A lareira crepitou em verde pela segunda vez naquela tarde.

Gina surgiu na sala ajustando o casaco, ainda trazendo consigo o leve aroma do chá que passara horas bebendo.

Mal teve tempo de dar dois passos.

— E então?

Ela ergueu os olhos.

Rony já estava de pé.

Harry permanecia sentado na poltrona próxima à janela, mas também havia levantado o olhar imediatamente.

Gina piscou.

— Olá para você também.

— Gina.

— Rony.

— Como foi?

Ela observou os dois por um instante.

E então começou a rir.

Harry franziu a testa.

— O quê?

— Vocês estavam esperando.

— Claro que estávamos esperando — respondeu Rony como se fosse óbvio.

— Eu fiquei fora por uma tarde.

— Numa Mansão Malfoy.

— Ah.

Agora ela entendia.

Harry apoiou um braço no encosto da poltrona.

— Não é só isso.

Gina olhou para ele.

— Não?

Ele hesitou por um instante.

Procurando as palavras certas.

— Você foi ver Hermione.

A resposta saiu simples.

Mas sincera.

E, de alguma forma, aquilo pareceu explicar muito mais.

O sorriso de Gina suavizou.

— Sim.

O silêncio durou apenas alguns segundos.

Foi Rony quem o quebrou.

— Então?

— Então o quê?

— Ela está bem?

A pergunta veio rápida demais.

Como se estivesse esperando desde que Gina desaparecera na lareira horas antes.

Gina observou o irmão por um momento.

Depois assentiu.

— Está.

Os ombros dele relaxaram quase imperceptivelmente.

Harry percebeu.

Ela também.

— Bem de verdade? — insistiu Rony.

— Bem de verdade.

— Não só fingindo estar bem?

Gina sorriu.

Aquilo era muito a cara deles.

Depois de tudo que viveram juntos, ainda pareciam acreditar que Hermione carregaria o mundo inteiro nas costas se ninguém a impedisse.

— Não, Rony. Ela não está fingindo.

O silêncio voltou.

Mais tranquilo dessa vez.

Harry desviou os olhos por um instante.

Como se absorvesse a resposta.

— Certo.

Uma única palavra.

Mas Gina conhecia o marido o suficiente para perceber o alívio escondido nela.

Rony voltou a sentar-se no sofá.

Ainda parecia menos convencido do que Harry.

Mas também visivelmente mais calmo.

— E você? — perguntou Harry.

Gina arqueou uma sobrancelha.

— Eu?

— Como foi para você?

A pergunta a pegou de surpresa.

Porque não era sobre Hermione.

Nem sobre Malfoy.

Nem sobre a mansão.

Era sobre ela.

Sobre reencontrar uma das pessoas mais importantes da própria vida depois de anos.

Gina pensou por alguns segundos.

Então sorriu.

Pequeno.

Honesto.

— Foi bom.

Harry sustentou seu olhar.

E assentiu.

Como se aquela resposta, mais do que qualquer outra, fosse a que realmente queria ouvir.

Por enquanto.

Porque havia muitas outras perguntas esperando para serem feitas.

Mas aquela podia esperar mais alguns minutos.

Rony foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Certo.

Gina arqueou uma sobrancelha.

— Certo o quê?

— Agora você conta o resto.

Harry não discutiu.

O que, por si só, já era concordância suficiente.

Gina soltou uma risada.

— Eu sabia que isso vinha.

— Evidentemente — respondeu Rony. — Você passou a tarde inteira lá.

— E?

— E nós queremos detalhes.

— Nós? — Gina repetiu.

Harry não demonstrou o menor arrependimento.

— Nós.

Ela balançou a cabeça.

— Fofo.

— Gina.

— Certo, certo.

Ela acomodou-se melhor no sofá.

Mas, para surpresa dos dois, demorou alguns segundos antes de falar.

