As primeiras meia hora passaram exatamente como Narcisa previra.

Pontualmente.

Meticulosamente.

Previsivelmente.

Famílias antigas começaram a chegar em intervalos quase perfeitos.

Os convidados eram recebidos na entrada principal antes de serem conduzidos ao salão.

Cumprimentos eram trocados.

Conversas iniciadas.

Velhos conhecidos reencontravam-se.

E, pouco a pouco, o enorme espaço começava a ganhar vida.

Hermione permaneceu ao lado de Narcisa e Draco.

Recebendo cada convidado com a mesma cordialidade elegante que observara Narcisa utilizar durante semanas.

Alguns nomes eram familiares.

Outros não.

Mas a maioria parecia saber exatamente quem ela era.

O que continuava sendo uma experiência estranha.

— Sra Malfoy.

— Sra Malfoy.

— Sra Malfoy.

A repetição ainda parecia ligeiramente surreal.

Mas muito menos do que teria parecido alguns anos antes.

Draco percebeu a expressão dela após o décimo cumprimento semelhante.

— Está contando?

Murmurou discretamente.

— Talvez.

— Quantos até agora?

— Vinte e três.

— Impressionante.

— Eu gosto de dados.

— Eu sei.

A resposta arrancou um pequeno sorriso dela.

Ao redor deles, o salão começava a encher.

A música finalmente havia começado.

Taças circulavam.

Conversas misturavam-se ao som dos instrumentos.

E, inevitavelmente, os comentários também começaram.

Discretos.

Elegantes.

Quase sempre sussurrados.

Mas presentes.

Porque aquela noite não era apenas sobre um baile.

Era sobre retorno.

Mudança.

E observação.

— Ela organizou tudo com Narcisa Malfoy?

— Foi o que ouvi.

— Impressionante.

— Mais impressionante ainda é que parece que sempre pertenceu a este ambiente.

— Quem diria.

Hermione ouviu apenas fragmentos.

O suficiente para perceber.

Não o suficiente para se incomodar.

Na verdade, anos atrás aquilo provavelmente teria causado desconforto.

Agora apenas parecia inevitável.

As pessoas observavam.

As pessoas comentavam.

Sempre comentariam.

Era uma das primeiras coisas que aprendera quando os jornais haviam decidido transformar sua vida em manchetes.

A diferença era que agora ela já não sentia necessidade de justificar a própria existência.

Nem de explicar suas escolhas.

Nem de provar coisa alguma.

E isso era libertador.

Mais convidados chegaram.

Mais cumprimentos.

Mais apresentações.

Até que, em determinado momento, Hermione percebeu algo curioso.

Várias pessoas observavam discretamente a disposição das mesas.

Ela conhecia o motivo.

Porque ela mesma escolhera cada lugar.

Cada combinação.

Cada aproximação.

Cada risco calculado.

Narcisa acompanhou o olhar dela.

— Estão tentando descobrir.

— Eu percebi.

— Sempre tentam.

— E vão conseguir?

Pela primeira vez naquela noite, um brilho divertido surgiu nos olhos de Narcisa.

— Não antes do jantar.

Hermione sorriu.

Porque aquela resposta era muito Narcisa.

Muito.

E foi exatamente nesse momento que um novo anúncio ecoou próximo à entrada.

Mais um grupo de convidados havia chegado.

Normal.

Nada incomum.

Exceto pela reação imediata que percorreu parte do salão.

Pequena.

Mas perceptível.

Como uma onda atravessando a superfície da água.

Hermione ergueu os olhos.

Curiosa.

E viu alguns convidados olhando discretamente em direção às portas.

Outros interrompendo conversas.

Alguns claramente surpresos.

Narcisa também percebeu.

Draco igualmente.

E, por um breve instante, os três trocaram olhares.

Porque todos sabiam exatamente o que aquilo significava.

Os Weasley e Potter haviam acabado de chegar.

Foi Molly quem se aproximou primeiro.

Não imediatamente.

Como se precisasse de alguns segundos.

Alguns segundos para absorver tudo.

Hermione.

O vestido.

O salão.

A noite.

Talvez até os anos que haviam passado.

Os olhos castanhos percorreram-na lentamente.

E Hermione teve a estranha sensação de voltar a ter dezessete anos.

Porque, por um instante, não importava que fosse uma diretora de departamento.

Não importava a Itália.

O casamento.

O cargo.

Nada disso.

Era apenas Molly olhando para ela.

Da mesma forma que sempre olhara.

