O Segredo do Anjo
8 Because That's The Truth
Notas iniciais
Não havia luz quando voltei a abrir os olhos, minha cabeça ardia e eu estava exausta. Eu estava deitada em algum lugar gelado e úmido, senti minhas roupas molhadas grudadas na minha pele. Tentei mover meus braços e notei que eles estavam amarrados assim como as minhas pernas. Me debati contra as cordas e as senti queimarem meus pulsos e minhas pernas, gritei frustrada.
Ouvi uma risada ao fundo, como se achasse meu sofrimento divertido e senti o medo se aproximando. Virei meu rosto apenas para ver uma sombra se movendo na escuridão e sentir algo queimando a minha pele como se escrevendo, olhei para o meu braço com o medo se ponderando de mim e vi uma ponta vermelha como se tivesse sido colocada no fogo vivo. Gritei de dor enquanto aquilo perfurava a minha pele e fui acertada novamente na cabeça. E tudo ficou escuro novamente.
Acordei de volta no meu quarto, gritando e suando frio. Meu pai entrou correndo no meu quarto, com a pistola em mãos, claramente preocupado. Ele olhou pra mim esperando uma explicação.
– Não foi nada, foi só um sonho, só um sonho – digo tentando convencer a mim mesma disso. Ele acena com a cabeça e eu me jogo na cama ainda arfando e tentando entender o que havia acontecido. Olhei para o meu braço e vi uma cicatriz avermelhada, recente, em forma de espirais. Fechei meus olhos e me convenci que foi só um sonho. Mesmo que a cicatriz dissesse o contrario.
Lucas passou me pegar em casa para me levar pra aula.
– Ei, como você ta? – perguntou ele descendo do carro e me abraçando.
– Acho que to melhor – digo colocando meus braços ao redor de seu pescoço.
– Você parece cansada, não dormiu bem? – perguntou ele notando as olheiras que eu lutei para esconder.
– Eu tive um pesadelo, só isso – digo entrando no carro. Ele ficou quieto, entrou no carro e foi para a escola, sem falar mais nada. Essa manhã estava mais fria do que as outras, por isso eu coloquei essa roupa: http://www.polyvore.com/segredo_dos_anjos_roupa_da/set?id=110508117 e agradeci pela manga ser comprida, não estava com paciência para explicar a marca que havia no meu braço, não enquanto eu não descobrisse seu significado.
Chegando na escola eu me despedi dele e fui para a secretaria entregar o atestado médico que justificava as minhas faltas. Chego lá e deixo o atestado com a moça. Voltando para a sala há uma escada para subir. Ouvi algumas garotas conversando sobre o Lucas. Fiquei curiosa e apenas escutei.
– Ah, eu acho ele gato de mais para aquela garota.
– Eu também, você viu o tipo do cabelo dela?
– Mas eu soube que eles tiveram uma recaída.
– Se eu fosse ele dava logo um fora nela.
Ouvir isso me machucou. Passei no meio delas e corri para a minha sala. As aulas e o dia se passaram devagar e eu só conseguia pensar no que aquelas garotas tinham dito. Será mesmo que eu e o Lucas estávamos numa crise? Era nisso que eu pensava enquanto limpava a mesa cinco.
– Agatha, pode vir aqui um instante? – disse Tom, meu chefe, de trás do balcão. Fui até ele deixando os pratos na pia.
– Oi – digo.
– Você está quieta hoje. Aconteceu alguma coisa? – perguntou ele com aquele olhar que diz: “eu te conheço e sei que tem algo errado”.
– Não, está tudo certo – digo forçando um sorriso. Ele coloca a mão no meu ombro.
– Se você não estiver bem pode ir pra casa, eu termino aqui.
– Não. Eu to bem, não se preocupe. – digo isso e continuo a arrumar as mesas.
Pego um pano e limpo uma mesa mais afastada. Ouço o sino da porta fazer baralho e me viro para ver quem é. Vejo Rafael e sua gangue parados na porta olhando para o lugar e se sentando em uma mesa perto da janela. Volto para trás do balcão.
– Tom, eu pensei melhor e eu vou ir embora, não to muito bem e minha cabeça ta explodindo.
– Tudo bem – diz ele dando um beijo no topo da minha cabeça, ele sempre me tratou como uma filha pra ele, na verdade ele tratava a todos assim. Quando éramos mais novas eu e Luz costumávamos passar na frente da padaria e ele sempre nos dava pão de queijo, sempre quentinho e fresquinho.
Eu vou para o carro e ligo o radio, pensando em ficar ali, pensando. Estou cantando uma musica baixinho, pensando no que as garotas falaram e deixando algumas lagrimas escorrerem quando alguém bate na janela e me da um susto. Eu me viro pra ver quem é e vejo o Lucas, com o uniforme do trabalho pedindo pra eu abaixar o vidro.
