e viu seu irmão. Ele tinha as asas arqueadas sobre o corpo e elas não estavam tão brancas quanto da primeira vez que Nick as viu. Elas tinham a cor acinzentada e um brilho negro que se perdia nas sobras das arvores. Ele carregava um arco prateado e uma aljava de flechas brilhantes. E tinha uma apontando em direção a Nick.

Nick sentiu a fera com raiva, mas tentou acalma-la. Disse que aquele era seu irmão e que não havia perigo nele. Foi a primeira vez que a fera falou com ele.

“Ele é a ameaça, mestre” disse a fera. Rafael tinha a flecha ainda apontada em sua direção. Ele sentiu o corpo todo vibrar, como um rosnado, que vinha de dentro do corpo do lobo.

“Então fuja” disse Nick e como se fosse uma ordem o lobo se moveu para o lado e saiu correndo. Ouviu uma flecha passar zunindo por seu ouvido, continuou correndo, até despistar o anjo. Se escondeu numa caverna e recuperou o folego.

Ficou na caverna até o dia amanhecer, quando o lobo o acordou e o obrigou a voltar para casa. Ele se destransformou e não foi tão doloroso. Entrou em seu quarto com uma dor de cabeça, se lembrando de tudo da noite anterior. Se desculpou com o dono da loja e seguiu para seu quarto. Planejava jogar o casaco em qualquer lugar e se jogar embaixo do chuveiro.

Mas assim que entrou no quarto viu seu irmão parado na janela. Suas asas estavam expostas e mais negras do que antes. Nick sentiu um arrepio passar por seu corpo.

Nick largou o casaco e se aproximou de Rafael. Tocou-lhe o ombro e no segundo seguinte foi arremessado ao outro lado do quarto. As asas de seu irmão se ergueram, fazendo-o parecer maior do que realmente era e seus olhos estavam negros de raiva.

– Por que você não me contou? – perguntou ele se aproximando de Nick. Sua voz penetrava em Nick que se contorcia devido à tortura mental que seu irmão lhe aplicava. Ele sentiu o lobo se aproximando, sabia que logo não o controlaria e que logo se transformaria – Me responda, irmão!

– Não – sussurrou Nick. O lobo entendeu o que ele quis dizer e o ajudou a bloquear seu irmão. Juntos eles expulsaram a mente de Rafael. A fera pediu permissão para atacar a mente do anjo, mas Nick mandou que apenas paralisasse o outro, pois não queria machuca-lo. Nick se levantou e olhou para seu irmão que estava chocado.

– Como... – começou Rafael, engasgando – Como você pôde?

– A culpa não foi minha. Eu não quis isso! – disse Nick se colocando contra seu irmão – Você está errado, meu irmão. Deixe-me explicar.

– Não! Você não tem que explicar nada. Traidor! – ele falava com certa dificuldade e Nick mandou que o lobo o deixasse falar – Você matou os nossos pais e depois me matou e fugiu! Seu bastardo!

Nick estava em estado de choque. Seu irmão pensava que ele havia destruído a família, seu corpo se rendeu e ele caiu de joelhos no chão.

– Isso não é verdade – sussurrou Nick, lagrimas escorriam pelo rosto de cada um dos irmãos. Rafael continuava sendo controlado pela fera – Eu não matei nossos pais, eu não te matei.

– Clar...

– Não me interrompa! – grita Nick e o lobo mantém Rafael calado – Você não se lembra daquele dia. Eu tentei te salvar! Eu atraí a atenção daquele lobo e fui atacado! Pra proteger você! Mas você viu que eu estava perdendo e se meteu na luta. Você me salvou, mas isso lhe custou a vida! Aquele lobisomem me mordeu e desde então eu tenho me transformado, mas o lobo me controlava até a noite passada. Eu o controlo agora!

– Mas eu segui os rastros daquele que atacou a nossa casa e eles me levaram até você.

– Não. A fera me levou até lá. Você acertou a flecha no outro lobo e o matou.

– Isso não é verdade! – gritou Rafael – Anjos não podem matar!

– Então eu acho que você não é um anjo – disse Nick, decepcionado.

“Faça-o ir” disse Nick, em pensamento, para o lobo que concordou e o controlou até a porta,

– Adeus meu irmão – disse Nick.

– Não me chame disso, Traidor, não compartilhamos o mesmo sangue, seu bêbado!

