Notas iniciais
Nome do Capítulo: Nos Deixe Sozinhos

*Agatha on*

Acordei sentindo muito frio. Meus pés estavam muito gelados, assim como as pontas dos meus dedos e o meu nariz. Movimentei minha mão sem conseguir mexer meus dedos. Olhei para as grades da cela e vi que estavam cobertas por gelo.

O chão da cela estava coberto por gelo, parecia uma geada. Minha respiração era visível. Tremendo, esfreguei uma mão na outra e me encolhi na cama. Ouvi a porta do fundo do corredor ranger, estava escuro, ouvi o barulho de passos vindo em direção à cela. Mas eram duas pessoas.

Robert abriu a porta da cela e entrou. As luzes se ascenderam e revelaram um segundo homem idêntico a ele. Se é que o primeiro era o Robert. Me encolhi mais ainda na cama, odiando parecer fraca, mas o frio era maior que meu ódio.

O primeiro homem que entrou na cela usava roupas pesadas, casacos de couro e uma calça que parecia quente e confortável. O olhar em seu rosto era desprezível enquanto dirigido a mim. Esse provavelmente era o que eu tinha acertado o soco, no inicio de tudo. Sua postura era rígida e o modo como seus braços estavam largados ao lado de seu corpo demonstrava que ele estava a ponto de desistir, mas que ia tentar uma última vez.

O segundo tinha o rosto marcado por lágrimas e apesar de suas roupas o deixarem mais alto, ele parecia com medo de tentar algo, seus olhos não encontravam os meus, ele tinha me ajudado com os ferimentos, ele era o Robert. Seus corações batiam de uma forma igual e ao mesmo tempo muito diferente.

O coração de Robert tinha um peso enquanto batia, algo que ele precisava fazer e não tinha coragem. O do outro apenas batia. Forte e rigoroso, como todas as outras vezes que eu achava ter visto ele. Eu os encarei ainda encolhida, esperando que eles falassem algo. Mas fui surpreendida quando eles me seguraram um por cada braço e me tiraram da cela.

– Muito bem, ela não reagiu? Coitada, deveria ter feito alguma coisa, sua ultima luta teria sido gloriosa – ouvi vindo de algum lugar, apenas depois percebi que vinha da orelha deles. Eles mal seguravam meus braços. Parecia que queriam que eu fugisse.

Em um segundo puxei o braço que era segurado por Robert e acertei o ouvido do outro cara que reclamou. Soltei meu braço das mãos dele e vi Robert tentando me segurar de novo, mas sussurrei um pedido de desculpas e o acertei no mesmo local que fiz em seu irmão. Ele protegeu a orelha enquanto seu irmão me dava uma rasteira. Pulei e me segurei nos ombros de Robert, puxando-o para o chão e deferindo golpes em seu rosto.

Ele devolveu, acertando um tapa em meu rosto por isso eu não esperava. Fiquei atordoada e o outro aproveitou para me segurar e me tirar de cima de seu irmão. Se é que eles eram irmãos. Eu não conseguia me mexer. Ele era muito forte e eu estava muito fraca. Robert se aproximou de mim e cuspiu na minha cara.

– André, o que foi? Ela reagiu? – perguntou a voz no ouvido dele.

– Eles estão... – comecei a gritar, levando um chute de Robert.

– O que? – perguntou a voz. – Tragam-na aqui. Vocês têm dez minutos.

– Sim senhor – disse André. Eles pareciam revoltados enquanto me carregava para sei lá a onde. Eles abriram a porta e eu notei que quase não havia guardas no local. Eu estava morrendo de medo. Se a pessoa era quem eu desconfiava que fosse e se ele fosse um anjo, esses dois eram santos comparados a ele. Então eu estaria morta.

Por onde eu olhava havia gelo. O chão estava coberto por algo que parecia neve. Meus pés estavam descalços e todas as partes do meu corpo estavam doendo por causa do frio. Eles me carregaram por um lugar que nenhum deles havia me levado antes. As paredes deixaram de parecer rudes e passaram a ter um ar clássico e sofisticado.

Sim, eu estou caminhando para a minha morte. E sim, eu estou pensando na decoração do lugar. Decidi parar de me debater e concentrar minhas forças na única coisa que eu queria nesse momento. Lucas. Sinto falta de seus cabelos cobrindo os olhos, de suas mãos segurando minha nuca enquanto nos beijávamos. Sinto falta do beijo dele.

Enfim chegamos ao local. Eles pararam e me jogaram na frente de uma cadeira, onde havia um homem sentado. Não ousei olhar para cima e também eu não queria vera cara de quem me mataria.

Pelo reflexo no chão eu podia ver um par de asas. Os dois se posicionaram ao lado da cadeira, e eu senti um par de olhos me encarando. Podia ver tudo pelo reflexo do chão, minhas forças não se encontravam em lugar algum e graças a Deus, aqui estava um pouco mais quente.

Continuei a observar o lugar, e notei uma janela, não muito longe de mim. De algum modo eu ouvia um conhecido coração batendo, mas não podia ser verdade, Lucas não poderia estar aqui.

– Levante-se – ouvi alguém ordenar, mas não me mexi.

– Se quer me matar, faça isso logo, não lhe darei o prazer de ver meu rosto – falei, se eu vou morrer não importa o que vou dizer agora, não é mesmo?

Vi seus pés se aproximarem de mim, e no momento em que sua mão iria chegar ao meu pescoço ouço uma porta se abrir. Sem querer levantei meus olhos e vi que eu estava errada.

Quem se aproximava não era Rafael, mas sim Caio um de seus capangas. Meu sangue ferveu em meu corpo e me coloquei de pé, encarando a porta. Esperando que ela abrisse, eu podia ouvir os passos andando no corredor pelo qual eu havia acabado de passar.

Caio fitou meus olhos, não esperando que eu me levantasse. Ele esticou seu braço para tentar me pegar, mas eu desviei. Minha velocidade estava voltando, isso era bom. Ele me olhou surpreso. Parecia que ele tentava fazer algo, mas não conseguia. Seu olhar era desconfiado.

– O que você é? – ele perguntou. Ergui meu queixo e respondi com o ódio ardendo em minhas veias.

– Seu pior pesadelo – minha voz saiu mais rouca e ameaçadora do que eu esperava. Dei um passo me aproximando dele achando que ele iria recuar, mas eu estava enganada, ele continuou parado no lugar e se aproximou ainda mais de mim.

Estendi minha mão, quase tocando em seu peito, varias rotas de fuga surgiam em minha cabeça, mas a mais prática não estava disponível. André se posicionara em frente à janela. Xinguei ele mentalmente.

– Não pense em fugir, Horan – ameaçou Caio em um sussurro – A onde quer que você esteja eu vou te achar. Isso nunca terá um fim.

Me afastei um pouco dele, precisava de espaço para sair. Os passos se aproximavam cada vez mais. Notei que Caio tinha uma lâmina em seu cinto.

– Mas o que eu te fiz? – perguntei me aproximando dele novamente. Fiquei de frente com ele e ergui meus olhos para encarar os seus, tentando criar uma distração. Ele encarou meus olhos procurando o que falar. Ele estava confuso. Ótimo. – Nos deixe sozinhos Caio – sussurrei em seu ouvido. Precisava me livrar daqueles dois.

– Vocês dois – disse ele sem tirar os olhos dos meus. – Saiam.