Com carinho.

Com preocupação.

Com orgulho.

E aquilo atingiu Hermione de forma completamente inesperada.

— Olá.

Disse Hermione suavemente.

Molly sorriu.

E os olhos imediatamente ficaram marejados.

— Ah, querida...

A voz saiu mais baixa do que pretendia.

Hermione sentiu algo apertar no peito.

Porque durante anos imaginou aquele reencontro de dezenas de formas diferentes.

Nenhuma delas incluía Molly simplesmente olhando para ela daquele jeito.

— Você está linda.

Hermione sorriu.

Pequeno.

Quase tímido.

— Obrigada.

Molly balançou a cabeça.

— Não estou falando do vestido.

E, Merlin.

Aquilo quase foi suficiente para destruir toda a compostura que Hermione vinha sustentando desde o início da noite.

Por sorte, Molly continuou antes que ela precisasse responder.

— Embora o vestido também seja maravilhoso.

Isso arrancou uma pequena risada.

Das duas.

O suficiente para aliviar a emoção.

Molly aproximou-se mais um passo.

Então segurou as mãos dela.

Como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Como se aqueles anos de distância não existissem.

— Estou feliz que você voltou.

Hermione piscou rapidamente.

Porque aquela frase teve mais impacto do que qualquer discurso poderia ter.

— Eu também.

Foi tudo o que conseguiu dizer.

E, pela expressão de Molly, pareceu ser suficiente.

Porque às vezes não eram necessárias explicações.

Nem justificativas.

Nem conversas difíceis.

Às vezes bastava estar ali.

Finalmente ali.

O momento durou apenas alguns segundos.

Mas foi suficiente.

Porque os Weasley raramente permaneciam emocionais por muito tempo antes que alguém dissesse alguma coisa inadequada.

— Certo.

A voz de Jorge surgiu imediatamente.

— Agora que já fizemos todos quase chorarem...

— Jorge.

— Estou apenas organizando o ambiente emocional.

— Essa não é uma função sua.

— Discordo.

Angelina apoiou a mão no braço do marido.

— Ignora.

— Eu tento.

Respondeu Hermione.

— Nunca funciona.

— É por isso que somos amigos.

Aquilo arrancou uma risada dela.

E Jorge abriu os braços.

— Viu?

— Não encoraje isso.

Disse Angelina.

— Você está me pedindo algo impossível.

Arthur aproximou-se logo em seguida.

Observando Hermione por alguns segundos.

Com aquele sorriso tranquilo que ela sempre associara a ele.

— Seu pai estaria muito impressionado com isso tudo.

A frase a pegou de surpresa.

Porque Arthur não falava frequentemente daquele jeito.

Hermione sentiu o coração apertar.

Mas sorriu.

— Espero que sim.

— Tenho certeza.

A convicção na voz dele foi imediata.

Absoluta.

E por algum motivo isso significou mais do que ela conseguiria explicar.

Percy veio depois.

Naturalmente.

Porque Percy Weasley respeitava uma ordem invisível que apenas ele parecia enxergar.

— O salão está excepcional.

Hermione suspirou.

— Obrigada.

— A distribuição das mesas é particularmente interessante.

— Percy.

— O quê?

— Não.

— Eu não perguntei nada.

— Ainda.

Audrey começou a rir imediatamente.

E Percy pareceu injustamente acusado.

— Eu só fiz uma observação.

— Exatamente o que me preocupa.

— Isso parece preconceito.

— Porque é.

Até Audrey precisou concordar.

— Ela tem um ponto.

Percy pareceu traído.

O que tornou tudo ainda mais engraçado.

Harry aproximou-se por último.

Mais discreto.

Como sempre.

Os olhos passaram rapidamente pelo salão.

Depois voltaram para Hermione.

— Você conseguiu.

Hermione arqueou uma sobrancelha.

— O baile ainda nem começou.

— Não estou falando do baile.

A resposta veio simples.

Sem explicações.

Sem necessidade delas.

Hermione sustentou seu olhar por um instante.

Então sorriu.

Pequeno.

Mas sincero.

— Obrigada.

Harry assentiu.

Como se aquilo encerrasse completamente o assunto.

Porque encerrava.

Foi apenas quando as conversas começaram a se dividir em pequenos grupos que Hermione percebeu algo.

Ou melhor.

Alguém.

Rony permanecia alguns passos atrás dos demais.

Não distante o suficiente para parecer isolado.

Mas longe o bastante para não estar realmente participando das conversas.

