O sábado avançava tranquilamente.

Na sala da casa dos Potter, Harry e Rony ocupavam lados opostos de um tabuleiro de xadrez.

Uma partida que já durava tempo suficiente para ambos estarem levando aquilo muito mais a sério do que deveriam.

— Xeque.

Harry ergueu os olhos.

— Isso foi completamente acidental.

— Foi uma jogada brilhante.

— Você não sabia que ela existia há cinco segundos.

— Detalhes.

— Você disse "detalhes" porque não tem argumento.

— Tenho sim.

— Qual?

— Estou ganhando.

Antes que Harry pudesse responder, passos ecoaram na escada.

Os dois levantaram os olhos.

Gina apareceu na sala.

Já pronta para sair.

Cabelos arrumados.

Bolsa no ombro.

Claramente indo para algum lugar.

Harry observou-a por um segundo.

— Vai sair?

— Vou.

— Onde?

Gina pegou a capa que havia deixado sobre uma poltrona.

— Mansão Malfoy.

O silêncio foi imediato.

Rony parou com uma peça no meio do movimento.

Harry piscou.

Uma vez.

Depois outra.

— Desculpa?

— Mansão Malfoy.

— Certo.

Mais silêncio.

— Isso continua sendo uma frase muito estranha.

— Muito estranha — concordou Rony.

— Você está indo fazer o quê exatamente? — perguntou Harry.

— Tomar chá.

— Com quem?

— Hermione.

Harry imediatamente apontou para ela.

— Você se convidou.

— Tecnicamente.

— Gina.

— Ela aceitou.

— Isso não torna a situação menos absurda.

— Discordo.

Rony recostou-se no sofá.

Claramente emburrado.

Gina estreitou os olhos.

— O que foi isso?

— Nada.

— Ronald.

— Eu só acho interessante.

— Interessante?

— Sim.

— Você está com ciúmes.

— Não estou.

— Está sim.

— Não estou.

— Está.

Harry decidiu permanecer fora daquela discussão.

Principalmente porque não tinha certeza se Rony estava completamente errado.

— Bom — anunciou Gina. — Vou descobrir se os Malfoy realmente tomam chá ou se isso é só propaganda.

— Se desaparecer, eu aviso o Ministério.

— Obrigada, Rony.

— Estou falando sério.

— Eu sei.

Ela voltou-se para Harry.

O sorriso dele era pequeno.

Pensativo.

Diferente do habitual.

— Divirta-se.

— Pretendo.

Harry hesitou por um instante.

Como se ainda estivesse se acostumando com tudo aquilo.

Com Hermione.

Com Malfoy.

— E... se precisar de qualquer coisa...

Gina arqueou uma sobrancelha.

— Harry.

— Eu sei.

— Harry.

— Só estou dizendo que estarei aqui quando voltar.

Ela sorriu.

Porque entendia exatamente o que ele queria dizer.

— Eu volto em algumas horas.

— Eu sei.

— E te conto tudo.

— Excelente.

— Fofoqueiro.

— Casado com uma jornalista.

— Justo.

Harry sorriu.

Gina beijou rapidamente sua bochecha.

Depois caminhou até a lareira.

Segundos depois desapareceu entre as chamas verdes.

O silêncio voltou à sala.

Rony observou a lareira apagada.

Depois olhou para Harry.

— Sua esposa está indo tomar chá na Mansão Malfoy.

— Sim.

— Isso continua sendo estranho.

— Muito.

— Você acha que eles têm uma sala específica para chá?

Harry pensou por um instante.

— Provavelmente têm várias.

Rony soltou um gemido.

— Eu odeio essa resposta.


Na Mansão Malfoy, Hermione não precisou pensar sobre onde receberia Gina.

A decisão havia sido tomada no mesmo instante em que o convite fora feito.

O solário.

Sempre o solário.

Não era o ambiente mais elegante da propriedade.

Nem o mais impressionante.

Mas era o seu preferido.

Talvez por causa da luz natural que inundava o espaço durante toda a tarde.

Talvez pela vista dos jardins.

O lugar onde costumava ler.

Trabalhar quando queria fugir do escritório.

Tomar chá com Draco.

Passar horas conversando com Narcisa.

Ou simplesmente sentar em silêncio observando o jardim.

Era confortável.

Acolhedor.

E, por algum motivo, parecia o lugar certo para receber Gina.

Hermione ajustou alguns livros sobre uma das mesas laterais.

Conferiu a bandeja de chá.

Reposicionou uma xícara.

Depois outra.

— Você sabe que ninguém além de você perceberia essa diferença.

A voz de Draco surgiu atrás dela.

Hermione nem precisou se virar.

— Eu perceberia.

— Exatamente o meu ponto.

Ela finalmente olhou para ele.

— Tenho padrões.

— Assustadoramente altos.

— Obrigada.

— Não foi um elogio.

