O Segredo da Capital do Oeste
6 Capítulo 5
Notas iniciais
O pai de Hugo não ficou satisfeito por ele ter demonstrado interesse na história local.
Na verdade, o problema não era exatamente ele não estar satisfeito. Hugo sabia que a perspectiva o agradaria. O problema era que seu pai não acreditava que o filho tivesse escapulido para dar uma lida nos murais informativos do Memorial da Resistência.
— Em dezesseis anos, você nunca demonstrou um pingo de interesse nessas coisas – observou ele. – Por que começar agora? Você pensa que eu sou idiota?
Hugo não falou nada. Ele sabia que não adiantaria. Isaías Vancini não era o tipo de homem que se deixava levar por justificativas quaisquer. Hugo tinha muito pouco do pai, tanto fisicamente quanto em personalidade, mas conseguia interpretá-lo melhor do que ninguém, e sabia, por experiência própria, que, quando Isaías começava um sermão, a única coisa a fazer era deixá-lo terminar.
— Eu devia ter deixado você em Natal – resmungou seu pai. – Não sei nem por que você insistiu em vir.
Hugo não insistira em ir. Isaías insistira que ele fosse, porque, segundo ele, o garoto andava “muito saidinho”, o que queria dizer que seu pai não confiava nele para ficar sozinho em casa durante um mês e meio de férias. Hugo não o culpava, nem se sentia culpado. Seu pai não confiaria nele nem se ele fosse o melhor filho do mundo, então ele não via sentido em tentar sê-lo.
Depois de ouvir o sermão de costume sobre ficar “se esgueirando pro aí escondido” e sendo um “irresponsável e inconsequente”, Hugo pediu licença para ir ao quarto que havia adotado como seu durante aquele verão. Havia bastante coisa no quarto de seu pai, que visitava a cidade com frequência e sempre ficava no mesmo lugar, mas, ali, a mobília era composta apenas por uma cama de solteiro, um guarda-roupa pequeno, uma mesinha-de-cabeceira e uma cadeira, sobre a qual estava um ventilador. Hugo não se incomodara em tentar deixar o lugar mais aconchegante. Não ficaria ali por tempo o suficiente para aquilo importar.
Ele ligou o ventilador e se deixou cair na cama, fazendo uma careta por causa do calor. Não era de se espantar que Andressa tivesse assumido que havia simplesmente passado mal por causa da temperatura. Hugo se perguntou se ela estava muito chateada. Fora idiota da parte dele usar magia de forma tão descuidada, e mais idiota ainda ter saído daquele jeito, mas irritar seu pai nunca era uma boa ideia, e ele tinha certeza de que Andressa ficaria bem. Quase certeza. Ele precisava mandar uma mensagem para ela depois.
Contudo, Hugo adiou esse momento o máximo que conseguiu. Seu próximo contato com qualquer ser humano foi só na manhã seguinte, e não foi do jeito que ele pretendia.
O plano era ver se Andressa estava disposta a lhe dar outra chance, se esgueirar para fora da casa e encontrar com ela, caso a resposta fosse afirmativa, ou com outra pessoa, se fosse negativa. O aplicativo em que encontrara Andressa podia ajudá-lo a fazer outras amizades. Ele aceitaria até sair com o idiota de seu primo, se fosse preciso. Tudo era melhor do que ficar preso ali com seu pai o dia todo, ou acabar sendo arrastado para as pesquisas e caminhadas por locais históricos nos quais Hugo não tinha o menor interesse.
Em geral, Hugo era muito bom em se esgueirar pelos cantos; ele tinha anos de prática usando magia para sair de fininho de casa, ou se esconder de professores quando estava fazendo o que não deveria em terreno escolar. A maioria dos Ilusionistas focava mais em ilusões de ótica e glamoures, para ocultar imagens, e disfarçar sons e cheiros era mais complicado e exigia mais concentração. Em caso de necessidade, Hugo conseguiria encobrir todos os sinais de sua presença, mas, no geral, não era preciso; ele tinha passos leves por natureza.
Ele desconfiava que teria sido bom naquilo mesmo sem a magia, o que era uma coisa boa, já que, enquanto se preparava para sair, ele percebeu que não tinha seu pantáculo; Woodstock o colocara em Andressa para impedir que ela desaparecesse completamente, e ele se esquecera de pegá-lo de volta. Hugo sabia que seu pai mantinha alguns pantáculo extras escondidos nos bolsos, mas a perspectiva de entrar no quarto do pai, fuçar em seus bolsos e sair sem ser notado não o agradava.