Como se estivesse tentando organizar algo que ainda não tinha conseguido colocar em palavras.

— Acho que eu entendi uma coisa hoje.

Harry inclinou levemente a cabeça.

— O quê?

Gina olhou primeiro para ele.

Depois para Rony.

— Eu acho que todos estávamos olhando para a história da Hermione do jeito errado.

Os dois franziram a testa ao mesmo tempo.

— Como assim? — perguntou Harry.

Gina respirou fundo.

— Nós sempre falamos sobre ela ter ido embora.

— Porque ela foi — respondeu Rony.

— Foi.

— Então não entendi.

— Mas hoje eu percebi que, para ela, não parece que foi isso que aconteceu.

O silêncio instalou-se na sala.

— Explica — pediu Harry.

— Ela foi para a Austrália para encontrar os pais.

Os dois assentiram.

Aquilo eles sabiam.

— Depois ela foi para a Itália.

— Também sabemos — respondeu Rony.

— Sim.

Gina apoiou os braços no encosto do sofá.

— Mas acho que nós simplificamos demais tudo o que aconteceu entre uma coisa e outra.

Harry permaneceu em silêncio.

Escutando.

— Hermione não foi para a Austrália só devolver a memória dos pais e voltar para casa.

Rony franziu levemente a testa.

— O que quer dizer?

— Eles não lembravam dela.

A resposta veio simples.

— Nós sabemos.

— Sabemos. Mas acho que nunca paramos para pensar no que isso significava de verdade.

O silêncio voltou.

— Ela precisou reconstruir aquela relação. Do zero.

Harry baixou os olhos.

— Ela me contou um pouco disso.

Gina assentiu.

— E imagina o tamanho disso.

— Você encontra seus pais de novo, mas eles não lembram de quem você é.

— Você sabe tudo sobre eles.

— Eles não sabem nada sobre você.

Ninguém respondeu.

Porque não havia muito o que dizer.

— E enquanto tudo isso acontecia...

Ela soltou uma respiração lenta.

— Ela ainda era Hermione Granger.

Rony pareceu confuso.

— O que isso tem a ver?

— Tudo.

Gina apoiou-se no encosto do sofá.

— A guerra tinha acabado. Os jornais queriam entrevistas. As pessoas queriam histórias. Todo mundo tinha uma opinião sobre o que ela deveria fazer depois. Onde deveria trabalhar. O que deveria estudar. Como deveria viver.

Harry desviou os olhos.

Porque aquilo era verdade.

E porque ele próprio lembrava daquela época.

— E pela primeira vez ela estava em um lugar onde ninguém esperava nada dela.

A frase pairou no ar.

— Ela me disse que gostava disso. De ser apenas mais uma pessoa.

Harry sentiu algo apertar levemente o peito.

Porque Hermione havia dito praticamente a mesma coisa para ele no Ministério.

— Então a vida aconteceu — continuou Gina. — Ela foi ficando. Fez amigos. Encontrou trabalho. Criou rotina. Construiu uma carreira.

Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.

— E, em algum momento, aquilo deixou de ser uma viagem.

Harry permaneceu em silêncio.

Porque aquilo combinava exatamente com o que Hermione havia contado.

Cada vez parecia haver alguma coisa para fazer antes de voltar.

— Acho que ela nem percebeu quando começou a chamar aquele lugar de casa.

Gina deu de ombros.

— E depois de tantos anos... Era casa.

Ninguém respondeu imediatamente.

Porque era difícil argumentar contra aquilo.

— Ainda assim ela poderia ter contado — murmurou Rony.

— Poderia.

Gina concordou sem dificuldade.

— E ela sabe disso.

Harry ergueu os olhos.

— Ela falou sobre isso?

— Falou.

— E?

Gina hesitou por alguns segundos.

— Acho que parte do problema foi justamente o tamanho que aquilo ganhou.

Os dois permaneceram em silêncio.

