O Segredo Mais Bem Guardado
44 Capítulo 44
A Mansão Malfoy parecia estranhamente silenciosa quando retornaram.
Não um silêncio vazio.
Mas o tipo de silêncio que surge depois de dias intensos.
Como uma casa finalmente respirando.
Hermione percebeu isso no instante em que atravessou o hall principal.
Não havia convidados.
Não havia preparativos.
Não havia listas.
Não havia convites.
Não havia discursos.
Não havia nada esperando por ela.
E aquela percepção foi inesperadamente estranha.
Narcisa despediu-se deles próximo à escadaria.
— Vou me recolher.
Hermione sorriu.
— Foi um bom dia.
Por um breve instante, algo suavizou a expressão de Narcisa.
— Foi.
Então seus olhos passaram entre os dois.
— Aproveitem o restante da noite.
Draco arqueou uma sobrancelha.
— Isso parece uma ameaça.
— Excelente.
Respondeu Narcisa.
— Minha educação está funcionando.
Hermione soltou uma risada.
Poucos instantes depois, Narcisa desapareceu escadaria acima.
E pela primeira vez desde o baile.
Eles estavam sozinhos.
Completamente sozinhos.
Foi Hermione quem sugeriu o solário.
Naturalmente.
Porque acabava sempre sendo o solário.
O sol já havia desaparecido.
Mas as paredes de vidro refletiam as luzes suaves dos jardins.
O ambiente permanecia acolhedor.
Tranquilo.
Familiar.
Hermione afundou em um dos sofás.
Descalçando os sapatos sem qualquer cerimônia.
Draco observou.
— Elegante.
— Não comece.
— Sra Malfoy.
— Draco.
— Estou apenas observando.
— Observe em silêncio.
Ele sentou-se ao lado dela.
Com a mesma facilidade de quem já havia ocupado aquele lugar centenas de vezes.
O silêncio instalou-se.
Mas não era desconfortável.
Muito pelo contrário.
Era merecido.
Alguns minutos se passaram.
Talvez mais.
Hermione observava os jardins.
Pensativa.
Até que percebeu que Draco a observava.
— O quê?
— Nada.
— Draco.
— Você está pensando demais.
Ela soltou uma pequena risada.
— Isso nunca foi novidade.
— Continua sendo preocupante.
— Vou sobreviver.
— Não foi isso que eu disse.
Hermione apoiou a cabeça no encosto.
Fechando os olhos por um instante.
— Eu só estava pensando.
— Isso raramente termina bem.
— Eu não sei o que fazer agora.
O silêncio que seguiu foi imediato.
Porque Draco entendeu.
Imediatamente.
Sem precisar perguntar.
Sem precisar que ela explicasse.
Os olhos cinzentos permaneceram sobre ela por alguns segundos.
— Com o quê?
A pergunta saiu suave.
Gentil.
Hermione soltou uma pequena risada.
Quase constrangida.
— Com nada.
Aquilo pareceu ridículo até para ela.
Mas era verdade.
— Harry está bem.
Ela começou.
Mais para si mesma do que para ele.
— Gina está bem.
— Sim.
— Molly está bem.
— Sim.
— Rony está tentando.
— Definitivamente tentando.
Hermione sorriu.
— Narcisa está feliz.
Os olhos dela encontraram os dele.
— Você está feliz.
Draco permaneceu em silêncio.
Porque não havia necessidade de responder.
A resposta era óbvia.
Hermione baixou os olhos para as próprias mãos.
— E agora não existe mais nada para consertar.
A frase pairou entre eles.
Pequena.
Mas carregada de significado.
Porque era verdade.
Durante toda a vida.
Hermione sempre estivera correndo em direção a alguma coisa.
Uma prova.
Uma guerra.
Uma missão.
Uma responsabilidade.
Um problema.
Sempre havia algo.
Sempre havia alguém precisando dela.
Sempre existia uma próxima batalha.
Mas agora...
Não.
Pela primeira vez.
Não.
Draco observou-a por alguns instantes.
Depois estendeu a mão.
Entrelaçando os dedos aos dela.
Sem dizer nada.
Apenas estando ali.
Hermione observou as mãos unidas.
E percebeu o quanto aquele gesto ainda a acalmava.
— Isso é assustador.
Confessou.
— Eu sei.
— Você também sentiu isso?
A pergunta arrancou dele uma pequena risada.
— Hermione.
— O quê?
— Eu passei anos acreditando que minha vida terminaria de formas muito piores.
Ela ficou em silêncio.
— Então descobrir que posso simplesmente viver... foi um ajuste considerável.
Hermione começou a rir.
— Isso é absurdamente você.
— Eu sei.
— Foi uma resposta terrível.
— Eu sei.
— E ainda assim ajudou.
— Eu sei.
Agora foi ele quem recebeu um olhar indignado.
— Você está impossível.
— Frequentemente me dizem isso.
O silêncio voltou.
Mas dessa vez parecia diferente.
Mais leve.
Mais simples.
Hermione apoiou a cabeça no ombro dele.
Automaticamente.
Como sempre fazia.
E, por alguns minutos, nenhum dos dois falou.
Apenas observando as luzes dos jardins.
A tranquilidade da casa.
A ausência de urgência.
A ausência de problemas.
A ausência de expectativas.
Até que Hermione soltou uma pequena risada.
Draco nem precisou olhar para saber.
— O quê?
— Eu acabei de perceber uma coisa.
— Isso me preocupa.
