O Segredo Mais Bem Guardado
38 Capítulo 38
A dispersão aconteceu naturalmente.
Como sempre acontecia em eventos daquele porte.
Pouco a pouco, os pequenos grupos começaram a se desfazer.
Novas conversas surgiram.
Novos cumprimentos foram trocados.
E o salão adquiriu aquela movimentação elegante e constante que apenas grandes eventos conseguiam produzir.
Theo desapareceu primeiro.
Ou melhor.
Foi capturado.
Uma senhora particularmente determinada interceptou seu caminho.
Hermione observou enquanto ele lançava um olhar de puro sofrimento na direção dela.
— Não me abandone.
Murmurou ao passar.
— Seja forte.
Respondeu ela.
— Eu odeio você.
— Boa sorte.
Theo continuou caminhando.
Como um homem sendo conduzido para a própria execução.
Draco nem sequer tentou ajudá-lo.
— Amigo exemplar.
Comentou Hermione.
— Ele sobrevive.
— Essa é sua defesa?
— Tem funcionado há quinze anos.
Era difícil argumentar contra isso.
Blaise teve destino muito diferente.
Cinco minutos depois já estava apoiado próximo a uma das colunas do salão.
Conversando com duas bruxas que claramente pareciam encantadas por qualquer coisa que saísse de sua boca.
— Ele faz isso de propósito.
Comentou Hermione.
— Sim.
Respondeu Draco.
— E funciona?
— Irritantemente bem.
Hermione observou Blaise por mais alguns segundos.
— Eu odeio admitir isso.
— Eu também.
Pansy, por outro lado, parecia ter assumido uma missão própria.
Percorria o salão lentamente.
Taça na mão.
Expressão crítica.
Observando tudo.
Absolutamente tudo.
— O que ela está fazendo?
Perguntou Hermione.
— Julgando.
— O quê?
— Sim.
— O quê exatamente?
— Tudo.
Hermione considerou a resposta.
— Justo.
Do outro lado do salão, Arthur havia sido cercado por três bruxos que pareciam fascinados por alguma explicação envolvendo artefatos trouxas.
Os gestos animados já denunciavam que a conversa duraria bastante.
Percy encontrara seu habitat natural.
Funcionários públicos.
Hermione não ficou nem um pouco surpresa.
Audrey parecia perfeitamente acostumada.
Enquanto isso, Jorge transitava entre grupos distintos com a facilidade de alguém que jamais reconhecera a existência de barreiras sociais.
Em determinado momento Hermione observou-o conversando com um grupo de famílias tradicionais.
Dois minutos depois todos estavam rindo.
Três minutos depois Jorge recebia um convite para visitar alguma propriedade.
— Isso deveria me preocupar?
Perguntou Hermione.
— Definitivamente.
Respondeu Draco.
— Excelente.
A música mudou novamente.
Mais suave.
Mais refinada.
E por um instante Hermione permitiu-se apenas observar.
O salão.
Os convidados.
As mesas.
As flores.
As conversas.
Tudo funcionando exatamente como deveria.
Sem incidentes.
Sem crises.
Sem emergências.
Uma experiência relativamente inédita em sua vida.
— Está procurando problemas?
A voz de Draco surgiu ao seu lado.
Hermione suspirou.
— Talvez.
— Não existem problemas.
— Eu sei.
— Então por que continua procurando?
Ela demorou alguns segundos para responder.
Porque a verdade era embaraçosa.
— Porque passamos semanas resolvendo problemas.
— Ah.
— Meu cérebro não sabe o que fazer agora.
Um sorriso surgiu no canto dos lábios dele.
— Tente aproveitar.
— Isso parece suspeito.
— Hermione.
— Draco.
— Aproveite a festa.
Ela abriu a boca para responder.
Mas acabou fechando novamente.
Porque, pela primeira vez naquela noite, percebeu algo.
Os Weasley estavam espalhados pelo salão.
Os Sonserinos também.
Narcisa conversava com antigos conhecidos.
Harry estava próximo de Gina.
Arthur gesticulava animadamente.
Jorge claramente planejava alguma coisa.
Pansy julgava pessoas.
Theo sofria.
Blaise flertava.
E tudo aquilo coexistia no mesmo lugar.
Sem tensão.
Sem conflitos.
Sem que ninguém precisasse escolher um lado.
Hermione observou a cena por alguns segundos.
Então sorriu.
Pequeno.
Mas sincero.
