Na manhã seguinte.

Pela primeira vez em semanas.

Nenhum deles tinha compromisso até o almoço.

O que, para Hermione, parecia quase suspeito.

A luz da manhã atravessava as janelas da sala de café.

Os jardins ainda estavam silenciosos.

O baile parecia distante.

Como se tivesse acontecido há muito mais do que algumas horas.

Hermione acomodou-se à mesa com uma xícara de café.

Ainda usando roupas confortáveis.

Os cabelos presos de qualquer maneira.

Muito diferente da mulher que havia comandado um dos eventos mais comentados do mundo mágico na noite anterior.

Draco já estava sentado.

Lendo.

Ou pelo menos fingindo ler.

Porque o jornal em suas mãos permanecia na mesma página havia vários minutos.

Narcisa chegou logo depois.

Elegante como sempre.

Mesmo antes do meio-dia.

— Bom dia.

— Bom dia.

Responderam os dois.

Um elfo apareceu quase imediatamente.

Trazendo uma pequena pilha de jornais.

E então desapareceu.

Hermione observou a quantidade de exemplares.

— Isso parece preocupante.

— Concordo.

Disse Draco.

— Nunca é um bom sinal quando recebemos tantos jornais.

Narcisa puxou um deles.

Abriu na primeira página.

E imediatamente arqueou uma sobrancelha.

— Oh.

— Isso também parece preocupante.

Comentou Hermione.

Narcisa girou o jornal.

Mostrando a manchete.

"BAILE MALFOY MARCA NOVA ERA NAS RELAÇÕES DA SOCIEDADE BRUXA."

Hermione relaxou.

— Certo.

Essa não é tão ruim.

— É até surpreendentemente sensata.

Comentou Draco.

Hermione pegou outro exemplar.

"MINISTÉRIO ITALIANO E BRITÂNICO APROXIMAM RELAÇÕES EM EVENTO HISTÓRICO."

— Essa eu gostei.

— Claro que gostou.

Disse Narcisa.

— Metade do artigo é sobre você.

— Apenas metade?

— A outra metade é sobre o buffet.

Hermione pareceu ofendida.

— Isso é injusto.

Narcisa começou a rir.

Draco pegou outro jornal.

Leu a manchete.

E imediatamente fechou os olhos.

— Não.

Hermione ficou curiosa.

— O quê?

— Não.

— Draco.

— Não vale a pena.

Naturalmente, Hermione estendeu a mão.

— Me dê isso.

Ele entregou.

Porque ambos sabiam que resistir era inútil.

Hermione olhou a manchete.

E imediatamente precisou esconder o rosto.

"VIKTOR KRUM REAPARECE EM BAILE MALFOY: REENCONTRO SURPREENDE CONVIDADOS."

Narcisa pegou o jornal.

Leu.

Depois olhou para Draco.

— Ah.

— Exatamente.

— Isso explica muita coisa.

— Não explica nada.

— Claro que explica.

Hermione já ria.

— Eles colocaram uma fotografia.

— Eu percebi.

— É literalmente eu cumprimentando Viktor.

— Eu percebi.

— Estamos apertando as mãos.

Narcisa desistiu completamente da própria compostura.

— Eles conseguiram uma foto excelente.

— Mãe.

— O enquadramento está impecável.

Hermione apoiou a cabeça na mesa.

Rindo.

Draco observou as duas.

Claramente abandonado.

— Estou cercado de traidoras.

— Objetivamente.

Disse Narcisa.

— Você atravessou metade do salão.

— Eu era um anfitrião.

— Claro.

— Eu estava sendo educado.

— Evidentemente.

— Havia convidados.

— Naturalmente.

— Eu não estava com ciúmes.

Hermione ergueu os olhos.

— Ninguém disse que estava.

Draco permaneceu em silêncio.

O que foi uma admissão consideravelmente mais forte do que qualquer resposta.

As duas explodiram em gargalhadas.

Por alguns instantes o ambiente voltou a ficar leve.

Tranquilo.

Familiar.

Até que Hermione consultou o relógio.

E imediatamente suspirou.

— Estamos atrasados.

— Ainda faltam duas horas.

Disse Draco.

— Exatamente.

— Hermione.

— Preciso escolher uma roupa.

— É um almoço. Na Toca.

— Sim.

— Isso é diferente.

Narcisa apoiou a xícara.

Perfeitamente séria.

— Ela tem razão.

Draco olhou para as duas.

