Naquela noite, depois que a conversa sobre a delegação finalmente terminou, a carta permaneceu sobre a mesa do solário.

Entre duas xícaras vazias.

Um livro abandonado.

E uma pilha de documentos que Hermione fingia que iria organizar.

Ela não organizaria.

Draco já sabia disso.

— Você continua olhando para ela.

Comentou.

Sem erguer os olhos do próprio livro.

Hermione observou a carta novamente.

— Estou pensando.

— Eu percebi.

— Não precisa soar tão preocupado.

— Preciso sim.

Ela soltou uma pequena risada.

Porque aquilo era justo.

Infelizmente justo.

O silêncio voltou.

A chuva continuava caindo do lado de fora.

Suave.

Constante.

Transformando os jardins em manchas escuras atrás do vidro.

Hermione voltou a pegar a carta.

Relendo um trecho que já conhecia de cor.

Pela décima vez.

Talvez pela décima primeira.

— Você vai aceitar.

Disse Draco.

Não era uma pergunta.

Hermione ergueu os olhos.

— Tão confiante assim?

— Sim.

— Por quê?

Draco fechou o livro.

Finalmente.

— Porque você já aceitou.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Não aceitei.

— Hermione.

— Não aceitei.

— Você começou a planejar há duas horas.

Aquilo arrancou uma risada involuntária.

Porque era verdade.

— Isso não prova nada.

— Prova tudo.

— Dramático.

— Observador.

Hermione apoiou a carta sobre a mesa novamente.

Mas dessa vez não respondeu.

Porque havia outra coisa ocupando sua mente.

Algo que vinha surgindo cada vez mais frequentemente nas últimas semanas.

E que ela ainda não tinha conseguido nomear.

— O que foi?

A pergunta veio imediatamente.

Naturalmente.

Como sempre acontecia.

Draco a conhecia bem demais.

— Nada.

— Mentira.

— Talvez.

— Hermione.

Ela observou a chuva por alguns segundos.

Pensativa.

Tentando organizar uma sensação que ainda parecia incompleta.

— Eu passei tanto tempo tentando chegar aqui.

A frase saiu mais baixa do que pretendia.

Draco permaneceu em silêncio.

Escutando.

— Austrália.

Ela começou.

— Itália.

— Ministério.

— O casamento.

— O baile.

Os dedos dela giravam lentamente a própria xícara.

— Sempre existia alguma coisa depois.

Algum objetivo.

Alguma meta.

Algum problema para resolver.

Draco observava.

Sem interromper.

— E agora...

Ela hesitou.

— Agora eu não sei qual é a próxima coisa.

O silêncio que seguiu foi tranquilo.

Não pesado.

Não triste.

Apenas honesto.

Draco demorou alguns segundos para responder.

— Talvez não exista.

Hermione virou-se para ele.

— O quê?

— Talvez não exista uma próxima grande coisa.

A expressão dela deixou claro que aquela possibilidade nunca havia ocorrido seriamente.

O que fez Draco sorrir.

Pequeno.

Porque era exatamente o tipo de armadilha em que Hermione Granger cairia.

— Você está sugerindo que eu simplesmente viva?

— Conceito revolucionário.

— Draco.

— Hermione.

— Estou falando sério.

— Eu também.

Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos.

Até perceber que ele realmente acreditava naquilo.

— Isso parece estranho.

— Porque você nunca tentou.

— Eu vivi.

— Não.

A resposta veio suave.

Mas firme.

— Você sobreviveu. Você lutou. Você resolveu problemas. Você salvou pessoas. Você reconstruiu coisas. Mas raramente apenas viveu.

Hermione ficou imóvel.

Porque aquela frase a atingiu com uma precisão irritante.

E ambos sabiam.

Mais tarde.

Muito mais tarde.

Quando já se preparavam para subir.

Hermione parou próximo às janelas do solário.

Observando a chuva.

As luzes dos jardins.

A tranquilidade da casa.

E algo curioso aconteceu.

Ela não pensou no próximo relatório.

Nem na próxima reunião.

Nem na próxima crise.

Nem na próxima responsabilidade.

Pensou apenas em amanhã.

Em tomar café da manhã com Draco.

Em discutir alguma coisa absurda com Narcisa.

