O mês seguinte passou de forma surpreendentemente tranquila.

Não porque as coisas tivessem parado.

Muito pelo contrário.

Por que a vida simplesmente seguiu em frente.

No Ministério, Hermione mergulhou no trabalho com a mesma intensidade de sempre.

Os projetos de modernização do Departamento de Execução das Leis Mágicas avançavam gradualmente.

Alguns encontravam apoio.

Outros encontravam resistência.

A maioria encontrava ambos.

Harry descobriu, para sua surpresa, que trabalhar no mesmo prédio que Hermione era muito menos estranho do que imaginara.

Os cafés ocasionais começaram quase por acidente.

Um encontro no corredor.

Uma pausa entre reuniões.

Uma discussão sobre algum relatório.

Nada planejado.

Nada formal.

Mas suficientes para reconstruir aos poucos uma amizade que durante muito tempo parecera perdida.

Nem sempre falavam sobre o passado.

Na verdade, raramente falavam.

Às vezes conversavam sobre trabalho.

Às vezes sobre política ministerial.

Às vezes sobre assuntos completamente irrelevantes.

E, pouco a pouco, aquilo voltou a parecer natural.

Gina também passou a aparecer ocasionalmente.

Às vezes com uma desculpa profissional.

Às vezes com desculpas consideravelmente menos convincentes.

Hermione nunca comentava.

Apenas oferecia chá.

E seguia trabalhando enquanto Gina ocupava alguma das poltronas do escritório.

Na mansão, a rotina também se reorganizou.

Theo e Blaise continuavam aparecendo sem aviso prévio.

Pansy mantinha a firme convicção de que convites eram sugestões opcionais.

Daphne e Astoria surgiam com frequência suficiente para que os elfos já soubessem exatamente quais eram suas preferências de chá.

A casa parecia mais cheia do que nos primeiros dias em Londres.

Mais viva.

Mais ocupada.

Mais parecida com a vida que haviam deixado na Itália.

Draco também manteve uma tradição inesperada.

Os jogos do Chelsea.

Inicialmente aquilo havia começado por influência do pai de Hermione.

Uma curiosidade que, ao longo dos anos, transformara-se em hábito.

Depois em ritual.

E eventualmente em obsessão moderada. Segundo o próprio Draco.

Obsessão completa. Segundo Hermione.

Theo e Blaise foram apresentados ao esporte com níveis consideráveis de ceticismo.

O ceticismo desapareceu aproximadamente vinte minutos após a primeira partida.

E foi substituído por opiniões extremamente fortes que ninguém havia solicitado.

Hermione continuava sem entender metade das regras.

Mas comparecia mesmo assim.

Principalmente porque gostava da companhia.

E porque considerava profundamente divertido observar três bruxos adultos discutindo futebol trouxa com a mesma seriedade que normalmente reservavam para política internacional.

Na última semana de outubro, uma tarde particularmente tranquila instalara-se sobre a mansão.

Hermione estava no escritório.

Uma pilha de documentos do Ministério ocupava metade da mesa.

Draco trabalhava do outro lado.

Analisando relatórios enviados pelo St. Mungo.

O ambiente permanecia silencioso.

Confortável.

Interrompido apenas pelo ocasional virar de páginas.

Hermione terminou de revisar um documento.

Assinou-o.

Separou-o em outra pilha.

Então ergueu os olhos.

— Quantos pacientes vocês atenderam esta semana?

Draco continuou lendo.

— Muitos.

— Resposta extremamente específica.

— Sou conhecido pela precisão.

— Não, não é.

— Cruel.

— Realista.

Um pequeno sorriso apareceu no canto dos lábios dele.

Sem que precisassem dizer mais nada.

A porta abriu-se.

Nenhum dos dois ergueu os olhos imediatamente.

Porque apenas uma pessoa na casa possuía o hábito de entrar no escritório sem bater.

— Boa tarde.

Hermione sorriu antes mesmo de levantar a cabeça.

— Boa tarde, Narcisa.

Narcisa entrou elegantemente.

Impecável como sempre.

Observou a mesa.

Os relatórios.

Os pergaminhos.

Os dois trabalhando.

E pareceu levemente desapontada.

— Vocês são extraordinariamente previsíveis.

Draco ergueu os olhos.

— Isso raramente é apresentado como crítica.

— Hoje é.

Hermione apoiou a pena sobre a mesa.

— Devemos nos preocupar?

— Provavelmente.

Draco suspirou.

— Eu sabia.

— Naturalmente sabia.

Narcisa acomodou-se em uma das poltronas próximas à janela.

Perfeitamente tranquila.

O que era quase sempre um péssimo sinal.

Hermione e Draco trocaram um olhar.

Porque ambos conheciam aquela expressão.

Muito bem.

— Mãe...

— Não.