Depois para o teto.

Como alguém que havia desistido de compreender certas coisas da vida.

— Eu vou me arrepender de perguntar.

— Vai.

Confirmou Hermione.

— Mas pergunte mesmo assim.

Draco suspirou.

— Quanto tempo vocês precisam?

Narcisa e Hermione trocaram um olhar.

Aquele olhar.

O mesmo olhar que sempre significava problemas.

— Uma hora.

Responderam juntas.

Draco fechou os olhos.

Porque todos naquela mesa sabiam que aquilo era uma mentira descarada.

A verdade era que Hermione e Narcisa levaram exatamente o dobro do tempo prometido.

O que não surpreendeu absolutamente ninguém.

— Eu avisei.

Disse Draco.

Pela terceira vez.

Enquanto aguardava no hall principal.

— Você sempre diz isso.

Respondeu Hermione.

Descendo a escadaria.

— Porque eu sempre estou certo.

— Isso parece improvável.

— Estatisticamente impossível.

Acrescentou Narcisa.

Aparecendo logo atrás.

Draco observou as duas.

Depois decidiu não comentar.

Porque não havia cenário possível em que saísse vencedor daquela discussão.

— Podemos?

Perguntou.

— Podemos.

Respondeu Hermione.

— Finalmente.

Poucos minutos depois. Eles desaparataram.

E Hermione surgiu na Toca pela primeira vez em muitos anos.

Por um instante.

Apenas um instante.

Ela ficou imóvel.

Porque algumas coisas haviam mudado.

Outras não.

O jardim parecia exatamente o mesmo.

As árvores.

As cercas tortas.

Os vasos espalhados.

As galinhas andando sem qualquer objetivo aparente.

Tudo permanecia familiar.

Reconfortante.

Como uma lembrança que se recusava a desaparecer.

— Hermione!

A voz veio antes mesmo que ela tivesse tempo de absorver tudo.

Molly atravessou o jardim.

Sem qualquer intenção de caminhar normalmente.

Hermione mal teve tempo de sorrir.

Porque foi imediatamente puxada para um abraço.

— Você está magra.

— Olá para você também.

— Está comendo direito?

— Molly...

— Estou perguntando.

— Estou.

— Hm.

A resposta claramente não convenceu.

Hermione começou a rir.

Porque algumas coisas realmente nunca mudavam.

Só então Molly voltou a atenção para os demais.

— Draco.

— Sra. Weasley.

— Já disse para me chamar de Molly.

— Sim, senhora.

Molly suspirou.

— Estamos trabalhando nisso.

Comentou Hermione.

— Eu percebi.

Arthur aproximava-se logo atrás.

Sorrindo.

Mais tranquilo.

Como sempre.

— Bom vê-los novamente.

— Igualmente.

Respondeu Draco.

Então os olhos de Arthur encontraram Narcisa.

E por um breve instante houve hesitação.

Não hostilidade.

Não desconforto.

Apenas novidade.

Porque aquela situação ainda era nova para todos.

Narcisa foi a primeira a quebrar o silêncio.

— Arthur.

— Narcisa.

Ele sorriu.

Pequeno.

Educado.

Sincero.

— Fico feliz que tenha vindo.

E, para surpresa de todos.

A resposta dela foi igualmente sincera.

— Eu também.

Molly pareceu satisfeita com aquilo.

Como alguém verificando silenciosamente que todos estavam se comportando.

— Ótimo.

Então bateu palmas uma única vez.

— Entrem.

— Molly...

Começou Hermione.

— O quê?

— Estamos cinco minutos adiantados.

— E?

— O almoço não está pronto.

— Eu sei.

— Então por que estamos entrando?

Molly pareceu ofendida.

— Porque existem aperitivos.

Hermione fechou os olhos.

— Claro que existem.

— E porque eu não fiquei horas cozinhando para deixar vocês parados no jardim.

— Justo.

— Muito justo.

Concordou Arthur.

Hermione lançou-lhe um olhar.

Traída novamente.

Arthur apenas sorriu.

Sem qualquer remorso.

Enquanto caminhavam em direção à casa, Hermione percebeu movimento próximo à porta.

Então ouviu vozes.

Muitas vozes.

E imediatamente entendeu uma coisa.

Aquilo não era apenas um almoço.

Aquilo era um almoço dos Weasley.

O que significava que metade da família já estava lá dentro.

Esperando.

E provavelmente observando pela janela.

— Ah, não.

