Notas iniciais
Gente do céu, eu ESQUECI que ainda não tinha postado capítulo esse mês, e isso porque eu já tô dez capítulos à frente das postagens e minha meta é nove :v peço desculpas, esse mês de fevereiro tá sendo meio atropelado na minha vida. Enfim, eu tava bem animada pra postar esse capítulo. Magos adolescentes ensinando os outros a usar magia de ressaca? Temos. Espero que gostem :v

Jessé não ficou nem um pouco surpreso quando, na manhã seguinte, Woodstock apareceu em seu quarto para anunciar que tinha bolado um plano.

— Você realmente deveria ter dormido um pouco – Ele disse a ela. – Ficar acordada a noite inteira faz mal pro seu cérebro.

Ele, naturalmente, já estivera acordado quando ela entrara, apesar de ainda ser cedo. Não havia pregado o olho a noite inteira, e tinha certeza de que a amiga podia deduzir isso. Jessé já tinha dificuldades para dormir em circunstâncias normais; toda aquela história com a Tábua e falar sobre Josafá para Andressa o perturbara bastante. Mas, ao invés de apontar que ele não tinha moral para criticá-la, Woodstock ignorou o comentário e prosseguiu:

— Só tem um problema: meu plano inteiro se baseia na possibilidade de termos um Ilusionista do nosso lado.

Jessé franziu o cenho.

— Você quer dizer Andressa? Ela não sabe como usar magia. Aliás, duvido muito que ela queira aprender a usar magia.

— Bem, ela não tem muita escolha, tem? – Woodstock se jogou na cama ao lado dele. – Se quisermos encontrar a Tábua, todos vamos ter que fazer sacrifícios. E, fala sério, aprender a usar magia é um sacrifício bem fácil de se fazer. Há coisas bem piores.

Jessé pensou que Woodstock não precisaria fazer sacrifício nenhum, se assim decidisse – diabos, ela nem precisaria procurar a droga da Tábua de Esmeralda, se não fosse uma amiga tão boa –, mas não falou nada. Sempre que ele mencionava o assunto, os dois acabavam discutindo, e ele não estava com humor para ouvir mais um discurso sobre como ela não ia ficar de braços cruzadas e assisti-lo sofrer, e como ela não podia perdê-lo também, e sobre como ele deveria só “deixá-la ajudar, caramba”.

— Acho que nós poderíamos ensiná-la, mas talvez fosse melhor pedir ajuda a Hugo – ponderou Woodstock. – Você acha que ele toparia?

— Bem, como você falou, sacrifícios – Ele conteve o impulso de revirar os olhos. – Além disso, ele é um dos mais interessados na Tábua. Acho que isso não vai ser um problema.

— Ótimo! – Woodstock se levantou num pulo. Jessé não pôde deixar de se perguntar como ela conseguia ter aquela energia toda tão cedo, depois de ter passado a noite em claro. Mesmo estando acostumado à falta de sono, ele ainda se sentia como um zumbi pela manhã. – Vou ligar pra ela e pedir pra ela ligar pra ele.

— Talvez você devesse esperar dar uma hora normal pra ligar pra alguém. As pessoas normais, ao contrário da gente, geralmente gostam de dormir nas férias.

Depois de um instante de consideração, Woodstock tornou a se sentar ao lado dele.

— Droga – resmungou ela. – Malditas pessoas normais.

***

A despeito da preocupação de Jessé, Andressa já havia sido despertada antes do que gostaria por outra ligação. Ainda mal eram nove da manhã quando sua mãe irrompeu em seu quarto, celular em mãos, parecendo vagamente irritada.

— É seu tio – anunciou ela. – Ele quer falar com você.

Normalmente, seu tio Thales só telefonava em datas especiais; no resto do tempo, ele se contentava em mandar mensagens e fotos de bichinhos ocasionais no chat em grupo da família. Como seu aniversário era só em julho e o natal ainda estava um pouco longe, demorou um pouco para o cérebro sonolento de Andressa imaginar um motivo para ele estar ligando para ela às nove da manhã de um sábado de férias.

Então, ela lembrou de duas coisas. A primeira foi que ligara para o tio quatro vezes na noite anterior, e não obtivera resposta. A segunda foi que, até onde sabia, tio Thales tinha os horários mais bizarros do que qualquer adulto que ela conhecia. Ela se inclinou para pegar o celular e aguardou até que a mãe saísse para dizer, com a voz rouca de sono:

— Oi, tio.