— Quanto mais tempo passava, mais difícil ficava explicar. Quanto mais importante aquela vida se tornava para ela... Mais complicado parecia contar.

Harry fechou os olhos por um breve instante.

Porque aquilo fazia sentido.

Mais do que gostaria.

— E então veio o segredo — concluiu ele.

Gina assentiu.

— Acho que sim.

— Não porque ela quisesse esconder. Mas porque, em algum momento, ela não sabia mais por onde começar.

A sala ficou silenciosa.

A sala permaneceu silenciosa por alguns segundos.

Como se nenhum dos três tivesse certeza do que dizer depois daquilo.

Foi Rony quem acabou quebrando o silêncio.

— Ainda é estranho.

Gina ergueu os olhos.

— O quê?

— Tudo.

Ele fez um gesto vago com a mão.

— A Itália.

— O casamento.

— Malfoy.

— A mansão.

Gina soltou uma pequena risada.

— Ah.

— O quê "ah"?

— Porque eu achei que ia sentir a mesma coisa.

Harry apoiou o braço no encosto da poltrona.

— E não sentiu?

Gina demorou alguns segundos antes de responder.

— Não do jeito que eu esperava.

Rony franziu a testa.

— Como assim?

Ela procurou as palavras.

— É difícil explicar.

— Tente — sugeriu Harry.

— Quando eu cheguei lá...

Ela parou.

Pensando.

— Não parecia uma Mansão Malfoy.

Rony imediatamente arqueou uma sobrancelha.

— Continua sendo uma mansão.

— Continua.

— Continua sendo dos Malfoy.

— Também continua.

— Então tecnicamente...

— Rony.

— Certo.

Gina balançou a cabeça, divertindo-se.

— O que eu quero dizer é que não parecia um lugar preso ao passado.

Harry permaneceu em silêncio.

Escutando.

— Parecia uma casa.

— Uma casa grande demais — corrigiu Rony.

— Ridiculamente grande.

— Obrigado.

— Disponha.

Ela sorriu.

— Mas viva. Com luz. Com pessoas circulando. Livros por toda parte. Plantas. Janelas abertas. Não parecia um museu.

Harry pensou imediatamente no almoço.

Na forma como Draco e Hermione tinham ocupado aquela sala.

Na naturalidade.

Na rotina.

E, para sua surpresa, entendeu exatamente o que Gina queria dizer.

— Foi isso.

Gina virou-se para ele.

— O quê?

— Foi isso que me chamou atenção no almoço.

Rony olhou entre os dois.

— Vocês estão tendo uma conversa paralela?

— Talvez.

— Excelente.

— Obrigada.

Harry ignorou o comentário.

— Não parecia um segredo. Não parecia um escândalo. Parecia uma terça-feira.

Gina apontou imediatamente para ele.

— Exatamente.

Rony observou os dois.

Cada vez mais irritado com o fato de estarem se entendendo.

— Eu odeio quando vocês fazem isso.

— Fazemos o quê? — perguntou Gina.

— Isso de completar o raciocínio um do outro.

— Casamento.

— Não use isso como justificativa.

Harry riu.

Mas Gina já estava voltando ao assunto.

— E sabe o que foi mais estranho?

— O quê? — perguntou Harry.

— Hermione.

Rony piscou.

— Hermione?

— Sim.

— Ela estava lá.

— Fico feliz que tenha percebido.

— Gina.

— Certo.

Ela cruzou as pernas no sofá.

— Hermione parecia completamente à vontade.

— Na própria casa? — perguntou Harry.

— Não é isso.

— Então o quê?

Gina inclinou a cabeça.

— Ela estava servindo o chá.

— Certo.

— Organizando tudo.

— Certo.

Rony continuava sem entender.

— E?

— E parecia que ela tinha feito aquilo a vida inteira.

O silêncio durou um segundo.

Depois dois.

Então Harry começou a sorrir.

— Ah.

— Exatamente.

