A viagem para a França estava cada vez mais próxima.

O que significava que a Mansão Malfoy havia entrado em um estado peculiar de organização.

Hermione possuía três listas.

Draco afirmava que eram seis.

Narcisa sustentava que já tinham chegado a oito.

Ninguém concordava.

Mas todos sabiam que Narcisa provavelmente estava certa.

Na noite anterior à viagem.

A casa finalmente parecia silenciosa.

Sem convidados.

Sem reuniões.

Sem documentos urgentes.

Sem Theo aparecendo inesperadamente em alguma lareira.

O que, segundo Draco, já era motivo suficiente para comemoração.

Hermione havia subido há pouco.

Terminando de organizar os últimos detalhes.

Draco ainda estava no escritório.

E Narcisa encontrava-se na biblioteca.

Sozinha.

Ou pelo menos acreditava estar.

Até ouvir passos.

— Ainda acordada?

Hermione apareceu na entrada.

Segurando uma xícara de chá.

Narcisa sorriu.

Pequeno.

— Posso fazer a mesma pergunta.

— Justo.

Hermione aproximou-se.

Sentando-se na poltrona ao lado.

Por alguns segundos.

Nenhuma das duas falou.

O silêncio era confortável agora.

Algo que teria parecido impossível alguns anos antes.

Foi Narcisa quem falou primeiro.

— Está nervosa?

Hermione observou a própria xícara.

Pensando.

— Um pouco.

— Isso é saudável.

— Draco disse a mesma coisa.

— Naturalmente.

— Vocês estão ficando preocupantemente parecidos.

— Não exagere.

Aquilo arrancou uma pequena risada.

O silêncio voltou.

Suave.

A chuva havia retornado.

Batendo contra as janelas da biblioteca.

Criando aquele som constante que sempre tornava a Mansão mais acolhedora.

Hermione observou as estantes por alguns segundos.

Depois voltou-se para Narcisa.

— Você está preocupada.

A afirmação arrancou uma sobrancelha arqueada.

— Eu?

— Sim.

— Hermione.

— Narcisa.

— Isso parece uma acusação.

— Porque é.

Narcisa começou a sorrir.

Apesar de si mesma.

— Talvez um pouco.

— Ah.

— Não faça essa cara.

— Que cara?

— Essa exatamente.

— Não sei do que está falando.

— Claro que sabe.

Hermione apoiou a xícara sobre a mesa lateral.

Observando-a.

Mais atentamente.

— Nós voltamos em uma semana.

A frase saiu simples.

Mas ambas compreenderam imediatamente o que significava.

Narcisa desviou os olhos para a janela.

Por apenas um instante.

— Eu sei.

— Então por que parece preocupada?

O silêncio durou alguns segundos.

Mais longos do que o habitual.

Quando respondeu.

A voz saiu mais suave.

Mais honesta.

— Porque gosto de ter vocês aqui.

Hermione permaneceu imóvel.

Porque aquela não era uma frase que Narcisa dizia facilmente.

Talvez nunca tivesse dito.

— Narcisa...

— É uma casa muito grande.

Comentou ela.

Como se aquilo explicasse tudo.

Talvez explicasse.

— E silenciosa.

Hermione sorriu.

Pequeno.

Porque conseguia imaginar perfeitamente.

Por alguns segundos.

Apenas observaram a chuva.

Então Narcisa voltou a falar.

— Quando Draco era pequeno.

Hermione virou-se imediatamente.

Porque histórias de infância de Draco eram consideradas tesouros raros.

— Ah?

— Não faça essa expressão.

— Que expressão?

— Exatamente essa.

Hermione não tentou disfarçar.

Narcisa suspirou.

Resignada.

— Quando ele tinha oito anos, desapareceu durante uma festa inteira.

— Desapareceu?

— Completamente.

— Draco?

— Sim.

— Isso parece improvável.

— Eu também achei.

Hermione já estava sorrindo.

— E onde ele estava?

— Na biblioteca.

— Claro que estava.

— Escondido atrás de uma poltrona.

— Isso é maravilhoso.

— Ele havia levado três livros e uma bandeja inteira de sobremesas.

Hermione explodiu em risadas.

— Eu sabia.

— Eu passei duas horas procurando.

— Narcisa.

— E ele ficou genuinamente irritado quando o encontramos.

— Por quê?

— Porque estávamos interrompendo a leitura.

Agora as duas riam.

E, por um instante.

A biblioteca pareceu mais leve.

Mais viva.

Quando o silêncio finalmente voltou.

Narcisa observou Hermione.

Longamente.

Como se estivesse avaliando alguma coisa.

Então sorriu.

Pequeno.

Orgulhoso.

Quase imperceptível.

— Sabe...

Hermione arqueou uma sobrancelha.

— O quê?

Narcisa demorou alguns segundos para responder.

— Acho que ele ficou muito feliz quando encontrou você.

O silêncio instalou-se.

Mas não foi desconfortável.

Nem constrangedor.

Apenas verdadeiro.

Hermione sentiu algo aquecer dentro do peito.

Porque compreendeu exatamente o que ela queria dizer.

Não sobre amor.

Nem sobre casamento.

Nem sobre o baile.

Sobre pertencimento.

Sobre encontrar alguém que transformasse uma casa em lar.

