O Segredo Mais Bem Guardado
36 Capítulo 36
O dia do baile amanheceu surpreendentemente claro.
Após dias de chuva intermitente e céus cinzentos tipicamente londrinos, o sol atravessava as grandes janelas da Mansão Malfoy com uma facilidade quase indecente.
Como se até o clima tivesse decidido colaborar.
Desde as primeiras horas da manhã, a casa encontrava-se em movimento.
Elfos domésticos cruzavam corredores carregando caixas, flores e bandejas.
Arranjos surgiam em mesas que, no dia anterior, ainda estavam vazias.
Velas encantadas eram posicionadas.
Talheres polidos.
Cristais alinhados.
Cada detalhe cuidadosamente conferido.
E então conferido novamente.
Hermione descobriu, ao longo das últimas semanas, que existiam dois tipos de organização.
A dela.
E a de Narcisa Malfoy.
A primeira envolvia listas.
Cronogramas.
Anotações.
Planilhas.
A segunda envolvia um nível de perfeccionismo que beirava o sobrenatural.
— Aquelas flores estão dois centímetros deslocadas.
Comentou Narcisa.
Hermione sequer ergueu os olhos da própria prancheta.
— Você mediu?
— Não preciso medir.
Hermione soltou uma pequena risada.
— Claro que não.
— Elas continuam deslocadas.
— Vou confiar na sua palavra.
— Uma decisão sensata.
Ao redor delas, o salão principal começava finalmente a assumir sua forma definitiva.
Durante semanas aquele espaço fora uma mistura caótica de mesas, tecidos, amostras, pergaminhos e trabalhadores.
Agora parecia exatamente aquilo que deveria ser.
Um salão preparado para receber gerações inteiras da sociedade bruxa.
Os enormes lustres restaurados brilhavam acima de suas cabeças.
Centenas de velas encantadas flutuavam em diferentes alturas.
Os arranjos florais acrescentavam cor sem roubar atenção da arquitetura histórica do lugar.
As mesas distribuíam-se com elegância pelo ambiente.
Cada uma cuidadosamente planejada.
Cada lugar escolhido.
Cada detalhe pensado.
Hermione observou o resultado por alguns segundos.
Tentando encontrar algo que precisasse de correção.
Algo que tivesse sido esquecido.
Não encontrou.
O que era ao mesmo tempo satisfatório e inquietante.
Porque significava que não havia mais nada para fazer.
Apenas esperar.
Narcisa aproximou-se.
Parando ao seu lado.
As duas observaram o salão em silêncio.
— Conseguimos.
Disse Hermione.
A observação escapou antes que pudesse contê-la.
Narcisa não respondeu imediatamente.
Seus olhos percorreram o salão.
As flores.
As mesas.
Os lustres.
As semanas de trabalho transformadas em realidade.
— Sim.
Respondeu por fim.
Uma única palavra.
Mas suficiente.
Porque Hermione já aprendera que Narcisa raramente desperdiçava elogios.
E aquele talvez fosse o maior deles.
Por alguns segundos permaneceram ali.
Observando.
Absorvendo.
Até que uma pequena campainha ecoou discretamente em algum lugar da casa.
O sinal combinado.
Hermione fechou a prancheta.
— Acho que esse é o nosso aviso.
— Sim.
— Última chance para desistirmos.
Narcisa arqueou uma sobrancelha.
— Está nervosa?
Hermione pensou por um instante.
Mais do que gostaria de admitir.
Menos do que naquela primeira reunião no Ministério.
— Um pouco.
Para sua surpresa, Narcisa sorriu.
Pequeno.
Mas genuíno.
— Ótimo.
— Ótimo?
— Significa que você ainda se importa.
Hermione soltou uma risada.
— Isso é uma forma muito aristocrática de oferecer conforto.
— Estou me esforçando.
— Percebi.
Narcisa ajustou uma das luvas.
Voltando à sua habitual elegância impecável.
— Vá se arrumar.
— Isso foi uma ordem?
— Evidentemente.
— Claro.
Hermione balançou a cabeça.
Ainda sorrindo.
Então virou-se em direção ao corredor.
Enquanto adentrava o corredor, lançou um último olhar para o salão.
As mesas estavam prontas.
As flores estavam perfeitas.
Os convites haviam sido enviados.
As confirmações recebidas.
Os lugares definidos.
Tudo estava preparado.
Depois de semanas de trabalho.
Depois de meses de planejamento.
