O Segredo da Capital do Oeste
7 Capítulo 6
Notas iniciais
O próximo passo, aparentemente, envolvia ir para casa.
— Acho que já foi coisa demais pra um dia só – explicou Woodstock. – Talvez vocês queiram fazer uma pausa, porque, daqui pra frente, a gente vai ter muito trabalho pra fazer.
— E Woodstock nunca para – resmungou Jessé, soando bastante como sua irmã mais nova. Woodstock não lhe deu atenção.
— Além de procurar pela Tábua, Andressa, talvez você queira, sabe como é, aprender a usar a magia – Ela abriu um sorriso ao ver a expressão da outra garota. – Eu sei, eu sei. Mas todo tipo de magia pode ser útil na busca por um objeto mágico, já que isso não é exatamente o que você chamaria de “dia a dia de uma pessoa normal”.
Andressa não se deu ao trabalho de discutir. Ela já havia passado desse ponto.
— Você está se oferecendo pra me ensinar?
— Eu posso ajudar, se você quiser – Woodstock deu de ombros. – Mas eu te aconselharia a pedir a Hugo. Ele vai saber explicar a magia de um Ilusionista muito melhor do que eu.
A ideia não era muito animadora. Andressa imaginara como seria seu próximo encontro com Hugo, e mais magia não fazia parte do plano, mas ela supunha que não tinha escolha.
— Tá, tudo bem, eu vou falar com ele – Ela se pôs de pé, suspirando internamente. – Obrigada pela outra conversa maluca sobre magia.
O sorriso de Woodstock pareceu genuíno; a contragosto, Andressa pensou que ela tinha um bom senso de humor.
— Disponha.
— Eu vou com vocês até a porta – ofereceu Jessé. – Eu preciso ir pra casa, de todo jeito.
Andressa chamou um Uber, então ela e Michelle o seguiram até a sala, onde Joana ainda parecia bem entretida com a televisão. Jessé deu um tapinha na cabeça dela ao passar, e ela se virou para mostrar a língua para ele, mas, fora isso, não deu atenção à passagem do grupo.
Ninguém disse nada durante o curto percurso até a porta da frente da oficina. Jessé decidiu esperar com elas do lado de fora, e foi ele quem finalmente quebrou o silêncio:
— Não é tão bizarro quanto parece, essa coisa toda de magia.
Andressa franziu a testa.
— Não é?
— Não, de verdade. Faz perfeito sentido quando você cresce sabendo – Ele passou a mão pelo cabelo, e Andressa notou mais uma vez a tatuagem em seu antebraço. Era bem feia, se ela fosse sincera, mas isso não parecia incomodar Jessé. – Vai começar a fazer sentido pra você também, em algum momento, eu acho. É uma coisa natural.
— Talvez seja natural no seu mundo – retrucou Andressa. – No meu, é bem bizarro, sim, senhor.
— Você não parece tão cética – disse Jessé a Michelle, que deu de ombros.
— Como é aquela frase de Hamlet? Sobre nossa vã filosofia? – Ela deu um sorrisinho. – Eu nunca duvidei que magia pudesse existir. Só não esperava realmente dar de cara com ela.
Andressa apertou a ponte do nariz com o polegar e o indicador. Ela estava começando a ter dor de cabeça.
— Espero que você esteja certo – disse. – Porque, se isso não começar a parecer natural daqui a algum tempo, e achar essa Tábua demorar tanto quanto sua amiga parece pensar que vai demorar, bem, acho que vamos ter um probleminha.
Para a surpresa dela, Jessé riu.
— Ah, é, com certeza. Problema é eufemismo – Ele apontou para a rua. – Aquele é o Uber de vocês?
Andressa conferiu a placa: era mesmo. Ela e Michelle tiveram que ir antes que ela pudesse perguntar a Jessé o que aquilo significava, mas não parou de pensar no assunto durante o resto do dia.
***
— A gente começa no três. Pronto?
Jessé olhou do marcador permanente em sua mão para o irmão mais velho. Josafá parecia tranquilo como sempre, os olhos brilhando de empolgação, mas havia algo em seu sorriso que preocupava Jessé.
— Você tem certeza de que isso é uma boa ideia?
— Claro que tenho – Josafá ergueu a própria mão, que também segurava um marcador. – Você não confia em mim?
Jessé não teve tempo de responder. Parecendo esquecer a contagem, Josafá levou o marcador ao braço e começou a desenhar, e a faísca em seu sorriso pareceu ser imediatamente transferida para o braço. A pele ali começou a chiar e a soltar fumaça; Jessé sentiu a queimação no próprio corpo, e, ao olhar para baixo, viu que já havia metade de um pantáculo traçada em seu braço esquerdo, como se sua mão tivesse se movido por conta própria.
