O Segredo Mais Bem Guardado
33 Capítulo 33
O domingo começou exatamente como a maioria dos domingos dos Weasley.
Com barulho.
Muito barulho.
Harry considerava aquilo perfeitamente normal.
Depois de tantos anos, a ausência de caos parecia muito mais preocupante do que sua presença.
Quando ele e Gina chegaram para o almoço, Jorge já ocupava uma das poltronas da sala.
Angelina conversava com Molly na cozinha.
Arthur tentava explicar alguma coisa sobre um aparelho trouxa recém-adquirido.
Percy corrigia um detalhe que ninguém havia pedido para corrigir.
E Rony discutia uma partida de xadrez que havia terminado quase vinte minutos antes.
Tudo perfeitamente normal.
— Eu continuo dizendo que essa abertura foi um erro.
— Você diz isso depois de toda derrota.
Respondeu Percy.
— Porque continua sendo um erro.
— Claro.
Harry deixou escapar uma risada.
Gina acomodou-se ao seu lado.
O cheiro do almoço espalhava-se pela casa.
Misturado às conversas.
Às risadas.
Ao som familiar da família ocupando todos os espaços disponíveis ao mesmo tempo.
Era confortável.
Conhecido.
Imutável.
Ou pelo menos parecia.
— Onde está a mamãe?
Perguntou Jorge.
— Terminando o assado.
Respondeu Angelina.
— O que significa que ainda temos dez minutos.
— O que significa que você tem dez minutos para parar de roubar batatas.
— Eu não estava roubando.
— Jorge.
— Certo. Eu estava roubando.
Ninguém pareceu particularmente surpreso.
Foi nesse momento que a primeira coruja chegou.
Ela entrou pela janela aberta da sala.
Desceu elegantemente.
E pousou diretamente diante de Arthur.
Todos observaram.
— Correspondência de domingo?
Perguntou Harry.
Arthur retirou o envelope preso à pata da ave.
— Estranho.
Antes que pudesse continuar, uma segunda coruja surgiu.
Ela pousou ao lado de Gina.
Harry segurou o envelope antes que ele escorregasse da mesa.
— Certo.
Comentou Jorge.
— Isso ficou interessante.
Uma terceira coruja entrou pela mesma janela.
Dessa vez pousando diretamente diante dele e de Angelina.
— Ah.
Disse Jorge.
— Gosto quando coisas estranhas acontecem com outras pessoas também.
Angelina pegou o envelope.
— Eu não tenho certeza se isso é estranho ou preocupante.
— Ambas as opções são válidas.
Respondeu Harry.
A quarta coruja surgiu poucos segundos depois.
Ela pousou elegantemente diante de Percy.
Audrey observou o envelope.
Depois o marido.
— Você está esperando alguma coisa?
— Não.
— Então isso é estranho.
— Concordo.
Percy respondeu imediatamente.
Porque, naturalmente, Percy Weasley concordaria com uma análise lógica.
Agora todos observavam a janela.
Esperando.
E não ficaram desapontados.
A quinta coruja apareceu.
Sobrevoou a sala.
Ignorou todos os casais.
E pousou diretamente diante de Rony.
O silêncio durou apenas um segundo.
Jorge foi o primeiro a sorrir.
— Excelente.
— Nem começa.
— Eu não disse nada.
— Você pensou.
— Pensei bastante.
— Jorge.
— Estou apenas observando que todos os casais receberam um envelope.
Rony fechou os olhos.
— Jorge.
— E você recebeu um individual.
— Jorge.
— O lado positivo é que economizaram papel.
Angelina levou uma das mãos ao rosto.
Audrey começou a rir.
Harry falhou imediatamente na tentativa de parecer sério.
E Gina nem sequer tentou.
— Eu odeio todos vocês.
Informou Rony.
— Nós sabemos.
Respondeu Jorge.
Com satisfação evidente.
Foi então que a porta da cozinha se abriu.
Molly surgiu carregando uma travessa.
Parando imediatamente ao perceber o estado da sala.
Cinco envelopes.
Cinco pares de olhos curiosos.
E uma família inteira claramente distraída.
— O que aconteceu?
— Ainda estamos tentando descobrir.
Respondeu Jorge.
Como se aquilo fosse uma resposta perfeitamente aceitável.
Arthur olhou para o envelope que havia recebido.
Depois para a esposa.
— Parece que chegou correspondência para nós.
Molly apoiou a travessa sobre a mesa.
— Para nós?
— Sim.
Arthur virou o envelope.
Observando o selo pela primeira vez com atenção.
— Não faço ideia do que seja.
Então entregou-o a ela.
E foi naquele momento que tudo mudou.
