O domingo começou exatamente como a maioria dos domingos dos Weasley.

Com barulho.

Muito barulho.

Harry considerava aquilo perfeitamente normal.

Depois de tantos anos, a ausência de caos parecia muito mais preocupante do que sua presença.

Quando ele e Gina chegaram para o almoço, Jorge já ocupava uma das poltronas da sala.

Angelina conversava com Molly na cozinha.

Arthur tentava explicar alguma coisa sobre um aparelho trouxa recém-adquirido.

Percy corrigia um detalhe que ninguém havia pedido para corrigir.

E Rony discutia uma partida de xadrez que havia terminado quase vinte minutos antes.

Tudo perfeitamente normal.

— Eu continuo dizendo que essa abertura foi um erro.

— Você diz isso depois de toda derrota.

Respondeu Percy.

— Porque continua sendo um erro.

— Claro.

Harry deixou escapar uma risada.

Gina acomodou-se ao seu lado.

O cheiro do almoço espalhava-se pela casa.

Misturado às conversas.

Às risadas.

Ao som familiar da família ocupando todos os espaços disponíveis ao mesmo tempo.

Era confortável.

Conhecido.

Imutável.

Ou pelo menos parecia.

— Onde está a mamãe?

Perguntou Jorge.

— Terminando o assado.

Respondeu Angelina.

— O que significa que ainda temos dez minutos.

— O que significa que você tem dez minutos para parar de roubar batatas.

— Eu não estava roubando.

— Jorge.

— Certo. Eu estava roubando.

Ninguém pareceu particularmente surpreso.

Foi nesse momento que a primeira coruja chegou.

Ela entrou pela janela aberta da sala.

Desceu elegantemente.

E pousou diretamente diante de Arthur.

Todos observaram.

— Correspondência de domingo?

Perguntou Harry.

Arthur retirou o envelope preso à pata da ave.

— Estranho.

Antes que pudesse continuar, uma segunda coruja surgiu.

Ela pousou ao lado de Gina.

Harry segurou o envelope antes que ele escorregasse da mesa.

— Certo.

Comentou Jorge.

— Isso ficou interessante.

Uma terceira coruja entrou pela mesma janela.

Dessa vez pousando diretamente diante dele e de Angelina.

— Ah.

Disse Jorge.

— Gosto quando coisas estranhas acontecem com outras pessoas também.

Angelina pegou o envelope.

— Eu não tenho certeza se isso é estranho ou preocupante.

— Ambas as opções são válidas.

Respondeu Harry.

A quarta coruja surgiu poucos segundos depois.

Ela pousou elegantemente diante de Percy.

Audrey observou o envelope.

Depois o marido.

— Você está esperando alguma coisa?

— Não.

— Então isso é estranho.

— Concordo.

Percy respondeu imediatamente.

Porque, naturalmente, Percy Weasley concordaria com uma análise lógica.

Agora todos observavam a janela.

Esperando.

E não ficaram desapontados.

A quinta coruja apareceu.

Sobrevoou a sala.

Ignorou todos os casais.

E pousou diretamente diante de Rony.

O silêncio durou apenas um segundo.

Jorge foi o primeiro a sorrir.

— Excelente.

— Nem começa.

— Eu não disse nada.

— Você pensou.

— Pensei bastante.

— Jorge.

— Estou apenas observando que todos os casais receberam um envelope.

Rony fechou os olhos.

— Jorge.

— E você recebeu um individual.

— Jorge.

— O lado positivo é que economizaram papel.

Angelina levou uma das mãos ao rosto.

Audrey começou a rir.

Harry falhou imediatamente na tentativa de parecer sério.

E Gina nem sequer tentou.

— Eu odeio todos vocês.

Informou Rony.

— Nós sabemos.

Respondeu Jorge.

Com satisfação evidente.

Foi então que a porta da cozinha se abriu.

Molly surgiu carregando uma travessa.

Parando imediatamente ao perceber o estado da sala.

Cinco envelopes.

Cinco pares de olhos curiosos.

E uma família inteira claramente distraída.

— O que aconteceu?

— Ainda estamos tentando descobrir.

Respondeu Jorge.

Como se aquilo fosse uma resposta perfeitamente aceitável.

Arthur olhou para o envelope que havia recebido.

Depois para a esposa.

— Parece que chegou correspondência para nós.

Molly apoiou a travessa sobre a mesa.

— Para nós?

— Sim.

Arthur virou o envelope.

Observando o selo pela primeira vez com atenção.

— Não faço ideia do que seja.

Então entregou-o a ela.

E foi naquele momento que tudo mudou.

Porque Molly viu o brasão.

E imediatamente ficou imóvel.

