O Segredo Mais Bem Guardado
43 Capítulo 43
A cozinha da Toca estava exatamente como Hermione lembrava.
Talvez um pouco mais cheia.
Talvez um pouco mais barulhenta.
Mas essencialmente a mesma.
O relógio mágico continuava marcando localizações impossíveis.
As panelas ainda pareciam possuir vida própria.
E havia pessoas demais para qualquer espaço razoável.
O que significava que tudo estava normal.
— Eles chegaram!
Anunciou Jorge.
Como se estivesse narrando um evento histórico.
— Nós percebemos.
Respondeu Gina.
— Você estraga toda a diversão.
— Essa era a intenção.
Hermione mal havia atravessado a porta quando foi imediatamente cercada.
Perguntas.
Comentários.
Observações sobre o baile.
Sobre as manchetes.
Sobre a fotografia de Viktor Krum.
Principalmente sobre a fotografia de Viktor Krum.
— Foi a melhor manchete.
Declarou Jorge.
— Pare.
— Nunca.
— Isso explica muita coisa.
Murmurou Draco.
Jorge abriu um sorriso.
— Eu gosto dele.
— Isso é preocupante.
Comentou Harry.
— Concordo.
Disse Hermione.
A conversa continuou.
Naturalmente.
Como se os anos de distância tivessem diminuído durante a noite anterior.
Como se fosse possível recuperar tempo perdido apenas permanecendo na mesma sala.
Foi então que Hermione percebeu algo.
Ou melhor.
Alguém.
Narcisa permanecia ligeiramente afastada.
Não isolada.
Mas observando.
Como alguém que ainda tentava entender a dinâmica daquele lugar.
O caos.
As interrupções.
As conversas simultâneas.
A completa ausência de formalidade.
Hermione conhecia aquela expressão.
Porque já a tinha visto antes.
Em si mesma.
Durante eventos políticos.
Recepções diplomáticas.
Jantares formais.
A diferença era que, pela primeira vez, Narcisa era a pessoa fora de contexto.
Foi Audrey quem se aproximou primeiro.
Carregando uma travessa.
— Você quer ajuda?
Narcisa piscou.
— Perdão?
— Com isso.
Audrey apontou para a pilha de pratos que alguém havia colocado nas mãos dela sem autorização aparente.
Narcisa observou os pratos.
Como se estivesse genuinamente surpresa por estar segurando-os.
— Ah.
— Acontece rápido.
Explicou Audrey.
Com absoluta seriedade.
— Eu percebi.
— Daqui a pouco você estará carregando talheres sem saber como chegou nessa situação.
— Isso é comum?
— Extremamente.
Narcisa olhou para Percy.
Que naquele exato momento transportava três jarras de suco enquanto tentava responder uma pergunta de Arthur.
— Entendo.
Audrey sorriu.
— Você se acostuma.
E, para surpresa de Hermione, Narcisa devolveu o sorriso.
Pequeno.
Mas genuíno.
Pouco depois foi Arthur.
Depois Molly.
Depois Jorge.
Que apareceu apenas para perguntar se ela realmente possuía uma sala de chá maior que a própria cozinha da Toca.
O que iniciou uma discussão completamente desnecessária sobre metragem de imóveis.
E, em algum momento entre uma conversa e outra, Hermione percebeu algo curioso.
Narcisa tinha parado de observar.
E começado a participar.
Como se lentamente estivesse sendo absorvida pelo caos inevitável da família Weasley.
Ela encontrou o olhar de Draco do outro lado da cozinha.
E percebeu que ele também havia notado.
Porque havia algo diferente na expressão dele.
Mais leve.
Mais tranquila.
Como alguém assistindo a uma cena que jamais imaginara testemunhar.
Sua mãe.
Sentada à mesa da Toca.
Tomando chá com Molly Weasley.
Enquanto discutiam receitas.
E honestamente?
Aquilo parecia tão improvável quanto qualquer coisa que já haviam vivido.
Talvez mais.
Hermione só percebeu que Draco havia desaparecido quando Molly anunciou que o almoço estava quase pronto.
— Onde está seu marido?
Hermione ergueu os olhos.
— Boa pergunta.
— Arthur também sumiu.
Comentou Gina.
— Isso parece suspeito.
— Extremamente.