Porque Molly viu o brasão.
E imediatamente ficou imóvel.
Por um segundo.
Depois dois.
Os dedos tocaram lentamente o selo negro.
Como se estivessem reconhecendo algo muito antes da memória conseguir alcançá-lo.
Arthur percebeu primeiro.
— Molly?
Ela não respondeu.
Continuava observando o brasão.
Harry trocou um olhar com Gina.
Jorge pareceu genuinamente confuso.
Até Percy havia parado de falar.
O que talvez fosse o sinal mais alarmante de todos.
— Mãe?
Perguntou Gina suavemente.
Molly ergueu os olhos.
Ainda segurando o envelope.
— Eu conheço esse brasão.
A sala permaneceu em silêncio.
Um sorriso pequeno surgiu em seus lábios.
Distante.
Quase nostálgico.
Como alguém observando uma lembrança que não visitava havia muito tempo.
— Faz décadas.
— Faz décadas.
O silêncio permaneceu.
Molly continuava observando o brasão.
Como se estivesse olhando para muito mais do que um simples envelope.
Arthur apoiou uma das mãos na mesa.
— Eu não via um desses há muito tempo.
Ela assentiu levemente.
Só então abriu a correspondência.
Retirando o convite cuidadosamente.
Os olhos percorreram as linhas.
Uma vez.
Depois novamente.
E então um sorriso surgiu.
Pequeno.
Mas genuíno.
— O que é?
Perguntou George.
Molly ergueu o convite.
— É um convite.
— Isso nós percebemos.
— Obrigado, George.
— Sempre à disposição.
Ela ignorou o comentário.
Como fazia havia décadas.
— É para o Baile de Inverno da Fundação Black.
O silêncio foi imediato.
Harry foi o primeiro a reagir.
— Fundação Black?
— Sim.
— Nós recebemos a mesma coisa.
Disse Gina.
Já abrindo o próprio envelope.
Angelina fez o mesmo.
Depois Percy.
Depois Rony.
Em poucos segundos todos estavam lendo.
E todos chegaram à mesma conclusão.
— Nós fomos convidados?
Perguntou Rony.
Ainda parecendo desconfiado.
— Parece que sim.
Respondeu Percy.
— Todos nós?
George virou o próprio convite.
Como se houvesse alguma explicação escondida no verso.
— Todos nós.
— Isso é estranho.
— George.
— É estranho.
Harry observava o convite em silêncio.
Até que uma possibilidade surgiu.
— Hermione.
Gina apontou imediatamente para ele.
— Hermione.
— Foi a Hermione.
Confirmou George.
— Cem por cento Hermione.
— Não existe nenhuma dúvida.
Concordou Rony.
Molly continuava sorrindo para o próprio convite.
Como se estivesse ouvindo tudo de muito longe.
— Mãe?
Perguntou Gina suavemente.
— Você conhecia esse evento?
Molly ergueu os olhos.
Por um instante pareceu surpresa pela pergunta.
Depois assentiu.
— Quando eu era jovem, sim.
Agora todos prestavam atenção.
Até George.
— Você já participou?
Perguntou Harry.
— Algumas vezes.
A resposta fez a mesa inteira silenciar.
— Você participou de bailes da Fundação Black?
Perguntou Rony.
Claramente tentando encaixar aquela informação na própria visão de mundo.
— Claro.
— Mas...
Ele olhou para George.
Depois para Percy.
Depois para Harry.
Como se buscasse ajuda.
— Você nunca contou isso.
Molly sorriu.
— Porque nunca pareceu importante.
— Parece importante agora.
Comentou George.
Ela passou os dedos pela borda do convite.
Pensativa.
— Os Prewett frequentavam muitos eventos desse tipo.
— Seu avô também.
Acrescentou Arthur.
Molly assentiu.
— Naquela época era algo bastante comum.
— Então por que vocês pararam de ir?
Perguntou Gina.
A pergunta fez o sorriso dela suavizar.
Não desaparecer.
Apenas mudar.
Tornar-se mais distante.
— Porque as coisas mudaram.
Ninguém interrompeu.
— Aos poucos alguns círculos ficaram menores.
— Algumas famílias deixaram de ser convidadas.
— Outras deixaram de comparecer.
— Algumas portas simplesmente foram se fechando.
A voz dela permanecia tranquila.
Sem amargura.
Sem ressentimento.
Como alguém falando sobre algo que já aceitara havia muito tempo.
— Os Prewett foram uma delas?
Perguntou Harry.
— Sim.
Molly observou novamente o brasão.
— Não aconteceu de uma vez.
— Mas aconteceu.
O silêncio voltou.
Porque todos entenderam o que ela não estava dizendo.
As guerras.
