O Segredo da Capital do Oeste
9 Capítulo 8
Notas iniciais
O pantáculo de Andressa ficou pronto cerca de quinze minutos depois da ligação de Woodstock, o que deu a Jessé tempo o suficiente para ligar para ela mais trinta vezes e imaginar uma centena de hipóteses sobre o que ela poderia estar fazendo. As possibilidades iam desde ela ter encontrado uma menina, ou até um cara com quem gostaria de passar mais tempo – coisa que acontecia com certa frequência – até ela ter arrumado briga com alguém – algo mais raro, mas não seria a primeira vez.
Andressa havia escolhido um pequeno pingente redondo, feito de uma pedra cinzenta polida, ao invés de metal. Não foi Raíssa, a ferreira, quem fez o pingente, e sim um senhor Geólogo – uma habilidade bastante rara –; quando ele terminou, Andressa parecia mais confortável com a ideia de ter o próprio pantáculo.
— Me dá uma sensação diferente – disse ela a Jessé. – Como se eu tivesse acabado de tirar um vestido folgado e colocado um que cabe perfeitamente.
Jessé apenas assentiu. Ele nunca usara o pantáculo de outra pessoa, então não podia contribuir muito com o assunto.
Quando Andressa pagou e eles finalmente voltaram à superfície do Memorial da Resistência, depois de prometer a Raíssa que mandariam um beijo para Woodstock, Jessé respirou fundo, aliviado. Ele não gostava do Mercado. A multidão, combinada ao ambiente fechado e subterrâneo, fazia com que ele se sentisse sufocado, o que fazia com que faíscas corressem pelo seu sangue e ameaçassem explodir. Não seria a primeira vez; alguns comerciantes já o odiavam por ter incendiado barracas por acidente antes.
Jessé ainda estava pensando na ligação de Woodstock. O fato de ela ter perguntado sobre Josafá o incomodava mais do que tudo; ele não conseguia imaginar como seu irmão mais velho poderia metê-lo e a sua melhor amiga em ainda mais confusão. Ele hesitou a alguns metros da rua, se perguntando se deveria voltar e ir atrás dela. Ele duvidava que conseguisse encontrá-la no caos do Mercado, mas talvez valesse a pena tentar.
Andressa pareceu notar sua preocupação. Ela parou alguns passos à frente dele e se virou.
— O que foi? Você não vem?
Não que Jessé soubesse exatamente para onde eles estavam indo. Parte dele queria que ela não pretendesse ir para casa. Ela parecia o tipo de pessoa com quem Jessé gostaria de conversar sobre coisas que não fossem magia.
— Eu tô preocupado com a Woodstock – admitiu ele. Andressa franziu a testa.
— Ela não te disse que não precisava esperar?
— Foi – Ele fez uma pausa, escolhendo bem as palavras. – Ela também perguntou sobre o meu irmão.
— Seu irmão? Você tem irmão?
Jessé conteve um suspiro. Parecia que a conversa sobre um assunto além de magia teria que esperar. Por enquanto, ele teria que se contentar com mais do mesmo. Uma faísca saiu da ponta de seu indicador e se apagou ao cair no chão. Ele torceu para Andressa não ter percebido. Jessé sempre se sentia como um fio desencapado, mas a sensação ficava pior quando suas emoções saíam de controle, o que acostumava acontecer bastante quando ele falava sobre Josafá.
— Eu tinha – respondeu. Ele percebeu que estava esfregando a tatuagem em seu braço esquerdo e se conteve.
Andressa estreitou os olhos. Jessé teve a impressão de que ela podia ser muitas coisas, mas não era burra.
— Deixe-me adivinhar. Tem algo a ver com a Tábua?
Ele abriu um sorriso sem graça.
— Você acha que a minha vida inteira gira em torno da Tábua?
— Bem, e não gira?
Não, não gira, Jessé quis responder. Só depende dela, mesmo.
Ele disse:
— Você vai pra casa?
— Não se tiver alguma chance de você me contar mais sobre essa história – retrucou Andressa prontamente. – Vocês nunca me disseram exatamente por que estão procurando a Tábua. Você só disse que era uma “treta familiar” – Ela abriu aspas no ar com os dedos. – Tem a ver com o seu irmão, não tem?
