— Espera.

Draco ergueu os olhos.

— O quê?

— Você não está indo como acompanhante.

— Eu nunca achei que estivesse.

— Draco.

— Hermione.

— Seu nome está em outro documento.

— Sim.

Hermione virou mais algumas páginas.

Depois outras.

Até encontrar o anexo.

— Grupo consultivo de integração médica internacional.

Draco assentiu.

Como se aquilo fosse completamente normal.

— Sim.

— Você sabia disso.

— Sabia.

— E não me contou.

— Você estava ocupada se apaixonando por regulamentos internacionais.

— Draco.

— Hermione.

Ela continuou lendo.

— Você vai apresentar um relatório.

— Sim.

— Vai participar das negociações.

— Sim.

— Tem reuniões próprias.

— Sim.

Hermione baixou lentamente os papéis.

Observando-o.

Mais atentamente dessa vez.

— Você tem praticamente a mesma quantidade de trabalho que eu.

— Parece que sim.

O silêncio durou alguns segundos.

Então:

— Isso é maravilhoso.

Draco piscou.

— Foi uma reação inesperada.

— Não.

Ela sorriu.

Pequeno.

Orgulhoso.

— Você percebe o que isso significa?

— Que vou passar uma semana ouvindo diplomatas reclamarem?

— Draco.

Ela apoiou os documentos sobre a mesa.

Ainda sorrindo.

— Estou falando sério.

Draco observou-a por alguns segundos.

Esperando.

— Significa que ninguém está te enviando porque você é meu marido.

O silêncio instalou-se.

Hermione sustentou o olhar dele.

— Ninguém está te enviando porque você é um Malfoy.

Algo na expressão dela suavizou.

— Estão te enviando porque você é bom no que faz.

Draco permaneceu imóvel.

Por um breve instante.

Talvez longo demais.

Porque aquela frase tinha um peso que ambos compreendiam.

Melhor do que a maioria das pessoas.

— Hermione...

— Estou falando sério.

A voz dela era tranquila.

Firme.

Absolutamente sincera.

— Você construiu isso sozinho.

O silêncio voltou.

Mas dessa vez diferente.

Mais profundo.

Mais difícil de ignorar.

Draco desviou os olhos por um instante.

Como se estivesse organizando a própria resposta.

Ou evitando a emoção inesperada daquela conversa.

— Isso continua sendo uma quantidade absurda de reuniões.

Hermione começou a rir.

Porque aquela era exatamente a resposta que ele daria.

— Claro que é.

— Continuo preferindo o hospital.

— Mentiroso.

— Difamação.

— Draco.

— Hermione.

Ela balançou a cabeça.

Ainda sorrindo.

— Eu estou orgulhosa de você.

A frase saiu antes que pudesse pensar demais nela.

Natural.

Honesta.

E foi justamente por isso que atingiu em cheio.

Draco sustentou seu olhar.

Sem responder imediatamente.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, não encontrou sarcasmo suficiente para se esconder atrás dele.

E talvez isso dissesse mais do que qualquer resposta poderia dizer.

Draco sustentou o olhar dela.

Ainda em silêncio.

Porque havia algo profundamente injusto em Hermione dizer aquelas coisas.

Não porque estivesse errada.

Mas porque ela parecia acreditar nelas com muito mais facilidade do que ele próprio.

Hermione voltou aos documentos alguns segundos depois.

Como se a conversa tivesse terminado.

Como se não tivesse acabado de desarmá-lo completamente.

— França.

Murmurou ela.

— França.

Confirmou Draco.

E, sem perceber, recordou-se da conversa que tivera no hospital naquela mesma semana.

O reconhecimento chegou de forma absurdamente inconveniente.

O que, segundo Draco, era exatamente o tipo de coisa que acontecia em St. Mungus.

Ele estava terminando um turno particularmente longo.

Cansado.

Com fome.

E considerando seriamente ignorar os três relatórios que ainda o aguardavam.

Foi nesse exato momento que bateram à porta.

— Entre.

A porta abriu.

E o diretor do hospital entrou.

Draco imediatamente desconfiou.

Porque diretores raramente apareciam pessoalmente para dar boas notícias.

— Malfoy.

— Diretor.

— Tem um minuto?

— Tecnicamente.

O homem pareceu aceitar a resposta.

O que era preocupante.

— Recebi confirmação do Ministério.