Murmurou.

Draco ouviu.

— O quê?

Hermione apontou discretamente para a cortina da cozinha.

Que acabou de se mover.

Muito rapidamente.

Como alguém tentando fingir que não estava espionando.

— Eles estão observando.

Draco acompanhou o olhar dela.

E, exatamente naquele instante, a cortina moveu-se novamente.

— Eles estão mesmo.

— Eu avisei.

— Não avisou.

— Pensei em avisar.

— Isso não conta.

— Conta um pouco.

Hermione suspirou.

Porque, infelizmente.

Ele estava certo.

E porque aquela sensação...

Aquela bagunça.

Aquele caos.

Aquela falta absoluta de privacidade.

Era estranhamente familiar.

Como voltar para casa.

Capítulo 43

A cozinha da Toca estava exatamente como Hermione lembrava.

Talvez um pouco mais cheia.

Talvez um pouco mais barulhenta.

Mas essencialmente a mesma.

O relógio mágico continuava marcando localizações impossíveis.

As panelas ainda pareciam possuir vida própria.

E havia pessoas demais para qualquer espaço razoável.

O que significava que tudo estava normal.

— Eles chegaram!

Anunciou Jorge.

Como se estivesse narrando um evento histórico.

— Nós percebemos.

Respondeu Gina.

— Você estraga toda a diversão.

— Essa era a intenção.

Hermione mal havia atravessado a porta quando foi imediatamente cercada.

Perguntas.

Comentários.

Observações sobre o baile.

Sobre as manchetes.

Sobre a fotografia de Viktor Krum.

Principalmente sobre a fotografia de Viktor Krum.

— Foi a melhor manchete.

Declarou Jorge.

— Pare.

— Nunca.

— Isso explica muita coisa.

Murmurou Draco.

Jorge abriu um sorriso.

— Eu gosto dele.

— Isso é preocupante.

Comentou Harry.

— Concordo.

Disse Hermione.

A conversa continuou.

Naturalmente.

Como se os anos de distância tivessem diminuído durante a noite anterior.

Como se fosse possível recuperar tempo perdido apenas permanecendo na mesma sala.

Foi então que Hermione percebeu algo.

Ou melhor.

Alguém.

Narcisa permanecia ligeiramente afastada.

Não isolada.

Mas observando.

Como alguém que ainda tentava entender a dinâmica daquele lugar.

O caos.

As interrupções.

As conversas simultâneas.

A completa ausência de formalidade.

Hermione conhecia aquela expressão.

Porque já a tinha visto antes.

Em si mesma.

Durante eventos políticos.

Recepções diplomáticas.

Jantares formais.

A diferença era que, pela primeira vez, Narcisa era a pessoa fora de contexto.

Foi Audrey quem se aproximou primeiro.

Carregando uma travessa.

— Você quer ajuda?

Narcisa piscou.

— Perdão?

— Com isso.

Audrey apontou para a pilha de pratos que alguém havia colocado nas mãos dela sem autorização aparente.

Narcisa observou os pratos.

Como se estivesse genuinamente surpresa por estar segurando-os.

— Ah.

— Acontece rápido.

Explicou Audrey.

Com absoluta seriedade.

— Eu percebi.

— Daqui a pouco você estará carregando talheres sem saber como chegou nessa situação.

— Isso é comum?

— Extremamente.

Narcisa olhou para Percy.

Que naquele exato momento transportava três jarras de suco enquanto tentava responder uma pergunta de Arthur.

— Entendo.

Audrey sorriu.

— Você se acostuma.

E, para surpresa de Hermione, Narcisa devolveu o sorriso.

Pequeno.

Mas genuíno.

Pouco depois foi Arthur.

Depois Molly.

Depois Jorge.

Que apareceu apenas para perguntar se ela realmente possuía uma sala de chá maior que a própria cozinha da Toca.

O que iniciou uma discussão completamente desnecessária sobre metragem de imóveis.

E, em algum momento entre uma conversa e outra, Hermione percebeu algo curioso.

Narcisa tinha parado de observar.

E começado a participar.

Como se lentamente estivesse sendo absorvida pelo caos inevitável da família Weasley.

Ela encontrou o olhar de Draco do outro lado da cozinha.

E percebeu que ele também havia notado.

Porque havia algo diferente na expressão dele.

Mais leve.

Mais tranquila.

Como alguém assistindo a uma cena que jamais imaginara testemunhar.

Sua mãe.

