O Segredo das Estrelas
2 Pesadelos
Morpheus acordou depois de um sono perturbador. A luz em sua janela indicava que o sol ainda não nascera, ou seja, era madrugada. Olhou para o ponteiro do relógio em seu quarto, com os olhos cheios de olheiras. Eram 03h16 a.m. Coçou a cabeça, sonolento. Já era a segunda noite que o garoto não conseguia dormir. Sempre se levantava depois de azucrinantes pesadelos. Já sonhara com tudo: desde velhos anciões conversando até ameaças de morte vindas de criaturas não identificadas. Eram coisas bestas, o jovem sabia. No entanto, não deixavam de incomodá-lo. Levantou-se e andou até a pequena cozinha de sua casa. Andou lenta e calmamente, para não acordar sua amiga: Melanie – uma garota de sua faculdade que estava no último ano cursando direito. Haviam começado a dividir o apartamento há poucos meses, então algumas coisas ainda não tinham sido acertadas, por exemplo: a arquitetura rústica do lugar, com enfeites banhados a ouro fazia o jovem ter dor de cabeça.
Suspirou ao chegar na cozinha. Bebeu metade de um copo d’água e entornou o resto na pia. Abriu a geladeira e pegou dois pães de forma, visando fazer uma torrada. Morpheus estava ficando viciado nesse lanchinho da madrugada. Tanto que várias das vezes deixava de jantar para ter essa merenda no meio da noite. Pegou o queijo e o presunto, logo em seguida pondo-os dentro do pão. Passou margarina nos dois lados e largou a comida, indo procurar a torradeira. O jovem gostava bastante de coisas retrô, então a torradeira dele era daquelas de fogo, bem antigas. Trouxe-a até a mesa e colocou o pão dentro dela. Segurando o instrumento com as mão, andou até o fogão. Acendeu o fogo e fez o seu misto quente das antigas, como dizia Melanie.
Em cerca de três minutos a comida ficou pronta. Sem pressa, Morpheus comeu-a; pensando o porquê de tantos pesadelos nos últimos tempos estarem ocorrendo com ele. Pensou até em se encaminhar para uma psicóloga, mas não tinha como. Particularmente, ele achava a faculdade de engenharia química muito puxada para o seu nível, e os horários nunca batiam com o estudo dele.
Acabando de comer, voltou a sua cama. Olhou para o ponteiro do relógio novamente, cerca de quarenta e cinco minutos haviam se passado, demorara muito para comer. Ficou ali deitado, sem conseguir dormir, observando apenas o tempo e o tic tac da hora passando: 4h00, 4h43, 5h00, 6h00.
Nessa hora, ele se levantou. Caminhou até a lavanderia, pegou um grande e roxo balde e encheu-o de água fria. Seguiu até o diferente quarto de sua colega e despejou brutamente a água na garota, saindo do quarto dela imediatamente.
– Ei! – Melanie chamou, fazendo Morpheus dar meia volta, se apoiando em apenas um pé – Qual é o direito que você tem para fazer isto?!
– Cale a boca – o jovem respondeu, na maior tranquilidade do mundo. Continuou deslizando sobre suas meias até o banheiro.
Despiu-se e entrou no box, girou a maçaneta e entrou de baixou do chuveiro. A água estava numa boa temperatura: nem tão quente, nem tão fria. Limpou bem os olhos – que no momento estavam cheios de remelas e olheiras – para não causar a inevitável má impressão e aumentar sua fama de cara-que-não-dorme-e-fica-enchendo-o-saco-de-Melanie, como as pessoas costumavam chama-lo. Ele achava que essas piadinhas deviam ter acabado no fundamental, mas continuaram e continuarão até o fim da faculdade – pelo que parecia.
Saiu do box e enrolou-se em sua toalha, abriu a porta e foi em direção ao seu quarto. Melanie estava com cara feia, ainda deitada em sua cama. Bufava estressada, querendo se levantar, mas não conseguia. Morpheus apenas ignorou a cena e continuou a andar.
Vestiu uma camisa e uma calça e ficou esperando a garota, não pretendia tomar café, já que estava de barriga cheia. Sim, ainda estava de barriga cheia.
– Anda Melanie! – gritou o garoto.
A garota revirou os olhos e se levantou, estava vestindo uma camisola branca de renda que deixava a vista boa parte de seu corpo. Realmente o garoto não sabia por que ela fazia isso, mas não iria reclamar, afinal de contas, era uma bela vista.
– Vai querer comer algo? – ele a perguntou.
A garota deu de ombros e entrou dentro do banheiro. “O.k, isso foi um não!” pensou o garoto. Se dirigiu até a mesa e pegou uma pasta onde estavam contidos alguns trabalhos da faculdade, desceu as escadas, pegou a chave do Ford Gt que os esperava na garagem e foi aquecer o motor enquanto a garota não descia para que juntos pudessem ir até o lugar onde ficaria cinco horas com a bunda sentada em uma cadeira de madeira.
Resolveu ligar o som para se distrair, estava passando 21 Guns, do Green Day. Não demorou muito para que Melanie descesse e se sentasse no banco carona, isso era uma dádiva: Ela nunca demorava, diferente das outras garotas chamadas patricinhas pelo garoto.
[...]
Não demorou muito para que ambos chegassem na faculdade, Morpheus dirigia muito rápido e a garota sempre reclamava com ele devido a isso. Após estacionar, Melanie fez algo que o deixou um pouco confuso: Abraçou-o e lhe depositou um beijo na bochecha, isso não era costumeiro e fez vários estudantes observarem a cena melosa.
– Hey, não faz isso de novo! – ele falou rindo.
Ela deu de ombros e seguiu seu caminho como se nada houvesse acontecido. “Garotas são estranhas!” pensou ele. Caminhou até sua sala onde poucos estudantes já estavam concentrados em tarefas não completadas e ficou esperando o sinal ecoar. Em pouco tempo, seu amigo Bryan, se aproximou e sentou-se ao seu lado lhe mostrando sem falar nada uma foto de alguma garota despida.
– A quarta só essa semana, você não fica com a consciência pesada? – perguntou Morpheus rindo.
– Que nada cara, tenho que curtir mesmo! – ele riu ingenuamente.
Morpheus revirou os olhos e se concentrou em sua apostila, o professor já entrava na sala e ao mesmo tempo o sinal ecoava. Uma coisa ele sabia: Iria ficar com bundite aguda após cinco horas achatado naquela misera cadeira.
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