Os olhos percorriam o salão.

As famílias.

Os convidados.

A decoração.

Como se ainda estivesse tentando entender exatamente onde se encaixava naquela noite.

Hermione observou-o por alguns segundos.

Depois entregou a taça a um elfo que passava.

E caminhou em sua direção.

Rony percebeu sua aproximação quase imediatamente.

O que não o impediu de parecer ligeiramente desconfortável.

— Oi.

Disse Hermione.

— Oi.

Silêncio.

Breve.

Desajeitado.

Familiar.

— Você está bem?

Perguntou ela.

— Estou.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ela cruzou os braços.

— Rony.

— Certo.

Ele soltou uma respiração.

— Talvez eu ainda esteja tentando entender tudo isso.

Hermione acompanhou o olhar dele.

O salão.

Os convidados.

A noite.

— Justo.

— É estranho.

— Um pouco.

— Um pouco?

Rony voltou-se para ela.

— Hermione, você está dando um baile para metade da sociedade bruxa.

— Quando você coloca dessa forma realmente parece estranho.

— Porque é estranho.

Ela não conseguiu evitar a risada.

E aquilo pareceu relaxá-lo um pouco.

— Eu só...

Ele procurou as palavras.

Algo raro para Rony.

— Acho que ainda estou acostumando minha cabeça com tudo.

Hermione permaneceu em silêncio.

Esperando.

— Você foi embora.

Continuou ele.

— E, de repente, voltou casada com Malfoy.

Ela não interrompeu.

— Trabalhando em um Ministério estrangeiro.

— Morando em uma mansão.

— Organizando bailes.

Rony balançou a cabeça.

Ainda incrédulo.

— Às vezes parece que eu perdi uns dez capítulos da história.

A risada que escapou dela foi imediata.

Genuína.

E, pela primeira vez naquela noite, Rony sorriu também.

— Isso foi uma analogia terrível.

— Foi uma ótima analogia.

— Foi horrível.

— Continuo gostando dela.

O silêncio que veio depois já não era desconfortável.

Nem pesado.

Apenas tranquilo.

Rony observou-a por alguns segundos.

De verdade.

Como se estivesse vendo além do vestido.

Além do salão.

Além da noite.

— Você parece feliz.

A frase saiu simples.

Sem rodeios.

Sem segundas intenções.

Hermione olhou instintivamente para o outro lado do salão.

Onde Draco conversava com Arthur e Jorge.

Os cabelos loiros imediatamente destacando-se entre os demais.

Ela sorriu sem perceber.

E isso respondeu a pergunta antes mesmo que falasse.

— Eu sou.

Rony acompanhou seu olhar.

Depois voltou a encará-la.

E, para surpresa dela, sorriu.

Pequeno.

Mas sincero.

— Certo.

O silêncio durou apenas alguns segundos.

Então ele acrescentou:

— Ainda não gosto dele.

Hermione soltou uma gargalhada.

— Rony.

— O quê?

— Você acabou de ter um momento genuinamente emocional.

— Eu sei.

— E estragou tudo imediatamente.

— Também sei.

Ela balançou a cabeça.

Ainda rindo.

— Draco vai ficar devastado quando descobrir.

— Espero que sim.

— Você é impossível.

— Isso é genético.

Hermione abriu a boca para responder.

Mas Rony continuou antes.

Dessa vez mais sério.

— Não gosto dele.

Os olhos azuis encontraram os dela.

— Mas gosto de você.

A risada desapareceu lentamente.

— E você parece feliz.

Ele deu de ombros.

Como se aquilo resolvesse completamente a questão.

Talvez resolvesse.

— Então acho que consigo conviver com o resto.

Uma nova movimentação próxima à entrada desviou a atenção do pequeno grupo.

Mais convidados haviam chegado.

Ou pelo menos era isso que Hermione pensou inicialmente.

Até ouvir uma voz extremamente familiar atravessar parte do salão.

— Ah, ótimo.

Theo Nott observava o ambiente com uma expressão de profundo julgamento.

— Eu gostaria de registrar oficialmente que isso saiu completamente do controle.

Hermione soltou uma risada antes mesmo que ele se aproximasse.

— Boa noite para você também.

— Não.

Theo continuava olhando ao redor.

As mesas.

As flores.

Os lustres.

A quantidade absurda de convidados.

— Isso é ridículo.

Draco, que acabara de retornar para perto deles, arqueou uma sobrancelha.

— O quê exatamente?

