O Segredo do Anjo
18 And I See That You Loved Him Too
Notas iniciais
*Agatha on*
Eu estava muito disposta hoje, foi a primeira vez que eu consegui realmente dormir desde que tinha chegado aqui. Tentei falar com a minha mãe mais cedo, mas não consegui e ontem à noite depois de falar com o Lucas voltei exausta e apenas me joguei na cama e dormi. Acordei e me lavei. Notei que a mordida do lobisomem já havia cicatrizado e da bala só restava à marca. Esperei na cama e logo Robert apareceu.
– Anda — disse ele grosso. Ele estava diferente. Vestia uma camiseta preta e calças jeans escura. Me tratou apenas com grosseria, não parecia o mesmo que me ajudou com os meus ferimentos ontem. Ele me trouxe para a arena onde pássaros voavam ao meu redor e agora eu tinha um arco em minhas mãos que tinha acabado de desenterrar da areia. Mirei o pássaro que estava mais no alto e o acertei bem no peito, matando-o e fazendo-o cair derrubando mais dois junto com ele. Outro começou a me bicar ferozmente com um tapa acertei ele e ele caiu no chão atordoado. Eu tinha acabado de chegar quando os pássaros me atacaram. De algum modo eles eram tão silenciosos que eu não pude ouvi-los.
Lutei com o último pássaro e o matei. Olhei ao redor e a areia estava muito suja, com pedaços de pássaros para todos os lados.
A areia começou a mexer e os pássaros sumiram. Arregalei meus olhos e segurei o arco mais firme não iria arriscar perde-lo.
– Muito bem — disse a voz de ontem — Agora podemos começar o treino.
Me espantei com isso. Então não havia nem começado ainda. Me preparei para alguma surpresa, mas nada aconteceu. Por longos minutos eu fiquei apenas esperando então eu ouvi algo se debatendo e me espantei esperando por alguma fera. Ouvi correntes serem soltas e eu comecei a lembrar de todos os seres que Nate havia me alertado e meu coração pulou no meu peito. A porta foi aberta e a tensão percorreu meu corpo. Algo foi jogado dentro da cela e de repente eu fiquei com medo. Era como se meu cérebro estivesse sobre o comando de alguém, eu apenas pensava que ali não era o meu lugar, que eu não deveria estar fazendo aquilo e que se continuasse meu destino seria pior que o inferno. Mas eu me lembrei de que eu não estava fazendo isso, e que eu não tinha como parar. Me apeguei a esses pensamentos e vi a criatura se levantar do chão.
Me surpreendi. Era um anjo. Ele era ruivo, com olhos azuis límpidos. Suas asas estavam machucadas e seus pulsos estavam vermelhos, notei que podiam ser marcas das correntes que ouvi se soltarem. Ele se levantou e olhou ao redor. Impulsionou-se, sem olhar para mim e voou para o teto, mas uma onda de choque percorreu seu corpo me fazendo dar um salto para trás enquanto ele caía na areia com um baque surdo. Corri me aproximando com o arco ainda em mãos. Me agachei enquanto ele tentava se levantar.
– Agatha — ouvi ele sussurrar com a voz falhando. Eu não o conhecia e fiquei espantada que ele soubesse o meu nome e o que ele disse em seguida me encheu de pavor. — Eu tentei impedi-los, eu juro.
Ele segurou em minha mão e eu não tinha coragem de falar nada.
– Chega de papo. — disse a voz — Agatha mate-o.
– Não — sussurrei para mim mesma.
– Diga a sua mãe que eu a amo — disse ele fechando os olhos.
– Não, eu não posso — gritei me afastando dele. Meus olhos estavam cheios de lagrimas. Ele conhecia a minha mãe provavelmente sabia onde ela estava.
– Agatha mate-o! Agora! — disse a voz se engrossando. O anjo olhou para mim.
– Agatha me mate — disse o anjo me olhando nos olhos. — Por favor, faça pela sua mãe. É melhor eu ir do que você. Ela vai te achar. Prometo.
– Não, não, não — eu repetia. Me sentei na areia e ali fiquei enquanto a voz dizia.
– Não seja tola! Mate-o!