— Oi, Dessa! – Ele era uma das poucas pessoas que ainda a chamavam assim. Andressa não gostava muito do apelido, mas decidiu relevar. – Tudo bem? Acordei você?

— Acordou, sim, mas não tem problema não. Eu tô de férias.

— Ah, sim. É que você me ligou antes, né? Eu não pude atender, só vi as ligações agora. O que houve?

Andressa hesitou por um instante. Fazer uma pergunta aleatória sobre magia para sua mãe, com quem ela falava todos os dias sobre vários assuntos diferentes, era uma coisa. Ligar para seu tio, com quem ela mal se comunicava, especificamente para perguntar se ele acreditava em magia era outra completamente diferente. Por outro lado, Thales, com seu jeito excêntrico e despojado, sempre fora muito mais crédulo e acolhedor do que sua irmã mais velha, e era fácil conversar com ele – em outras palavras, ele era o esquisito da família, como a sobrinha, e Andressa concluiu que ele provavelmente já vira coisas mais estranhas.

— É, eu queria ajuda pra, hm, uma pesquisa – começou ela.

— Pesquisa? – Ela conseguia imaginar Thales franzindo a testa do outro lado da linha. – Mas você não disse que tá de férias?

— É, bem, é mais tipo uma pesquisa independente. Um negócio mais pessoal – Andressa ponderou por alguns segundos antes de decidir ir direto ao ponto: — Você acredita em magia?

— Ah, absolutamente – respondeu Thales, soando distraído. E depois, desconfiado: — Algum motivo específico pra essa pergunta?

O tom cauteloso dele quase foi confirmação o suficiente. Andressa disse:

— Bem, todas as evidências apontam nessa direção, e, quando perguntei a minha mãe sobre o assunto, ela discretamente sugeriu que eu perguntasse a você.

Thales soltou uma risadinha.

— O que significa que ela disse que você parecia louca igual a mim.

— É, basicamente isso. E eu fiquei pensando... Quem sabe eu seja igual a você?

Não era para soar como uma pergunta, mas, a despeito da confiança que tinha de estar certa, Andressa não conseguiu se forçar a ser mais clara e direta do que isso. Por outro lado, não foi necessário; Thales pareceu entender o que ela queria dizer. Houve um momento de silêncio desconfortável antes que ele dissesse, de forma incomumente séria:

— Qual foi o tipo?

— Ilusionista – respondeu Andressa quase imediatamente, com uma naturalidade que fez com que ela torcesse o nariz. Não gostava da ideia de estar se acostumando àquilo tão rapidamente. – Foi um acidente. Aparentemente, eu quase morri, ou algo do tipo, então...

— Você o quê?

— Enfim, eu já resolvi essa parte. Arranjei um pantáculo, blá blá blá, e estou trabalhando em não perder completamente a cabeça – Ela fez uma pausa. – E em me livrar disso o mais rápido possível.

A resposta de Thales não a surpreendeu; ele soltou uma risadinha sem graça e disse:

— Dessa, não dá pra simplesmente “se livrar disso”.

Andressa respirou fundo.

— Você já ouviu falar da Tábua de Esmeralda?

Foi uma longa conversa, mais longa do que qualquer uma que Andressa já tivera com o tio pelo telefone. Sim, Thales conhecia a lenda, mas não via o que aquilo tinha a ver com qualquer coisa. Não, ele não achava que a Tábua existia de verdade. Sim, eles poderiam se encontrar para debater um pouco mais sobre a veia mágica da família, e por que ela não ia visitá-lo naquelas férias? Certamente Bianca não implicaria. Ele não sabia como ajudar, mas estava disposto a tentar, e, além disso, uma reunião de família nunca atrapalhava, certo?

Quando finalmente desligou o telefone da mãe e pegou o próprio aparelho, Andressa estava se sentindo surpreendentemente melhor. Mesmo que não tivesse conseguido muitas respostas, pelo menos sabia que tinha um adulto responsável com quem contar no meio de toda aquela bagunça, e, por mais que gostasse de Jessé e Woodstock, aquilo o deixara aliviada.

