O Segredo Mais Bem Guardado
41 Capítulo 41
Hermione ainda sorria.
A surpresa do reencontro não tinha desaparecido completamente.
E Viktor continuava exatamente igual em um aspecto muito específico.
Contava histórias como se estivesse relatando acontecimentos de importância internacional.
Mesmo quando falava sobre algo completamente banal.
— E então o ministro caiu dentro da fonte.
— Ele não caiu.
— Caiu.
— Viktor.
— Caiu mesmo.
Angelina já ria.
Audrey também.
Até Gina parecia perigosamente entretida.
— Você está inventando metade dessa história.
— Apenas metade.
— Isso não ajuda sua defesa.
— Nunca ajudou.
— Isso é verdade.
Hermione balançou a cabeça.
Ainda sorrindo.
Foi então que uma presença familiar surgiu ao seu lado.
Naturalmente.
Silenciosamente.
Como se sempre tivesse estado ali.
A mão de Draco pousou em suas costas.
Leve.
Discreta.
Mas completamente reconhecível.
Hermione nem precisou olhar.
— Finalmente escapou?
Perguntou.
— Eu poderia fazer a mesma pergunta.
O tom era perfeitamente tranquilo.
Perfeitamente educado.
E precisamente por isso Hermione soube imediatamente o que estava acontecendo.
Precisou conter um sorriso.
— Krum.
Cumprimentou Draco.
Krum sorriu.
— Malfoy.
O aperto de mão foi impecável.
Educado.
Civilizado.
E apenas ligeiramente competitivo.
O suficiente para Gina precisar desviar o olhar.
— Não sabia que estava em Londres.
Disse Draco.
— Cheguei há alguns dias.
— Entendo.
— Reuniões.
— Claro.
Hermione observou os dois.
Depois observou Gina.
Gina observou Hermione.
E imediatamente voltou a atenção para a própria taça.
Porque estava prestes a rir.
— Estou interrompendo alguma coisa?
Perguntou Draco.
— Sim.
Respondeu Hermione sem hesitar.
— Uma história muito importante.
— Imagino.
— O ministro caiu na fonte.
Explicou Krum.
Draco assentiu solenemente.
— Trágico.
— Foi engraçado.
— Tenho certeza.
Angelina quase engasgou.
Audrey baixou a cabeça.
E Gina desistiu completamente de fingir.
O silêncio seguinte durou apenas alguns segundos.
— Você organizou um belo evento.
Comentou Krum.
Os olhos dele voltaram-se para Hermione.
— Muito impressionante.
Antes que ela pudesse responder, Draco falou:
— Ela trabalhou bastante.
Hermione lançou-lhe um olhar.
— Nós trabalhamos bastante.
— Claro.
— Estou falando sério.
— Eu sei que está.
Ela voltou-se para Krum.
— A maior parte do crédito é da Narcisa.
Krum assentiu.
Como se aquilo fizesse sentido.
Porque fazia.
— Continua igual.
— O quê?
— Alguém elogia você.
— E eu agradeço.
— E imediatamente transfere metade do mérito para outra pessoa.
Hermione abriu a boca para responder.
Fechou.
Depois sorriu.
— Talvez.
— Definitivamente.
Disse Gina.
— Gina.
— O quê?
— Você não está ajudando.
— Estou ajudando muito.
Krum riu.
Daquela vez de forma genuína.
E por um breve instante pareceu exatamente o rapaz que ela conhecera anos atrás.
Antes de tudo.
Antes da guerra terminar.
Antes da Itália.
Antes de Draco.
— Foi bom vê-la novamente.
Disse ele.
O sorriso suavizando.
— Faz tempo demais.
— Concordo.
— Não espere mais dez anos da próxima vez.
— Posso tentar.
— Tente melhor.
Hermione riu.
— Justo.
Então Krum voltou-se para Draco.
— Malfoy.
— Krum.
— O evento está excelente.
Draco assentiu.
— Obrigado.
— E parabéns.
Os olhos dele passaram discretamente entre os dois.
Hermione percebeu.
Draco também.
— Vejo que as coisas terminaram bem para vocês.
A frase era simples.
Honesta.
Sem qualquer provocação.
E talvez justamente por isso tenha causado um breve silêncio.
Hermione sorriu primeiro.
Pequeno.
Mas sincero.
— Terminaram.
Krum sustentou o olhar dela por um instante.
Então assentiu.
Como alguém que recebia exatamente a resposta que esperava ouvir.
— Fico feliz.