– Ei Agatha o que houve? – pergunta ele.
– Nada – digo secando as lágrimas que haviam descido pelo meu rosto.
– Destranca a porta, deixa eu entrar.
Eu destranco a porta e ele entra pelo outro lado. Enquanto tocava Falling in Love do McFly (http://www.youtube.com/watch?v=WN3fvgZdFX4) ouvi ele bater o pé no ritmo da música, enquanto cantava o refrão. Descansei minha mão em sua perna e olhei para o céu nublado, pensando em como esse tempo combinava com o meu humor.
Senti ele pegar na minha mão e me puxar para mais perto dele. Coloquei minha cabeça em seu ombro e o senti respirar fundo, do jeito que fazia quando estava prestes a falar alguma novidade.
– Agatha... – disse ele colocando o queixo na minha cabeça – Precisamos conversar.
– Sobre? – pergunto, sendo um pouco fria, me arrependendo de ter deixado o trabalho.
– Sobre você – diz ele. Eu me viro para encarar ele – Sobre mim, sobre nós.
– Estava ouvindo NxZero? – dou risada e ele me olha, sério – Desculpa.
– Agatha eu acho que a gente não vai dar certo assim – diz ele e eu sinto meu coração apertar.
– Você – começo, mas me interrompo, sentindo a minha garganta fechar. Controlo a voz e digo – Você quer terminar comigo?
– O que? Céus, não! – diz ele espantado – De onde você tirou isso?
– Eu... Eu não sei – digo deitando minha cabeça no ombro dele. – Por que não vamos dar certo assim?
– Sabe, eu acho que você está muito distante. Parece que agora que eu sei que você é uma Protetora você vai me trocar.
Eu olhei incrédula para ele. Da onde ele tirou isso?
– Você não pode estar falando sério. Por que eu iria querer trocar você? Eu te amo. – digo com um pequeno sorriso no rosto.
– Tudo bem então. – ele correspondeu ao meu sorriso – Quer conversar sobre o porquê de você estar aqui fora chorando, enquanto o Tom ta lá dentro com a padaria toda pra ele?
– Eu não estava me sentindo bem. Ouvi algumas garotas falando de você na escola hoje.
– Falando de mim? – perguntou ele deixando um sorriso escapar de seus lábios e levando um tapa fraco no ombro. – Ai! O que elas falaram?
– Elas disseram que eu não sirvo pra você. E que você deveria me dar um fora. E que meu cabelo era horrível.
– Aposto que odiou a parte do cabelo – comenta ele rindo.
– Sério Lucas! Poxa, eu aqui pensando que elas estavam certas, e que você ia terminar comigo e eu ia ter que ficar sozinha pro resto da minha vida. E pra piorar tudo tive um péssimo sonho essa noite.
– Achamos um ponto em comum hoje! – diz ele. – Me conte o seu.
Contei o sonho pra ele, incluindo todos os detalhes, mas sem falar da cicatriz que estava no meu braço depois que acordei. Pensei que com o passar do dia ela ia acabar sumindo, e tudo não passaria de um sonho idiota que eu havia tido em um dia ruim.
Mas não. Enquanto eu estava vestindo o uniforme para começar a trabalhar, ali estava ela, mas com uma cor muito escura, entre o azul e o preto. A cor era linda, mas ela tinha uma aparência sombria, e de algum modo me lembrava anjos.
– Nossa, acho que não vou dormir a noite – disse ele, claramente assustado com o sonho.
– Me fale do seu.
– Vai ser fichinha, perto do seu – falou ele, brincando com as nossas mãos.
– Mas fale, mesmo assim.
– Era como se só existisse nós dois no mundo. Não, não no mundo, mas naquele lugar. Parecia uma masmorra, com paredes sujas e musgo escorrendo por elas. Era tudo velho, úmido e nojento. Eu estava preso naquele lugar, por não sei que motivo. E havia uma porta e eu via você correndo de um lado para o outro, mas era como um videogame quando duas pessoas jogam. Eu vi você correr até a porta da cela, com as duas visões. E pela sua visão eu não me enxergava. Eu via um anjo. Tinha a mesma aparência que eu, mas tinha asas, duas enormes asas. Mas eu estava morrendo. Você arrombou a porta e se jogou ao meu lado. E você repetia que ia ficar tudo bem que isso não ia acontecer de novo e você chorava muito. Eu disse que te amava e fechei meus olhos. Eu vi você chorar muito e dizer algo que eu não pude ouvir, pois acordei com o despertador.
– Eu disse que também te amava – falei sem pensar, com lagrimas escorrendo do meu rosto e tocando o dele.
– Como você sabe? – perguntou ele com a voz chorosa.
– Porque essa é a verdade.
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