A mensagem de Woodstock sobre ter um plano para invadir o que quer que ela tivesse visto no Mercado a desanimou um pouco, mas ela teve que admitir que estava um tanto empolgada para aprender a controlar magia, de forma relutante. Além disso, era uma desculpa perfeita para ligar para Hugo. Desde o desastroso encontro no Memorial, eles só haviam se falado para debater sobre o roubo de magia, e Andressa estivera debatendo mentalmente se deveria ou não vê-lo de novo. Ao menos o plano de Woodstock a forçaria a tomar uma decisão com relação a isso; ela deixara bem claro que, junto com Jessé, poderia guiá-la nos princípios gerais da magia, mas só um Ilusionista poderia ensiná-la de verdade, e Hugo era a opção mais óbvia.

Além de responder a Woodstock e falar com Hugo, Andressa também mandou uma mensagem para Michelle, atualizando-a sobre a situação, como a amiga havia pedido que fizesse. Ela estava preocupada com a ideia de Andressa se metendo com coisas que não entendia muito bem, principalmente sendo guiada por completos estranhos. Andressa dissera a ela para não se preocupar; afinal, ela não fizera alguns meses de aulas de defesa pessoa para mulheres à toa, certo?

Michelle foi a única que respondeu de imediato, dizendo-lhe para ter cuidado e mandar a localização de onde quer que eles decidissem treinar. Woodstock demorou cerca de uma hora para escrever dizendo que eles podiam começar assim que Hugo respondesse de volta, o que, aparentemente, não seria tão cedo. O “visto por último” sob o nome dele exibia um horário pouco depois da meia-noite. Andressa imaginou que não valia a pena esperar por uma mensagem dele nas próximas horas. Talvez ele tivesse ficado acordado até tarde pesquisando sobre a Tábua, ou algo do tipo. Com certeza, devia estar ocupado com alguma coisa importante.

***

Hugo estava de ressaca. Uma ressaca daquelas.

A primeira coisa que ele fez ao recobrar a consciência foi tomar um bom gole do copo d’água que alguém deixara ao lado da cama na noite anterior; sua garganta ardia, e sua língua parecia uma lixa. A segunda coisa foi tentar se lembrar se fora ele quem colocara o líquido ali, sentindo o nervosismo se acumular no estômago. Se não tivesse sido, significava que ou levara alguém para casa consigo, ou seu pai vira seu estado ao chegar em casa na noite anterior. Ambas as possibilidades terminariam inevitavelmente com uma briga feia e um castigo, e ele estava muito debilitado para lidar com aquilo agora.

Gradualmente, ele se lembrou de ter derramado água no chão da cozinha tentando encher o copo. Bom sinal. O nervosismo afrouxou um pouco, mas seu estômago estava longe de ficar bem. A terceira coisa que ele fez ao acordar foi se levantar, vacilante, e correr até o banheiro, do outro lado do corredor, para vomitar no vaso sanitário, rezando para não ser visto. Se estivesse em sua casa, em Natal, ou se ainda pudesse usar magia, isso não seria problema; seu quarto era uma suíte, e, mesmo que não fosse, ele poderia conjurar uma camuflagem simples para se esconder do olhar do pai. Do jeito que foi, tudo o que podia fazer era trancar a porta, tentar não fazer barulho e torcer para Isaías não estar em casa.

Quando sentiu que era seguro, ele puxou a descarga, voltou ao quarto e fez uma pausa para procurar pelo celular nos bolsos da jeans largado no chão antes de finalmente se deixar cair de volta na cama para olhar as notificações. Havia algumas marcações em fotos, incluindo em algumas que ele não se lembrava de ter tirado; não deu muita atenção a elas. Seu primo havia lhe mandado uma mensagem perguntando se ele estava vivo, à qual Hugo respondeu com uma imagem de alguma web celebridade com o polegar levantado em sinal positivo. Honestamente, não gostava muito do primo, e tampouco gostara da festa em que ele o havia levado. Fora parte do motivo pelo qual acabara ficando tão bêbado.