Sentada à mesa da Toca.

Tomando chá com Molly Weasley.

Enquanto discutiam receitas.

E honestamente?

Aquilo parecia tão improvável quanto qualquer coisa que já haviam vivido.

Talvez mais.

Hermione só percebeu que Draco havia desaparecido quando Molly anunciou que o almoço estava quase pronto.

— Onde está seu marido?

Hermione ergueu os olhos.

— Boa pergunta.

— Arthur também sumiu.

Comentou Gina.

— Isso parece suspeito.

— Extremamente.

Concordou Jorge.

— Devíamos investigar.

— Não.

Responderam várias vozes ao mesmo tempo.

Jorge pareceu ofendido.

No quintal.

Draco carregava uma caixa de garrafas de cerveja amanteigada.

Uma tarefa que jamais imaginara executar em qualquer momento da vida.

Muito menos na Toca.

— Cuidado com o degrau.

Avisou Arthur.

Draco desviou sem dificuldade.

— Obrigado.

— Molly sempre esquece de consertar aquilo.

— Imagino.

Arthur sorriu.

— Na verdade não.

— Não?

— Ela lembra.

— Então por que não conserta?

Arthur pensou por um instante.

— Acho que porque gosta de reclamar dele.

Draco permaneceu em silêncio.

Considerando a lógica.

E chegou à conclusão de que fazia um estranho sentido.

— Entendo.

Arthur pareceu satisfeito.

Como se aquilo resolvesse completamente a questão.

Continuaram caminhando.

Por alguns instantes.

Em silêncio.

— Foi uma boa noite.

Comentou Arthur.

Draco assentiu.

— Foi.

— Vocês fizeram um excelente trabalho.

— Hermione fez a maior parte.

Arthur soltou uma pequena risada.

— Isso é exatamente o que ela diria.

Draco não conseguiu evitar um sorriso.

Porque era verdade.

— Ela continua a mesma.

— Em alguns aspectos.

Concordou Arthur.

— E em outros não.

Draco observou o jardim.

Pensativo.

— Sim.

— Isso é normal.

Disse Arthur.

Como se estivesse respondendo algo que Draco não havia dito.

— As pessoas mudam.

— Eu sei.

— Felizmente.

Os olhos castanhos encontraram os dele.

Calmos.

Sem julgamento.

— Porque seria terrível se continuássemos todos exatamente como éramos aos dezessete anos.

Draco soltou uma pequena risada.

— Nesse caso eu concordo.

— Eu imaginei.

Arthur abriu a porta do galpão.

Esperando que Draco entrasse primeiro.

— Posso perguntar uma coisa?

— Claro.

— Você estava nervoso?

Draco arqueou uma sobrancelha.

— No baile?

— Não.

Arthur sorriu.

— Hoje.

A resposta demorou alguns segundos.

Porque era irritante.

E porque Arthur Weasley parecia ter uma capacidade absurda de fazer perguntas simples.

— Talvez.

Arthur assentiu.

Como se aquela resposta fosse perfeitamente razoável.

— Eu também estaria.

— Estaria?

— Claro.

Draco pareceu genuinamente surpreso.

Arthur começou a organizar algumas caixas.

— Narcisa também.

— Ela não demonstrou.

— Nem você.

Aquilo arrancou um sorriso involuntário.

Arthur percebeu.

Claro que percebeu.

— Mas vocês vieram mesmo assim.

Draco observou-o por alguns segundos.

Sem saber exatamente o que responder.

Arthur resolveu o problema por ele.

— Isso significa mais do que imagina.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.

Foi apenas silêncio.

E, estranhamente.

Draco percebeu que não se importava com isso.

Nem um pouco.

Quando Draco voltou para a cozinha, o almoço já estava oficialmente fora de controle.

O que aparentemente era o estado natural de qualquer refeição na Toca.

A mesa havia sido ampliada magicamente.

Mais cadeiras tinham aparecido.

Pratos circulavam de um lado para outro.

Alguém discutia quadribol.

Alguém discutia política.

Alguém discutia alguma coisa que provavelmente começou como quadribol e terminou em política.

Hermione não tinha certeza.

Nem pretendia descobrir.

Foi então que o viu.

Entrando pela porta dos fundos.

Arthur logo atrás.

Os dois carregando caixas.

Conversando.

Conversando.

Hermione piscou.

Uma vez.

Depois outra.

Porque aquilo ainda parecia ligeiramente surreal.