— Ainda assim vou aceitar.

Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dele.

Draco aproximou-se devagar.

Os olhos cinzentos percorreram o ambiente.

Depois voltaram para ela.

— Você está animada.

Hermione considerou negar.

Mas não viu motivo.

— Estou.

A resposta saiu fácil.

Honesta.

Porque era verdade.

Draco observou-a por um instante.

E seu sorriso tornou-se ligeiramente mais suave.

— Fico feliz.

Hermione aproximou-se.

Automaticamente ajeitou a dobra de uma das mangas dele.

Sem perceber que estava fazendo aquilo.

Draco baixou os olhos para o movimento.

Depois voltou a encará-la.

— Você faz isso com frequência.

— E continua funcionando.

— Eu estava perfeitamente apresentável.

— Agora está mais apresentável.

— Implacável.

— Preciso manter minha reputação.

— Como chefe de departamento?

— Como esposa.

Draco soltou uma pequena risada.

Do lado de fora, uma brisa suave moveu as flores dos jardins.

Por um momento, tudo pareceu simples.

Tranquilo.

Normal.

As chamas verdes envolveram Gina alguns minutos depois.

Ela surgiu no hall principal da propriedade tentando manter uma expressão perfeitamente normal.

O que seria muito mais fácil se não estivesse entrando na casa de Hermione e Draco Malfoy pela primeira vez.

O hall era amplo.

Elegante.

Mas não tinha a sensação fria que esperava encontrar.

A luz entrava pelas enormes janelas.

Os arranjos florais pareciam recentes.

Alguns livros estavam empilhados sobre uma mesa lateral.

Como se as pessoas realmente morassem ali.

Antes que pudesse observar muito mais, um pequeno elfo doméstico surgiu diante dela.

— Senhora Weasley!

Gina piscou.

— Olá.

— A Lady Malfoy está aguardando a senhora no solário.

— Certo.

O elfo sorriu.

— Por favor, siga Dobbykins.

Gina precisou conter um sorriso.

Definitivamente perguntaria sobre aquele nome depois.

Começou a acompanhar o elfo pelos corredores da propriedade.

Mas seus olhos continuavam atentos.

Observando.

Registrando.

Analisando.

Anos trabalhando para o Profeta Diário tinham transformado aquilo em um hábito impossível de abandonar.

Um quadro chamou sua atenção.

Depois outro.

Até que uma fotografia específica a fez diminuir o passo.

Mostrava uma grande mesa ao ar livre sob uma pérgola coberta por flores.

Draco e Hermione estavam sentados lado a lado.

Narcisa ocupava uma das extremidades.

Mas não foram eles que prenderam sua atenção.

E sim os pais de Hermione.

O pai dela parecia discutir alguma coisa com Draco.

Os dois gesticulavam com entusiasmo suficiente para fazer Hermione revirar os olhos.

A mãe dela ria de alguma observação de Narcisa.

Todos sorriam.

Todos pareciam perfeitamente à vontade.

Como se aquela cena fosse comum.

Como se acontecesse frequentemente.

Como se os pais de Hermione pertencessem àquela mesa tanto quanto qualquer outra pessoa.

Gina permaneceu observando por alguns segundos.

Porque aquilo talvez fosse a última coisa que imaginaria encontrar ali.

Não riqueza.

Não elegância.

Mas pertencimento.

— Senhora Weasley?

A voz do elfo trouxe-a de volta.

— Certo. Desculpe.

Ela voltou a caminhar.

Pouco depois, chegaram próximos ao fim do corredor.

E então Gina avistou a biblioteca.

Ela literalmente parou.

O elfo precisou interromper os próprios passos.

Prateleiras ocupavam paredes inteiras.

Centenas.

Talvez milhares de livros.

Escadas móveis.

Mesas de leitura.

Poltronas espalhadas por diferentes cantos.

Gina encarou o ambiente.

Depois soltou uma pequena risada sozinha.

— Claro.

O elfo inclinou a cabeça.

— Senhora?

— Nada.

Mas aquilo era absolutamente a cara da Hermione.

Na verdade, Gina tinha certeza de que, se Hermione pudesse projetar uma casa inteira sozinha, provavelmente começaria pela biblioteca.

Só então percebeu que ela não terminava ali.

A biblioteca se abria para outro ambiente.

Mais claro.

Mais iluminado.

O teto de vidro deixava a luz dourada da tarde invadir todo o espaço.

Os jardins pareciam fazer parte da própria sala.

Flores coloridas cercavam as janelas.

Poltronas confortáveis ocupavam os cantos.

Uma mesa de chá estava preparada próxima às vidraças.

E sentados lado a lado em um dos sofás estavam Hermione e Draco.

Lendo.

Simplesmente lendo.

Nenhum dos dois parecia perceber que estava sendo observado.

Hermione tinha os pés recolhidos sob si enquanto lia.