Seu pai também lhe mandara mensagens, perguntando onde diabos ele havia se enfiado. Hugo dissera a ele que dormiria na casa do primo, na tentativa de se esquivar de perguntas sobre o que faria, mas supôs que fosse mais fácil verificar a veracidade dessa informação do que quando ele dizia que ia para a casa de amigos, em Natal. Decidiu que lidaria com as consequências à medida em que elas aparecessem. No fim das contas, se esgueirar para fora de casa porque estava de castigo não era muito diferente de se esgueirar para fora de casa porque não queria ficar de castigo.

A única mensagem que lhe chamou a atenção de verdade foi a de Andressa, tanto porque ele não esperava ouvir notícias dela tão cedo, quanto pelo conteúdo. Ele sabia que Woodstock e Jessé eram os responsáveis por dar a Andressa a ideia de procurar pela Tábua, e que conhecera Woodstock brevemente no Memorial, mas ainda se surpreendeu por Andressa convidá-lo para se encontrar com eles para ensinar a ela como usar magia, porque eles precisariam de um Ilusionista para investigar ações suspeitas que Woodstock vira no Mercado. Não era uma coisa fácil de digerir quando se estava de ressaca.

Apesar de já ter demorado horas para responder, Hugo se permitiu mais alguns minutos para refletir se aceitaria o convite ou se inventaria uma desculpa para adiá-lo, preferencialmente sem mencionar a dor de cabeça insuportável causada pela ressaca. Antes que tivesse tempo de tomar uma decisão, foi interrompido pelo som da porta se escancarando sem preâmbulos. Ele não precisou erguer o olhar para saber que era seu pai, furioso e pronto para uma discussão.

— Olha só quem lembrou que tem casa – disse Isaías.

— Essa não é minha casa – retrucou Hugo, ainda sem levantar os olhos. – E eu avisei que ia dormir fora.

— Mas não dormiu, dormiu? – O tom de Isaías ainda era contido, mas Hugo tinha experiência o bastante para saber que, na verdade, isso não importava. – Se você vai mentir na minha cara, pelo menos tenha a decência de fazer isso direito. Não insulte minha inteligência desse jeito.

Dessa vez, Hugo permaneceu calado. Normalmente, era muito melhor em sair escondido do pai e em não ser pego de ressaca. Além da habilidade de mentir e ocultar a própria presença, conseguia criar a ilusão bastante convincente de que ainda havia alguém em sua cama, e mantê-la por um tempo razoável, para o caso improvável de Isaías decidir checar. Porém, não quis chamar atenção para esse fato, que poderia levar a perguntas indesejadas, como o porquê de ele não ter utilizado magia daquela vez.

Isaías deixou que o silêncio se estendesse por um longo minuto, então disse, praticamente cuspindo as palavras:

— Você é o garoto mais ingrato e desobediente que eu já vi na minha vida. Eu podia ter te largado em Natal, bem longe de mim, mas ainda assim decidi te trazer comigo, na esperança de te fazer aprender alguma coisa, e tudo o que você quer fazer é cair na farra.

Racionalmente, Hugo sabia que devia aguardar em silêncio até o final do sermão, mas ele estava começando a sentir a mistura habitual de raiva e vergonha se espalhando em seu peito, como tentáculos de alguma besta primitiva tentando dominar seu coração. Àquela altura, sabia que seria punido quer respondesse, quer não, então não fez muito esforço para se impedir de observar:

— Caso você não lembre, eu não pedi pra vir com você. Eu literalmente implorei pra não ser arrastado pra essa cidade de merda pra te ajudar na sua pesquisa idiota.

Isaías bufou.

— Ah, sim, você tem sido de muita ajuda.

— Algumas pessoas têm uma vida, você sabe.

A fachada casual de Isaías se desfez imediatamente. Hugo se preparou para o discurso sobre como o pai sacrificara muita coisa para cuidar dele quando sua mãe morrera, mas ele não veio. Ao invés disso, Isaías disse:

— Pois eu vou logo te avisando que essa sua “vida” – Ele abriu aspas no ar com os dedos. – não vai te levar a porcaria nenhuma, e eu não vou ficar sustentando filho vagabundo pro resto da vida. – Ele estendeu uma mão. – Telefone.

Relutante, Hugo bloqueou a tela do aparelho e o entregou ao pai. Isaías guardou-o no bolso do blazer que sempre usava a despeito do calor, parecendo satisfeito.

— Pode pegá-lo de volta quando decidir servir pra alguma coisa – disse, antes de se retirar do quarto.

