O Segredo Mais Bem Guardado
31 Capítulo 31
Dois dias depois, Hermione descobriu que Narcisa possuía uma forma extremamente particular de organizar informações.
Aparentemente, décadas de eventos beneficentes, recepções diplomáticas e jantares formais haviam resultado em um sistema próprio.
Um sistema assustadoramente eficiente.
E igualmente assustadoramente detalhado.
— Isso é uma árvore genealógica?
Narcisa ergueu os olhos.
— Sim.
Hermione observou novamente o pergaminho.
— Ela tem vinte e três páginas.
— Vinte e seis.
— Naturalmente.
Draco, que ocupava uma poltrona próxima com um livro nas mãos, soltou uma pequena risada.
— Eu avisei.
— Não, não avisou.
— Considerei avisar.
— Isso não conta.
Narcisa ignorou ambos.
Como sempre.
— A família Rosier.
Hermione voltou a atenção para o documento.
— Certo.
— Três gerações relevantes para o evento.
— Certo.
— Duas que precisam ser sentadas em extremidades opostas do salão.
Hermione ergueu uma sobrancelha.
— Rivalidade familiar?
— Divórcio.
— Ah.
— Complicado.
— Entendido.
Narcisa assentiu.
Hermione fez uma anotação.
Draco observou a cena por cima do livro.
Com evidente diversão.
Porque, para seu eterno desespero, as duas estavam se entendendo bem demais.
Muito bem.
Assustadoramente bem.
O processo continuou por quase uma hora.
Famílias.
Nomes.
Conexões.
Histórias.
Algumas úteis.
Outras surpreendentemente parecidas com fofoca.
Hermione ainda não tinha decidido em qual categoria certas informações se encaixavam.
— E os convidados principais?
Perguntou, folheando a lista.
— Já estão identificados.
— Certo.
Ela continuou lendo.
Mais alguns nomes.
Mais algumas famílias.
Mais algumas observações.
Então parou.
Voltou uma página.
Depois outra.
Franziu levemente a testa.
— Narcisa.
— Sim?
— Posso fazer uma pergunta?
— Naturalmente.
Hermione apoiou a lista sobre a mesa.
— Como os convidados são selecionados?
Narcisa pareceu surpresa.
— Em que sentido?
— Existe algum critério específico?
— Relevância institucional. Participação na fundação. Contribuições. Relações históricas.
Hermione assentiu.
Tudo parecia razoável.
Ainda assim...
Algo continuava incomodando-a.
Ela voltou a percorrer os nomes.
Uma vez.
Duas.
Três.
Até finalmente encontrar o padrão.
Ou melhor.
A ausência dele.
— Entendi.
Draco reconheceu imediatamente aquele tom.
Baixou o livro.
— Ah não.
Hermione ignorou.
Continuou lendo.
— O que foi? — perguntou Narcisa.
— Estou procurando alguém.
— Quem?
— Várias pessoas.
Narcisa inclinou ligeiramente a cabeça.
Agora curiosa.
Hermione passou o dedo por uma das páginas.
Depois outra.
E outra.
Até finalmente erguer os olhos.
— Os Weasley não estão aqui.
O silêncio foi imediato.
Draco observou a mãe.
Narcisa observou Hermione.
— Não.
A resposta veio tranquila.
Como se aquilo fosse perfeitamente normal.
— Nunca foram convidados?
— Não.
Hermione piscou.
— Nunca?
— Não para este evento.
Ela absorveu a informação por alguns segundos.
Depois voltou para a lista.
— Certo.
Mais algumas páginas.
— Os Longbottom também não.
— Não.
— Os Lovegood.
— Não.
— Os Abbott.
— Não.
Agora Narcisa já sabia exatamente onde aquela conversa estava indo.
E parecia estranhamente satisfeita.
— Existe um motivo específico?
Perguntou Hermione.
Narcisa apoiou as mãos sobre a mesa.
— Histórico.
— Histórico?
— A Fundação Black sempre circulou dentro dos mesmos círculos sociais.
A resposta foi cuidadosa.
Honesta.
Sem tentar suavizar.
Nem justificar.
— Entendo.
Hermione ficou em silêncio por alguns segundos.
Observando novamente os nomes.
As famílias.
Os sobrenomes.
As gerações.
Então fechou a pasta.
Devagar.
Draco suspirou.
— Lá vem.
— O quê? — perguntou Hermione.
— Você fez aquela expressão.
— Que expressão?
— A expressão de quando encontrou um problema.
— Talvez eu tenha encontrado.
— Excelente.
Narcisa parecia cada vez mais satisfeita.
O que era profundamente preocupante.
Hermione apoiou os antebraços sobre a mesa.
— Quantos convidados novos costumam ser incluídos a cada edição?
Narcisa sorriu.
Pequeno.
Elegante.
Quase imperceptível.
Mas Draco viu.
E imediatamente soube o que aquilo significava.
— Alguns.
— Ótimo.
Hermione assentiu.
Como se estivesse chegando a uma conclusão perfeitamente lógica.
— Então vamos acrescentar mais alguns.
O sorriso de Narcisa aumentou.
Apenas um pouco.
Mas aumentou.
— Quem você tem em mente?
Hermione nem precisou pensar.
— Os Weasley.
— Naturalmente.
— Os Longbottom.
— Sim.
— Os Lovegood.
— Sim.
— E algumas outras famílias que claramente deveriam estar aqui.
O silêncio que se seguiu foi breve.
Mas significativo.
Porque aquela não era apenas uma alteração na lista de convidados.