Draco mantinha um livro aberto no colo.

Os dois pareciam completamente à vontade.

Como se aquela fosse apenas mais uma tarde comum.

Como se aquele fosse apenas mais um sábado.

Como se aquele lugar tivesse sido feito para eles.

E talvez tivesse mesmo.

Por um instante, Gina esqueceu completamente as manchetes.

As especulações.

Os segredos.

Os anos de perguntas sem resposta.

Porque ali, observando-os antes de ser anunciada, uma única coisa parecia evidente.

Hermione estava em casa.

Ao lado delas, Draco fechou o próprio livro.

— Excelente.

As duas olharam para ele.

— Excelente? — repetiu Gina.

— Sim.

Draco levantou-se com toda a tranquilidade do mundo.

— Agora que confirmei que vocês sobreviveram ao primeiro minuto de interação, minha presença tornou-se desnecessária.

Hermione arqueou uma sobrancelha.

— Que dramático.

— Realista.

— Covarde.

— Também.

Gina começou a rir.

Draco recolheu o livro da mesa.

— Além disso, vocês têm aproximadamente uma década de conversas acumuladas.

— Uma década e meia — corrigiu Gina.

— Ainda pior.

Ele apoiou o livro sob o braço.

— Vou aproveitar para comprar os ingressos do Chelsea antes que esqueça novamente.

Gina piscou.

— Você vai a jogos de futebol?

— Frequentemente.

— Isso continua sendo uma informação estranha.

— A reação de vocês ao futebol continua sendo estranha.

Hermione não ergueu os olhos da xícara.

— Eles cresceram no mundo bruxo.

— Uma falha educacional grave.

— Claramente.

Draco apoiou o livro sob o braço.

— Felizmente, consegui convencer os meninos a nos acompanharem desta vez.

Gina arqueou uma sobrancelha.

— Os meninos?

— Theo e Blaise.

— Theodore Nott e Blaise Zabini vão assistir futebol trouxa?

Gina começou a rir.

— Isso eu preciso ver.

Hermione não ergueu os olhos da xícara.

— Só não compre aqueles lugares horríveis de novo.

Draco pareceu ofendido.

— Aquilo aconteceu uma vez.

— Duas.

— Tecnicamente uma vez e meia.

— Draco.

— Hermione.

— Duas.

Ele suspirou.

— Duas.

— Obrigada.

— Ainda considero sua versão exagerada.

Gina observava a troca com crescente diversão.

Porque claramente aquela discussão não era nova.

Talvez nem recente.

Parecia o tipo de conversa que já tinha acontecido dezenas de vezes.

Draco aproximou-se de Hermione.

Inclinou-se apenas o suficiente para beijar-lhe a testa.

Um gesto rápido.

Automático.

Tão natural quanto respirar.

— Divirtam-se.

— Nós vamos.

— Eu sei.

Os olhos cinzentos suavizaram por um instante.

— Até mais tarde.

— Até mais tarde.

Então ele voltou-se para Gina.

— Weasley.

— Malfoy.

— Tente não transformar minha casa em matéria de capa.

— Sem promessas.

Draco balançou a cabeça.

Como alguém claramente cercado por pessoas impossíveis.

Depois desapareceu pelo corredor.

O silêncio durou apenas alguns segundos.

Gina observou a direção por onde ele havia saído.

Depois a biblioteca.

O solário.

A mesa de chá.

E finalmente Hermione.

— Certo.

Hermione sorriu.

— Certo?

— Agora você vai me contar absolutamente tudo.

Gina acomodou-se na poltrona enquanto Hermione se aproximava da mesa preparada para o chá.

E então percebeu uma coisa curiosa.

Hermione não precisou consultar nada.

Não hesitou.

Não pareceu estar seguindo instruções decoradas.

Simplesmente começou a servir o chá.

Com movimentos tranquilos.

Naturais.

Como alguém que fazia aquilo havia anos.

Gina observou em silêncio enquanto Hermione servia a primeira xícara.

Depois a segunda.

Ajustava pequenas coisas sobre a bandeja sem sequer olhar diretamente para elas.

Como puro hábito.

— O quê? — perguntou Hermione, sem erguer os olhos.

Gina piscou.

— Nada.

— Gina.

— Eu só estou processando uma informação.

Hermione entregou-lhe uma xícara.

— O que exatamente?

— Você serve chá como uma aristocrata.

Hermione ficou imóvel por um segundo.

Depois começou a rir.

— Ah.

— "Ah"?

— Acho que essa é uma observação justa.

— Você fez aquilo sem pensar.

— Provavelmente.

— Isso é assustador.

— Draco disse a mesma coisa quando me viu corrigindo a postura de uma diplomata francesa.

Gina arregalou os olhos.

— Você fez o quê?

— Foi um acidente.

— Hermione.

— Um acidente muito educado.