— Meu irmão, e princípios da magia que você ainda não sabe – admitiu Jessé. Andressa não se deixou impressionar.
— Bem, você e Woodstock são responsáveis por me ensinar esse tipo de coisa, não são?
Jessé não respondeu de imediato. De fato, ele ficou em silêncio por tanto tempo que a postura petulante de Andressa se transformou, e ela pareceu receosa.
— Eu não quis pressionar – disse ela, em tom mais simpático. – Você não precisa me falar nada.
Para a surpresa dela, Jessé riu. Ele tinha ficado bom nisso, em rir quando sentia que estava prestes a atear fogo no mundo inteiro. Joana e Woodstock eram sempre tão sérias a respeito de tudo. Alguém precisava ter um pouco de humor. Mesmo que fosse um humor negro, depreciativo e eventualmente de mau gosto.
— É, eu sei disso – disse ele, ainda sorrindo. – Não é como se você fosse me obrigar.
— É tão ruim assim? – perguntou Andressa, em voz baixa. Jessé apertou os lábios.
— É bem ruim – respondeu, por fim. Então, ofereceu o braço a ela. – Mas eu posso te contar, se você realmente estiver interessada. Não é... Grande coisa.
Na verdade, era grande coisa. Grande o suficiente para ter deixado uma marca permanente em seu braço e quase destruído sua família, além de tê-lo transformado em uma bomba relógio. Mas ele não gostava de admitir isso em voz alta; era como se, ao tentar negar esse fato, pudesse diminuir um pouco as consequências.
Andressa aceitou, entrelaçando o braço ao dele. Jessé não era muito fã de contato físico, normalmente, mas o toque dela era tão leve que ele quase não o sentia.
— Minha casa ou a sua? – perguntou ela, então deu uma risadinha nada envergonhada. – Nossa, agora eu percebi como isso soa.
Jessé sabia que suas orelhas estavam vermelhas. Ele disse:
— Acho que Woodstock vai voltar pra casa quando terminar, hm, o que quer que ela esteja fazendo agora. Tenho o pressentimento de que é melhor estarmos por lá quando isso acontecer.
— Bom pressentimento ou mau pressentimento?
Ele sacudiu a cabeça.
— Só um pressentimento. Vamos?
Ele não pôde evitar lançar um olhar para o Memorial por cima do ombro ao se afastar, torcendo para que Woodstock não estivesse fazendo nada estúpido.
***
Seguir Luiz tinha sido uma ideia estúpida.
Woodstock não tinha muita certeza do que estava esperando encontrar. Uma conspiração do mal? Mais pistas sobre a Tábua de Esmeralda? Até o momento, tudo que Luiz fizera fora comprar mais livros e alguns fogos de artifício. Ela nem sabia que eles vendiam fogos de artifício no Mercado. Não tinha nada mágico a respeito deles.
Quanto aos livros, ela estava longe demais para ler os títulos – mesmo com a multidão do Mercado, ela ainda estava receosa que ele a visse caso se aproximasse demais –, mas não reconheceu a capa de nenhum, nem conhecia as tendas nas quais eles foram comprados. Ou não tinham nada a ver com a Tábua, ou ela precisava atualizar suas fontes.
Ela estava a ponto de desistir e dar meia-volta quando Luiz finalmente fez algo suspeito o suficiente para justificar continuar atrás dele: ele entrou em um beco. O Mercado tinha alguns desses espaços estreitos demais ou escondidos demais para que os vendedores conseguissem montar suas tendas, que acabavam ficando vazios. Woodstock sabia que os locais eram usados como pontos de venda de drogas mágicas e comuns, mas algo lhe dizia que não era isso que havia atraído Luiz.
Sua hipótese foi confirmada quando ele passou direto pelos vários traficantes encostados às paredes e dobrou à esquerda, entrando em outro beco, e mais outro, até finalmente se encontrar em uma rua sem saída. Ele fez uma pausa para olhar em volta; Woodstock se apressou em se esconder na esquina, com o coração acelerado, se sentindo vagamente como um personagem de filme de espionagem. Quando achou que estava segura, ela se inclinou para a frente, bem a tempo de ver os tijolos desaparecendo, revelando uma sala escura do outro lado. Embora não tivesse visto o que Luiz fizera, ela imaginou que fosse um truque parecido com o que abria a passagem para o Mercado. Com alguma sorte, seu pantáculo seria o suficiente para permitir sua entrada.