Draco ergueu os olhos.

— Sobre a França?

— Sim.

Aquilo não era novidade.

Então ele aguardou.

— Eles aprovaram todos os nomes.

— Excelente.

— Houve apenas uma alteração.

Agora Draco prestou atenção.

— Alteração?

— Sim.

O diretor acomodou alguns documentos sobre a mesa.

— Inicialmente pretendiam enviar um representante administrativo do hospital.

Draco assentiu.

Aquilo fazia sentido.

— E?

— Mudaram de ideia.

O silêncio durou alguns segundos.

— Por quê?

O diretor observou-o por um instante.

Como se estivesse genuinamente surpreso pela pergunta.

— Porque precisamos de alguém que entenda do assunto.

Draco piscou.

Uma vez.

Depois outra.

— Certo.

— Certo?

— Estou tentando entender para onde isso está indo.

O homem apoiou os braços na cadeira.

— Malfoy.

— Sim?

— Você está indo porque é a melhor pessoa que temos para isso.

A resposta veio simples.

Sem cerimônia.

Sem discursos.

Sem qualquer dramatização.

O que a tornou ainda mais difícil de ignorar.

Draco permaneceu imóvel.

Porque aquela não era uma frase que ouvira com frequência durante a vida.

Não daquela forma.

Não sem segundas intenções.

Não sem sobrenomes envolvidos.

Não sem expectativas.

Não sem política.

Apenas...

Competência.

— Ah.

Foi tudo o que conseguiu responder.

O diretor pareceu divertido.

— Essa reação foi menos eloquente do que eu esperava.

— Estou cansado.

— Claro.

Pequena pausa.

— E surpreendido.

O homem sorriu.

— Acostume-se.

Draco quase riu.

Porque ambos sabiam que aquilo dificilmente aconteceria.

Mais tarde.

Muito mais tarde.

Ele encontrou Theo e Blaise ocupando uma mesa inteira de uma cafeteria próxima ao hospital.

Sem convite.

Naturalmente.

Porque convites continuavam sendo um conceito teórico para os dois.

— Finalmente.

Disse Theo.

— Achei que tinha morrido.

— Sonhe mais alto.

— Estou tentando.

Draco sentou-se.

Aceitando o café que Blaise já havia pedido.

Sem sequer perguntar.

Porque aparentemente seus amigos haviam decidido que autonomia era opcional.

— Então?

Perguntou Blaise.

— Então o quê?

— França.

— França continua existindo.

— Draco.

— Blaise.

Theo observava os dois.

Claramente esperando alguma coisa.

— O diretor falou comigo hoje.

Disse Draco.

Finalmente.

— E?

— Confirmou a delegação.

— Excelente.

— E disse que estou indo porque sou o melhor nome que o hospital possui para representar a área médica.

O silêncio foi imediato.

Theo piscou.

Blaise também.

Então os dois trocaram um olhar.

O que nunca era bom.

— O quê?

Perguntou Draco.

— Nada.

Respondeu Theo.

— Theodore.

— Estou apenas processando.

— Processando o quê?

— O fato de que você parece emocionalmente abalado por alguém reconhecer algo que todos sabemos há anos.

Draco fechou os olhos.

Porque infelizmente aquilo era próximo demais da verdade.

— Não estou emocionalmente abalado.

— Claro.

— Não estou.

— Certamente.

— Theodore.

— Draco.

Blaise apoiou o queixo na mão.

Observando-o.

— Sabe qual é o problema?

— Não.

— Você continua agindo como se precisasse compensar alguma coisa.

O silêncio instalou-se.

Dessa vez mais sério.

— Blaise.

— Estou falando sério.

Os olhos escuros permaneceram sobre ele.

— Você passou anos tentando provar que não era o garoto que todos lembravam.

Theo assentiu.

Mais quieto agora.

— E conseguiu.

Draco não respondeu.

— Nós sabemos disso.

Continuou Blaise.

— Sua mãe sabe disso.

— Hermione definitivamente sabe disso.

— St. Mungus sabe disso.

Pequena pausa.

— Talvez esteja na hora de você perceber também.

— Talvez esteja na hora de você perceber também.

O silêncio voltou.

Longo.

Confortável.

Porque não havia muito a acrescentar.

Porque Blaise estava certo.

O problema era justamente esse.