Imediatamente, ele deixou o marcador cair no chão, apertando o braço ferido junto ao corpo. Ele tinha a vaga noção de que estava gritando, tentando fazer com que o irmão o escutasse, mas Josafá apenas trincou os dentes e continuou a desenhar, até que a fumaça subindo de seu braço se tornasse chamas, que se espalharam rapidamente por seu corpo, corroendo a pele e levantando o cheiro nauseante de carne queimada. Jessé esticou o braço, tentando alcançá-lo, mas as labaredas ameaçaram engoli-lo, e forçando-o a recuar. O calor agora era insuportável; parecia rasgá-lo de fora para dentro, como se seu próprio coração estivesse em chamas...
Jessé estava suando quando acordou, ofegando como se tivesse corrido uma maratona. Seu corpo inteiro formigava, e a queimadura em seu braço esquerdo, sob a tatuagem, ardia como se fosse recente.
Ele jogou os lençóis para o lado e se sentou, automaticamente checando o quarto à procura de danos colaterais. Nada parecia queimado, exceto por uma pequena marca em seu antebraço esquerdo, como uma queimadura de cigarro, onde o anel em sua mão direita havia pressionado quando ele apertara a região durante o sono. A temperatura do metal subira junto com a do corpo de Jessé, como costumava acontecer.
Os lençóis e a cama estavam intactos, o que era um bom sinal, mas Jessé não se permitiu relaxar. O incêndio de seu sonho ainda estava rugindo em seu peito, e ele sabia que não era só um resquício do pesadelo. Àquela altura, Jessé estava acostumado à sensação, e isso era, de certa forma, mais perturbador do que os próprios sonhos. A queimação não doía mais, pelo menos não do jeito como doera no início. Agora, era só um alerta sobre o que poderia acontecer depois.
Jessé se levantou e andou na ponta dos pés até a cozinha. Cinco anos atrás, logo depois do acidente, ele costumava acordar os pais quando tinha pesadelos, na esperança de que eles pudessem acalmá-lo. Com o tempo, tornou-se evidente que ficar sozinho era mais eficaz, e que o ar frio – bem, tão frio quanto o ar podia ser, no Nordeste brasileiro – da noite era melhor do que a atmosfera abafada do quarto.
Ele se sentou no batente da porta dos fundos, que dava para o quintal, e respirou fundo. Sua pele ainda estava grudenta de suor, e seu corpo inteiro tremia. O anel em seu dedo queimava, mas tirá-lo era pedir para causar um incêndio – a mera ideia foi o suficiente para fazê-lo sentir as chamas subindo por seus braços, como se carregadas por sua corrente sanguínea, tentando escapar pela ponta de seus dedos, contentes com o plano. Foi preciso toda a sua concentração para impedi-las de explodir para fora de seu corpo e atear fogo na casa inteira, e, mesmo assim, suas roupas começaram a soltar fumaça.
Por fim, Jessé se permitiu relaxar, olhando por cima do ombro para verificar se alguém mais havia acordado. Joana era particularmente propensa a despertar junto com o irmão, mas, àquela altura, talvez ela já houvesse aprendido que era melhor deixá-lo em paz. O único movimento era no monitor logo acima da cabeça de Jessé, mostrando as imagens das câmeras de segurança que seu pai havia instalado depois que a casa fora assaltada, alguns anos atrás, e, mesmo assim, era apenas a tremulação da imagem; não havia muito movimento na rua àquela hora. A única pessoa além de Jessé que parecia estar acordada no bairro era um pedestre passando pela rua em frente à casa.
Enquanto Jessé observava, a figura borrada na tela parou de andar... E simplesmente desapareceu. Não como se tivesse saído do alcance da câmera, o que teria sido previsível, mas como se tivesse simplesmente evaporado.
Ou, pensou Jessé, sentindo o coração acelerar, como se tivesse se ocultado com magia. Ele se pôs de pé em um salto e correu de volta para o quarto. Até onde ele podia deduzir, o homem – ou mulher, não dava realmente para saber com aquela imagem – estivera mais próxima da casa de Woodstock do que da sua, e ele fez a única coisa que conseguiu pensar: procurou o celular e ligou para ela.
Depois de cair na caixa postal três vezes, Jessé largou o celular e considerou suas opções. A parte lógica de seu cérebro, aquela que reclamava de protagonistas burros de filmes de terror, disse para chamar a polícia, mas a parte mágica sabia que isso não era uma boa ideia. Afinal, o que a polícia poderia fazer contra um ladrão que nem podia ver?
Não que o próprio Jessé pudesse fazer muita coisa; Ilusionistas eram os únicos capazes de desmascarar outros Ilusionistas, e ele não poderia estar mais longe dessa categoria. Mesmo assim, fosse porque era a ação mais óbvia ou porque não havia tempo de pensar em outra solução, ele saiu correndo para a casa em frente.
Quando ele chegou à calçada, não havia sinal do estranho, mas a porta da frente da oficina estava entreaberta. Jessé entrou com cuidado, o mais silenciosamente que pôde. Ele sabia que a maioria dos Ilusionistas não se incomodava ou não era tão bom em camuflar sons quanto era em esconder imagens, e só podia torcer para que esse invasor não fosse uma exceção à regra. Porém, a oficina estava completamente silenciosa enquanto ele avançava em direção à escada.