Pouco depois.

Quando se levantou para ir dormir.

Narcisa chamou-a novamente.

— Hermione.

Ela virou-se.

— Sim?

Narcisa sustentou seu olhar por alguns segundos.

E então disse algo que talvez jamais tivesse dito no início daquela história.

Algo simples.

Mas que significava tudo.

— Tenha cuidado na França.

Hermione sorriu.

Suave.

— Nós voltamos em uma semana.

— Eu sei.

Pequena pausa.

— Ainda assim.

Hermione assentiu.

Porque entendia.

Porque aquilo já não vinha da sogra.

Nem da anfitriã.

Nem da matriarca dos Malfoy.

Vinha da família.

— Eu prometo.

E, pela primeira vez.

As duas sabiam exatamente o que aquela palavra significava.

A primeira coisa que Hermione percebeu ao chegar em Paris foi o silêncio.

Não um silêncio verdadeiro.

A cidade estava viva demais para isso.

Havia pessoas.

Conversas.

Passos.

Carruagens mágicas.

Feitiços de transporte.

Mas era um silêncio diferente.

Um silêncio sem reconhecimento.

Sem olhares.

Sem manchetes.

Sem história.

Ninguém os observava.

Ninguém sussurrava.

Ninguém parecia interessado em quem eram.

E, por algum motivo, aquilo foi imediatamente reconfortante.

O Ministério da Magia Francês havia organizado acomodações para todas as delegações internacionais.

O hotel ocupava um edifício antigo próximo ao Sena.

Elegante.

Discreto.

E absurdamente francês.

Segundo Draco.

— O que exatamente isso significa?

Perguntou Hermione.

Enquanto observava o saguão.

— Significa que provavelmente existe uma regra específica para a posição das flores.

— Você inventou isso.

— Talvez.

— Draco.

— Hermione.

Ela suspirou.

Porque aquela resposta normalmente significava que ele não tinha inventado absolutamente nada.

Um funcionário aproximou-se.

Documentos foram conferidos.

Chaves entregues.

Cronogramas distribuídos.

Mais cronogramas.

E depois ainda mais cronogramas.

O que imediatamente melhorou o humor de Hermione.

— Você está sorrindo.

Observou Draco.

— Não estou.

— Está sim.

— Estou analisando informações.

— Claro.

— É diferente.

— Certamente.

O elevador mágico conduziu-os até os andares superiores.

A porta abriu.

E Hermione parou.

Imediatamente.

— Ah.

Draco observou o ambiente.

Depois observou Hermione.

— Isso parece um problema.

— Não é um problema.

— Você disse "ah".

— Um "ah" positivo.

— Existe diferença?

— Sim.

— Nunca percebi.

A suíte era ampla.

Mas não excessivamente luxuosa.

O destaque estava nas janelas.

Enormes.

Voltadas para o rio.

A luz da tarde atravessava o ambiente inteiro.

Refletindo nos telhados da cidade.

Criando uma vista que parecia saída de uma pintura.

Hermione aproximou-se lentamente.

Observando.

Absorvendo.

Por alguns segundos.

Apenas observando.

Draco deixou a própria mala próxima à porta.

Então aproximou-se.

Parando ao lado dela.

Sem dizer nada.

Porque não precisava.

A vista falava sozinha.

— É bonita.

Disse Hermione.

Baixo.

Quase para si mesma.

— É.

Concordou Draco.

O silêncio voltou.

Confortável.

Tranquilo.

Até que Hermione percebeu uma coisa.

— Você não está olhando para a vista.

Draco arqueou uma sobrancelha.

— Não?

— Não.

— Interessante.

— Draco.

— Hermione.

Ela virou a cabeça.

Encontrando imediatamente o sorriso discreto que ele claramente tentava esconder.

— Você é impossível.

— Frequentemente me dizem isso.

— E merecidamente.

— Também me dizem isso.

Hermione começou a rir.

Porque algumas coisas aparentemente sobreviviam até mesmo a viagens internacionais.

Pouco depois.

Um relógio sobre a mesa chamou sua atenção.

Hermione aproximou-se.

Consultando o horário.

Depois consultando o cronograma.

Depois o horário novamente.

Draco observou a sequência.

Com crescente preocupação.

— Não.

— O quê?

— Não faça isso.

— Fazer o quê?

— Nós chegamos há oito minutos.

— Nove.

— Hermione.

— Temos uma recepção de boas-vindas em duas horas.

— Exatamente.

— Então precisamos nos organizar.

— Hermione.

— O quê?

— Nós estamos em Paris.

Ela piscou.

Uma vez.

Depois outra.

— Sim.

— E sua primeira reação foi abrir a agenda.

— Porque sou responsável.

— Porque você é impossível.

Hermione ficou imediatamente ofendida.

— Isso era meu argumento.

— Estou expandindo seus horizontes.

— Claramente uma péssima ideia.

Pela janela.

O sol começava lentamente a descer sobre a cidade.

E, pela primeira vez desde que tudo aquilo começara.

Não havia bailes.

Nem segredos.

Nem escândalos.

Nem reconciliações.

Apenas uma nova cidade.

Uma nova etapa.

E uma semana inteira pela frente.

Que nenhum dos dois fazia ideia de como terminaria.