Por um segundo.

Depois dois.

Os dedos tocaram lentamente o selo negro.

Como se estivessem reconhecendo algo muito antes da memória conseguir alcançá-lo.

Arthur percebeu primeiro.

— Molly?

Ela não respondeu.

Continuava observando o brasão.

Harry trocou um olhar com Gina.

Jorge pareceu genuinamente confuso.

Até Percy havia parado de falar.

O que talvez fosse o sinal mais alarmante de todos.

— Mãe?

Perguntou Gina suavemente.

Molly ergueu os olhos.

Ainda segurando o envelope.

— Eu conheço esse brasão.

A sala permaneceu em silêncio.

Um sorriso pequeno surgiu em seus lábios.

Distante.

Quase nostálgico.

Como alguém observando uma lembrança que não visitava havia muito tempo.

— Faz décadas.

— Faz décadas.

O silêncio permaneceu.

Molly continuava observando o brasão.

Como se estivesse olhando para muito mais do que um simples envelope.

Arthur apoiou uma das mãos na mesa.

— Eu não via um desses há muito tempo.

Ela assentiu levemente.

Só então abriu a correspondência.

Retirando o convite cuidadosamente.

Os olhos percorreram as linhas.

Uma vez.

Depois novamente.

E então um sorriso surgiu.

Pequeno.

Mas genuíno.

— O que é?

Perguntou George.

Molly ergueu o convite.

— É um convite.

— Isso nós percebemos.

— Obrigado, George.

— Sempre à disposição.

Ela ignorou o comentário.

Como fazia havia décadas.

— É para o Baile de Inverno da Fundação Black.

O silêncio foi imediato.

Harry foi o primeiro a reagir.

— Fundação Black?

— Sim.

— Nós recebemos a mesma coisa.

Disse Gina.

Já abrindo o próprio envelope.

Angelina fez o mesmo.

Depois Percy.

Depois Rony.

Em poucos segundos todos estavam lendo.

E todos chegaram à mesma conclusão.

— Nós fomos convidados?

Perguntou Rony.

Ainda parecendo desconfiado.

— Parece que sim.

Respondeu Percy.

— Todos nós?

George virou o próprio convite.

Como se houvesse alguma explicação escondida no verso.

— Todos nós.

— Isso é estranho.

— George.

— É estranho.

Harry observava o convite em silêncio.

Até que uma possibilidade surgiu.

— Hermione.

Gina apontou imediatamente para ele.

— Hermione.

— Foi a Hermione.

Confirmou George.

— Cem por cento Hermione.

— Não existe nenhuma dúvida.

Concordou Rony.

Molly continuava sorrindo para o próprio convite.

Como se estivesse ouvindo tudo de muito longe.

— Mãe?

Perguntou Gina suavemente.

— Você conhecia esse evento?

Molly ergueu os olhos.

Por um instante pareceu surpresa pela pergunta.

Depois assentiu.

— Quando eu era jovem, sim.

Agora todos prestavam atenção.

Até George.

— Você já participou?

Perguntou Harry.

— Algumas vezes.

A resposta fez a mesa inteira silenciar.

— Você participou de bailes da Fundação Black?

Perguntou Rony.

Claramente tentando encaixar aquela informação na própria visão de mundo.

— Claro.

— Mas...

Ele olhou para George.

Depois para Percy.

Depois para Harry.

Como se buscasse ajuda.

— Você nunca contou isso.

Molly sorriu.

— Porque nunca pareceu importante.

— Parece importante agora.

Comentou George.

Ela passou os dedos pela borda do convite.

Pensativa.

— Os Prewett frequentavam muitos eventos desse tipo.

— Seu avô também.

Acrescentou Arthur.

Molly assentiu.

— Naquela época era algo bastante comum.

— Então por que vocês pararam de ir?

Perguntou Gina.

A pergunta fez o sorriso dela suavizar.

Não desaparecer.

Apenas mudar.

Tornar-se mais distante.

— Porque as coisas mudaram.

Ninguém interrompeu.

— Aos poucos alguns círculos ficaram menores.

— Algumas famílias deixaram de ser convidadas.

— Outras deixaram de comparecer.

— Algumas portas simplesmente foram se fechando.

A voz dela permanecia tranquila.

Sem amargura.

Sem ressentimento.

Como alguém falando sobre algo que já aceitara havia muito tempo.

— Os Prewett foram uma delas?

Perguntou Harry.

— Sim.

Molly observou novamente o brasão.

— Não aconteceu de uma vez.

— Mas aconteceu.

O silêncio voltou.

Porque todos entenderam o que ela não estava dizendo.

As guerras.

As divisões.