Ela esperou até Luiz passar pela abertura, que desapareceu logo em seguida, antes de se aproximar e encostar o anel que pendia de seu colar no muro. Nada aconteceu. Woodstock tentou girar o anel, pressioná-lo contra outros pontos e aplicar mais força, mas os tijolos continuavam firmes. Ela desejou que seu pai estivesse ali. Ele saberia dizer se aquilo fora uma porta secreta para uma sala logo além do muro ou um portal para um lugar completamente diferente. No primeiro caso, ela poderia tentar pular para o outro lado. No segundo, não havia nada a ser feito; ela teria que desistir e dar meia-volta. Não valia a pena arriscar.
Realmente, ela queria que seu pai estivesse ali. Por outro lado, esse sentimento era constante; não servia de indicação de nada.
Enquanto tateava à procura de alguma espécie de alavanca, seus dedos encontraram uma irregularidade. Ao se afastar, Woodstock se deparou com uma pequena insígnia gravada em um dos tijolos. Ela não reconheceu o símbolo; parecia um C estilizado sobreposto a uma série de espirais e círculos. As linhas eram limpas e simétricas, o que o diferenciava das demais pichações e rabiscos nas paredes. Quem quer que tivesse posto a marca ali sabia exatamente o que estava fazendo.
Woodstock não acreditava em coincidências. Ela tentou pressionar o pantáculo à marca, e, ao não obter resultado, sacou o celular do bolso e tirou algumas fotografias da gravura. Talvez Jessé ou seus pais reconhecessem o símbolo.
Ela quase deixou o celular cair ao ouvir passos atrás de si; era uma mulher muito bem vestida se aproximando. Woodstock deu um passo para longe do muro e tentou parecer aliviada ao vê-la.
— Ai, ainda bem que você apareceu! – exclamou. – Você não saberia me indicar o caminho de volta pra parte central do Mercado, saberia? Eu marquei de me encontrar com uma pessoa, mas acabei me perdendo...
Em parte, ela só queria passar a impressão de que fora parar ali por acidente. Não havia nada ali além daquela passagem e do símbolo, e estava bem óbvio que só pessoas com acesso ao que quer que houvesse além da passagem procuravam o local. E, em parte, ela realmente queria a ajuda. Havia estado tão concentrada em seguir Luiz que não havia memorizado o caminho que ele havia tomado.
A mulher lhe ofereceu um sorriso frio. Woodstock não gostava de como ela parecia tão à vontade naquele beco escuro.
— Claro, querida. Você só precisa dobrar à esquerda, depois à direita, e à esquerda de novo. – O olhar dela esquadrinhou Woodstock da cabeça aos pés. – Depois, é só seguir em frente.
Woodstock fez o possível para não deixar transparecer quão desconfortável estava com aquele olhar.
— Muito obrigada – murmurou. Durante todo o caminho até a saída do beco, ela estava ciente do olhar da mulher em suas costas; foi difícil não sair correndo.
Ela precisava contar a Jessé sobre aquilo. Mas, antes de ir embora, precisava achar um livro sobre organizações mágicas.
***
A família de Jessé não estava em casa, mas ele optou por ficar na sala mesmo assim. Seu quarto estava embaraçosamente bagunçado, e, além disso, Joana nunca o deixaria em paz se o encontrasse no quarto com uma menina que não era Woodstock. Pessoalmente, ele teria escolhido o quintal para contar aquela história – quanto mais aberto o ambiente, mais fácil era para ele se controlar –, mas ele imaginou que não seria muito educado para com sua visita.
Assim, Jessé conteve um estranho impulso de oferecer a Andressa um chá ou café e se contentou em se sentar de pernas cruzadas no chão da sala, hiperconsciente das fotos de família espalhadas pelo cômodo e da maneira como as três crianças sorridentes nelas gradualmente se tornavam duas. Após um momento de hesitação, Andressa se sentou no sofá, de frente para ele. Jessé poderia ter sentado ao lado dela ou em uma das poltronas próximas, mas pressentia que ia querer o frescor dos ladrilhos do chão quando começasse a falar.