A resposta veio imediatamente.

— Ainda não comecei.

Draco fechou os olhos por um instante.

— Isso não é reconfortante.

— Não era a intenção.

Narcisa cruzou elegantemente as mãos sobre o colo.

Então sorriu.

Aquele sorriso perfeitamente educado.

Perfeitamente perigoso.

— Acho que já nos escondemos por tempo suficiente.

O silêncio instalou-se no escritório.

Hermione foi a primeira a entender.

— Narcisa...

— Não.

Agora foi a vez dela interromper.

— Eu esperei. Esperei durante o baile. Esperei durante a adaptação ao Ministério. Esperei enquanto metade da sociedade bruxa britânica se recuperava do choque.

Os olhos azuis passaram de um para o outro.

— Considerei isso extremamente generoso da minha parte.

— Foi mesmo — murmurou Draco.

— Obrigada.

Hermione já começava a suspeitar do que viria a seguir.

E isso nunca era um bom sinal.

— Narcisa...

— O Baile de Inverno da Fundação Black acontecerá em três semanas.

Hermione fechou os olhos.

Draco apoiou a testa na mão.

— Ah.

— Exatamente — respondeu Narcisa.

Hermione suspirou.

— Certo.

Narcisa arqueou uma sobrancelha.

— Certo?

— Sim.

— Sem discussão?

— Eu participei de eventos assim durante anos na Itália.

— Eu sei.

— Então sabe que não adianta tentar escapar.

Um sorriso satisfeito surgiu nos lábios de Narcisa.

— É uma das suas qualidades.

Draco observou as duas.

— Estou preocupado com o fato de vocês estarem concordando tão rápido.

Nenhuma das duas lhe deu atenção.

O que apenas confirmou sua preocupação.

Narcisa retirou uma pasta da bolsa.

Hermione imediatamente percebeu.

— Você trouxe documentos.

— Naturalmente.

— Quantos?

— Menos do que você traria.

Draco soltou uma risada.

Hermione ignorou.

Narcisa colocou a pasta sobre a mesa.

— Os preparativos principais já estão encaminhados.

— Imaginei.

— O que preciso agora é que você comece a conhecer algumas pessoas.

Hermione inclinou ligeiramente a cabeça.

— As famílias?

— As famílias.

Agora a expressão de Narcisa tornou-se um pouco mais séria.

— Você já conhece muitos nomes.

— Alguns.

— Mas conhecê-los em um evento e conhecê-los pessoalmente são coisas diferentes.

Hermione assentiu.

Aquilo era verdade em qualquer país.

Em qualquer meio social.

Em qualquer governo.

Narcisa abriu a pasta.

Não havia cronogramas.

Nem listas de tarefas.

Nem mapas de salão.

Havia fotografias.

Famílias.

Casais.

Árvores genealógicas resumidas.

Anotações.

Observações escritas à mão.

Hermione pegou a primeira.

— Greengrass.

— Sim.

— Eu conheço as Greengrass.

— Conhece Daphne e Astoria.

— Justo.

Narcisa sorriu.

— Estou falando da família inteira.

Draco já havia desistido de fingir que trabalhava.

Agora observava a cena com evidente diversão.

— Isso parece perigoso.

— É um pouco.

— Mãe.

— O quê?

— Você literalmente criou um dossiê social.

— Chama-se preparação.

— Claro.

Narcisa ignorou o comentário.

— Não estou preocupada com você, Hermione.

Hermione ergueu os olhos.

— Não?

— Não.

A resposta veio sem hesitação.

— Você é inteligente demais para isso.

Aquilo arrancou um pequeno sorriso dela.

— Obrigada.

— Estou preocupada com eles.

Hermione piscou.

— Eles?

— As outras pessoas.

Draco fechou o relatório.

— Ah, definitivamente somos parentes.

Narcisa prosseguiu como se não tivesse sido interrompida.

— Porque existe uma diferença considerável entre ouvir falar da esposa do meu filho...

Ela fez uma pausa.

Então sorriu.

— E conhecê-la.

Hermione observou a pasta.

As fotografias.

Os nomes.

As anotações.

E percebeu que aquilo não era sobre aprender a frequentar aquele mundo.

Ela já frequentava.

Já fazia anos.

O que Narcisa estava fazendo era diferente.

Estava apresentando-a formalmente a uma parte da sociedade britânica que, até então, só a conhecia através de rumores.

E, curiosamente, aquilo parecia muito menos assustador do que deveria.

Talvez porque, depois de anos negociando com ministros, diplomatas e jornalistas, algumas famílias tradicionais fossem apenas mais um grupo de pessoas.

Ou talvez porque Narcisa estivesse ao lado dela.

E, gostando ou não, ninguém parecia navegar aquele mundo melhor do que a matriarca Malfoy.