Depois que ele saiu, Hugo permaneceu deitado, encarando o teto, até seus batimentos cardíacos se acalmarem o bastante para ele não querer mais socar ninguém e a dor de cabeça amenizar o suficiente para que ele pudesse levantar e procurar pelo notebook que havia levado. Por mais que agora tivesse a desculpa perfeita para ignorar a mensagem de Andressa, ficar em casa descansando, enquanto o pai estava no quarto ao lado, subitamente pareceu menos atraente do que se arrastar para fora da cama. Além disso, ele já saíra correndo do primeiro encontro deles, logo depois de quase tê-la matado ao usar magia para ocultá-la de seus conhecidos. Hugo imaginou que ignorá-la de novo não seria o caminho para se redimir.

Assim, ele encontrou o computador e procurou o nome de Andressa em uma rede social. Uma hora depois, estava batendo na porta do endereço que ela lhe dera, de óculos escuros, com uma cartela de analgésicos em uma mão e uma sacola do drive-thru do McDonald’s na outra.

Ele não reconheceu o garoto que abriu a porta, mas presumiu que devia ser Jessé, que Andressa havia mencionado de passagem ao contar como descobrira sobre a Tábua de Esmeralda. O cabelo castanho dele estava bagunçado; não do jeito cuidadosamente estilizado que Hugo usava de vez em quando, e sim de uma forma que dizia que ele não tivera tempo para penteá-lo. Seu nariz era um pouco torto, mas não o suficiente para parecer ter sido quebrado. Ele era bonitinho, mas não fazia muito o tipo de Hugo. Ele preferia caras um pouco mais altos.

O olhar do rapaz se demorou nos comprimidos e na sacola parda na mão de Hugo, depois voltou ao rosto dele, coberto pelos óculos, e ele deu de ombros, não parecendo interessado o suficiente em perguntar o motivo daquilo.

— Você deve ser o Hugo – disse. – Entra aí.

Hugo obedeceu. Não teve tempo de analisar o ambiente à sua volta; o outro garoto imediatamente o conduziu até o quintal da casa, enquanto se apresentava e explicava resumidamente o motivo pelo qual Andressa o chamar ali. Hugo não prestou muita atenção – afinal, quase tudo já fora dito na mensagem que ela lhe mandara.

O quintal era bastante amplo, e completamente cimentado, de forma que nenhuma vegetação crescia na área. Woodstock e Andressa estavam sentadas em cadeiras de balanço a alguns metros da porta, na única parte sombreada do local. Nenhuma das duas pareceu particularmente empolgada em vê-los, mas Andressa abriu um sorriso reservado. Não parecia ter guardado muito rancor pelo encontro desastroso de alguns dias atrás, pelo que Hugo ficou grato. Eles já tinham coisas demais com as quais lidar sem precisar resolver aquele drama. Além disso, ele detestava irritar pessoas atraentes. Acabava limitando suas opções.

— Então – começou ele. – Qual o plano?

Andressa havia lhe explicado por cima o que acontecera no dia anterior, e que Woodstock pretendia invadir algum lugar utilizando magia de Ilusionista, mas ele não sabia muito além disso. Woodstock mudou de posição na cadeira, parecendo desconfortável agora que todos os olhos estavam nela.

— Não é nada complicado, na verdade – disse. – Nós vamos até a passagem, disfarçados por magia, se o treinamento correr bem – Ela fez um gesto de cabeça na direção de Andressa. – Pensei em irmos mais ou menos na mesma hora de ontem, porque, caso se trate de algum tipo de organização, eles devem ter horários fixos. Vamos esperar alguém aparecer e abrir a passagem, entrar atrás deles, e voilà.

Jessé ergueu a mão, como se estivesse numa sala de aula.

— Todos nós?

Woodstock pensou por um instante.

— Não precisa. Acho que só eu e Andressa damos conta do recado.

Jessé assentiu, satisfeito com a explicação. Hugo, por outro lado, estava revisando o plano dentro da própria cabeça, e definitivamente tinha alguns comentários a fazer.

— Então deixa eu ver se eu entendi – disse. – O plano inteiro depende de um encantamento realizado por uma pessoa que não tem conhecimento nenhum sobre magia... – Ele olhou rapidamente para Andressa. – Não que eu não acredite no seu potencial de aprendizado, claro, mas você entendeu... E na possibilidade de alguém por acaso decidir abrir a passagem na hora em que vocês estiverem lá?