Andressa ergueu as sobrancelhas para a escolha de lugares, mas não fez comentários. Jessé desejou que ela tivesse feito.
— Então – começou ele, e parou. Ele nunca falara sobre Josafá para ninguém além de Woodstock e de sua família, e, mesmo então, nunca precisara contar a história para eles. Não sabia por onde começar.
Andressa pareceu notar sua hesitação.
— Tem a ver com a tatuagem, não tem? – perguntou ela, em voz baixa. – O motivo pelo qual você e Woodstock precisam tanto da tábua?
— Eu preciso – corrigiu Jessé, automaticamente. – Woodstock só... – Tem um complexo. Acha que precisa salvar todo mundo. Nada daquilo era justo com ela. – É uma boa amiga, só isso.
Houve uma pausa, durante a qual ninguém falou nada. Andressa mudou de posição no sofá, parecendo desconfortável. Jessé se perguntou se ela se arrependia de ter perguntado. Ele decidiu acabar com o sofrimento dela e parar de adiar o inevitável.
— Pantáculos servem pra canalizar a magia, certo? – recomeçou, devagar. – Por isso, nós sempre temos um à mão, não importa no que ele esteja escrito. Pode ser até em papel, embora quase ninguém se arrisque com um material tão frágil.
Andressa tocou o novo colar.
— Isso muda alguma coisa? – indagou. – Digo, o material?
Jessé abriu um sorriso melancólico. Ah, ela não tinha ideia.
— Segundo o senso comum mágico, é só questão de praticidade – respondeu ele. – Você não quer que seu pantáculo rasgue no meio de um encantamento. Mas sim, alguns teóricos acreditam que pantáculos do metal certo podem acentuar a magia de Metalúrgicos, por exemplo, e coisas desse tipo. Isso só se aplica a magia material – Ele apontou para Andressa, depois para si mesmo. – Não é o nosso caso.
— Alguns teóricos – repetiu Andressa, soando incrédula. Jessé deu de ombros.
— Magia não é uma ciência exata.
Andressa fez uma careta.
— Por favor, não me diga que é uma arte. Eu sou péssima nisso. – Jessé riu, e ela fez sinal para ele continuar: — Foi mal, eu tô interrompendo.
Na verdade, Jessé estava grato pela interrupção. Ele não sabia exatamente como prosseguir.
— Bem, essa é a teoria de alguns estudiosos – Ele acabou dizendo. – Que magos que dependem de matéria física podem usar determinados materiais para aperfeiçoar e potencializar a própria magia. – Ele fez uma pausa. – Meu irmão... Bem, ele tinha uma teoria um pouco diferente.
Os acadêmicos não têm todas as respostas, Josafá costumava dizer, quando discutia com os pais sobre ciência e os mistérios do universo. Seus professores costumavam escrever em seus boletins que ele tinha uma curiosidade insaciável, e isso nem sempre era dito em tom positivo. A mãe de Woodstock achava que ele se tornaria artista. O pai dela dizia que ele seria cientista. Jessé sabia que o irmão era genial; havia quem dissesse que ele era louco.
Todos eles tinham um pouco de razão, no final. Jessé se esforçou para manter a voz e as chamas em seu peito sob controle ao continuar:
— Ele achava que o melhor material para um pantáculo era o próprio corpo do mago que o utilizava. Quer dizer, faz sentido, certo? No fim das contas, nossa fonte primária de magia somos nós mesmos, e não as matérias que manipulamos.
Andressa assentiu educadamente. Jessé teve a distinta impressão de que ela já sabia a direção que a história estava tomando.
— Faz sentido. Principalmente se não é uma ciência exata.
— É, bem, o problema é exatamente esse – murmurou Jessé. Ele já podia sentir o incêndio começando. – Como magia não é uma ciência exata, a única forma de ter certeza de algo é testando. Então, bem... Nós decidimos testar.
Ele observou a expressão de Andressa ir de curiosidade educada para compreensão e depois para algo diferente, e, por fim, teve que desviar o olhar. Jessé conhecia aquela expressão. Ele passara os últimos seis anos cercado por pessoas que sentiam pena dele.