Concordou Jorge.
— Devíamos investigar.
— Não.
Responderam várias vozes ao mesmo tempo.
Jorge pareceu ofendido.
No quintal.
Draco carregava uma caixa de garrafas de cerveja amanteigada.
Uma tarefa que jamais imaginara executar em qualquer momento da vida.
Muito menos na Toca.
— Cuidado com o degrau.
Avisou Arthur.
Draco desviou sem dificuldade.
— Obrigado.
— Molly sempre esquece de consertar aquilo.
— Imagino.
Arthur sorriu.
— Na verdade não.
— Não?
— Ela lembra.
— Então por que não conserta?
Arthur pensou por um instante.
— Acho que porque gosta de reclamar dele.
Draco permaneceu em silêncio.
Considerando a lógica.
E chegou à conclusão de que fazia um estranho sentido.
— Entendo.
Arthur pareceu satisfeito.
Como se aquilo resolvesse completamente a questão.
Continuaram caminhando.
Por alguns instantes.
Em silêncio.
— Foi uma boa noite.
Comentou Arthur.
Draco assentiu.
— Foi.
— Vocês fizeram um excelente trabalho.
— Hermione fez a maior parte.
Arthur soltou uma pequena risada.
— Isso é exatamente o que ela diria.
Draco não conseguiu evitar um sorriso.
Porque era verdade.
— Ela continua a mesma.
— Em alguns aspectos.
Concordou Arthur.
— E em outros não.
Draco observou o jardim.
Pensativo.
— Sim.
— Isso é normal.
Disse Arthur.
Como se estivesse respondendo algo que Draco não havia dito.
— As pessoas mudam.
— Eu sei.
— Felizmente.
Os olhos castanhos encontraram os dele.
Calmos.
Sem julgamento.
— Porque seria terrível se continuássemos todos exatamente como éramos aos dezessete anos.
Draco soltou uma pequena risada.
— Nesse caso eu concordo.
— Eu imaginei.
Arthur abriu a porta do galpão.
Esperando que Draco entrasse primeiro.
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro.
— Você estava nervoso?
Draco arqueou uma sobrancelha.
— No baile?
— Não.
Arthur sorriu.
— Hoje.
A resposta demorou alguns segundos.
Porque era irritante.
E porque Arthur Weasley parecia ter uma capacidade absurda de fazer perguntas simples.
— Talvez.
Arthur assentiu.
Como se aquela resposta fosse perfeitamente razoável.
— Eu também estaria.
— Estaria?
— Claro.
Draco pareceu genuinamente surpreso.
Arthur começou a organizar algumas caixas.
— Narcisa também.
— Ela não demonstrou.
— Nem você.
Aquilo arrancou um sorriso involuntário.
Arthur percebeu.
Claro que percebeu.
— Mas vocês vieram mesmo assim.
Draco observou-o por alguns segundos.
Sem saber exatamente o que responder.
Arthur resolveu o problema por ele.
— Isso significa mais do que imagina.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.
Foi apenas silêncio.
E, estranhamente.
Draco percebeu que não se importava com isso.
Nem um pouco.
Quando Draco voltou para a cozinha, o almoço já estava oficialmente fora de controle.
O que aparentemente era o estado natural de qualquer refeição na Toca.
A mesa havia sido ampliada magicamente.
Mais cadeiras tinham aparecido.
Pratos circulavam de um lado para outro.
Alguém discutia quadribol.
Alguém discutia política.
Alguém discutia alguma coisa que provavelmente começou como quadribol e terminou em política.
Hermione não tinha certeza.
Nem pretendia descobrir.
Foi então que o viu.
Entrando pela porta dos fundos.
Arthur logo atrás.
Os dois carregando caixas.
Conversando.
Conversando.
Hermione piscou.
Uma vez.
Depois outra.
Porque aquilo ainda parecia ligeiramente surreal.
Draco percebeu seu olhar imediatamente.
Claro que percebeu.
— O quê?
Perguntou.
Já aproximando-se.
— Nada.
— Hermione.
— Estou apenas observando.
— Isso é preocupante.
— Concordo.
Disse Harry.
Do outro lado da mesa.
Sem sequer levantar os olhos do prato.
— Ninguém pediu sua opinião.