Em trabalhar.

Em voltar para casa.

Em escolher um destino para uma viagem que ainda nem tinha sido confirmada.

Em viver.

A ideia ainda parecia estranha.

Mas não assustadora.

E talvez.

Apenas talvez.

Aquilo fosse um começo.

Não de uma nova batalha.

Nem de uma nova missão.

Mas de uma vida que ela finalmente tinha permissão para aproveitar.

A manhã seguinte começou mais devagar.

O que, para Hermione, já era incomum.

Normalmente ela acordava pensando em três problemas diferentes antes mesmo de abrir os olhos.

Naquela manhã, porém, permaneceu alguns minutos observando o teto.

A chuva havia parado durante a madrugada.

Uma luz suave atravessava as cortinas.

E, pela primeira vez em muito tempo, ela não sentiu urgência.

Aquilo continuava estranho.

Mas estava começando a gostar.

O café da manhã já estava servido quando ela desceu.

Narcisa ocupava o lugar habitual.

Lendo correspondências.

Naturalmente.

Porque Narcisa parecia receber cartas como outras pessoas respiravam.

Draco estava do outro lado da mesa.

Terminando o café.

— Bom dia.

— Bom dia.

Responderam os dois.

Hermione serviu-se de chá.

E tentou fingir que nada estava acontecendo.

Funcionou durante aproximadamente quarenta segundos.

— Você vai aceitar.

Disse Narcisa.

Sem sequer erguer os olhos.

Hermione suspirou.

— Vocês combinaram isso?

— Não foi necessário.

Respondeu Draco.

— Preocupante.

— Frequentemente.

Confirmou Narcisa.

Hermione observou os dois.

Depois voltou para o chá.

— Vocês são insuportáveis.

— Também não foi uma pergunta.

Comentou Draco.

Duas horas depois.

Hermione estava novamente no Ministério.

Sentada diante da própria mesa.

A carta aberta à sua frente.

Bianca observava a cena.

Da mesma forma que alguém observa um animal raro.

Ou um desastre natural.

— Você ainda está olhando para ela.

— Sim.

— Já faz vinte minutos.

— Eu sei.

— Isso é impressionante.

— Bianca.

— Estou apenas observando.

Hermione fechou os olhos.

Porque aquela frase estava começando a persegui-la.

O gabinete permaneceu silencioso.

Por alguns instantes.

Então Hermione pegou a pena.

Bianca imediatamente endireitou-se na cadeira.

— Ah.

— Não.

— Ah, sim.

— Bianca.

— Você vai responder.

Hermione ignorou-a.

Molhou a ponta da pena.

E começou a escrever.

A resposta foi breve.

Direta.

Formal.

Mas quando terminou.

Percebeu algo.

Não havia hesitação.

Nem dúvida.

Nem aquele peso que normalmente acompanhava grandes decisões.

Porque dessa vez ela não estava correndo atrás de alguma coisa.

Não estava tentando provar nada.

Não estava tentando sobreviver.

Estava escolhendo.

A diferença parecia pequena.

Mas não era.

Ao final da tarde.

Um patrono em forma de lontra atravessou uma das alas do St. Mungus.

Ignorando completamente três curandeiros.

Uma enfermeira.

E um paciente que quase deixou cair uma poção.

O patrono encontrou Draco no meio de um corredor.

E a voz de Hermione ecoou imediatamente.

— Eu aceitei.

Houve uma breve pausa.

Então:

— E aparentemente você vai para a França.

O patrono desapareceu.

Draco permaneceu imóvel.

Observando o espaço vazio.

Por alguns segundos.

Então um sorriso apareceu.

Pequeno.

Mas inevitável.

— França?

Murmurou.

Atrás dele.

Lorenzo apareceu.

Naturalmente.

Porque Lorenzo possuía um talento sobrenatural para surgir nos piores momentos.

— Você vai para a França?

Draco fechou os olhos.

— Vá embora.

— Isso é um sim?

— Lorenzo.

— França parece romântico.

— Lorenzo.

— Eu ouvi dizer que—

— Lorenzo.

— Certo.

Pausa.

— Mas é um sim.

Draco começou a caminhar.

Ignorando-o.

O que apenas confirmou a resposta.

Naquela noite.