O baile finalmente havia chegado.
Draco Malfoy odiava gravatas formais.
Era uma opinião que sustentava há anos.
E que continuava absolutamente correta.
— Isso é ridículo.
Murmurou para ninguém em particular.
O espelho não respondeu.
O que demonstrava uma surpreendente falta de educação.
Draco ajustou o nó pela terceira vez.
Depois pela quarta.
Depois decidiu que estava aceitável.
Não perfeito.
Mas aceitável.
O traje de gala era impecável.
Sob medida.
Elegante.
Discreto.
Exatamente o tipo de roupa que a sociedade esperava que um Malfoy utilizasse em um evento daquela magnitude.
O problema era que ele passaria a noite inteira usando aquilo.
— Pelo menos Blaise será obrigado a sofrer também.
Comentou.
Mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa.
— Considerando que ele provavelmente tentará flertar com metade das convidadas...
A voz morreu no meio da frase.
Porque a porta do closet havia acabado de se abrir.
Hermione saiu falando.
— Você viu os cartões da mesa sete? Porque eu ainda acho que—
Ela parou.
Draco continuou olhando.
Sem responder.
Sem piscar.
Sem qualquer intenção aparente de recuperar a capacidade cognitiva.
O vestido era verde.
Não um verde vibrante.
Nem chamativo.
Um tom profundo.
Rico.
Elegante.
Como uma esmeralda sob a luz de velas.
O tecido acompanhava seus movimentos com naturalidade.
Os ombros permaneciam descobertos.
A cintura marcada.
A saia fluía suavemente até o chão.
Sofisticada.
Refinada.
Perigosa.
Hermione franziu levemente a testa.
— Draco?
Nada.
— Draco.
Ainda nada.
— Você estava dizendo alguma coisa sobre Blaise.
— Eu esqueci.
Hermione piscou.
— Esqueceu?
— Completamente.
Ela tentou não sorrir.
Tentou.
Sem sucesso.
— Ficou tão ruim assim?
Draco finalmente pareceu recuperar parte da capacidade de raciocínio.
— Acho que vamos precisar cancelar o baile.
— Draco.
— Não estou compartilhando isso com centenas de pessoas.
— Você é um homem adulto.
— Nesse momento sou apenas um homem enfrentando circunstâncias extremamente injustas.
A risada dela ecoou pelo quarto.
E, Merlin.
Aquilo não ajudou nem um pouco.
Os olhos cinzentos percorreram-na novamente.
Mais devagar dessa vez.
Como se quisessem memorizar cada detalhe.
Hermione percebeu.
Claro que percebeu.
Mas depois de anos juntos já não parecia desconfortável.
Apenas...
Familiar.
— Está me encarando.
— Sim.
— De forma descarada.
— Sim.
— Sem qualquer vergonha.
— Absolutamente nenhuma.
Hermione balançou a cabeça.
Ainda sorrindo.
— Impressionante.
— Eu também achei.
Ela aproximou-se.
Parando diante dele.
Agora perto o suficiente para ajustar discretamente uma das abotoaduras.
Um gesto simples.
Automático.
Tão natural quanto respirar.
— Você está bonito.
Comentou.
Draco arqueou uma sobrancelha.
— Bonito?
— Muito bonito.
— Só bonito?
— Draco.
— Hermione.
— Você sabe exatamente o que eu quis dizer.
— Gosto de ouvir.
Hermione revirou os olhos.
Mas seus dedos ainda permaneciam sobre o punho dele.
— Você está elegante.
— Melhor.
— Arrogante.
— Muito melhor.
Ela riu novamente.
E Draco decidiu naquele exato momento que talvez o baile valesse a pena.
Talvez.
Apenas talvez.
Uma batida suave na porta interrompeu o momento.
— Entre.
A voz de Narcisa veio do outro lado.
— Espero sinceramente que ambos já estejam prontos.
A porta abriu-se.
E Narcisa entrou.
As palavras morreram imediatamente.
Não de forma dramática.
Não como acontecera com Draco.
Mas por um breve instante ela simplesmente observou Hermione.
Os olhos azuis percorrendo o vestido.
O penteado.
As joias.
A mulher diante dela.
Algo suave atravessou sua expressão.
Rápido.
Mas presente.
Orgulho.
— Bem.
Disse por fim.
Recuperando a habitual compostura.
— Agora entendo por que meu filho parece incapaz de formar frases completas.