– Nós vamos no encontrar de novo, Rafael, e você vai ver a verdade! Espere por mim – disse Nick, sendo sarcástico.

Rafael saiu sem dizer mais nenhuma palavra. Com passar do tempo os irmãos lideraram muitos bandos e grupos. A cada ato de maldade os poderes de Rafael aumentavam e suas asas escureciam. Nick era o líder da matilha e os poderes do lobo cresciam junto com suas boas-ações.

Os dois se tornaram completos opostos um do outro. Nick era a luz e a bondade que Rafael não tinha. O poder deixou Rafael cego, ele se tornou o primeiro dos anjos caídos e transformou muitos outros em seus seguidores. Ele sabia que um dia seu poder se esgotaria, mas havia outro jeito de manter sua fonte viva. E ele foi atrás disso.

Mesmo com a distancia entre os dois Nick continuava a seguir Rafael, mantinha eu olhar sobre ele e viu quando deixou o país. Ele foi em direção ao Novo Mundo. Nick preparou a matilha e seguiu seu irmão.

De longe Nick observou seu irmão se instalar na cidade. Ficou no continente enquanto Rafael foi para a ilha, mas logo percebeu que seu irmão queria.

E agora estava envolvido contra ele. O lobo parecia saber onde estavam as crianças Luz e Lucas. Eles chegaram ao restaurante, fechado neste dia da semana. O cheiro de morte era sufocante.

“Ei Nate” ouviu o lobo gritar para o anjo “Por aqui” e os levou por um caminho qualquer. Nick deixou que ele controlasse seu corpo e se colocou a pensar. Seu irmão estava próximo de ser detido. Mas no fundo Nick não acreditava que eles iriam conseguir destruir Rafael.

Nate conheceu muitos anjos caídos, mas nunca um tão poderoso quanto Rafael, muitos tentaram leva-lo para o outro lado, mas ninguém conseguiu.

Rafael estava tentando se salvar do que seria sua ruina. Ele era o tipo de anjo que conseguiu sua segunda chance, mas a desperdiçou. Isso é o pior dos erros que alguém pode cometer.

O lobo os levou por um caminho que Nate desconhecia. Pensou que conhecia a cidade inteira, mas se viu errado. Ele pousou e passou a correr ao lado do lobo, a copa das arvores não o permitiu ver Nick lá de cima.

O lobo parou perto de uma cachoeira. Podia-se ouvir o som de água correndo e de insetos rondando o local. Nick se destransformou e ficou ao lado do anjo.

– Então, por que acha que o lobo nos trouxe aqui? – perguntou Nate.

– Ele diz que as crianças estão perto, mas não pode senti-las a partir daqui. É uma espécie de área proibida. Não posso usar meus poderes aqui.

– Certo – disse o anjo – Então teremos que usar o método tradicional.

Nate fechou os olhos e lentamente tocou todas as almas que estavam presentes naquela área da cidade. Sentiu todos os animais e todas as plantas, se sentiam intimidados pela presença do anjo. Ele os acalmou e pediu por ajuda. Não conseguia sentir as crianças, mas não significava que eles não estavam ali.

Nick observava enquanto o amigo se elevava do chão e fechava seus olhos. Não conhecia Nataniel muito bem, mas sabia que ele estava contra seu irmão e isso era o suficiente para confiar nele.

– Por aqui – disse o anjo seguindo por entre as árvores e ouvindo os animais que os levaram até uma casa.

Ela era inteira de espelhos por fora, mas Nate conseguia enxergá-la. Ela se erguia em três andares e era revestida pelo mesmo material da casa de Nate. Era algo que apenas um anjo conseguia fazer, por isso ele ficou apreensivo.

Uma flecha passou voando entre ele e Nick que havia se destransformado e estava em pé ao seu lado.

Nate ouviu outra flecha ser disparada e a parou no ar, em alguns segundos ele encontrou a origem da mesma. Olhou para cima e num galho alto da arvore estava uma mulher muito bonita. Seus cabelos escuros e ondulados, tão escuros quanto os de Agatha. Seus olhos expressavam raiva e Nate não podia ouvir seus pensamentos.

Ela era um anjo.

Notas finais
Aí está mais um, qualquer erro de português me avisem que eu arrumarei!! Logo posto o próximo!!