Felizmente, parecia que ele estava com sorte: quando Hugo finalmente ficou pronto, Isaías já havia saído, embora o garoto não soubesse dizer quanto tempo havia desde sua partida. Assim, ele abriu o guarda-roupa do pai e começou a enfiar as mãos nos bolsos dos vários paletós pendurados, apressado; queria estar fora dali quando o pai voltasse. Em um deles, encontrou uma moeda com linhas curvas similares às que adornavam seu anel gravadas em um dos lados. Era fácil de perder, e magia sempre funcionava melhor quando você já estava habituado ao pantáculo, mas teria que servir.
Hugo segurou a moeda e se concentrou. Depois de uma vida inteira praticando, ele conseguia se camuflar sem esforço algum, mas o encontro com Andressa parecia ter mexido com suas habilidades; foram necessários vários minutos para que um formigamento surgisse na ponta de seus dedos e começasse a aumentar, uma pequena faísca de magia... Então, sumiu. A faísca se apagou, e, não importava quanto tentasse, Hugo não conseguiu tornar a acendê-la. Era como tentar riscar um fósforo no meio de uma tempestade.
Ele ainda estava parado no meio do quarto, xingando baixinho, quando ouviu o barulho da porta sendo aberta. Rapidamente, Hugo devolveu a moeda ao bolso em que a encontrara e se endireitou, bem a tempo de ver seu pai parar na porta do quarto. Isaías olhou para o filho, desconfiado.
— O que você tá fazendo?
— Nada – disse Hugo, e depois: — Procurando uma coisa.
Isaías ergueu a sobrancelha.
— No meu quarto?
Hugo deu de ombros. Tecnicamente, não era mentira, e, mesmo que fosse, não seria a primeira que contava ao pai... Nem a primeira que era pego contando, o que queria dizer que ele precisava sair dali o mais rápido possível.
— Nunca se sabe – disse, com um sorriso. – Já olhei em todos os outros cômodos.
Isaías continuou o escrutínio, analisando o filho em busca de algum sinal. Hugo escondeu as mãos atrás das costas, tentando conter o pânico que começava a borbulhar em seu peito, no vazio onde a magia deveria estar. Ele sempre usava o anel, até para dormir, e, se seu pai percebesse que não o tinha, faria perguntas que Hugo não tinha pressa para responder. Se Isaías descobrisse o que acontecera, que seu filho fugira para encontrar uma Usurpadora e possivelmente perdera sua magia para ela... Hugo não achava que o fato de nem ele nem Andressa saberem com antecedência o que ela era serviria para amenizar a ira de seu pai.
— Bem, aqui não está – disse Isaías, por fim. Hugo assentiu.
— É, eu notei – Ele parou em frente à porta. – Licença.
Ele foi para o própria quarto e fechou a porta antes de começar a andar de um lado para o outro. Até onde ele sabia, não havia solução para seu problema. Usurpadores roubavam magia dos outros o tempo todo, acidental e intencionalmente, Hugo sabia disso. Mas será que ele já havia ouvido falar de alguém que conseguira recuperar essa magia? Ele achava que não. Talvez seu pai soubesse, mas Hugo não podia perguntar a ele; geraria perguntas demais, e Hugo não era tão bom mentiroso quando estava nervoso.
Assim, ele pegou o telefone e clicou no contato de nome “Andressa Mossoró”. Ele duvidava que Andressa tivesse uma resposta, mas não sabia o que mais podia fazer.
***
Horas mais tarde, Andressa estava pensando que talvez tivesse a resposta, mas as palavras de Woodstock ainda a estavam deixando nervosa demais para pensar que era uma resposta viável.
Jessé se deitou na cama de Woodstock como se aquele fosse seu próprio quarto, parecendo completamente à vontade. Depois de ter visto a tranquilidade de Joana na sala, Andressa não ficou surpresa. Ela tinha a impressão que Jessé e Woodstock eram tão próximos quanto ela e Michelle. Provavelmente até mais, considerando que eram vizinhos.
— Quer dizer que você acredita na gente?
Andressa não estava a fim de ter aquela conversa de novo. Ela conteve o impulso de revirar os olhos.
— É, dá pra dizer que sim. Não tenho muita escolha, tenho?
Woodstock resumiu o que elas haviam conversado antes da chegada de Jessé.
— Eu estava prestes a falar da Tábua pra elas – concluiu. Jessé não pareceu muito satisfeito com a ideia, mas assentiu.
— Tá. Vá em frente.
