Gina aceitou a xícara que Hermione lhe entregou.

Ainda observando-a.

Hermione percebeu imediatamente.

— O quê?

— Você mudou.

Hermione suspirou.

— Isso normalmente soa ameaçador.

— Não foi uma crítica.

— Que alívio.

Gina apoiou-se na poltrona.

— É só que...

Ela fez um gesto vago.

— Você continua sendo você.

— Espero que sim.

— Mas também não é.

Hermione sorriu.

— Isso ficou surpreendentemente filosófico.

— Culpa sua.

— Naturalmente.

Gina balançou a cabeça.

— Você fala diferente.

— Moro fora há anos.

— Não é isso.

Hermione arqueou uma sobrancelha.

— Não?

— Você parece mais... tranquila.

Aquilo fez Hermione hesitar por um instante.

Porque não era uma observação que esperava.

— Tranquila?

— Sim.

— Eu comando o Departamento de Aplicação das Leis da Magia.

— Eu sei.

— Metade do Ministério está tentando me entregar problemas neste exato momento.

— E ainda assim você parece tranquila.

Hermione levou a xícara aos lábios.

Pensativa.

— Talvez eu tenha ficado melhor em lidar com problemas.

— Talvez.

Gina inclinou a cabeça.

— Ou talvez você tenha aprendido a não carregar todos eles sozinha.

Os olhos de Hermione encontraram os dela por um breve instante.

Mas antes que pudesse responder, Gina continuou:

— E antes que você pergunte, sim, isso foi uma observação.

— Você está ficando boa nisso.

— Trabalho com jornalistas.

— Justo.

As duas riram.

O silêncio que seguiu foi confortável.

Familiar.

Muito diferente da tensão que existira entre Hermione e Harry dias antes.

Porque Gina nunca pareceu exigir explicações.

Ela apenas observava.

Como sempre fizera.

— Você também mudou.

Gina apontou para si mesma.

— Eu?

— Sim.

— Fiquei mais bonita.

— Sua humildade continua intacta.

— Obrigada.

— Não foi um elogio.

— Vou aceitar mesmo assim.

Hermione apoiou a xícara sobre o pires.

— Você parece mais confiante.

— Eu entrevisto ministros e celebridades para viver.

— E gosta disso.

— Muito.

Hermione sorriu.

— Eu sei.

— Você perdeu a oportunidade de me ver expulsando um editor da minha própria mesa semana passada.

— Estou orgulhosa.

— Eu sabia que estaria.

Por alguns segundos, apenas apreciaram a companhia uma da outra.

Recuperando uma familiaridade que havia ficado adormecida por anos.

Foi Gina quem quebrou o silêncio novamente.

— Eu vi uma fotografia no corredor.

Hermione soube imediatamente qual era.

— Dos meus pais?

— Sim.

O sorriso que surgiu nos lábios de Hermione foi instantâneo.

Mais suave.

Mais pessoal.

— Eles dois parecem felizes.

Hermione assentiu.

— Estão.

Gina girou a própria xícara entre as mãos.

— Foi estranho.

— Estranho?

— Eu acho que esperava encontrar muitas coisas nesta casa.

— Como o quê?

— Livros.

— Justo.

— Mais livros.

— Também justo.

— Talvez ainda mais livros.

Hermione riu.

— Continue.

— Mas não esperava encontrar seus pais emoldurados num dos corredores principais.

O sorriso de Hermione aumentou ligeiramente.

— Aquela foto foi tirada na Itália.

— Eu imaginei.

O sorriso dela suavizou.

— Eles passavam muito tempo conosco.

— Seus pais?

— Sim.

Hermione apoiou a xícara sobre o pires.

— Minha mãe e Narcisa gostam de fingir que não passam horas fofocando sobre todo mundo.

— Ninguém acredita nisso.

— Nem eu.

— E seu pai?

Hermione sorriu.

— Descobriu que gosta de discutir esportes com Draco.

Gina piscou.

— Esportes?

— Não faça essa cara.

— Hermione...

— Eu sei.

— Ainda estou processando o futebol.

As duas riram.

— Mas eles realmente gostavam de passar tempo juntos.

A voz de Hermione tornou-se um pouco mais suave.

— Acho que foi uma das coisas que mais me deixaram feliz.

Gina observou a amiga por um instante.

Porque entendia exatamente o que ela queria dizer.

Depois de tudo que tinha acontecido anos atrás com os pais dela, aquilo provavelmente significava mais do que Hermione jamais colocaria em palavras.

Então Gina apoiou o cotovelo no braço da poltrona.

Observando a amiga por alguns segundos. Como se estivesse organizando um pensamento.