Hermione ficou vermelha imediatamente.
Draco não demonstrou qualquer intenção de negar a acusação.
— Eu consigo formar frases completas.
— Claro.
Respondeu Narcisa.
— Naturalmente.
Hermione soltou uma gargalhada.
O baile estava prestes a começar.
E, por mais impossível que parecesse algumas semanas antes...
Eles estavam prontos.
Pouco antes das dezenove horas, a Mansão Black encontrava-se pronta.
Pela primeira vez em semanas.
Não havia trabalhadores correndo pelos corredores.
Não havia caixas.
Não havia listas sendo corrigidas.
Nem alterações de última hora.
Tudo estava exatamente onde deveria estar.
Hermione caminhava ao lado de Narcisa pelo longo corredor da ala direita.
Draco seguia logo atrás.
Por um momento, ninguém falou.
Porque, ao final daquele corredor, as portas do salão permaneciam abertas.
E além delas estava o resultado de semanas de trabalho.
Os lustres iluminavam o ambiente com uma luz dourada e suave.
As velas flutuavam acima das mesas.
Os arranjos florais espalhavam delicadamente perfume pelo ar.
A música ainda não havia começado.
Mas os músicos já ocupavam seus lugares.
Aguardando.
Assim como todos os demais.
Esperando o primeiro convidado.
Hermione diminuiu ligeiramente o passo.
Observando o salão.
Depois de semanas mergulhada em listas, fornecedores, convidados e protocolos, era quase estranho olhar para aquilo sem procurar um problema para resolver.
Pela primeira vez não havia mais nada a fazer.
Apenas viver a noite.
Pouco antes das dezenove horas, a Mansão Black encontrava-se pronta.
Pela primeira vez em semanas.
Não havia trabalhadores correndo pelos corredores.
Não havia caixas.
Não havia listas sendo corrigidas.
Nem alterações de última hora.
Tudo estava exatamente onde deveria estar.
— Continua procurando erros?
A voz de Draco surgiu ao seu lado.
Hermione não tentou negar.
— Talvez.
— Encontrou algum?
Ela observou novamente o salão.
As mesas.
As flores.
As velas.
As toalhas perfeitamente alinhadas.
Depois balançou a cabeça.
— Não.
— Então pare de procurar.
— Não funciona assim.
— Funciona esta noite.
Hermione sorriu.
Porque sabia que ele estava certo.
Ou pelo menos tão certo quanto Draco costumava estar.
O que, infelizmente, era mais frequente do que ela gostava de admitir.
Narcisa observava tudo em silêncio.
Os olhos percorrendo o salão.
A arquitetura.
Os detalhes.
As famílias que em breve cruzariam aquelas portas.
Por um instante, parecia distante.
Quase perdida em uma lembrança.
— Faz muito tempo.
Disse finalmente.
Hermione voltou-se para ela.
— Desde o último baile?
Narcisa assentiu.
— Dezessete anos.
O número pairou no ar.
Mais pesado do que qualquer uma delas esperava.
Porque dezessete anos não representavam apenas tempo.
Representavam guerra.
Perdas.
Mudanças.
Reconstruções.
Representavam uma geração inteira.
Hermione observou o salão novamente.
Talvez por isso aquela noite parecesse tão importante.
Não era apenas um evento.
Era uma reabertura.
Uma tentativa.
Uma ponte.
O silêncio que se seguiu foi gentil.
Não desconfortável.
Apenas respeitoso.
Os olhos de Narcisa suavizaram quase imperceptivelmente.
Ela observou o enorme brasão dos Black restaurado acima da lareira principal.
Depois permitiu-se um pequeno sorriso.
Um discreto som ecoou no hall de entrada.
Uma porta abrindo.
Depois outra.
Um elfo aproximou-se.
Elegante.
Impecavelmente vestido.
— Sras Malfoy. Os primeiros convidados chegaram.
O salão pareceu prender a respiração.
Narcisa endireitou os ombros.
Instantaneamente transformando-se novamente na anfitriã impecável que a sociedade conhecia.
Draco ofereceu o braço para Hermione.
Como se fosse o gesto mais natural do mundo.
Talvez fosse.
Hermione aceitou.
Sentindo uma inesperada onda de calma.
Porque, de repente, não era mais sobre planejamento.
Não era mais sobre organização.
Não era mais sobre listas.
A noite finalmente havia começado.
E agora tudo o que restava era abrir as portas.
E receber seus convidados.
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