Quando retornou para casa.

Encontrou Hermione no solário.

Novamente.

Porque algumas coisas nunca mudavam.

Ela estava lendo.

Ou fingindo ler.

O que era diferente.

Draco aproximou-se.

Sentando-se ao lado dela.

— França.

Hermione sorriu.

Sem erguer os olhos.

— França.

— Você aceitou.

— Aceitei.

— Sem crise existencial.

— Tive uma pequena.

— Pequena?

— Relativamente.

— Impressionante.

Ela finalmente fechou o livro.

Observando-o.

— Acho que você estava certo.

Draco arqueou uma sobrancelha.

— Sobre qual das minhas inúmeras qualidades?

— Não se acostume.

— Tarde demais.

Hermione revirou os olhos.

Mas continuava sorrindo.

— Talvez não exista uma próxima grande coisa.

— Eu lembro.

— Talvez existam apenas várias coisas boas.

O silêncio que se seguiu foi suave.

Porque nenhum dos dois precisava dizer mais nada.

A viagem ainda estava semanas distante.

O futuro continuava indefinido.

Mas, pela primeira vez.

Isso parecia uma promessa.

E não uma ameaça.

Três dias depois.

Hermione descobriu que havia cometido um erro.

Um erro grave.

Um erro evitável.

Um erro que Bianca provavelmente classificaria como "absolutamente previsível".

Ela não tinha lido os anexos.

A carta do Ministro continha apenas o convite.

Os detalhes haviam chegado depois.

Em uma pasta.

Ridiculamente grossa.

Assustadoramente grossa.

Hermione estava na biblioteca da Mansão quando abriu o último documento.

Leu a primeira página.

Depois a segunda.

Depois a décima.

E então ficou completamente imóvel.

Draco encontrou-a assim vinte minutos depois.

Sentada.

Cercada de papéis.

Expressão concentrada.

Perigosamente concentrada.

— Ah.

Disse ele.

Hermione nem levantou os olhos.

— Não.

— Sim.

— Não.

— Essa é exatamente a expressão que você faz quando encontra algo que ama.

— Não amo.

— Hermione.

Ela finalmente ergueu os olhos.

— Eles estão tentando criar um protocolo internacional unificado.

Draco permaneceu em silêncio.

Porque aquilo não significava absolutamente nada para ele.

Hermione continuou.

Claramente esquecendo esse detalhe.

— França, Itália e Reino Unido utilizam procedimentos completamente diferentes para cooperação jurídica.

— Entendo.

— Não, você não entende.

— Não mesmo.

— Isso é fascinante.

— Claro.

Hermione já havia voltado aos documentos.

— Eles estão tentando criar um modelo único de investigação.

— Excelente.

— Draco.

— Hermione.

— Isso afeta extradições.

— Imagino.

— Compartilhamento de provas.

— Certamente.

— Cooperação entre departamentos.

— Revolucionário.

Ela finalmente percebeu.

— Você não está ouvindo.

— Estou ouvindo.

— Não está.

— Estou ouvindo você se apaixonar por uma pilha de regulamentos internacionais.

Hermione ficou ofendida.

— Isso não está acontecendo.

Draco observou os documentos espalhados pela mesa.

Depois observou Hermione.

— Está completamente acontecendo.

— Não está.

— Você já marcou páginas.

Hermione baixou os olhos.

Havia marcadores em pelo menos sete lugares.

— Isso não prova nada.

— Hermione.

— Draco.

— Você parece feliz.

A frase interrompeu qualquer resposta.

Porque era verdade.

Inesperadamente verdade.

Hermione observou os documentos novamente.

Mais devagar dessa vez.

E então percebeu.

Ela estava feliz.

Não porque aquilo fosse uma promoção.

Não porque fosse reconhecimento.

Não porque fosse prestígio.

Mas porque era interessante.

Desafiador.

Porque ela queria fazer aquilo.

Draco percebeu o momento exato em que ela entendeu.

Claro que percebeu.

— Então.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Então o quê?

— França.

Hermione sorriu.

Pequeno.

Mas verdadeiro.

— França.

— E aparentemente regulamentos internacionais.

— Muito importantes.

— Tenho certeza.

— Você é impossível.

— Frequentemente me dizem isso.