Hermione reconheceu aquele olhar imediatamente.

— O quê?

— Certo.

— Isso nunca termina bem.

— Agora me explica uma coisa.

— Gina...

— É uma pergunta legítima.

— Isso é discutível.

— Como exatamente Draco Malfoy virou o homem que atravessa Londres para comprar seu prato favorito porque acha que você vai esquecer de almoçar?

Hermione ficou imóvel por um segundo.

Depois baixou os olhos para a própria xícara. Um sorriso apareceu antes que pudesse impedir.

Pequeno.

Familiar.

Daqueles que surgiam quando falava dele.

Gina percebeu imediatamente. Claro que percebeu.

— Ah, então existe uma história.

— Existe.

— Eu sabia. Hermione balançou a cabeça. Ainda sorrindo.

— Gina...

— Sim?

— Essa história é muito mais longa do que você imagina.

Hermione balançou a cabeça.

Ainda sorrindo.

— Gina...

— Sim?

— Essa história é muito mais longa do que você imagina.

— Ótimo.

— Eu sabia que você diria isso.

Gina acomodou-se melhor na poltrona.

— Tenho chá.

— Percebi.

— Tenho tempo.

— Isso me preocupa.

— Continue.

Hermione observou a própria xícara por alguns instantes.

Como se estivesse organizando lembranças antigas.

— A verdade é que essa história não começa com Draco.

— Começa com você.

— Infelizmente.

— Hermione.

— Certo.

Ela respirou fundo.

— Depois da guerra eu fui para a Austrália.

Gina assentiu.

Aquilo ela sabia.

Todos sabiam.

Ou pelo menos acreditavam que sabiam.

— O plano era ficar alguns meses, resolver a situação dos meus pais. Trazer os dois para casa e voltar para a Inglaterra.

— Mas não foi isso que aconteceu.

Hermione negou levemente.

— Não.

O sorriso desapareceu.

Não por tristeza.

Mas pela seriedade da lembrança.

— Quando encontrei meus pais... eles não lembravam de mim.

Gina permaneceu em silêncio.

Ela conhecia aquela história.

Mas ouvir Hermione dizê-la ainda causava impacto.

— Eu sabia que aquilo podia acontecer, sabia que seria difícil. Mas saber e viver são coisas completamente diferentes.

Os olhos castanhos permaneceram fixos na xícara.

— Eles eram educados comigo. Gentis. Pacientes. Mas eu era uma estranha.

A voz saiu mais baixa.

— E eu não estava preparada para isso.

O silêncio tomou conta do solário.

— Levou tempo. Muito tempo.

— Para desfazer a magia?

— Para desfazer a magia.

Hermione assentiu.

— E mais tempo ainda para reconstruir a confiança. Porque eles não recuperaram oito anos de lembranças de uma hora para outra. Não voltaram a ser meus pais imediatamente. Nós precisávamos nos reencontrar.

Gina sentiu o peito apertar.

Porque nunca tinha pensado daquela forma.

Sempre imaginara o momento em que Hermione devolveu as memórias.

Nunca o que veio depois.

— Deve ter sido horrível.

Hermione soltou uma pequena risada sem humor.

— Houve dias em que eu tinha certeza de que tinha cometido o maior erro da minha vida.

Gina ergueu os olhos.

— Você nunca disse isso para ninguém.

— Porque eu não queria ouvir ninguém concordando.

Aquilo arrancou uma risada dela.

Mesmo naquela lembrança.

— Mas também não queria voltar para a Inglaterra.

— Não?

Hermione negou.

— Não imediatamente. Porque depois que a situação dos meus pais estabilizou... Eu percebi uma coisa.

— O quê?

— Eu não fazia ideia do que queria fazer da minha vida.

A frase pairou entre elas.

Estranha.

Principalmente vinda de Hermione Granger.

— Pela primeira vez não existia uma guerra. Não existia Hogwarts. Não existia uma missão. Não existia um próximo passo óbvio.

Ela apoiou a xícara sobre o pires.

— E, para ser sincera, eu estava cansada. Cansada de ser observada. Cansada das expectativas. Cansada de ser a Hermione Granger que todo mundo conhecia.

Gina observou a amiga atentamente.

Sem interromper.

— Então eu fiquei. Primeiro porque precisava. Depois porque queria. E algum tempo depois... Porque já não conseguia imaginar voltar correndo para a vida que tinha deixado para trás.

— E foi aí que surgiu a Itália?

Um sorriso reapareceu.

Pequeno.

Nostálgico.

— Foi.

— E Draco?

Hermione soltou uma risada.

Daquelas que surgiam quando a resposta era muito mais complicada do que a pergunta.

— Draco veio depois.