A obsessão por linhagens.

A crescente influência de determinadas ideias.

Tudo aquilo que moldara a sociedade bruxa durante décadas.

— E você nunca voltou.

Disse Gina.

Molly balançou a cabeça.

— Não.

Arthur observava a esposa em silêncio.

Com a expressão de alguém que já conhecia aquela história.

Porque provavelmente conhecia.

— Até agora.

Completou ele.

Molly voltou os olhos para o convite.

E sorriu novamente.

Dessa vez mais forte.

Mais presente.

— Até agora.

George apoiou os cotovelos na mesa.

Após a fala da Molly sobre os Prewett terem deixado de frequentar aqueles eventos.

O silêncio permanece por alguns segundos.

Até George quebrá-lo.

— Então nós fomos promovidos.

— George.

— Estou tentando entender.

— Não, está tentando ser irritante.

— Também.

Rony observou o convite.

Ainda parecia desconfiado.

— Isso foi a Hermione.

— Foi.

Concordou Gina imediatamente.

— Cem por cento.

— Mas por quê?

Perguntou Percy.

A pergunta fez todos olharem para ele.

— O que foi?

— Você acabou de perguntar por que a Hermione fez alguma coisa.

Disse George.

— Isso nunca termina em uma resposta simples.

— Eu estou falando sério.

Percy apoiou o convite sobre a mesa.

— Ela sabia exatamente o que estava fazendo.

— Sim.

Disse Harry.

Porque essa era a parte mais óbvia.

Hermione nunca fazia nada por acaso.

Nunca.

— Ela viu alguma coisa.

Continuou Percy.

— Algum padrão. Alguma injustiça. Alguma regra que não fazia sentido. E resolveu corrigir.

George apontou para o irmão.

— Isso.

— Isso é extremamente Hermione.

— Irritantemente Hermione.

Concordou Rony.

Molly observou o próprio convite.

Pensativa.

— Talvez ela nem tenha pensado dessa forma.

Todos olharam para ela.

— Como assim?

Perguntou Gina.

Molly sorriu.

— Porque para Hermione, vocês pertencem a qualquer lugar onde ela pertença.

O silêncio foi imediato.

— Mãe...

— Estou falando sério.

Ela passou os dedos pelo papel.

— Acho que vocês estão procurando uma grande explicação. Uma estratégia. Uma mensagem. Um posicionamento.

Ela balançou a cabeça.

— Mas às vezes a resposta é mais simples.

— Ela olhou a lista.

— Não encontrou pessoas importantes para ela.

— E resolveu acrescentá-las.

Harry permaneceu em silêncio.

Porque aquilo parecia exatamente correto.

Exatamente o tipo de coisa que Hermione faria.

Sem discurso.

Sem anúncio.

Sem tentar provar um ponto.

Apenas mudando alguma coisa porque, na visão dela, fazia sentido.

— Isso continua sendo assustadoramente poderoso.

Comentou George.

— Ela muda coisas como quem reorganiza uma estante.

— Essa é provavelmente a descrição mais precisa da Hermione que você já fez.

Disse Gina.

E, pela primeira vez desde que os convites haviam chegado, a mesa inteira começou a rir.

Gina releu a data.

Depois releu novamente.

Então arregalou os olhos.

— Espera.

Harry imediatamente reconheceu aquele tom.

— O baile é daqui a uma semana e meia.

O silêncio caiu sobre a mesa.

Angelina foi a primeira a reagir.

— Uma semana e meia?

— Exatamente.

— Isso não é muito tempo.

— Obrigada.

Disse Gina.

Apontando para ela.

— Finalmente alguém entende a gravidade da situação.

Audrey pegou o próprio convite.

— E eles querem confirmação em três dias.

— Três dias?

Perguntou George.

— Para confirmar presença?

— Sim.

Respondeu Percy.

Já relendo a carta pela segunda vez.

— Isso é perfeitamente razoável para um evento desse porte.

— Percy.

— O quê?

— Ninguém pediu uma análise técnica.

— Eu ofereci mesmo assim.

— Naturalmente.

Gina já parecia ter abandonado completamente qualquer preocupação política relacionada ao evento.

— Nós temos três dias para confirmar.

— E uma semana e meia para resolver vestidos.

Molly sorriu.

— Acho que vamos sobreviver.

— Fácil para você dizer.

— Você já sabe exatamente o que vai usar.

— Verdade.

Admitiu Molly.

Angelina observou Gina.

— Você já começou a planejar?

— Angelina.

— Certo.

Pergunta estúpida.

— Eu comecei a planejar no momento em que li a data.

Harry deixou a cabeça cair para trás.

— Claro que começou.