Era uma alteração em uma tradição.
E todos os três sabiam disso.
Draco foi o primeiro a falar.
— Vai causar comentários.
— Sempre causa.
Respondeu Hermione.
Sem hesitação.
Narcisa observou-a por alguns segundos.
Então fechou a própria pasta.
— Muito bem.
Hermione piscou.
— Muito bem?
— Sim.
— Você concorda?
— Claro.
A resposta veio tão rapidamente que foi Hermione quem ficou surpresa.
Narcisa apoiou-se na cadeira.
Elegante.
Serena.
Completamente tranquila.
— Eu estava me perguntando quanto tempo levaria.
Hermione encarou-a.
— Você sabia?
— Querida.
Um brilho divertido surgiu nos olhos azuis.
— Eu não teria pedido sua ajuda se esperasse que deixasse tudo exatamente como encontrou.
Do outro lado da sala, Draco fechou o livro.
— Isso explica muita coisa.
— Eu imaginei que explicaria.
E, pela primeira vez desde que começaram a revisar a lista de convidados, Hermione teve a distinta sensação de que aquela conversa era exatamente o que Narcisa esperava que acontecesse desde o início.
O silêncio que se seguiu durou apenas alguns segundos.
Mas foi suficiente para que Hermione percebesse que havia algo que ainda não estava entendendo.
Ela observou Narcisa.
Depois a pasta.
Depois Narcisa novamente.
— Você realmente não se importa?
A pergunta fez Draco erguer os olhos.
Narcisa pareceu genuinamente surpresa.
— Com os convidados?
— Com a mudança.
— Com a tradição.
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios da matriarca.
— Hermione.
A forma como pronunciou seu nome já parecia indicar que a resposta seria óbvia.
— A tradição não é a lista de convidados.
Hermione inclinou levemente a cabeça.
— Não?
— Não.
Narcisa apoiou uma das mãos sobre a pasta.
— A tradição é a Fundação continuar existindo.
O escritório ficou silencioso.
— Durante décadas ela arrecadou recursos para hospitais, escolas e programas de auxílio.
— Continuará fazendo isso este ano.
— E continuará fazendo no próximo.
Hermione observou-a atentamente.
— Os convidados mudam.
— O propósito não.
Aquilo pareceu muito mais razoável do que ela esperava.
Narcisa prosseguiu.
— Além disso, a sociedade britânica de hoje não é a mesma de trinta anos atrás.
— Nem deveria ser.
Draco soltou um pequeno ruído de aprovação.
Narcisa ignorou.
Como sempre.
— Algumas famílias deixaram de participar.
— Outras perderam relevância.
— Outras simplesmente seguiram caminhos diferentes.
Ela deu um leve de ombros.
— E algumas deveriam ter sido convidadas há muito tempo.
Hermione permaneceu em silêncio.
Porque aquela resposta era mais honesta do que imaginava receber.
— Então por que não foram?
Perguntou.
Narcisa demorou alguns segundos antes de responder.
— Porque as pessoas raramente questionam sistemas que sempre funcionaram de determinada forma.
Hermione quase sorriu.
Aquilo era uma resposta extremamente Narcisa.
Elegante.
Educada.
E perigosamente verdadeira.
— Até alguém questioná-los.
— Exatamente.
Os olhos azuis encontraram os dela.
Por um breve instante.
— E você costuma fazer isso com frequência.
Draco apoiou o livro no colo.
— Essa talvez seja a descrição mais gentil que já ouvi sobre a Hermione.
— Estou sendo educada.
— Naturalmente.
Hermione balançou a cabeça.
Mas não conseguiu conter o pequeno sorriso.
Narcisa abriu novamente a pasta.
Folheou algumas páginas.
Então retirou uma lista menor.
Muito menor.
Muito mais recente.
— Há outra questão.
Hermione imediatamente reconheceu aquele tom.
— Existe sempre outra questão.
— Sim.
— Eu estava começando a perceber.
Narcisa entregou-lhe o documento.
— O que é isso?
— Pessoas que certamente comentarão as mudanças.
Draco fechou os olhos.
— Ah, excelente.
— Não seja dramático.
— Estou sendo realista.
Hermione observou os nomes.
Alguns ela conhecia.
Outros não.
— E o que exatamente devo fazer com essa lista?
— Nada.
Hermione ergueu uma sobrancelha.
— Nada?
— Nada.
A resposta veio tão rapidamente que ela quase riu.
— Então por que me entregar?
— Porque gosto de estar preparada.
Aquilo arrancou uma risada de Draco.
— Certo. Agora vocês estão definitivamente identicas.
Narcisa ignorou o comentário.
Mais uma vez.
— Algumas dessas pessoas desaprovarão os convites.
— Algumas desaprovarão você.
— Algumas desaprovam praticamente tudo.
Hermione devolveu a lista.
— Então não parece um problema particularmente novo.
Um brilho satisfeito surgiu nos olhos de Narcisa.
Pequeno.
Mas impossível de perder.
— Exatamente a resposta que eu esperava.
Draco observou as duas em silêncio.
Depois olhou para o teto.
— Eu realmente deveria estar preocupado.
— Por quê? — perguntou Hermione.
— Porque vocês acabaram de concordar pela terceira vez em menos de uma hora.
— E?
— E eu passei a vida inteira acreditando que uma Narcisa Malfoy já era suficiente.
O sorriso que surgiu nos lábios das duas foi praticamente idêntico.
E aquilo, mais do que qualquer outra coisa, confirmou seus piores receios.
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