Yay, pensou Andressa. Mais conversa maluca sobre objetos mágicos misteriosos. Tudo o que eu queria nessas férias.
— A Tábua – repetiu ela.
Woodstock pegou um dos livros que estavam sobre a escrivaninha, abriu na metade e mostrou a elas uma página coberta por palavras em um idioma que Andressa não conseguia identificar.
— Como eu falei, é um objeto muito antigo – disse ela. – A versão mais traduzida era originalmente em latim, então daí você já tira. Há quem diga que ela foi escrita antes do desaparecimento de Atlântida.
— Atlântida é real? – perguntou Michelle. Woodstock deu de ombros.
— Vai saber. Nunca pesquisei a fundo sobre isso, mas...
— Foco – interrompeu Andressa. Ela não queria ser grossa, mas sabia que, se encorajada, Michelle podia passar horas discutindo sobre a existência de Atlântida, e Woodstock parecia bastante disposta a deixar aquilo acontecer. – É um objeto antigo. E daí? Os museus tão cheios desses.
Jessé riu. Woodstock pôs o livro de volta sobre a escrivaninha, parecendo encabulada.
— Certo. Supostamente, a Tábua de Esmeralda contém os segredos sobre a substância primordial, aquela de que são feitas todas as coisas do universo e muito provavelmente a fonte de toda a magia. Sabemos um pouco sobre isso, claro, mas há coisas que só podem ser reveladas através da Tábua.
Andressa apontou para o livro que ela havia acabado de fechar.
— Então elas não podem ser reveladas por esse texto aí.
— Esse texto é a fonte das coisas que já sabemos — Woodstock abriu um sorriso um tanto amargo. – Dá pra achar o texto que supostamente foi gravado na Tábua em qualquer lugar, e ele pode ajudar, se você souber interpretá-lo, mas não basta. Não há como saber se é o texto na íntegra. Alguns estudiosos dizem que um cara teve permissão para desenterra a Tábua – ou, nessa versão, as doze Tábuas – e tornar público parte de seu conteúdo, então realmente não dá pra saber.
— Além disso, achamos que a simples possessão da Tábua seja o suficiente para amplificar os poderes de qualquer um – acrescentou Jessé. – O que tornaria possível fazer coisas que nem os magos mais poderosos conseguem fazer em circunstâncias normais.
— Como recuperar a própria magia depois de ter sido “roubado” – supôs Andressa. Woodstock assentiu.
— É uma possibilidade. Não é garantido, mas é possível.
— Vocês parecem ter pesquisado bastante sobre isso – observou Michelle, em voz baixa, como se costume. – Estão procurando a Tábua há muito tempo?
Woodstock hesitou.
— Desde que ouvimos falar nela. Faz alguns anos.
Não necessariamente mortal, só longa, bem longa, e com grandes chances de não dar em nada. Andressa conseguia acreditar naquilo. Ela franziu de leve o cenho.
— Algum parente de vocês também perdeu a magia de forma inesperada, ou...?
Jessé e Woodstock trocaram outro daqueles olhares que fizeram Andressa pensar que eles eram muito próximos quando os conhecera. Jessé soltou uma risadinha, mas soava mais como uma reação nervosa do que qualquer outra coisa.
— Longa história – disse ele, por fim. – Não, não foi nada parecido. Treta de família. Fica pra outro dia.
O olhar de Woodstock se desviou para a tatuagem no braço dele antes de se voltar para Andressa. Foi só por um segundo, mas Andressa não deixou de notar a preocupação contida naquele olhar.
— Enfim, se nós conseguirmos chegar até a Tábua, podemos ver se tem algo nela que pode ajudar Hugo – disse ela. – Como eu falei, é um tiro no escuro, mas acho que é melhor do que nada.
— E isso significaria que eu não ficaria com magia nenhuma, certo? – perguntou Andressa. – Do jeito que eu extraí tudo, eu devolveria tudo, né?
— É o resultado lógico – respondeu Woodstock.
— Vocês poderiam fazer um acordo e dividir meio a meio – disse Jessé, pensativo. – Se ele for bom o suficiente, e você treinar um pouco antes...
Michelle soltou uma risadinha, provavelmente por causa da expressão de Andressa. Ela estava olhando para Jessé como se ele tivesse acabado de sugerir que ela enfiasse a cabeça no micro-ondas.
— E por que diabos eu faria isso?
Ele levantou as mãos com as palmas voltadas para a frente, como que para mostrar que não estava armado.
— Não disse que faria. Foi só uma observação.