— O experimento deu errado – deduziu Andressa, a voz quase um sussurro.
“Errado” parecia um eufemismo. Não chegava nem perto de descrever o cheiro de carne queimada, os gritos, a vida inteira de Jessé sendo consumida em chamas junto com sua família. Ele assentiu. Sua garganta ardia; ele não sabia dizer se era por causa da magia ou das lágrimas.
— Josafá tinha razão em um ponto – disse ele. – Desenhar o pantáculo no próprio corpo realmente amplifica a magia do mago. – Ele olhou de relance para a tatuagem em seu braço esquerdo. – Na verdade, esse foi justamente o problema.
Jessé se lembrava de como Josafá estiver animado naquele dia, indo de um lado ao outro da casa aos pulos e murmurando consigo mesmo sobre cientistas e acadêmicos e poder. Aos doze anos, Jessé via o irmão mais velho como um herói; quando Josafá lhe pedira ajuda, sequer pensara em recusar. Ele não tinha como saber que passaria o resto de sua vida desejando tê-lo feito.
Assim, eles haviam se sentado no chão do quarto de Josafá, frente a frente, cheios de expectativa e ingenuidade, marcadores em mão. No último segundo, Jessé fora tomado de incerteza, e Josafá apenas sorrira daquele jeito louco e estranhamente cativante dele.
— Você não confia em mim? – Ele havia perguntado.
Foi a última coisa que Jessé ouviu saindo da boca do irmão. Todas as noites, ele lembrava a si mesmo que os gritos que vieram depois não contavam.
A memória foi o suficiente para Jessé começar a suar. Esquecendo por um segundo da presença de Andressa, ele dobrou os joelhos junto ao peito e colocou a cabeça entre eles, as mãos fechadas em punhos firmes ao lado das orelhas. O calor em seu peito se expandiu até ter se espalhar pelo resto do corpo, como se seu sangue fosse feito exclusivamente de chamas. Por um momento, Jessé achou que não seria capaz de controlá-lo; o esforço para fazer o fogo retroceder pareceu quase físico, como se ele estivesse tentando mover uma montanha com a força da mente.
Por fim, o calor cedeu, deixando para trás apenas um gosto ruim no fundo de sua garganta e uma marca avermelhada ao redor de seu dedo médio, onde seu anel ficara muito quente. Jessé ergueu a cabeça para se deparar com Andressa ajoelhada no chão ao seu lado, com a mão meio estendida, como se estivesse indecisa sobre tocá-lo. Ele abriu um sorriso amarelo.
— Desculpe por isso. Efeitos colaterais. Eu já ia chegar nessa parte. Tá tudo bem.
Andressa o analisou, parecendo cética.
— Tá mesmo? Eu achei que você tivesse tendo um ataque de pânico ou algo do tipo.
Ele tinha, de vez em quando, ao acordar sozinho no meio da noite, e entendia por que ela pensaria aquilo. A sensação não era muito diferente.
— Não, eu tô... Certo, não bem, mas tô acostumado – Ele fez um gesto vago com a mão. – Pode ficar tranquila. Não precisa se preocupar.
Ao invés de retomar seu lugar no sofá, Andressa se sentou de frente para ele, com as costas apoiadas no assento. Não parecia nem um pouco convencida, mas fez sinal para que ele retomasse a história. Jessé engoliu em seco, respirou fundo e tornou a falar:
— Um pantáculo desenhado em carne humana é poderoso demais. Ele canaliza uma quantidade inigualável de magia, mas não permite ao mago controlá-la – Ele estendeu o braço esquerdo para mostrar a queimadura coberta pela tatuagem. Não duvidava que Andressa já a tivesse notado antes. – Eu não consegui desenhar o pantáculo todo. Não aguentei a dor – Ele fez uma pausa, sem conseguir evitar se sentir envergonhado. – Isso provavelmente salvou minha vida.
Mais uma vez, ele evitou deliberadamente o olhar de Andressa.
— Meu irmão desenhou a coisa toda, cada detalhe. A casa inteira pegou fogo – concluiu. – E o ponto inicial do incêndio foi Josafá.