— Eu ofereço gratuitamente.
— Percebemos.
Hermione ignorou os dois.
Continuando a observar Draco.
— Você estava conversando com Arthur.
— Sim.
— Por quase meia hora.
— Sim.
— Voluntariamente.
Draco estreitou os olhos.
— O que exatamente você está insinuando?
— Nada.
— Hermione.
— Absolutamente nada.
— Essa é uma mentira evidente.
— Talvez.
Draco suspirou.
Como alguém profundamente injustiçado.
Hermione sorriu.
Porque aquilo significava apenas uma coisa.
A conversa tinha corrido bem.
Muito bem.
E ambos sabiam.
O almoço continuou.
Lento.
Barulhento.
Cheio.
Como todos os almoços dos Weasley pareciam ser.
Em determinado momento, Jorge começou uma discussão completamente desnecessária sobre qual dos irmãos era o favorito de Molly.
Percy tentou argumentar usando lógica.
O que foi um erro.
Fred teria adorado aquilo.
A percepção surgiu sem aviso.
Silenciosa.
Repentina.
E, por um breve instante, o grupo inteiro pareceu senti-la.
Porque houve uma pausa.
Pequena.
Quase imperceptível.
Mas real.
Foi Molly quem retomou a conversa.
Como sempre fazia.
E pouco depois o momento passou.
Não esquecido.
Nunca esquecido.
Apenas carregado adiante.
Como tantas outras coisas naquela família.
Hermione observou aquilo em silêncio.
E então percebeu outra coisa.
Narcisa.
Ela estava sentada ao lado de Molly.
As duas conversavam.
Naturalmente.
Sem esforço.
Sem formalidade.
Sem aquela distância cuidadosa que existira na noite anterior.
Molly comentava alguma coisa sobre uma receita.
Narcisa respondia.
Arthur participava.
Audrey também.
E ninguém parecia considerar aquilo estranho.
Como se fosse perfeitamente normal.
Como se sempre tivesse sido assim.
Hermione sentiu algo apertar no peito.
Da melhor maneira possível.
Porque não era normal.
Não deveria ser normal.
Mas talvez.
Talvez fosse exatamente isso que tornava tudo tão especial.
Mais tarde.
Quando o almoço finalmente começou a se desfazer em pequenos grupos espalhados pelo jardim.
Hermione encontrou-se sentada na varanda.
Uma xícara de chá entre as mãos.
Observando o movimento.
Draco surgiu alguns minutos depois.
Naturalmente.
Como sempre.
Sentando-se ao lado dela.
Sem precisar perguntar.
Sem precisar explicar.
Por alguns instantes permaneceram em silêncio.
Apenas observando.
Jorge tentando convencer Harry de alguma ideia terrível.
Gina rindo de alguma coisa.
Arthur mostrando algo a Narcisa próximo ao galpão.
Molly supervisionando tudo.
Mesmo sem admitir.
— Está pensando demais.
Comentou Draco.
Hermione sorriu.
— Talvez.
— Definitivamente.
Ela apoiou a cabeça em seu ombro.
Movimento simples.
Automático.
Familiar.
— Você viu?
— O quê?
Hermione observou Arthur e Narcisa ao longe.
Os dois conversando sobre alguma coisa que parecia envolver ferramentas trouxas.
O que, honestamente, era uma combinação improvável.
— Isso.
Draco seguiu seu olhar.
Permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Vi.
— Eu jamais imaginaria.
A resposta demorou.
Porque ele também estava observando.
Porque ele também parecia não acreditar completamente.
— Nem eu.
Hermione entrelaçou os dedos aos dele.
Devagar.
Tranquila.
— Estou feliz.
Draco virou a cabeça.
Observando-a.
E por um instante o sorriso dele foi pequeno.
Quase imperceptível.
Mas completamente verdadeiro.
— Eu sei.
E talvez fosse exatamente isso.
Depois de tantos anos.
Depois de tantas mudanças.
Depois de tantos caminhos diferentes.
Eles finalmente tinham chegado a um lugar onde podiam simplesmente ser felizes.
E isso.
Mais do que qualquer baile.
Mais do que qualquer manchete.
Mais do que qualquer aprovação.
Parecia a verdadeira vitória.
O restante da tarde passou devagar.