— Foi exatamente o que eu falei – murmurou Andressa. Woodstock, entretanto, deu de ombros, sem parecer nem um pouco intimidada.

— É. Estou aberta a sugestões.

Honestamente, Hugo não tinha nenhuma, e estava cansado demais para discutir. Ele fez uma pausa para engolir um dos comprimidos que tinha na mão antes de dizer:

— Então tá. Acho que vamos começar o treinamento.

***

No fim das contas, ficou evidente que Hugo não era exatamente um professor exemplar. Ele não era tão eloquente ao falar sobre magia quanto Woodstock, provavelmente porque nunca precisara fazê-lo, e claramente não havia preparado nada com antecedência. Além disso, ele precisou interromper a aula pelo menos três vezes para correr até o banheiro, para vomitar, presumivelmente. Ele mantivera os óculos escuros o tempo inteiro e havia devorado o conteúdo da sacola do McDonald’s um pouco rápido demais; Andressa reconhecia uma ressaca quando via uma.

Mas ele tinha paciência de sobra, e Andressa era uma boa aluna. Logo ela havia aprendido os princípios básicos da magia ligada às ilusões, e, em particular, às camuflagens, o que não impedia Hugo de repeti-las o tempo todo.

— A chave é contato visual – lembrou ele, pela centésima vez. – De forma geral, você só pode esconder da visão dos outros aquilo que está dentro do seu próprio campo de visão.

Era evidente que ele finalmente conseguira se expressar de forma coerente e vagamente acadêmica, e estava muito orgulhoso de si mesmo por isso. Andressa não conseguia evitar achar aquilo um tanto cativante, não da forma galante como ele fora durante o primeiro encontro deles, mas como algum bichinho fofo que aprendera um truque.

— Eu entendi essa parte – resmungou ela. – Estou vendo a pedra, obrigada.

Fazia quase uma hora que estava trabalhando em um exercício bastante simples – ocultar uma pedra do tamanho de sua mão das vistas de Woodstock e Jessé, que assistiam a tudo com diversão –, e, mesmo assim, não parecia estar obtendo nenhum resultado. Logicamente, ela sabia que magia era difícil, especialmente para quem não crescera com ela; Woodstock havia explicado aquilo em uma tentativa de tranquilizá-la e encorajá-la. Emocionalmente, ela estava começando a ficar frustrada, e a lembrar por que quisera se livrar dos poderes, para começo de conversa.

Hugo a observava atentamente, e, embora seus olhos ainda estivessem cobertos pelos óculos, dava para sentir a ansiedade emanando dele. Provavelmente, estava com pressa para ter sua magia de volta. O contraste entre o rapaz atrevido e impecável que ela conhecera no Memorial e aquele menino cansado e de cabelo bagunçado era evidente, embora ele ainda mantivesse a elegância de antes, e Andressa meio que gostava disso.

— Respira – disse ele, o que, Andressa tinha que admitir, não era muito útil. Ela obedeceu mesmo assim. – Se acalma. Já, já a faísca deve aparecer.

“A faísca” fora o termo que Hugo escolhera para se referir à magia. Supostamente, Andressa deveria se concentrar até senti-la, então dar um jeito de atiçar o fogo. Não que ela soubesse como fazer isso. Jessé estivera certo ao dizer que magia era uma arte, não uma ciência, e Andressa não estivera mentindo quando afirmara que era uma péssima artista. Ela pensou que Michelle se daria bem naquilo.

Respirando fundo outra vez, Andressa voltou os pensamentos para a pedra à sua frente. Já a estava encarando havia tanto tempo que se sentia capaz de abrir um buraco nela só com o poder da mente, e, mesmo assim, a maldita pedra continuava ali, intacta. A frustração deu lugar à raiva, um sentimento ao qual ela havia se acostumado desde que se encontrara com Hugo no Memorial. Dessa vez, porém, havia algo diferente: ela quase conseguia ver a direção que a raiva em seu peito estava tomando, como uma espécie de funil que levava às suas mãos, como se, de alguma forma, ela tivesse conseguido encaminhar a sensação para um ponto específico do corpo.