Porque talvez aquele fosse o verdadeiro sucesso da noite.
Não a decoração.
Não os convidados.
Nem mesmo o baile.
Mas o fato de que, pela primeira vez em muitos anos, todas as partes da sua vida ocupavam o mesmo espaço.
E, surpreendentemente, pareciam funcionar juntas.
E o ambiente gradualmente abandonava a formalidade rígida dos primeiros minutos.
— Sra Malfoy.
Ela virou-se.
Um casal que havia sido apresentado durante os preparativos aproximava-se.
Cumprimentos.
Elogios ao evento.
Algumas perguntas sobre o Ministério Italiano.
Depois outro grupo.
Depois mais outro.
Em determinado momento Hermione percebeu que estava conversando havia quase quinze minutos seguidos sem conseguir voltar para Draco.
O que era ligeiramente irritante.
E curiosamente satisfatório.
Porque ninguém estava falando com ela por ser esposa de Draco.
Nem por ser anfitriã.
Nem por curiosidade.
Falavam sobre o trabalho dela.
Sobre projetos.
Sobre a reforma administrativa conduzida na Itália.
Sobre cooperação internacional.
Assuntos que ela dominava.
Assuntos que eram seus.
Quando finalmente conseguiu escapar de uma conversa sobre regulamentação de transporte mágico europeu, encontrou Draco novamente.
Ou melhor.
Encontrou um círculo de pessoas ao redor dele.
Draco estava no centro.
Uma taça na mão.
Expressão perfeitamente composta.
Respondendo perguntas.
Fazendo comentários.
Sorrindo ocasionalmente.
Como se tivesse nascido para aquilo.
Hermione parou por um instante.
Observando.
Porque aquilo era irritantemente injusto.
Draco passava semanas reclamando de eventos sociais.
E então tornava-se uma das pessoas mais confortáveis do salão inteiro.
Como se tivesse nascido para aquilo.
O que, honestamente, provavelmente tinha acontecido.
Ela observou enquanto ele respondia alguma pergunta.
Sorria.
Comentava algo.
E arrancava risadas do pequeno grupo ao redor.
Então um novo convidado aproximou-se.
Outro cumprimentou-o.
E, em poucos segundos, Draco foi novamente sequestrado por mais uma conversa.
Hermione soltou uma risada baixa.
— Eu vi isso.
A voz de Gina surgiu ao seu lado.
Hermione virou-se.
Encontrando não apenas Gina.
Mas também Angelina e Audrey.
— Viu o quê?
— Você encarando o seu marido.
— Eu não estava encarando.
— Estava.
Disse Angelina imediatamente.
— Definitivamente estava.
Concordou Audrey.
Hermione cruzou os braços.
— Vocês três são insuportáveis.
— E você está desviando do assunto.
Respondeu Gina.
— O assunto não existe.
— Claro que existe.
— Não existe.
— Hermione.
— Gina.
Angelina suspirou.
— É exatamente assim que vocês duas discutiam na escola?
— Sim.
Responderam as duas ao mesmo tempo.
Audrey começou a rir.
— Isso explica muita coisa.
— Eu gosto dela.
Comentou Angelina.
— Eu também.
Concordou Audrey.
— Isso é preocupante.
Disse Hermione.
— Provavelmente.
Respondeu Gina.
As quatro acabaram rindo.
E, pela primeira vez desde o início da noite, Hermione sentiu algo próximo de normalidade.
Não uma normalidade aristocrática.
Nem ministerial.
Nem diplomática.
Apenas a sensação familiar de estar conversando com amigas.
Sem protocolos.
Sem expectativas.
Sem precisar representar papel algum.
— Certo.
Disse Angelina de repente.
— Agora que conseguimos falar com você sem metade do Ministério interromper...
Hermione estreitou os olhos.
Aquele tom era perigoso.
— O que foi?
Angelina trocou um olhar com Gina.
Depois com Audrey.
— Ainda precisamos agradecer Sra Malfoy.
Hermione congelou.
Por apenas um segundo.
Mas foi suficiente.
Porque Audrey percebeu.
Gina percebeu.
E Angelina também.
— Hermione.
Disse Gina lentamente.
— Por que você ficou pálida?
— Eu não fiquei pálida.
— Ficou.
— Não fiquei.
— Ficou.
Angelina observava a cena.
Claramente começando a montar alguma teoria.
E Hermione teve uma sensação extremamente desagradável.
A sensação de que aquela conversa estava prestes a sair completamente do seu controle.
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