Era uma noite escura, a chuva caia sobre aquela antiga terra. Devastada por espíritos bons e maus. Três guardiões conversavam sobre a nova profecia, a qual era bastante temida. Ela era um tanto misteriosa. Quer dizer, muito misteriosa. Usava e abusava de metáforas e enigmas. A partir daquele ponto, sabia-se que o bem e o mal jamais seria o mesmo. Cabiam as pessoas decidir seu próprio destino; sua própria vida; seu próprio ofício; seu próprio amor; seu tudo. Mas havia um porém e poucos sabiam que a situação em pouco sairia do controle. E assim dizia a profecia:

“O lobo e a raposa se encontrarão;

Sem dúvida, o ódio triunfará;

Um ao outro se amaldiçoarão;

Mas o amor também vai brotar;

E a dama morrerá;

Bem e mal se enfrentarão;

O lobo se vingará;

As trevas cairão;

E a guerra adormecerá.

O que fora perdido será encontrado;

Em pouco tempo, tudo será devastado;

O espírito vagará sozinho;

E o prêmio será erguido.”

– O que mais me deixa curioso é saber o que foi perdido... – disse um dos guardiões.

– Uma pessoa, um objeto, um animal? – completou outro.

O silêncio reinou por um tempo, enquanto os três sábios refletiam sobre a situação. O ar do lugar esfriou um pouco mais – devido à chuva que caía ali. Ela começou a amenizar, dando lugares a temperaturas baixas.

– Descarto a possibilidade de ser um animal – falou o primeiro.

O que ainda não havia falado, assentiu com a cabeça. Para ele, parecia pouco provável uma perseguição toda por um simples ser irracional, a não ser que, ele seja sagrado. Isto daria um motivo.

–Só se ele for sagrado–o último guardião concluiu.

–Tem essa possibilidade–concordou o segundo, o mais sábio de todos–O mais provável é que seja uma pessoa. Até porque, várias pessoas foram perdidas em sequestros. E várias delas pessoasvaliosas.

Então, um súbito silencio invadiu o local onde ambos antes conversavam tranquila e calmamente, um último suspiro fora dado em busca de resposta e em poucos segundos a atenção de todos fora roubada. Um barulho os fez ficarem atentos a entrada do antigo templo, uma sombra negra com a identidade escondida por um capuz.

- Quem pode ser? – um deles perguntou.

- Não sei. – houve uma resposta quase inaudível.

O tal homem continuou a se aproximar de onde os três estavam reunidos e quando chegou próximo o suficiente para que os mesmos observassem cada detalhe, retirou seu capuz. Seu rosto era jovem, porém muito machucado, possuía olhos profundos e verdes, barba por fazer e cabelos negros como asas de um urubu.

- O que fora perdido não, o que ainda será perdido. Isso não se trata do hoje e sim... – ele tossiu, era difícil falar, já não tinha tantas forças como há dias atrás. – ... e sim do amanhã. Aguardem os salvadores, ele...

O homem despencou e se não fosse pelo sábio do meio, teria ido de encontro ao chão. Os outros dois os ajudaram a pôr o corpo do adormecido em contato com o chão e perceberam que ele já jazia sem vida.

- Será que o que ele diz é verdade? – um deles perguntou aos companheiros.

- Não parecia estar brincando, assim como deve ter enfrentado muita coisa antes de chegar aqui. Deveremos ficar atentos. Muito, atentos.

Houve então uma concordância no local. Trataram de retirar o corpo do estranho do local, levando-o para a área de sepultamento e fazendo a cerimonia necessária, abençoando o espirito do jovem.

[...]

Respiração falha, suor em volta a testa, calafrios percorrendo a espinha: Assim ele se sentira nas últimas semanas, não poderia falar nada para ninguém, iriam chama-lo de louco. O que fazer? O que estaria acontecendo?

Levantou-se e passou a mão por sua testa tentando ao mesmo tempo livrar-se do suor e da má sensação que o mesmo sonho que havia tendo por semanas, havia o provocado. Olhou para o lado e ela ainda estava dormindo, como um anjo. Era assim que ele a via: Um anjo. Não por ser literalmente um, mas por ter uma beleza que deixaria qualquer mulher com uma pontada de inveja, lhe deu um beijo na testa e levantou-se indo até o banheiro onde lavou o rosto e ficou observando o reflexo no espelho que curiosamente estava refletindo também o reflexo do céu, uma noite linda e estrelada e com uma coisa que sempre o fazia ficar bobo e olhando para o que seria um poço sem fundo: A imensidão das estrelas.