— Tudo.

Theo apontou para o salão.

— Você se casou com Hermione Granger.

— Sim.

— Comprou uma mansão.

— Tecnicamente já era minha.

— Ela organizou um baile.

— Sim.

Theo balançou a cabeça.

Como alguém profundamente decepcionado.

— Você está realizando os sonhos da sua mãe sem qualquer supervisão.

Hermione quase engasgou com a própria risada.

Draco pareceu ofendido.

— Isso é uma acusação grave.

— E completamente correta.

— Eu nem queria fazer um baile.

— Claro que não.

— Não queria.

Pansy surgiu ao lado deles naquele instante.

Elegante como sempre.

Os olhos imediatamente pousaram em Hermione.

Depois no vestido.

Depois novamente em Hermione.

Silêncio.

Hermione conhecia aquele silêncio.

Era perigoso.

— Pansy?

Mais silêncio.

— Pansy.

— Estou irritada.

— Por quê?

— Porque você está absurdamente bonita.

Hermione piscou.

Pansy deu de ombros.

— É profundamente inconveniente.

E simplesmente seguiu adiante.

Como se tivesse feito uma observação meteorológica.

Hermione ficou olhando.

Theo suspirou.

— Ela está trabalhando nisso.

— Trabalhando no quê?

— Emoções.

— Theo.

— Estou sendo gentil.

— Isso foi gentil?

— Para os padrões dela, sim.

Draco parecia estranhamente inclinado a concordar.

O que fez Hermione rir novamente.

Foi então que outra voz surgiu atrás deles.

— Eu me atrasei cinco minutos.

Blaise Zabini aproximava-se.

Impecavelmente vestido.

Perfeitamente tranquilo.

— E aparentemente perdi uma discussão.

— Não era uma discussão.

Disse Draco.

— Era uma intervenção.

Corrigiu Theo.

— Ah.

Blaise assentiu.

— Faz mais sentido.

Os olhos escuros passaram por Hermione.

Depois pelo vestido.

Então voltaram para Draco.

— Certo.

— O quê?

Perguntou Draco.

— Cada vez reforça o motivo pelo qual você ficou insuportável nos últimos anos.

Theo imediatamente apontou para Blaise.

— Viu?

— Eu estou vendo.

— Eu disse exatamente a mesma coisa.

— Sim.

— E eu fui ignorado.

— Porque você é Theo.

— Isso é preconceito.

— Isso é experiência.

Hermione observava a cena em silêncio.

Sorrindo.

Porque, por mais absurdo que fosse admitir, havia algo estranhamente confortável naquilo.

Os mesmos comentários.

As mesmas provocações.

A mesma dinâmica.

Apenas em um cenário completamente diferente daquele que todos haviam imaginado anos atrás.

Foi Blaise quem percebeu primeiro.

— Você está sorrindo.

Hermione arqueou uma sobrancelha.

— Isso normalmente não é crime.

— Não.

— Então qual é o problema?

— Você está nos observando como se estivéssemos em um documentário.

Theo imediatamente concordou.

— Eu também percebi.

— Porque vocês são estranhos.

— Somos seus amigos.

— Isso não contradiz o que eu disse.

— Ofensivo.

— Verdadeiro.

Draco aproximou-se ligeiramente.

Parando ao lado dela.

Naturalmente.

Como se aquele espaço sempre tivesse sido dele.

Ou deles.

— Ignora.

Disse.

— Eu tento.

Respondeu Hermione.

— Nunca funciona.

— Eu sei.

A resposta saiu tão automática que arrancou expressões de sofrimento imediato de Theo e Blaise.

— Ah, pelo amor de Merlin.

Disse Theo.

— Eles fizeram de novo.

— Fizeram.

Concordou Blaise.

— Eu odeio quando eles fazem isso.

— O quê?

Perguntou Hermione.

— Isso.

— Isso o quê?

— Agir como um casal funcional.

Hermione começou a rir.

Draco parecia perigosamente satisfeito consigo mesmo.

E, pela primeira vez naquela noite, o baile deixou de parecer um evento formal.

Deixou de parecer um compromisso social.

Deixou até de parecer um acontecimento histórico.

Por alguns minutos.

Ali.

Com os Weasley espalhados pelo salão.

Os Sonserinos reclamando de absolutamente tudo.

E Draco ao seu lado.

Pareceu apenas uma reunião improvável de pessoas que, contra todas as probabilidades, haviam encontrado uma forma de fazer parte da vida umas das outras.