Do jeito que as melhores tardes costumavam passar.
Sem pressa.
Sem planos.
Sem ninguém olhando para o relógio.
Em algum momento o almoço transformou-se em sobremesa.
Depois em chá.
Depois apenas em pessoas espalhadas pelo jardim conversando sobre absolutamente nada importante.
O sol já começava a descer quando as despedidas finalmente começaram.
Primeiro Percy.
Depois Audrey.
Angelina.
Jorge.
Que precisou ser expulso três vezes antes de aceitar que realmente estava indo embora.
Pouco a pouco a Toca voltou ao tamanho normal.
Ou pelo menos ao tamanho que Molly considerava normal.
Hermione estava recolhendo algumas xícaras da varanda quando percebeu algo.
O jardim estava muito mais silencioso.
E Harry ainda estava ali.
Sentado na mesma cadeira.
Observando o pomar ao longe.
Ela aproximou-se.
Com uma das xícaras nas mãos.
— Você perdeu sua carona?
Harry soltou uma pequena risada.
— Talvez.
— Gina foi embora sem você?
— Isso seria uma manchete interessante.
Hermione sentou-se na cadeira ao lado.
O silêncio que se seguiu não foi estranho.
O que por si só já parecia uma pequena vitória.
— Foi um bom dia.
Disse Harry.
Depois de alguns instantes.
— Foi.
— Melhor do que eu imaginava.
Hermione sorriu.
— Isso soa ligeiramente ofensivo.
— Eu sei.
— Pelo menos você é honesto.
— Estou tentando.
Ela observou o jardim.
Pensativa.
— Você ainda está se acostumando.
Não era uma pergunta.
Harry demorou alguns segundos para responder.
— Sim.
A sinceridade da resposta não a surpreendeu.
— Eu percebi.
— Eu sei.
Outro silêncio.
Pequeno.
Tranquilo.
— Mas está ficando mais fácil.
Hermione voltou-se para ele.
Harry mantinha os olhos fixos no horizonte.
— Ver você aqui.
— Aqui?
— Feliz.
Aquilo a pegou desprevenida.
Porque existiam muitas coisas que esperava ouvir.
Aquilo não era uma delas.
Harry sorriu.
Pequeno.
Quase constrangido.
— Acho que passei tanto tempo tentando entender as escolhas que você fez... Que esqueci de prestar atenção no resultado delas.
Hermione permaneceu em silêncio.
Escutando.
— E então eu fui ao baile.
Depois fui ao Ministério.
Depois vi você hoje.
A risada que escapou dele foi breve.
— Ficou difícil continuar argumentando com os fatos.
Hermione abaixou os olhos.
Porque aquilo significava mais do que Harry provavelmente imaginava.
— Obrigada.
A resposta saiu baixa.
Honesta.
Harry balançou a cabeça.
— Não precisa agradecer.
— Preciso sim. Porque você está tentando. E eu sei que não é fácil.
Ele observou-a por alguns segundos.
Depois sorriu.
Daquele jeito familiar.
O mesmo de tantos anos atrás.
— Você continua impossível.
— Aprendi com os melhores.
— Essa resposta continua irritante.
— Eu sei.
— Você faz de propósito.
— Frequentemente.
Harry começou a rir.
E, por um instante.
Pareceu exatamente como antes.
Não porque o passado tivesse voltado.
Mas porque eles finalmente tinham encontrado uma forma de seguir em frente.
O silêncio retornou.
Mas dessa vez foi confortável.
Familiar.
Até que Harry apontou discretamente para o outro lado do jardim.
Hermione acompanhou seu olhar.
E encontrou Draco.
Conversando com Arthur.
Enquanto Narcisa e Molly discutiam alguma coisa próxima à horta.
— Eu realmente nunca imaginei isso.
Comentou Harry.
Hermione observou a cena.
Depois sorriu.
— Nem eu.
— A vida ficou estranha.
— Bastante.
— Mas não necessariamente ruim.
Hermione apoiou a cabeça no encosto da cadeira.
Observando as pessoas que amava espalhadas pelo jardim.
Pessoas que jamais deveriam ter ocupado o mesmo espaço.
E que agora pareciam pertencer exatamente ali.
— Não.
Concordou.
Suavemente.
— Definitivamente não ruim.
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