O Segredo Mais Bem Guardado
27 Capítulo 27
Gina aceitou a xícara que Hermione lhe entregou.
Ainda observando-a.
Hermione percebeu imediatamente.
— O quê?
— Você mudou.
Hermione suspirou.
— Isso normalmente soa ameaçador.
— Não foi uma crítica.
— Que alívio.
Gina apoiou-se na poltrona.
— É só que...
Ela fez um gesto vago.
— Você continua sendo você.
— Espero que sim.
— Mas também não é.
Hermione sorriu.
— Isso ficou surpreendentemente filosófico.
— Culpa sua.
— Naturalmente.
Gina balançou a cabeça.
— Você fala diferente.
— Moro fora há anos.
— Não é isso.
Hermione arqueou uma sobrancelha.
— Não?
— Você parece mais... tranquila.
Aquilo fez Hermione hesitar por um instante.
Porque não era uma observação que esperava.
— Tranquila?
— Sim.
— Eu comando o Departamento de Aplicação das Leis da Magia.
— Eu sei.
— Metade do Ministério está tentando me entregar problemas neste exato momento.
— E ainda assim você parece tranquila.
Hermione levou a xícara aos lábios.
Pensativa.
— Talvez eu tenha ficado melhor em lidar com problemas.
— Talvez.
Gina inclinou a cabeça.
— Ou talvez você tenha aprendido a não carregar todos eles sozinha.
Os olhos de Hermione encontraram os dela por um breve instante.
Mas antes que pudesse responder, Gina continuou:
— E antes que você pergunte, sim, isso foi uma observação.
— Você está ficando boa nisso.
— Trabalho com jornalistas.
— Justo.
As duas riram.
O silêncio que seguiu foi confortável.
Familiar.
Muito diferente da tensão que existira entre Hermione e Harry dias antes.
Porque Gina nunca pareceu exigir explicações.
Ela apenas observava.
Como sempre fizera.
— Você também mudou.
Gina apontou para si mesma.
— Eu?
— Sim.
— Fiquei mais bonita.
— Sua humildade continua intacta.
— Obrigada.
— Não foi um elogio.
— Vou aceitar mesmo assim.
Hermione apoiou a xícara sobre o pires.
— Você parece mais confiante.
— Eu entrevisto ministros e celebridades para viver.
— E gosta disso.
— Muito.
Hermione sorriu.
— Eu sei.
— Você perdeu a oportunidade de me ver expulsando um editor da minha própria mesa semana passada.
— Estou orgulhosa.
— Eu sabia que estaria.
Por alguns segundos, apenas apreciaram a companhia uma da outra.
Recuperando uma familiaridade que havia ficado adormecida por anos.
Foi Gina quem quebrou o silêncio novamente.
— Eu vi uma fotografia no corredor.
Hermione soube imediatamente qual era.
— Dos meus pais?
— Sim.
O sorriso que surgiu nos lábios de Hermione foi instantâneo.
Mais suave.
Mais pessoal.
— Eles dois parecem felizes.
Hermione assentiu.
— Estão.
Gina girou a própria xícara entre as mãos.
— Foi estranho.
— Estranho?
— Eu acho que esperava encontrar muitas coisas nesta casa.
— Como o quê?
— Livros.
— Justo.
— Mais livros.
— Também justo.
— Talvez ainda mais livros.
Hermione riu.
— Continue.
— Mas não esperava encontrar seus pais emoldurados num dos corredores principais.
O sorriso de Hermione aumentou ligeiramente.
— Aquela foto foi tirada na Itália.
— Eu imaginei.
O sorriso dela suavizou.
— Eles passavam muito tempo conosco.
— Seus pais?
— Sim.
Hermione apoiou a xícara sobre o pires.
— Minha mãe e Narcisa gostam de fingir que não passam horas fofocando sobre todo mundo.
— Ninguém acredita nisso.
— Nem eu.
— E seu pai?
Hermione sorriu.
— Descobriu que gosta de discutir esportes com Draco.
Gina piscou.
— Esportes?
— Não faça essa cara.
— Hermione...
— Eu sei.
— Ainda estou processando o futebol.
As duas riram.
— Mas eles realmente gostavam de passar tempo juntos.
A voz de Hermione tornou-se um pouco mais suave.
— Acho que foi uma das coisas que mais me deixaram feliz.
Gina observou a amiga por um instante.
Porque entendia exatamente o que ela queria dizer.
Depois de tudo que tinha acontecido anos atrás com os pais dela, aquilo provavelmente significava mais do que Hermione jamais colocaria em palavras.
Então Gina apoiou o cotovelo no braço da poltrona.
Observando a amiga por alguns segundos. Como se estivesse organizando um pensamento.