Um silêncio pesado se seguiu à declaração, durante o qual Jessé encarou os próprios joelhos e se convenceu de que Andressa se arrependera de ter perguntado. Por fim, ela disse, em um tom horrorizado que fez Jessé querer rastejar para fora da própria pele:
— Jessé, eu sinto muito.
E lá se vai qualquer esperança de uma conversa normal, pensou ele.
— É, eu também – Ele passou a mão pelo cabelo e suspirou. – Enfim, é por isso que eu... Que nós precisamos da Tábua. Minha magia ficou completamente fora de controle depois disso. – Ele gesticulou indicando a si mesmo. – Daí o que aconteceu agora. Woodstock acha que talvez tenha algo na Tábua que pode me ajudar.
Andressa tornou a estender a mão, timidamente.
— Posso?
Jessé assentiu. Ela correu os dedos pela tatuagem delicadamente; seu toque frio era reconfortante contra a pele quente dele. Enquanto isso, ele observava o rosto dela. Andressa tinha uma espécie de beleza discreta, com aqueles olhos amendoados e inteligentes e o nariz perfeitamente reto, mas Jessé duvidava que ela passasse despercebida em algum lugar. Não eram só os cabelos cortados na altura do ombro e com mechas cor-de-rosa e loiras se sobressaindo em meio aos fios escuros, nem os óculos redondos de armação dourada; havia algo na maneira como ela se portava, tão segura de si mesma, que devia fazer as pessoas se virarem para olhá-la. Mais uma vez, Jessé desejou tê-la conhecido em circunstâncias melhores.
— Quanto tempo faz? – perguntou Andressa, baixinho. Jessé se apressou em desviar o olhar.
— Uns, hm, seis anos. É, isso mesmo. Seis.
— E vocês estão procurando a Tábua desde então?
Ele sacudiu a cabeça.
— Woodstock ouviu a lenda cerca de dois anos depois.
Finalmente, Andressa soltou o braço de Jessé. Ele teve um breve momento para lamentar a ausência do toque antes que ela perguntasse:
— E ninguém nunca tinha explicado nada disso a vocês? Nem seus pais?
Demorou um instante para Jessé perceber que ela estava fitando um dos porta-retratos pendurados na parede. A imagem mostrava sua família inteira sorrindo em uma praia, todos usando roupas de banho combinando, até a bebê Joana. Jessé devia ter uns sete anos, e Josafá, onze. Eles eram muito parecidos naquela idade, e as pessoas costumavam até perguntar se eram gêmeos, a despeito do fato de Josafá ser um pouco mais alto.
Às vezes, Jessé desejava que todas as fotos antigas tivessem sido perdidas no incêndio. Ele tornou a sacudir a cabeça.
— Acho que eles não imaginaram que um de nós teria uma ideia tão idiota. Talvez eles não soubessem. Talvez eles tenham falado, e nenhum de nós lembrou – Ele estremeceu, lembrando-se do olhar no rosto de sua mãe enquanto o puxava pela mão para fora da casa em chamas, do som de seu pai chamando por Josafá com a voz embargada. – Não sei. Nós nunca falamos muito sobre o assunto. Acho que eles já se culpam o suficiente.
Ele achou melhor não mencionar que isso talvez fosse uma coisa boa. Jessé estava convencido de que o único motivo pelo qual sua família não desmoronara completamente depois da morte de Josafá era o fato de que todos eles haviam culpado a si mesmos, ao invés de culpar uns aos outros. Bem, exceto Joana, mas ela tinha sua própria cruz para carregar.
Andressa pareceu estar pensando a mesma coisa. A expressão dela se tornou ainda mais triste.
— Não deve ter sido fácil pra você, também. Nem pra sua irmã.
Jessé não conseguiu evitar uma risadinha irônica, sem humor, nada característica dele.
— É, com certeza. — Ver seu irmão mais velho entrar em combustão espontânea, bem – Ele deu de ombros. – Acho que isso causa uma impressão e tanto numa criança. Ela nunca conseguiu usar seus poderes. Acho que ela nunca quis usar.
— Quem sabe ela não tenha poderes – sugeriu Andressa. Jessé sacudiu a cabeça.