Rony olhou para os dois.

— Eu claramente perdi alguma coisa.

— Hermione parecia uma aristocrata.

O silêncio foi imediato.

— Desculpa? — perguntou Rony.

— Eu sei como isso soa.

— Porque soa completamente errado.

— Eu também achei.

Harry soltou uma pequena risada.

— Mas?

— Mas aí você olha melhor e percebe que não é.

— Explique.

Gina deu de ombros.

— Ela continua sendo a Hermione. Continua corrigindo as pessoas. Continua organizando tudo. Continua sabendo exatamente onde está cada livro da biblioteca.

Harry riu.

— Isso definitivamente parece ela.

— Exatamente.

— Só que agora ela faz tudo isso numa mansão absurda e servindo chá em porcelana que provavelmente custa mais do que a minha Firebolt.

— Isso parece menos ela.

— E ainda assim funciona.

Rony abriu a boca.

Depois fechou.

Porque, contra todas as probabilidades, aquilo fazia sentido.

Harry foi quem falou dessa vez.

— Talvez porque ela sempre tenha sido assim.

Os dois olharam para ele.

— O quê? — perguntou Rony.

Harry deu de ombros.

— Hermione sempre gostou de organização. Sempre gostou de planejar tudo.

Um sorriso surgiu no canto de seus lábios.

— Acho que nós só nunca imaginamos isso acontecendo numa mansão.

Gina riu.

— Exatamente.

O silêncio voltou.

Mais leve agora.

Então ela se lembrou de outra coisa.

— Ah.

— Isso nunca começa bem — comentou Harry.

— Tinha uma fotografia no corredor.

Rony arqueou uma sobrancelha.

— Que tipo de fotografia?

Gina recostou-se no sofá.

— Uma mesa ao ar livre. Hermione. Malfoy. Narcisa.

Ela fez uma pausa.

— E os pais da Hermione.

O silêncio foi imediato.

Harry ergueu os olhos.

Rony também.

— Os pais dela? — perguntou Harry.

— Sim.

A voz de Gina suavizou.

— E essa foi a parte estranha.

— Não parecia uma foto dos Malfoy.

— Parecia uma foto da família deles.

Ninguém falou por alguns segundos.

Porque a imagem era fácil de imaginar.

E difícil de processar.

— Eles pareciam felizes? — perguntou Harry.

Gina sorriu.

— Muito.

Harry assentiu devagar.

Como se aquela resposta importasse mais do que pretendia admitir.

Foi Rony quem quebrou o silêncio.

— E o Malfoy?

— O que tem ele?

— Ele ficou lá servindo chá também?

— Não.

— Graças a Merlin.

— Ele saiu.

— Saiu para onde?

Gina sorriu.

Porque sabia exatamente o efeito da próxima resposta.

— Comprar ingressos.

— Ingressos para quê?

— Futebol.

O silêncio foi absoluto.

— O quê? — perguntou Rony.

— Futebol.

— Malfoy?

— Sim.

— Voluntariamente?

— Sim.

Harry fechou os olhos.

Já rindo.

— Chelsea?

Gina virou-se para ele.

— Como você sabe?

— Porque isso parece exatamente o tipo de coisa que ele faria.

— Você sabe qual é a pior parte?

— O quê?

— Eu concordo.

Rony olhou para os dois.

Traído.

— Nenhuma dessas frases deveria fazer sentido.

— E ainda assim fazem — respondeu Gina.

Harry balançou a cabeça.

Ainda sorrindo.

Porque aquela talvez fosse a parte mais absurda de todas.

Não a mansão.

Não o casamento.

Não o segredo.

Mas o fato de que, depois de tudo o que tinham descoberto nas últimas semanas, nada daquilo parecia estranho para Hermione e Draco.

Parecia apenas a vida deles.

Uma vida inteira.

Que continuava existindo muito antes de qualquer um deles finalmente conseguir enxergá-la.