Hermione reconheceu aquele olhar imediatamente.
— O quê?
— Certo.
— Isso nunca termina bem.
— Agora me explica uma coisa.
— Gina...
— É uma pergunta legítima.
— Isso é discutível.
— Como exatamente Draco Malfoy virou o homem que atravessa Londres para comprar seu prato favorito porque acha que você vai esquecer de almoçar?
Hermione ficou imóvel por um segundo.
Depois baixou os olhos para a própria xícara. Um sorriso apareceu antes que pudesse impedir.
Pequeno.
Familiar.
Daqueles que surgiam quando falava dele.
Gina percebeu imediatamente. Claro que percebeu.
— Ah, então existe uma história.
— Existe.
— Eu sabia. Hermione balançou a cabeça. Ainda sorrindo.
— Gina...
— Sim?
— Essa história é muito mais longa do que você imagina.
Hermione balançou a cabeça.
Ainda sorrindo.
— Gina...
— Sim?
— Essa história é muito mais longa do que você imagina.
— Ótimo.
— Eu sabia que você diria isso.
Gina acomodou-se melhor na poltrona.
— Tenho chá.
— Percebi.
— Tenho tempo.
— Isso me preocupa.
— Continue.
Hermione observou a própria xícara por alguns instantes.
Como se estivesse organizando lembranças antigas.
— A verdade é que essa história não começa com Draco.
— Começa com você.
— Infelizmente.
— Hermione.
— Certo.
Ela respirou fundo.
— Depois da guerra eu fui para a Austrália.
Gina assentiu.
Aquilo ela sabia.
Todos sabiam.
Ou pelo menos acreditavam que sabiam.
— O plano era ficar alguns meses, resolver a situação dos meus pais. Trazer os dois para casa e voltar para a Inglaterra.
— Mas não foi isso que aconteceu.
Hermione negou levemente.
— Não.
O sorriso desapareceu.
Não por tristeza.
Mas pela seriedade da lembrança.
— Quando encontrei meus pais... eles não lembravam de mim.
Gina permaneceu em silêncio.
Ela conhecia aquela história.
Mas ouvir Hermione dizê-la ainda causava impacto.
— Eu sabia que aquilo podia acontecer, sabia que seria difícil. Mas saber e viver são coisas completamente diferentes.
Os olhos castanhos permaneceram fixos na xícara.
— Eles eram educados comigo. Gentis. Pacientes. Mas eu era uma estranha.
A voz saiu mais baixa.
— E eu não estava preparada para isso.
O silêncio tomou conta do solário.
— Levou tempo. Muito tempo.
— Para desfazer a magia?
— Para desfazer a magia.
Hermione assentiu.
— E mais tempo ainda para reconstruir a confiança. Porque eles não recuperaram oito anos de lembranças de uma hora para outra. Não voltaram a ser meus pais imediatamente. Nós precisávamos nos reencontrar.
Gina sentiu o peito apertar.
Porque nunca tinha pensado daquela forma.
Sempre imaginara o momento em que Hermione devolveu as memórias.
Nunca o que veio depois.
— Deve ter sido horrível.
Hermione soltou uma pequena risada sem humor.
— Houve dias em que eu tinha certeza de que tinha cometido o maior erro da minha vida.
Gina ergueu os olhos.
— Você nunca disse isso para ninguém.
— Porque eu não queria ouvir ninguém concordando.
Aquilo arrancou uma risada dela.
Mesmo naquela lembrança.
— Mas também não queria voltar para a Inglaterra.
— Não?
Hermione negou.
— Não imediatamente. Porque depois que a situação dos meus pais estabilizou... Eu percebi uma coisa.
— O quê?
— Eu não fazia ideia do que queria fazer da minha vida.
A frase pairou entre elas.
Estranha.
Principalmente vinda de Hermione Granger.
— Pela primeira vez não existia uma guerra. Não existia Hogwarts. Não existia uma missão. Não existia um próximo passo óbvio.
Ela apoiou a xícara sobre o pires.
— E, para ser sincera, eu estava cansada. Cansada de ser observada. Cansada das expectativas. Cansada de ser a Hermione Granger que todo mundo conhecia.
Gina observou a amiga atentamente.
Sem interromper.
— Então eu fiquei. Primeiro porque precisava. Depois porque queria. E algum tempo depois... Porque já não conseguia imaginar voltar correndo para a vida que tinha deixado para trás.
— E foi aí que surgiu a Itália?
Um sorriso reapareceu.
Pequeno.
Nostálgico.
— Foi.
— E Draco?
Hermione soltou uma risada.
Daquelas que surgiam quando a resposta era muito mais complicada do que a pergunta.
— Draco veio depois.
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