As pontas de seus dedos começaram a formigar. O fenômeno era bastante parecido com o que ela sentira quando roubara a magia de Hugo, mas, agora, não havia nada parecido com o pânico de antes. A corrente elétrica não parecia ameaçadora; Andressa sentiu o peso do pantáculo em seu pescoço, agindo como um fio-terra, protegendo-a do impacto direto da magia que agora se espalhava por seu corpo em uma velocidade surpreendente. Ao invés de sonolenta, ela se sentia mais desperta do que nunca. Pensou vagamente que talvez não devesse estar tão ansiosa para se livrar dos poderes, afinal.

À frente dela, o ar ao redor da pedra tremeluziu, como a ilusão causada pelo calor subindo do asfalto em um dia particularmente quente, e o objeto desapareceu. Foi apenas por uma fração de segundo; Andressa piscou, e, quando abriu os olhos, a pedra estava visível novamente, inalterada, como se nada tivesse acontecido. Mesmo assim, ela não conseguiu evitar abrir um sorriso ao ouvir as exclamações de empolgação de Jessé e Woodstock.

— Até que não foi tão difícil – disse, soando só um pouco convencida.

Hugo retribuiu o sorriso. Ainda parecia bastante cansado, mas dava para ver que estava satisfeito. Woodstock se aproximou para cumprimentá-la com um high-five. Jessé disse:

— Viu? Eu disse que você ia se acostumar.

Andressa fez uma careta para ele.

— Não vamos colocar a carroça na frente dos bois, tá? “Se acostumar” é um termo bem forte.

— Você vai chegar lá – prometeu Jessé, ao mesmo tempo em que Hugo disse:

— Na verdade, nunca deixa de ser surpreendente.

Eles trocaram um olhar ligeiramente desconfortável e Andressa conteve a vontade de rir. Woodstock olhou para ela e sacudiu a cabeça com desaprovação, mas dava para ver que ela também estava segurando o riso.

— Bem, acho que são duas abordagens diferentes. Foco aqui – Ela se virou para Andressa. – Foi um ótimo início, de verdade. Você aprende rápido.

Andressa tentou não parecer muito feliz com o elogio. Ela nunca admitiria em voz alta, mas, em algum momento da última semana, fora de achar Woodstock uma louca com quem não queria ter nada a ver para desejar a aprovação da outra garota. Ela suspeitava que, em outras circunstâncias, as duas provavelmente nunca teriam se conhecido, mas, já que havia acontecido, gostaria bastante que elas se tornassem amigas.

Valeu. – A euforia já estava começando a se dissipar, e Andressa abriu um sorriso amarelo. Apesar de ter dito que não fora difícil, não conseguiu evitar sentir certo desânimo ao pensar em quanto ainda precisava melhorar. – Mas ainda tem muito chão até a gente poder se confiar na minha magia pra invadir a sede de uma organização secreta.

Jessé franziu a testa.

— Organização secreta?

— Foi uma suposição – Andressa deu de ombros. – Seja lá o que for, você entendeu meu ponto.

— Eu posso te ajudar a praticar – ofereceu Hugo. – O quanto você precisar.

Ele finalmente havia tirado os óculos escuros, e Andressa viu com nitidez uma pontinha de malícia no olhar dele. Ela arqueou uma sobrancelha, sorrindo. Não conseguiu deixar de lembrar de Jessé chamando-a para ir até sua casa, e se desculpando por ter soado inapropriado imediatamente depois. Dois tipos de pessoa, ela supunha.

— Bom, que eu vou ter que praticar bastante, é bem verdade.

Hugo começou a responder, então seu rosto ficou pálido e ele cobriu a boca com a mão. Woodstock lhe deu um tapinha no ombro.

— Você já sabe onde fica o banheiro.

Jessé observou-o desaparecer no interior da casa com ar empático.

— É bom ele torcer pra não encontrar com Joana – observou. – Ela nunca mais vai deixar ele em paz.

Notas finais
Se vocês tão achando que o Hugo não é hetero: tão achando certo. Eu juro que tentei fazer com que ele fosse, mas ele simplesmente não quis, e agora eu sou obrigada a ver minha irma/leitora beta shippando ele com o Jessé por nenhum motivo além de que ela quer :v mas enfim, mais sobre isso em capítulos futuros, prometo.