Draco sabia que Hermione acreditava nele.

Sabia que Narcisa acreditava nele.

Sabia que Theo e Blaise acreditavam nele.

Talvez estivesse na hora de parar de agir como se todos estivessem errados.

E talvez.

Pela primeira vez.

Considerar a possibilidade de que eles estivessem certos.

Dois dias depois.

O convite para a França foi oficialmente anunciado.

Hermione descobriu isso quando entrou em uma reunião acreditando que precisaria explicar sua participação.

Não precisou.

O que foi inesperadamente estranho.

A sala já estava ocupada quando chegou.

Chefes de departamento.

Representantes internacionais.

Assessores.

Algumas pessoas que conhecia.

Outras nem tanto.

Hermione acomodou-se na cadeira habitual.

Abriu a própria pasta.

Preparou-se para argumentar.

Explicar.

Defender.

Justificar.

Como sempre fazia.

Foi então que o Ministro entrou.

A conversa cessou imediatamente.

— Bom dia.

Cumprimentos foram trocados.

Documentos organizados.

E então o Ministro passou para o primeiro item da pauta.

— França.

Hermione ergueu os olhos.

Instintivamente.

Preparando-se.

Mas nada aconteceu.

Nenhuma pergunta.

Nenhuma dúvida.

Nenhum comentário.

O Ministro apenas continuou.

— A Diretora Malfoy liderará nossa delegação.

A frase saiu simples.

Natural.

Definitiva.

Como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Hermione permaneceu imóvel.

Por um segundo.

Depois dois.

Ninguém questionou.

Ninguém pareceu surpreso.

Ninguém pediu explicações.

A reunião simplesmente seguiu.

Como se aquela decisão já estivesse resolvida.

Como se ninguém imaginasse outra possibilidade.

E talvez fosse exatamente isso.


Uma hora depois.

Hermione caminhava pelos corredores do Ministério.

Mais devagar do que o habitual.

Pensativa.

Bianca percebeu imediatamente.

Naturalmente.

— O que foi?

— Nada.

— Mentira.

— Talvez.

Bianca fechou a pasta que carregava.

— Hermione.

Ela soltou uma pequena respiração.

— Ninguém perguntou.

— Sobre a França?

— Sim.

— Certo.

— Ninguém questionou.

— Certo.

— Ninguém pediu justificativas.

Bianca observou-a por alguns segundos.

Depois sorriu.

Pequeno.

Como alguém que entendia exatamente o que estava acontecendo.

— Porque ninguém precisava.

O silêncio instalou-se.

Hermione permaneceu imóvel.

— Você percebe que isso é uma coisa boa, certo?

A voz de Bianca era suave.

Mas firme.

— Eu sei.

— Tem certeza?

Hermione demorou alguns segundos para responder.

Porque, pela primeira vez.

Aquilo parecia diferente.

Muito diferente.

Não era uma conquista.

Nem uma aprovação.

Nem uma vitória.

Era confiança.

As pessoas já tinham decidido.

Ela pertencia àquele lugar.

E talvez essa fosse a conquista que demorara mais tempo para perceber.


Naquela noite.

Quando retornou para casa.

Encontrou Draco no escritório.

Terminando alguns relatórios.

— Como foi o dia?

Perguntou ele.

Sem erguer os olhos.

Hermione aproximou-se da mesa.

Parando ao lado dele.

— Estranho.

— Isso raramente é uma boa resposta.

— Desta vez é.

Draco finalmente levantou a cabeça.

Observando-a.

— O que aconteceu?

Hermione pensou por um instante.

Então sorriu.

Pequeno.

Mas sincero.

— Acho que finalmente parei de tentar convencer as pessoas de que mereço estar onde estou.

O silêncio que seguiu foi breve.

Mas significativo.

Porque, por um instante.

Ambos perceberam a mesma coisa.

Tinham passado anos tentando provar que pertenciam a lugares que já eram deles.

Draco estendeu a mão.

Puxando-a para mais perto.

Como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

— Demorou.

Hermione ficou imediatamente ofendida.

— Draco.

— Hermione.

— Essa não era a resposta correta.

— Era exatamente a resposta correta.

— Insuportável.

— Frequentemente me dizem isso.

Ela começou a rir.

E, pela primeira vez.

Acreditou nele.

Porque talvez.

Apenas talvez.

Não houvesse mais nada a provar.