Dois dias depois, Hermione descobriu que Narcisa possuía uma forma extremamente particular de organizar informações.

Aparentemente, décadas de eventos beneficentes, recepções diplomáticas e jantares formais haviam resultado em um sistema próprio.

Um sistema assustadoramente eficiente.

E igualmente assustadoramente detalhado.

— Isso é uma árvore genealógica?

Narcisa ergueu os olhos.

— Sim.

Hermione observou novamente o pergaminho.

— Ela tem vinte e três páginas.

— Vinte e seis.

— Naturalmente.

Draco, que ocupava uma poltrona próxima com um livro nas mãos, soltou uma pequena risada.

— Eu avisei.

— Não, não avisou.

— Considerei avisar.

— Isso não conta.

Narcisa ignorou ambos.

Como sempre.

— A família Rosier.

Hermione voltou a atenção para o documento.

— Certo.

— Três gerações relevantes para o evento.

— Certo.

— Duas que precisam ser sentadas em extremidades opostas do salão.

Hermione ergueu uma sobrancelha.

— Rivalidade familiar?

— Divórcio.

— Ah.

— Complicado.

— Entendido.

Narcisa assentiu.

Hermione fez uma anotação.

Draco observou a cena por cima do livro.

Com evidente diversão.

Porque, para seu eterno desespero, as duas estavam se entendendo bem demais.

Muito bem.

Assustadoramente bem.

O processo continuou por quase uma hora.

Famílias.

Nomes.

Conexões.

Histórias.

Algumas úteis.

Outras surpreendentemente parecidas com fofoca.

Hermione ainda não tinha decidido em qual categoria certas informações se encaixavam.

— E os convidados principais?

Perguntou, folheando a lista.

— Já estão identificados.

— Certo.

Ela continuou lendo.

Mais alguns nomes.

Mais algumas famílias.

Mais algumas observações.

Então parou.

Voltou uma página.

Depois outra.

Franziu levemente a testa.

— Narcisa.

— Sim?

— Posso fazer uma pergunta?

— Naturalmente.

Hermione apoiou a lista sobre a mesa.

— Como os convidados são selecionados?

Narcisa pareceu surpresa.

— Em que sentido?

— Existe algum critério específico?

— Relevância institucional. Participação na fundação. Contribuições. Relações históricas.

Hermione assentiu.

Tudo parecia razoável.

Ainda assim...

Algo continuava incomodando-a.

Ela voltou a percorrer os nomes.

Uma vez.

Duas.

Três.

Até finalmente encontrar o padrão.

Ou melhor.

A ausência dele.

— Entendi.

Draco reconheceu imediatamente aquele tom.

Baixou o livro.

— Ah não.

Hermione ignorou.

Continuou lendo.

— O que foi? — perguntou Narcisa.

— Estou procurando alguém.

— Quem?

— Várias pessoas.

Narcisa inclinou ligeiramente a cabeça.

Agora curiosa.

Hermione passou o dedo por uma das páginas.

Depois outra.

E outra.

Até finalmente erguer os olhos.

— Os Weasley não estão aqui.

O silêncio foi imediato.

Draco observou a mãe.

Narcisa observou Hermione.

— Não.

A resposta veio tranquila.

Como se aquilo fosse perfeitamente normal.

— Nunca foram convidados?

— Não.

Hermione piscou.

— Nunca?

— Não para este evento.

Ela absorveu a informação por alguns segundos.

Depois voltou para a lista.

— Certo.

Mais algumas páginas.

— Os Longbottom também não.

— Não.

— Os Lovegood.

— Não.

— Os Abbott.

— Não.

Agora Narcisa já sabia exatamente onde aquela conversa estava indo.

E parecia estranhamente satisfeita.

— Existe um motivo específico?

Perguntou Hermione.

Narcisa apoiou as mãos sobre a mesa.

— Histórico.

— Histórico?

— A Fundação Black sempre circulou dentro dos mesmos círculos sociais.

A resposta foi cuidadosa.

Honesta.

Sem tentar suavizar.

Nem justificar.

— Entendo.

Hermione ficou em silêncio por alguns segundos.

Observando novamente os nomes.

As famílias.

Os sobrenomes.

As gerações.

Então fechou a pasta.

Devagar.

Draco suspirou.

— Lá vem.

— O quê? — perguntou Hermione.

— Você fez aquela expressão.

— Que expressão?

— A expressão de quando encontrou um problema.

— Talvez eu tenha encontrado.

— Excelente.

Narcisa parecia cada vez mais satisfeita.

O que era profundamente preocupante.

Hermione apoiou os antebraços sobre a mesa.

— Quantos convidados novos costumam ser incluídos a cada edição?

Narcisa sorriu.

Pequeno.

Elegante.

Quase imperceptível.

Mas Draco viu.

E imediatamente soube o que aquilo significava.

— Alguns.

— Ótimo.

Hermione assentiu.

Como se estivesse chegando a uma conclusão perfeitamente lógica.

— Então vamos acrescentar mais alguns.

O sorriso de Narcisa aumentou.

Apenas um pouco.

Mas aumentou.

— Quem você tem em mente?

Hermione nem precisou pensar.

— Os Weasley.

— Naturalmente.

— Os Longbottom.

— Sim.

— Os Lovegood.

— Sim.

— E algumas outras famílias que claramente deveriam estar aqui.

O silêncio que se seguiu foi breve.

Mas significativo.

Porque aquela não era apenas uma alteração na lista de convidados.

Era uma alteração em uma tradição.