Eu conseguia ouvir a irritação na voz e ouvi uma porta ser aberta. Peguei meu arco e mirei no vidro Me virei para a porta e vi que guardas entraram e se aproximavam do anjo. Me apressei para soltar a flecha que acertou o vidro e o partiu em muitos pedaços. Mirei nos guardas e gritando "não" atirei em vários deles me colocando na frente dele. Bati em vários guardas, mas a outra porta se abriu e os guardas vieram me cercar. Lutei enquanto pude, mas fui retirada da sala sem conseguir me mexer e sem o arco. Nunca mais vi o anjo. Os guardas me levaram para outro lugar, uma sala fechada, e me deixaram lá enquanto eu me debatia e gritava. A sensação de medo voltou, agora mais forte do que antes. A sala estava escura e tinha um anjo na sala, eu sabia, mas não conseguia ver nada nem ninguém.
– Eu te dei uma ordem — falou a mesma voz de antes, agora mais perto e mais baixo, algo na voz dele agora me era familiar. A irritação estava presente na voz dele e isso me deixou com muito mais medo. — E você não a cumpriu.
Um pânico maior ainda me invadiu, por que eu simplesmente não matei o anjo? Por que eu simplesmente não obedeci como eu estava fazendo antes? Ouvi algo se mexer nas sombras e se aproximar de mim. Falou no meu ouvido:
– Agora você vai pagar — me virei para onde a voz havia vindo e vi uma movimentação do meu lado direito. Era como se eu pudesse sentir as ondulações no vento, pois eu senti a mão chegando ao meu rosto antes de senti-la em mim. Virei o rosto sem deixar uma lágrima se quer cair, mesmo no escuro não ia me humilhar desse jeito. Continuei parada sem fazer nada. O medo era tanto que eu não conseguia ouvir nem o som do meu próprio coração muito menos o dele.
Vi a mão dele vindo de novo em minha direção. Desviei e ele errou o tapa.
– Esperta você — disse ele com uma irritação maior na voz. — Adoraria saber como faz isso.
Senti ele se aproximando de mim pelas costas. Antes que eu pudesse reagir suas mãos me alcançam e agarram meus braços. Sinto a marca queimando no braço direito, mas não consigo ver ela. Me debati enquanto ele amarrava meus braços com cordas grossas de um jeito apertado. Os pensamentos de pânico me deixaram por alguns segundos enquanto ouvia ele se afastar de modo rápido e logo em seguida voltar. Nesse intervalo de segundos ouço o coração dele bater de um jeito bonito e assustador, do mesmo modo que Nate. Não ouço mais nenhum coração batendo. Eu estou sozinha com ele. Quando minha mente voltou a ser "controlada" perdi minha audição, não ouvia nada além das pesadas palavras dele no meu subconsciente repetindo o meu erro de não ter matado o anjo quando poderia facilmente tê-lo feito. Repito a mim mesma que eu não seria capaz de matá-lo, que minha natureza Protetora me impedia de fazê-lo e que anjos mereciam uma nova chance. Consegui fazer o controle do anjo diminuir em grandes proporções. Quando ele voltou, ele me amordaçou com um pedaço de pano. Afastou-se novamente e estralou algo no meu ouvido me fazendo pular de susto.
– O que fazer com você? Essa é a questão. — dizendo isso ele me acerta nas costas. Deve ser algo como um chicote, pelo modo como se move cortando o ar. Senti minha camiseta rasgar e tentei gritar, mas nenhum som saiu devido ao pano em minha boca. Ele repetiu o feito dizendo — Acho que isso é pouco pelo que você não fez. — me bate de novo sinto rasgar minha pele e sangue escorrer.
Estou chorando e tentando gritar, mas não consigo e, além disso, minha garganta doe e a marca no meu braço queima ao extremo, me fazendo sentir mais raiva desse ser que está me batendo. Ele continua me batendo por horas que pareceram dias e a dor que atravessa meu corpo seria capaz de me matar. Quando ele termina de me bater ele joga um líquido nas minhas costas, fazendo a dor aumentar muito. Estou quase inconsciente quando alguém me carrega de volta para a cela onde eu estava antes. Lá me desamarraram e tiraram o pedaço de pano da minha boca. Fico jogada no chão me contorcendo de dor e fazendo com que ela se transforme em raiva engulo minhas lágrimas e fecho os meus olhos, não meditando, mas deixando que meus pensamentos vagassem para horas antes quando eu me neguei a matar o anjo. Por que eu havia protegido alguém que eu nem conheço?