— Provavelmente deveria.
— Hermione.
— Harry e você conversaram voluntariamente.
Draco fechou os olhos.
— Ah, não.
— Sim.
— Não.
— Sim.
— Nós apenas conversamos.
— Voluntariamente.
— Isso continua sendo uma acusação.
— Arthur também.
— Hermione.
— E Molly gosta de você.
— Isso é objetivamente falso.
— Não é.
— É.
— Não é.
— É.
Hermione ria agora.
Daquele jeito leve.
Despreocupado.
Que surgia cada vez mais frequentemente.
E Draco percebeu.
Claro que percebeu.
Porque era impossível não perceber.
E talvez.
Apenas talvez.
Aquilo fosse a resposta que ela procurava.
Não havia mais nada para consertar.
Porque finalmente tinham construído algo que não precisava ser salvo.
Apenas vivido.
E, pela primeira vez em muito tempo.
Isso parecia suficiente.
A manhã seguinte começou com chuva.
Não uma tempestade.
Nem algo particularmente dramático.
Apenas uma chuva constante contra as janelas da Mansão Malfoy.
O tipo de manhã que convidava qualquer pessoa sensata a permanecer na cama.
Infelizmente.
Hermione não era uma pessoa sensata.
— Não.
A voz de Draco surgiu do outro lado do quarto.
Hermione, que já havia alcançado metade do caminho até o closet, virou-se.
— Não o quê?
— Você teve exatamente a mesma expressão que faz antes de tomar decisões ruins.
— Isso é ofensivo.
— Isso é preciso.
— Eu nem falei nada.
— Não precisava.
Hermione cruzou os braços.
— Talvez eu estivesse apenas pensando.
— Isso é literalmente o problema.
— Draco.
— Hermione.
Ela tentou sustentar a própria indignação.
Falhou completamente.
— Tenho uma reunião às oito.
— Tem uma reunião todos os dias.
— Essa é importante.
— Todas são importantes.
— Essa é especialmente importante.
Draco fechou o livro que estava lendo.
— Você percebe que acabou de provar meu argumento?
Hermione suspirou.
Porque infelizmente ele tinha razão.
O que era irritante.
Frequentemente irritante.
— Vou sobreviver.
— Nunca duvidei disso.
A resposta veio imediatamente.
Sem hesitação.
E talvez fosse exatamente por isso que ela não conseguiu responder.
Porque Draco nunca questionava sua capacidade.
Nunca.
Apenas questionava sua capacidade de descansar.
O café da manhã foi mais tranquilo.
Narcisa já estava à mesa.
Lendo o jornal.
Naturalmente.
Porque Narcisa Black Malfoy parecia ter nascido sabendo como ler jornais elegantemente.
Hermione tinha certeza de que aquilo era um talento específico.
— Bom dia.
— Bom dia.
Respondeu Narcisa.
Sem erguer os olhos.
Então virou uma página.
E arqueou uma sobrancelha.
— Ah.
Hermione imediatamente desconfiou.
— O quê?
Narcisa virou o jornal.
Mostrando a manchete.
Hermione quase engasgou com o café.
— Ah, não.
Draco pegou o exemplar.
Leu.
E fechou os olhos.
Porque aparentemente o universo havia decidido continuar se divertindo.
A fotografia ocupava metade da página.
Hermione.
Draco.
E Viktor Krum.
Exatamente no momento em que os três conversavam.
O título era ainda pior.
"REENCONTRO INESPERADO MOVIMENTA O BAILE MALFOY."
— Eu odeio jornalistas.
Comentou Draco.
— Isso é injusto.
Respondeu Hermione.
— Você está defendendo isso?
— Estou dizendo que podia ser pior.
— Como?
Hermione observou a foto.
Pensou por alguns segundos.
Depois desistiu.
— Certo. Talvez não pudesse.
Narcisa continuava lendo.
Claramente divertida.
— Pelo menos escolheram uma fotografia favorável.
— Mãe.
— Estou apenas observando.
— Essa frase está começando a me assustar.
Uma hora depois.
Hermione atravessava os corredores do Ministério.
E imediatamente percebeu que algo estava diferente.
Não era apenas o baile.
Nem as manchetes.
Era outra coisa.
Uma sensação.
Uma mudança sutil.
As pessoas ainda a cumprimentavam.
Ainda sorriam.
Ainda comentavam o evento.
Mas havia algo novo.
Confiança.
Como se, de alguma forma, ela tivesse deixado de ser apenas a diretora recém-chegada da Itália.
Como se finalmente tivesse se tornado parte daquele lugar.
— Chefe Malfoy.
Hermione virou-se.
Um dos chefes de divisão aproximava-se.
— Bom dia.
— Gostaria de agradecer pela iniciativa do sábado.
Ela piscou.
— Agradecer?
— Muitos dos acordos que discutíamos há meses avançaram naquela noite.
Aquilo a surpreendeu.
Porque estava tão concentrada na dimensão social do evento que não havia pensado no restante.
O homem sorriu.
— Às vezes as pessoas assinam mais tratados depois de uma boa festa do que depois de vinte reuniões.
Hermione começou a rir.
— Isso é deprimente.
— É extremamente eficiente.
Ele afastou-se.
Deixando-a parada no corredor.
Pensativa.
Porque, pela primeira vez, ela começava a perceber algo.
O baile não tinha sido apenas um encerramento.
Talvez tivesse sido um começo.
E, de repente.
Aquela ideia era muito mais interessante do que assustadora.
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