— Eu aprecio você estar tentando fazer com que eu me sinta melhor, mas isso seria muito conveniente. A magia não costuma saltar gerações.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos. Andressa disse:
— E você? – Quando Jessé lhe lançou um olhar interrogativo, ela acrescentou: — Você também era só uma criança. Como você ainda consegue usar sua magia sem problemas? Você não tem medo?
Eu não uso a magia, Jessé quis dizer a ela. Ela me usa.
Ao invés disso, ele deu um sorriso amargo.
— Você fala como se eu tivesse alguma escolha – respondeu. – Magia é, por definição, uma coisa assustadora – Principalmente se ela estiver ameaçando te incendiar de dentro pra fora. Mas ele não podia falar isso. – Ou você aprende a lidar com isso, ou enlouquece tentando.
Um silêncio carregado recaiu sobre a sala. Jessé teve a impressão de que conseguia sentir o cheiro da fumaça daquela noite, espiralando pelo ar e infectando seus pulmões com a memória.
Por fim, Andressa soltou um ruído esquisito que talvez fosse uma risada nervosa.
— E eu achando que tinha problemas. Magia é uma merda, né?
A despeito do clima pesado, Jessé não conseguiu evitar rir com ela.
— Você é a única adolescente que diria uma coisa dessas. Sério, de verdade.
— E você não concorda? – indagou ela, subitamente séria. – Quer dizer, a vida não seria mais fácil sem tudo isso?
Por mais que tentasse, Jessé não conseguiu achar uma resposta para isso. Magia era tão intrinsecamente parte dele, do que ele era, que era difícil até cogitar algo diferente. Além disso, ele preferiria que Andressa não tivesse tocado no assunto. Ele não precisava viver com aquele tipo de amargura.
— Bem, com alguma sorte, você vai poder voltar pra sua vida normal logo – disse ele, e, depois de um momento de hesitação, decidiu arriscar: — Só espero que não esqueça completamente a gente. Eu sou muito bom em fingir que sou um amigo normal, sabe?
Ele teve tempo para apreciar a risada de Andressa antes que a campainha tocasse e os distraísse. Pedindo licença a ela, que ainda ria, ele se levantou para atender à porta. Uma espiada rápida no olho mágico confirmou que era Woodstock; assim que ele abriu a porta, ela enfiou um celular em sua mão e entrou sem esperar ser convidada.
— É maior do que a gente imaginava, eu tenho certeza— disse ela. Parecia perturbada, o que era bastante incomum para Woodstock. – Não é só o cara do terno, Jessé. Acho que tem muito mais gente metida nessa história.
Jessé demorou para entender a imagem que estava aberta na tela do celular: parecia um símbolo gravado na pedra, mas ele nunca o vira antes. Será que Woodstock esperava que ele soubesse o que significava? Ele segurou o braço dela para fazê-la parar de andar de um lado para o outro.
— Você tem que me explicar as coisas – lembrou, o mais gentilmente que conseguiu. – Eu só consigo ler sua mente até certo ponto.
Woodstock respirou fundo, e só então ela pareceu notar a presença de Andressa. Cumprimentou a garota com um acento, depois voltou a atenção para Jessé.
— Eu encontrei com Luiz – começou. – Lá no mercado. E você sabe que eu gosto dele, mas ele tava agindo de forma no mínimo suspeita...
Jessé ergueu uma mão para fazê-la parar.
— Que tal você entrar, beber uma água e falar devagar?
Ela revirou os olhos, mas se sentou no sofá e esperou que ele lhe trouxesse um copo d’água, que virou em dois goles, claramente ansiosa para começar a falar. Depois de ouvir o relato, Jessé não pôde julgá-la.
— O que você acha que tem atrás do muro? – perguntou Andressa. – Alguma hipótese? Você não conseguiu ver nada?
Woodstock mordeu o lábio inferior, considerando a pergunta.
— Nada que eu pudesse discernir. Só uma sala escura – disse, por fim. – Mas vocês tão seguindo meu raciocínio, né? Eu não sou a única a achar isso uma coincidência grande demais?
Felizmente, Jessé não precisou completar a linha de pensamento de Woodstock; Andressa o fez por ele.
— Seja lá o que tiver naquela sala – disse ela. –, nós temos que descobrir, não temos?
— Exatamente – concordou Woodstock. – E, para isso, nós vamos precisar entrar.
Fale com o autor