E havia sinceridade naquilo.
O que tornou a resposta ainda mais fácil de acreditar.
Então ele ergueu levemente a própria taça.
— Agora preciso voltar antes que a pessoa que me trouxe aqui ache que desapareci.
— Boa sorte.
Disse Hermione.
— Vou precisar.
— Provavelmente.
Concordou Draco.
Krum soltou uma risada.
Lançou um último olhar para o grupo.
E afastou-se pelo salão.
Hermione observou-o partir.
Ainda sorrindo.
Foi só quando ele desapareceu entre os convidados que voltou a atenção para o marido.
Draco permanecia ao seu lado.
Como se estivesse ali desde o início.
Como se não tivesse atravessado metade do salão cinco minutos antes.
E aquilo, honestamente.
Era quase tão engraçado quanto a história da fonte.
Então voltou-se para Draco.
— Você foi surpreendentemente educado.
— Eu sempre sou educado.
Hermione arqueou uma sobrancelha.
— Draco.
— O quê?
Ela apenas sustentou seu olhar.
Por alguns segundos.
Tempo suficiente para que ambos soubessem exatamente sobre o que estavam falando.
Draco suspirou.
Como alguém injustamente acusado.
— Meu trabalho aqui foi concluído.
— Seu trabalho?
— Sim.
— Que trabalho exatamente?
— Garantir que o evento continuasse funcionando adequadamente.
— Naturalmente.
— Sou um anfitrião responsável.
Angelina quase engasgou com a própria bebida.
Audrey abaixou a cabeça.
Os ombros tremendo.
Gina simplesmente desistiu de fingir.
— Draco.
Disse Hermione.
Já rindo.
— Sim?
— Você é impossível.
— Frequentemente me dizem isso.
— Por pessoas sensatas.
— É uma possibilidade.
Hermione balançou a cabeça.
Ainda sorrindo.
Porque ele nem sequer estava tentando parecer convincente.
Draco inclinou-se levemente.
Apenas o suficiente para que só ela ouvisse.
— Vou buscar uma taça para você.
— Que cavalheiro.
— Eu tento manter certos padrões.
— Claro que tenta.
Os olhos cinzentos permaneceram nos dela por um instante.
Aquele olhar tranquilo.
Familiar.
O olhar que sempre surgia depois que ele vencia uma discussão que jamais admitiria estar travando.
Então ele se afastou.
Hermione observou-o caminhar alguns passos.
Ainda sorrindo.
Foi só então que percebeu algo.
Do outro lado do salão.
Próximo a uma das colunas.
Havia um grupo inteiro observando.
Theo.
Blaise.
Jorge.
Harry.
E um Rony visivelmente emburrado.
Todos olhando para ela.
Ou melhor.
Todos olhando para Draco.
Todos.
Sem exceção.
Jorge foi o primeiro a notar que havia sido descoberto.
E, ao invés de demonstrar qualquer vergonha, ergueu a própria taça na direção dela.
Como se estivesse cumprimentando uma cúmplice.
Hermione fechou os olhos.
— Ah, não.
Gina acompanhou seu olhar.
Demorou exatamente um segundo para entender.
— Ah, sim.
— Gina.
— Eles viram tudo.
— Eu sei.
— Absolutamente tudo.
— Eu sei.
— Isso vai ser insuportável.
Hermione observou Theo praticamente dobrado de tanto rir.
Jorge claramente satisfeito consigo mesmo.
Harry tentando parecer inocente.
E Rony ainda com cara de quem continuava não gostando daquele búlgaro.
Então suspirou.
— Vai mesmo.
O restante da noite passou mais rápido do que Hermione esperava.
Conversas.
Risadas.
Apresentações.
Velhos amigos.
Novos conhecidos.
Pessoas que jamais imaginaria ver compartilhando o mesmo salão.
Em algum momento, a formalidade inicial desapareceu.
As barreiras também.
E aquilo talvez fosse a maior vitória da noite.
Mais do que os elogios.
Mais do que as manchetes que certamente surgiriam pela manhã.
Mais do que qualquer discurso.
Quando Hermione observava o salão, já não via apenas convidados.
Via pessoas conversando.
Rindo.
Construindo pontes.
Exatamente como ela e Narcisa haviam imaginado.
Talvez até melhor.
As horas avançaram.
Pouco a pouco os primeiros convidados começaram a partir.
Depois outros.
E outros.
Até que o grande salão começou a esvaziar-se.