– É porque você é pura — disse a voz da minha mãe e só então percebo que estou em uma sala toda branca, com cortinas e pequenos detalhes como almofadas e vasos de flores em vermelho. Minha mãe sempre amou essas cores. Ela estava sentada em um dos sofás com as pernas cruzadas e as mãos em cima. Ela usava um vestido vermelho, combinando perfeitamente com a decoração do lugar o único contraste eram seus cabelos negros caindo ao redor de seu rosto perfeito. Olhei ao redor imaginando onde eu estaria. Ela estava me esperando, tenho certeza. Ela fez sinal para que eu me sentasse ao lado dela no sofá. Me levantei do chão e devagar caminhei até ela e me sentei. Tomando cuidado com as minhas costas e sentindo-a arder a cada movimento feito. Ela percebeu, pois perguntou preocupada — O que aconteceu pequena?
Me sentei ao seu lado e ela colocou sua mão nas minhas costas. Deixei um ruído sair dos meus lábios e lágrimas escorreram pelo meu rosto. Ela retirou sua mão e ergueu minha camiseta.
– Santo Deus — disse ela e com cuidado me abraçou. — Eles fizeram isso com você?
Eu assenti em resposta, sentia minhas forças se esvaindo e eu não conseguia falar. Ela me manteve apertada em seu colo, como fazia quando eu era pequena. Ela me segurava de um jeito estranho eu podia sentir que havia algo errado.
– Aconteceu alguma coisa? — perguntei a ela, encontrando minha voz que saiu rouca.
– Não — disse ela depois de um tempo hesitando. Eu sabia que ela tinha mentido. Olhei para os olhos dela e perguntei de novo:
– O que aconteceu?
– Nada... — começou ela mais parou. — Você está certa você tem que saber. — ela fez uma pausa — Depois que eu morri, virei um anjo. Não sei como nem quando e muito menos o porquê. Eu só tinha uma coisa na cabeça: te encontrar. Eu não pensava em mais nada apenas que eu precisava voltar para casa. Voltar para você e pro seu pai, mas — ela parou respirou fundo e continuou — Mas eu conheci outro anjo. Seu nome é Edward, era a pessoa que eu precisava para te encontrar. Ele me ajudou, muito. Ele me ensinou a ser um anjo e desse jeito consegui chegar à cidade. Visitei a nossa casa, mas não tinha ninguém lá. No outro dia descobri que a Delegacia tinha sido explodida e ninguém tinha ideia de quem havia feito aquilo. Fui até lá e vi seu pai, do mesmo jeito autoritário de sempre...
– Espera. Meu pai ta vivo? — a interrompi com um alivio no meu coração. Ela assentiu com a cabeça e eu senti mais lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Ele estava vivo!
– Continuando... Fui falar com ele e ele não acreditou que eu estava lá. Ele me levou para casa e me contou tudo o que havia acontecido. Quando eu soube que você estava desaparecida decidi que precisava da ajuda do Ed de novo. Passamos muito tempo atrás de você e até construímos essa casa aqui para ficar mais perto do lugar onde você desapareceu. Ao redor da casa há uma floresta totalmente deserta e é um lugar muito lindo. Foi onde você apareceu pra mim naquele dia. Quando você disse Ponte Quebrada o Ed se lembrou de um lugar onde você poderia estar. É um galpão gigante que nunca foi usado. Fomos investigar e não encontramos nada lá. Apenas lixos e entulhos. Eu estava passando muito tempo junto com o Ed, andávamos para todo lado perguntando sobre você e coisa e tal. Há dois dias o Ed recebeu uma ligação. — disse ela com a voz chorosa — Ele teve que sair, disse que foi uma pista sobre outro problema dele, mas ele ainda não voltou.
Lágrimas escorriam por seus olhos e me doeu muito ver ela chorando eu a abracei e disse ainda a segurando.
– Ele te amava, tenho certeza disso.
Ela me olhou com os olhos esbugalhados:
– Como você sabe? — seus olhos manchados demonstração esperança e surpresa.
– Eu... Bom, ele me encontrou — falei baixando os olhos. Uma exclamação saiu de sua boca, mas eu continuei falando enquanto mostrava-lhe — Na verdade ele tentou me encontrar, mas eu não sei o que aconteceu e ele foi jogado numa arena comigo. Recebi a ordem de mata-lo, mas eu não podia fazer isso, eu não fiz isso. Não vi o que aconteceu, pois fui tirada da arena e eles me levaram para uma espécie de sala de tortura, que foi onde aconteceu isso. — Indiquei minhas costas — E ele disse que te amava.
As mãos dela estavam em sua boca enquanto eu terminava de falar. Seus olhos brilhantes estavam derramando lagrimas sem parar.
– E vejo que a senhora também o amava.
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