Woodstock estava olhando para Andressa com um brilho no olhar, como se ela tivesse acabado de ficar bem mais interessante.
— A maioria das pessoas que eu conheço ia adorar ganhar poderes mágicos, ou pelo menos considerar por alguns dias antes de declarar que os odiava – observou ela. Andressa precisou de toda sua força de vontade para não revirar os olhos e suspirar dramaticamente.
— É, todo mundo fala isso, porque ninguém ganha poderes mágicos do nada. Eu saí de casa querendo dar uns beijos, não adquirir poderes mágicos. — Ela pensou na voz de Hugo ao telefone, e em como ele parecera chateado. – Além disso, você tem que ser muito mau caráter pra aceitar ficar com poderes mágicos roubados que o dono original claramente quer de volta.
Nem Woodstock nem Jessé responderam; eles pareciam muito ocupados tentando não cair na gargalhada, o que só serviu para deixar Andressa ainda mais irritada. Ela sabia que deveria parar, mas estava com vontade de desabafar e não ligava para a opinião daqueles malucos, mesmo, então continuou.
— E esses poderes nem têm muita utilidade prática, mesmo. Assim, no dia a dia de uma pessoa normal.
— Você pode usá-los pra se esconder quando passar vergonha – murmurou Michelle. – Naqueles momentos em que você só quer que um buraco se abra no chão e te engula.
Woodstock riu, e Michelle corou um pouco, parecendo satisfeita consigo mesma. Andressa fez uma nota mental para perguntar sobre aquilo para a amiga depois.
— Você quem sabe – disse Woodstock, quando parou de rir. Ela trocou um último olhar divertido com Michelle antes de se virar para Andressa. – Não vamos colocar a carroça na frente dos bois, como diria minha mãe. Antes de tudo, a gente tem que achar a Tábua.
— Na verdade, antes de tudo, você tem que ligar pro seu namorado... – começou Jessé, mas Woodstock o interrompeu:
— Que não é namorado dela – Ela abriu um sorriso cúmplice para Andressa, que, a despeito da irritação, não pôde deixar de sorrir de volta. –, porque eles tinham acabado de se conhecer.
Jessé olhou de uma para a outra.
— Tá. Pro seu amigo... Posso chamar ele de seu amigo? Enfim, pra esse cara que quer a magia dele de volta, e perguntar se ele topa.
— Não vejo por que não toparia – disse Andressa. Jessé deu de ombros.
— Vai que ele é cético.
Andressa bufou.
— Eu era cética.
— Ótimo, então você não vai ter problema em convencê-lo! – Woodstock bateu palmas uma vez, animada. – Isso vai ser divertido. A gente sempre pode usar uma ajuda extra – Ela olhou para Michelle. – E estou incluindo você nisso, já que você tá aqui, mas sinta-se à vontade para pular fora.
Andressa olhou para a amiga. Ela sabia que Michelle estava bastante ocupada com a faculdade e que provavelmente não precisava de nenhum trabalho extra, mas realmente queria mantê-la ali. Era muito mais fácil permanecer calma com Michelle por perto, não importava a situação.
Michelle podia ler a expressão de Andressa com a facilidade em que lia suas anotações. Ela sorriu para a amiga, tranquilizadora.
— Parece legal – disse. – Eu vou ajudar, se estiver tudo bem por vocês.
Jessé deu de ombros. Woodstock assentiu, ainda sorrindo. Andressa suspirou internamente.
— Acho que eu devia ligar pro Hugo, então?
— Ou mandar uma mensagem – sugeriu Michelle. Ela odiava falar ao telefone com uma intensidade que reservava a pouquíssimas coisas.
Foi o que Andressa fez, porque não estava a fim de conversar com Hugo na frente de toda aquela gente. Não que ela fosse dizer algo que eles ainda não soubessem. Aparentemente, ela não sabia de nada que eles não soubessem.
Acho que pode ter um jeito, digitou ela. De recuperar sua magia, quer dizer. Pode não dar em nada.
Não demorou muito tempo para que a palavra “digitando” aparecesse sob o nome dele – “Hugo Natal”, porque Andressa não tinha criatividade nem paciência para algo melhor. Logo, a resposta surgiu na tela:
Não custa nada tentar. O que é?
Sob os olhares atentos dos outros, ela gravou uma breve mensagem de áudio explicando sobre a Tábua de Esmeralda de forma resumida, com correções ocasionais de Woodstock. Depois, leu a resposta, ergueu os olhos do celular e disse:
— Tá, tudo bem, ele topa. E aí, o que a gente faz agora?
Fale com o autor