Draco percebeu seu olhar imediatamente.

Claro que percebeu.

— O quê?

Perguntou.

Já aproximando-se.

— Nada.

— Hermione.

— Estou apenas observando.

— Isso é preocupante.

— Concordo.

Disse Harry.

Do outro lado da mesa.

Sem sequer levantar os olhos do prato.

— Ninguém pediu sua opinião.

— Eu ofereço gratuitamente.

— Percebemos.

Hermione ignorou os dois.

Continuando a observar Draco.

— Você estava conversando com Arthur.

— Sim.

— Por quase meia hora.

— Sim.

— Voluntariamente.

Draco estreitou os olhos.

— O que exatamente você está insinuando?

— Nada.

— Hermione.

— Absolutamente nada.

— Essa é uma mentira evidente.

— Talvez.

Draco suspirou.

Como alguém profundamente injustiçado.

Hermione sorriu.

Porque aquilo significava apenas uma coisa.

A conversa tinha corrido bem.

Muito bem.

E ambos sabiam.

O almoço continuou.

Lento.

Barulhento.

Cheio.

Como todos os almoços dos Weasley pareciam ser.

Em determinado momento, Jorge começou uma discussão completamente desnecessária sobre qual dos irmãos era o favorito de Molly.

Percy tentou argumentar usando lógica.

O que foi um erro.

Fred teria adorado aquilo.

A percepção surgiu sem aviso.

Silenciosa.

Repentina.

E, por um breve instante, o grupo inteiro pareceu senti-la.

Porque houve uma pausa.

Pequena.

Quase imperceptível.

Mas real.

Foi Molly quem retomou a conversa.

Como sempre fazia.

E pouco depois o momento passou.

Não esquecido.

Nunca esquecido.

Apenas carregado adiante.

Como tantas outras coisas naquela família.

Hermione observou aquilo em silêncio.

E então percebeu outra coisa.

Narcisa.

Ela estava sentada ao lado de Molly.

As duas conversavam.

Naturalmente.

Sem esforço.

Sem formalidade.

Sem aquela distância cuidadosa que existira na noite anterior.

Molly comentava alguma coisa sobre uma receita.

Narcisa respondia.

Arthur participava.

Audrey também.

E ninguém parecia considerar aquilo estranho.

Como se fosse perfeitamente normal.

Como se sempre tivesse sido assim.

Hermione sentiu algo apertar no peito.

Da melhor maneira possível.

Porque não era normal.

Não deveria ser normal.

Mas talvez.

Talvez fosse exatamente isso que tornava tudo tão especial.

Mais tarde.

Quando o almoço finalmente começou a se desfazer em pequenos grupos espalhados pelo jardim.

Hermione encontrou-se sentada na varanda.

Uma xícara de chá entre as mãos.

Observando o movimento.

Draco surgiu alguns minutos depois.

Naturalmente.

Como sempre.

Sentando-se ao lado dela.

Sem precisar perguntar.

Sem precisar explicar.

Por alguns instantes permaneceram em silêncio.

Apenas observando.

Jorge tentando convencer Harry de alguma ideia terrível.

Gina rindo de alguma coisa.

Arthur mostrando algo a Narcisa próximo ao galpão.

Molly supervisionando tudo.

Mesmo sem admitir.

— Está pensando demais.

Comentou Draco.

Hermione sorriu.

— Talvez.

— Definitivamente.

Ela apoiou a cabeça em seu ombro.

Movimento simples.

Automático.

Familiar.

— Você viu?

— O quê?

Hermione observou Arthur e Narcisa ao longe.

Os dois conversando sobre alguma coisa que parecia envolver ferramentas trouxas.

O que, honestamente, era uma combinação improvável.

— Isso.

Draco seguiu seu olhar.

Permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Vi.

— Eu jamais imaginaria.

A resposta demorou.

Porque ele também estava observando.

Porque ele também parecia não acreditar completamente.

— Nem eu.

Hermione entrelaçou os dedos aos dele.

Devagar.

Tranquila.

— Estou feliz.

Draco virou a cabeça.

Observando-a.

E por um instante o sorriso dele foi pequeno.

Quase imperceptível.

Mas completamente verdadeiro.

— Eu sei.

E talvez fosse exatamente isso.

Depois de tantos anos.

Depois de tantas mudanças.

Depois de tantos caminhos diferentes.

Eles finalmente tinham chegado a um lugar onde podiam simplesmente ser felizes.

E isso.