Theo foi embora prometendo que a história envolvendo Viktor Krum melhoraria a cada vez que fosse contada.
Blaise informou que ajudaria na divulgação.
O que era consideravelmente pior.
Pansy declarou que ambos eram insuportáveis.
Nenhum dos dois pareceu ofendido.
Harry e Gina permaneceram até quase o final.
Jorge também.
Principalmente porque ninguém conseguia convencê-lo a abandonar o assunto favorito da noite.
— Ainda acho que foi a melhor parte.
Comentou.
Pela décima vez.
— Jorge.
Suspirou Harry.
— Estou falando sério.
— Nós sabemos.
— A velocidade com que Malfoy atravessou o salão foi impressionante.
— Jorge.
— Parecia um auror respondendo a uma emergência.
— Jorge.
— Um auror aristocrático.
— Jorge.
— Já parei.
Mentiu.
Completamente.
Rony, que continuava próximo, cruzou os braços.
— Ainda não gosto daquele búlgaro.
Jorge explodiu em gargalhadas.
Novamente.
Hermione precisou esconder o rosto por um instante.
Draco apenas suspirou.
Como alguém resignado ao próprio destino.
Eventualmente, até os Weasley começaram a se despedir.
Arthur aproximou-se primeiro.
Cumprimentando Narcisa.
Depois Draco.
E por fim Hermione.
Mas foi Molly quem permaneceu.
Observando os três por alguns segundos.
Como se estivesse tomando uma decisão.
O que nunca era um bom sinal.
Hermione reconheceu aquele olhar imediatamente.
— Molly...
— Não.
Respondeu ela.
Antes mesmo que Hermione terminasse.
— Ainda nem falei nada.
— Exatamente.
— Hermione.
— Isso nunca termina bem.
Arthur pareceu perigosamente entretido.
Molly ignorou ambos.
— Amanhã.
Hermione suspirou.
— Molly...
— Almoço na Toca.
— Molly.
— Não termine essa frase.
— Eu só ia—
— Não.
Hermione fechou a boca.
Porque honestamente não havia muito o que fazer.
Arthur falhou completamente em esconder um sorriso.
— Eu recomendaria aceitar.
— Arthur.
— Estou apenas sendo realista.
Molly voltou-se para Draco.
— Você também.
Draco respondeu imediatamente.
Sem a menor hesitação.
— Sim, senhora.
Hermione virou-se para ele.
Traída.
— Você desistiu rápido demais.
— Eu sobrevivi à guerra.
Respondeu Draco.
Com absoluta seriedade.
— Não pretendo desafiar Molly Weasley.
Arthur soltou uma gargalhada.
Até Narcisa precisou esconder um sorriso atrás da própria taça.
Molly pareceu profundamente satisfeita.
— Excelente.
Disse.
Como alguém que acabara de resolver um assunto importante.
Então voltou-se para Narcisa.
— Você também está convidada.
O silêncio durou apenas um instante.
Porque aquilo era novo.
Talvez para todos.
Narcisa arqueou levemente uma sobrancelha.
— Tem certeza?
— Claro que tenho.
Respondeu Molly.
Como se a pergunta fosse absurda.
— Você ajudou a trazer essa menina de volta para nós.
Os olhos de Hermione imediatamente encontraram os de Narcisa.
E, pela primeira vez naquela noite, Narcisa pareceu genuinamente surpresa.
Apenas por um segundo.
Mas suficiente.
— Então apareça.
Continuou Molly.
— Todos vocês.
Narcisa sustentou seu olhar.
Depois assentiu.
Elegante como sempre.
— Ficaremos honrados.
Molly sorriu.
Satisfeita.
Como se aquela fosse exatamente a resposta que esperava.
— Ótimo.
Então bateu uma vez no braço de Arthur.
— Vamos.
— Sim, querida.
Os dois começaram a caminhar.
Mas antes de atravessar a porta, Molly olhou por cima do ombro.
— Meio-dia.
— Molly.
— Não se atrasem.
E desapareceu corredor afora.
O silêncio que ficou para trás durou alguns segundos.
Hermione observou a porta fechada.
Depois olhou para Draco.
— Fomos intimados.
— Definitivamente.
— Sem direito a recurso.
Acrescentou Narcisa.
Hermione soltou uma risada.
A primeira verdadeiramente relaxada em horas.
Porque, pela primeira vez desde que tudo aquilo começara...
O baile tinha acabado.
E tinha dado certo.
Melhor do que qualquer um deles ousara imaginar.
Fale com o autor