Foi só quando chegou à sala de estar que ocorreu a Jessé que talvez um pouco de barulho não seria tão ruim assim; pelo menos alertaria os moradores da casa, e talvez assustasse o invasor. Ele tateou às cegas até a cozinha, e, depois, até encontrar uma panela sobre a pia; então, deixou o objeto cair no chão, produzindo um estrondo metálico que ele esperava que fosse alto o suficiente para acordar a casa inteira.
Imediatamente, o som de passos fez-se audível no corredor; Jessé correu na direção do som. Não havia sinal do invasor, mas a porta do quarto de Woodstock estava entreaberta, o que era incomum. Antes que Jessé pudesse entrar, ele ouviu a voz da garota:
— Mas que porra...?
Então, houve um ruído alto, como o de papel rasgando, seguido de um baque surdo e uma voz masculina xingando. Quando Jessé abriu a porta, um vulto quase o derrubou ao correr para fora do quarto. Era apenas uma sombra, quase invisível; Jessé sabia que significava que o Ilusionista estava prestes a perder o controle do encantamento e reaparecer. Woodstock apareceu logo em seguida, agitando um maço de papéis nas mãos e xingando o invasor aos berros. Ela passou voando por Jessé, sem parecer registrar sua presença, focada na perseguição.
Enquanto corria atrás dos dois, Jessé ouviu outra porta se abrir, provavelmente a do quarto da mãe de Woodstock, mas não parou para conferir. Ele correu até se juntar a Woodstock na porta da oficina. Ela estava ofegante, olhando para a rua vazia como se procurasse alguém em quem descontar a raiva.
— Mas que porra foi essa? – disse ela, assim que conseguiu recuperar o fôlego. Foi só então que ela pareceu notar Jessé. – Quando foi que você chegou aqui?
Jessé contou a ela o que havia acontecido. A história não pareceu acalmar Woodstock.
— Um Ilusionista, de todas as pessoas – resmungou ela. – Não é justo. A magia deles é muito boa pra cometer crimes.
— A questão não é essa – disse Jessé. – A questão é: o que diabos um Ilusionista aleatório poderia querer na sua casa? No seu quarto? — Ele fez uma pausa. – Você não andou irritando ninguém atualmente, andou? Roubando namoradas de novo ou...?
— Aquilo foi um mal-entendido!
— Tá, certo. Mas você não fez de novo, fez?
Woodstock se apoiou na moldura da porta. Ela ainda estava de pijama, e seu cabelo loiro estava todo amassado de um lado. Jessé achou que ela parecia muito cansada, e seu coração se retorceu em um nó apertado. Ele não conseguia dormir por causa dos pesadelos. Woodstock, ele sabia, não conseguia dormir porque ficava até tarde pesquisando sobre como parar os pesadelos.
— Não, que inferno. Eu nem conheço nenhum Ilusionista – Ela baixou o olhar para as folhas rasgadas em sua mão, e seu semblante se fechou. – Não foi pessoal, eu acho.
Jessé deu uma olhada nas páginas. Estavam cobertas com a caligrafia desleixada de Woodstock, e duas palavras apareciam constantemente: Hermes Trismegisto, o nome do suposto autor da Tábua de Esmeralda. Pesquisa.
O nó no coração de Jessé pareceu despencar até o estômago.
— Ah, meu Deus. Você não acha que ele estava...
Woodstock ergueu as folhas para mostrar que elas estavam rasgadas quase no meio.
— Ele veio direto pra elas, Jessé. Nem olhou pro resto do quarto.
Jessé esfregou as têmporas. Deus, ele realmente precisava de uma boa noite de sono antes de conseguir lidar com aquilo. O que era uma má notícia, porque Jessé não tinha uma boa noite de sono desde os doze anos de idade.
— Você acha que isso é coisa do cara do terno?
— Isso é obviamente coisa do cara do terno, embora eu acho que devamos parar de chamar ele assim. Faz com que ele pareça um vilão de filme de espionagem – Ela analisou o amigo por um instante, provavelmente adivinhando por que ele estivera acordado no meio da noite, para começo de conversa. – Vem, vamos entrar, certo? Eu vou fazer um chá ou sei lá que se faz nessas horas.
A mãe de Woodstock estava parada no topo da escada, parecendo alarmada.
— Algum de vocês por acaso tem uma explicação pro que acabou de acontecer?
Jessé e Woodstock se entreolharam. Os pais de nenhum deles eram muito fãs de toda a pesquisa sobre a Tábua de Esmeralda, mas Jessé supôs que a mulher tinha o direito de saber o que tinha acontecido, mesmo que ninguém tivesse muita certeza. Afinal, se tratava da casa dela.
Woodstock pareceu ter chegado à mesma conclusão. Ela suspirou ao passar pela mãe, seguindo em direção à cozinha.
— Acho melhor você se sentar, mãe – disse ela. – Vai ser uma longa noite.
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