Mais do que qualquer baile.

Mais do que qualquer manchete.

Mais do que qualquer aprovação.

Parecia a verdadeira vitória.

O restante da tarde passou devagar.

Do jeito que as melhores tardes costumavam passar.

Sem pressa.

Sem planos.

Sem ninguém olhando para o relógio.

Em algum momento o almoço transformou-se em sobremesa.

Depois em chá.

Depois apenas em pessoas espalhadas pelo jardim conversando sobre absolutamente nada importante.

O sol já começava a descer quando as despedidas finalmente começaram.

Primeiro Percy.

Depois Audrey.

Angelina.

Jorge.

Que precisou ser expulso três vezes antes de aceitar que realmente estava indo embora.

Pouco a pouco a Toca voltou ao tamanho normal.

Ou pelo menos ao tamanho que Molly considerava normal.

Hermione estava recolhendo algumas xícaras da varanda quando percebeu algo.

O jardim estava muito mais silencioso.

E Harry ainda estava ali.

Sentado na mesma cadeira.

Observando o pomar ao longe.

Ela aproximou-se.

Com uma das xícaras nas mãos.

— Você perdeu sua carona?

Harry soltou uma pequena risada.

— Talvez.

— Gina foi embora sem você?

— Isso seria uma manchete interessante.

Hermione sentou-se na cadeira ao lado.

O silêncio que se seguiu não foi estranho.

O que por si só já parecia uma pequena vitória.

— Foi um bom dia.

Disse Harry.

Depois de alguns instantes.

— Foi.

— Melhor do que eu imaginava.

Hermione sorriu.

— Isso soa ligeiramente ofensivo.

— Eu sei.

— Pelo menos você é honesto.

— Estou tentando.

Ela observou o jardim.

Pensativa.

— Você ainda está se acostumando.

Não era uma pergunta.

Harry demorou alguns segundos para responder.

— Sim.

A sinceridade da resposta não a surpreendeu.

— Eu percebi.

— Eu sei.

Outro silêncio.

Pequeno.

Tranquilo.

— Mas está ficando mais fácil.

Hermione voltou-se para ele.

Harry mantinha os olhos fixos no horizonte.

— Ver você aqui.

— Aqui?

— Feliz.

Aquilo a pegou desprevenida.

Porque existiam muitas coisas que esperava ouvir.

Aquilo não era uma delas.

Harry sorriu.

Pequeno.

Quase constrangido.

— Acho que passei tanto tempo tentando entender as escolhas que você fez... Que esqueci de prestar atenção no resultado delas.

Hermione permaneceu em silêncio.

Escutando.

— E então eu fui ao baile.

Depois fui ao Ministério.

Depois vi você hoje.

A risada que escapou dele foi breve.

— Ficou difícil continuar argumentando com os fatos.

Hermione abaixou os olhos.

Porque aquilo significava mais do que Harry provavelmente imaginava.

— Obrigada.

A resposta saiu baixa.

Honesta.

Harry balançou a cabeça.

— Não precisa agradecer.

— Preciso sim. Porque você está tentando. E eu sei que não é fácil.

Ele observou-a por alguns segundos.

Depois sorriu.

Daquele jeito familiar.

O mesmo de tantos anos atrás.

— Você continua impossível.

— Aprendi com os melhores.

— Essa resposta continua irritante.

— Eu sei.

— Você faz de propósito.

— Frequentemente.

Harry começou a rir.

E, por um instante.

Pareceu exatamente como antes.

Não porque o passado tivesse voltado.

Mas porque eles finalmente tinham encontrado uma forma de seguir em frente.

O silêncio retornou.

Mas dessa vez foi confortável.

Familiar.

Até que Harry apontou discretamente para o outro lado do jardim.

Hermione acompanhou seu olhar.

E encontrou Draco.

Conversando com Arthur.

Enquanto Narcisa e Molly discutiam alguma coisa próxima à horta.

— Eu realmente nunca imaginei isso.

Comentou Harry.

Hermione observou a cena.

Depois sorriu.

— Nem eu.

— A vida ficou estranha.

— Bastante.

— Mas não necessariamente ruim.

Hermione apoiou a cabeça no encosto da cadeira.

Observando as pessoas que amava espalhadas pelo jardim.

Pessoas que jamais deveriam ter ocupado o mesmo espaço.

E que agora pareciam pertencer exatamente ali.

— Não.

Concordou.

Suavemente.

— Definitivamente não ruim.