As divisões.
A obsessão por linhagens.
A crescente influência de determinadas ideias.
Tudo aquilo que moldara a sociedade bruxa durante décadas.
— E você nunca voltou.
Disse Gina.
Molly balançou a cabeça.
— Não.
Arthur observava a esposa em silêncio.
Com a expressão de alguém que já conhecia aquela história.
Porque provavelmente conhecia.
— Até agora.
Completou ele.
Molly voltou os olhos para o convite.
E sorriu novamente.
Dessa vez mais forte.
Mais presente.
— Até agora.
George apoiou os cotovelos na mesa.
Após a fala da Molly sobre os Prewett terem deixado de frequentar aqueles eventos.
O silêncio permanece por alguns segundos.
Até George quebrá-lo.
— Então nós fomos promovidos.
— George.
— Estou tentando entender.
— Não, está tentando ser irritante.
— Também.
Rony observou o convite.
Ainda parecia desconfiado.
— Isso foi a Hermione.
— Foi.
Concordou Gina imediatamente.
— Cem por cento.
— Mas por quê?
Perguntou Percy.
A pergunta fez todos olharem para ele.
— O que foi?
— Você acabou de perguntar por que a Hermione fez alguma coisa.
Disse George.
— Isso nunca termina em uma resposta simples.
— Eu estou falando sério.
Percy apoiou o convite sobre a mesa.
— Ela sabia exatamente o que estava fazendo.
— Sim.
Disse Harry.
Porque essa era a parte mais óbvia.
Hermione nunca fazia nada por acaso.
Nunca.
— Ela viu alguma coisa.
Continuou Percy.
— Algum padrão. Alguma injustiça. Alguma regra que não fazia sentido. E resolveu corrigir.
George apontou para o irmão.
— Isso.
— Isso é extremamente Hermione.
— Irritantemente Hermione.
Concordou Rony.
Molly observou o próprio convite.
Pensativa.
— Talvez ela nem tenha pensado dessa forma.
Todos olharam para ela.
— Como assim?
Perguntou Gina.
Molly sorriu.
— Porque para Hermione, vocês pertencem a qualquer lugar onde ela pertença.
O silêncio foi imediato.
— Mãe...
— Estou falando sério.
Ela passou os dedos pelo papel.
— Acho que vocês estão procurando uma grande explicação. Uma estratégia. Uma mensagem. Um posicionamento.
Ela balançou a cabeça.
— Mas às vezes a resposta é mais simples.
— Ela olhou a lista.
— Não encontrou pessoas importantes para ela.
— E resolveu acrescentá-las.
Harry permaneceu em silêncio.
Porque aquilo parecia exatamente correto.
Exatamente o tipo de coisa que Hermione faria.
Sem discurso.
Sem anúncio.
Sem tentar provar um ponto.
Apenas mudando alguma coisa porque, na visão dela, fazia sentido.
— Isso continua sendo assustadoramente poderoso.
Comentou George.
— Ela muda coisas como quem reorganiza uma estante.
— Essa é provavelmente a descrição mais precisa da Hermione que você já fez.
Disse Gina.
E, pela primeira vez desde que os convites haviam chegado, a mesa inteira começou a rir.
Gina releu a data.
Depois releu novamente.
Então arregalou os olhos.
— Espera.
Harry imediatamente reconheceu aquele tom.
— O baile é daqui a uma semana e meia.
O silêncio caiu sobre a mesa.
Angelina foi a primeira a reagir.
— Uma semana e meia?
— Exatamente.
— Isso não é muito tempo.
— Obrigada.
Disse Gina.
Apontando para ela.
— Finalmente alguém entende a gravidade da situação.
Audrey pegou o próprio convite.
— E eles querem confirmação em três dias.
— Três dias?
Perguntou George.
— Para confirmar presença?
— Sim.
Respondeu Percy.
Já relendo a carta pela segunda vez.
— Isso é perfeitamente razoável para um evento desse porte.
— Percy.
— O quê?
— Ninguém pediu uma análise técnica.
— Eu ofereci mesmo assim.
— Naturalmente.
Gina já parecia ter abandonado completamente qualquer preocupação política relacionada ao evento.
— Nós temos três dias para confirmar.
— E uma semana e meia para resolver vestidos.
Molly sorriu.
— Acho que vamos sobreviver.
— Fácil para você dizer.
— Você já sabe exatamente o que vai usar.
— Verdade.
Admitiu Molly.
Angelina observou Gina.
— Você já começou a planejar?
— Angelina.
— Certo.
Pergunta estúpida.
— Eu comecei a planejar no momento em que li a data.
Harry deixou a cabeça cair para trás.
— Claro que começou.
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