E todos os três sabiam disso.

Draco foi o primeiro a falar.

— Vai causar comentários.

— Sempre causa.

Respondeu Hermione.

Sem hesitação.

Narcisa observou-a por alguns segundos.

Então fechou a própria pasta.

— Muito bem.

Hermione piscou.

— Muito bem?

— Sim.

— Você concorda?

— Claro.

A resposta veio tão rapidamente que foi Hermione quem ficou surpresa.

Narcisa apoiou-se na cadeira.

Elegante.

Serena.

Completamente tranquila.

— Eu estava me perguntando quanto tempo levaria.

Hermione encarou-a.

— Você sabia?

— Querida.

Um brilho divertido surgiu nos olhos azuis.

— Eu não teria pedido sua ajuda se esperasse que deixasse tudo exatamente como encontrou.

Do outro lado da sala, Draco fechou o livro.

— Isso explica muita coisa.

— Eu imaginei que explicaria.

E, pela primeira vez desde que começaram a revisar a lista de convidados, Hermione teve a distinta sensação de que aquela conversa era exatamente o que Narcisa esperava que acontecesse desde o início.

O silêncio que se seguiu durou apenas alguns segundos.

Mas foi suficiente para que Hermione percebesse que havia algo que ainda não estava entendendo.

Ela observou Narcisa.

Depois a pasta.

Depois Narcisa novamente.

— Você realmente não se importa?

A pergunta fez Draco erguer os olhos.

Narcisa pareceu genuinamente surpresa.

— Com os convidados?

— Com a mudança.

— Com a tradição.

Um pequeno sorriso surgiu nos lábios da matriarca.

— Hermione.

A forma como pronunciou seu nome já parecia indicar que a resposta seria óbvia.

— A tradição não é a lista de convidados.

Hermione inclinou levemente a cabeça.

— Não?

— Não.

Narcisa apoiou uma das mãos sobre a pasta.

— A tradição é a Fundação continuar existindo.

O escritório ficou silencioso.

— Durante décadas ela arrecadou recursos para hospitais, escolas e programas de auxílio.

— Continuará fazendo isso este ano.

— E continuará fazendo no próximo.

Hermione observou-a atentamente.

— Os convidados mudam.

— O propósito não.

Aquilo pareceu muito mais razoável do que ela esperava.

Narcisa prosseguiu.

— Além disso, a sociedade britânica de hoje não é a mesma de trinta anos atrás.

— Nem deveria ser.

Draco soltou um pequeno ruído de aprovação.

Narcisa ignorou.

Como sempre.

— Algumas famílias deixaram de participar.

— Outras perderam relevância.

— Outras simplesmente seguiram caminhos diferentes.

Ela deu um leve de ombros.

— E algumas deveriam ter sido convidadas há muito tempo.

Hermione permaneceu em silêncio.

Porque aquela resposta era mais honesta do que imaginava receber.

— Então por que não foram?

Perguntou.

Narcisa demorou alguns segundos antes de responder.

— Porque as pessoas raramente questionam sistemas que sempre funcionaram de determinada forma.

Hermione quase sorriu.

Aquilo era uma resposta extremamente Narcisa.

Elegante.

Educada.

E perigosamente verdadeira.

— Até alguém questioná-los.

— Exatamente.

Os olhos azuis encontraram os dela.

Por um breve instante.

— E você costuma fazer isso com frequência.

Draco apoiou o livro no colo.

— Essa talvez seja a descrição mais gentil que já ouvi sobre a Hermione.

— Estou sendo educada.

— Naturalmente.

Hermione balançou a cabeça.

Mas não conseguiu conter o pequeno sorriso.

Narcisa abriu novamente a pasta.

Folheou algumas páginas.

Então retirou uma lista menor.

Muito menor.

Muito mais recente.

— Há outra questão.

Hermione imediatamente reconheceu aquele tom.

— Existe sempre outra questão.

— Sim.

— Eu estava começando a perceber.

Narcisa entregou-lhe o documento.

— O que é isso?

— Pessoas que certamente comentarão as mudanças.

Draco fechou os olhos.

— Ah, excelente.

— Não seja dramático.

— Estou sendo realista.

Hermione observou os nomes.

Alguns ela conhecia.

Outros não.

— E o que exatamente devo fazer com essa lista?

— Nada.

Hermione ergueu uma sobrancelha.

— Nada?

— Nada.

A resposta veio tão rapidamente que ela quase riu.

— Então por que me entregar?

— Porque gosto de estar preparada.

Aquilo arrancou uma risada de Draco.

— Certo. Agora vocês estão definitivamente identicas.

Narcisa ignorou o comentário.

Mais uma vez.

— Algumas dessas pessoas desaprovarão os convites.

— Algumas desaprovarão você.

— Algumas desaprovam praticamente tudo.

Hermione devolveu a lista.

— Então não parece um problema particularmente novo.

Um brilho satisfeito surgiu nos olhos de Narcisa.

Pequeno.

Mas impossível de perder.

— Exatamente a resposta que eu esperava.

Draco observou as duas em silêncio.

Depois olhou para o teto.

— Eu realmente deveria estar preocupado.

— Por quê? — perguntou Hermione.

— Porque vocês acabaram de concordar pela terceira vez em menos de uma hora.

— E?

— E eu passei a vida inteira acreditando que uma Narcisa Malfoy já era suficiente.

O sorriso que surgiu nos lábios das duas foi praticamente idêntico.

E aquilo, mais do que qualquer outra coisa, confirmou seus piores receios.