O Segredo Mais Bem Guardado
25 Capítulo 25
A sexta-feira chegou acompanhada por uma chuva fina que pairava sobre Londres desde as primeiras horas da manhã.
No Ministério da Magia, isso significava corredores mais cheios, capas molhadas penduradas próximo aos elevadores e funcionários tentando equilibrar relatórios enquanto reclamavam discretamente do clima.
Para Gina Weasley, significava apenas mais um dia de trabalho.
A coletiva do Departamento de Cooperação Mágica Internacional havia terminado há pouco mais de vinte minutos.
As declarações estavam anotadas.
As entrevistas concluídas.
E a matéria praticamente escrita em sua cabeça.
Ela caminhava pelos corredores do Ministério em direção aos elevadores quando reduziu o passo.
Sem perceber.
Alguns metros adiante, uma placa dourada chamou sua atenção.
Departamento de Aplicação das Leis da Magia.
Gina parou.
Por um instante apenas.
Curto o suficiente para que ninguém percebesse.
Longo o suficiente para que ela percebesse.
Porque aquela era a primeira vez que estava ali desde o retorno de Hermione.
A primeira vez desde o baile.
Desde as manchetes.
Desde as fotografias espalhadas por todos os jornais do país.
Desde descobrir que sua amiga havia construído uma vida inteira sem que praticamente ninguém soubesse dos detalhes.
Gina soltou uma respiração lenta.
Era ridículo.
Ela sabia disso.
Não estava nervosa.
Não exatamente.
Mas existia uma estranheza inevitável.
Como se não soubesse qual era a distância correta entre elas agora.
Amigas?
Ex-amigas?
Velhas amigas tentando reencontrar o caminho de volta?
Talvez um pouco de cada.
Ela observou a porta do departamento por mais alguns segundos.
Depois sorriu sozinha.
Porque estava pensando demais.
O que era ironicamente um hábito que costumava criticar em Hermione durante a adolescência.
— Certo.
Murmurou para si mesma.
— Vamos resolver isso do jeito Weasley.
E entrou.
Poucos minutos depois, após receber orientações de uma assistente extremamente eficiente, Gina caminhava por um corredor mais reservado do departamento.
Parou diante de uma porta parcialmente aberta.
E então hesitou.
Não por muito tempo.
Apenas o suficiente para olhar através do vidro.
Hermione estava sentada atrás da mesa.
Completamente cercada por documentos.
Havia pilhas de relatórios ocupando metade da superfície.
Três penas trabalhavam sozinhas em pergaminhos diferentes.
Uma quarta fazia anotações em um bloco próximo.
E Hermione parecia alternar a atenção entre dois documentos abertos enquanto consultava um terceiro.
Gina observou a cena por alguns segundos.
Depois sorriu.
Algumas coisas realmente nunca mudavam.
Ela bateu duas vezes na porta.
Hermione sequer ergueu os olhos.
— Entre.
A voz saiu automática.
Ainda concentrada na leitura.
— Se for sobre os relatórios da Divisão de Fiscalização, deixe na mesa. Eu analiso antes do fim do dia.
Gina apoiou-se no batente.
— Eu sabia.
Hermione ergueu os olhos.
E congelou.
Por um instante.
Depois outro.
— Gina?
— Eu sabia.
Hermione piscou.
— Sabia o quê?
— Que você continua aterrorizando pilhas de pergaminhos profissionalmente.
A gargalhada escapou antes mesmo que ela pudesse impedir.
— Algumas coisas nunca mudam.
— Graças a Merlin.
Gina entrou no escritório.
Fechando a porta atrás de si.
Por um momento, nenhuma das duas falou.
Não porque fosse desconfortável.
Mas porque existiam anos entre elas.
Anos demais.
E, pela primeira vez desde o baile, estavam sozinhas.
Sem Harry.
Sem jornalistas.
Sem familiares.
Sem colegas.
Apenas elas.
Foi Hermione quem quebrou o silêncio.
— O que está fazendo aqui?
— Trabalhando.
— Trabalhando?
— Eu sei. Chocante.
— Bastante.
— O Profeta me enviou para cobrir uma coletiva.
Hermione assentiu.
— Então você realmente estava trabalhando.
— Eu sei. Estou tão surpresa quanto você.
— E decidiu invadir meu escritório no caminho?
— Decidi.
— Entendo.
— Além disso...
Gina puxou uma cadeira.
— Eu estava curiosa.
— Isso parece perigoso.
— Geralmente é.
Ela sentou-se sem cerimônia.
Como se não tivessem passado anos sem uma conversa de verdade.
Como se aquela fosse apenas mais uma tarde qualquer.
E, estranhamente, aquilo ajudou.
Muito.
Gina observou o escritório.
Os documentos.
As estantes.
Os memorandos empilhados.
As anotações espalhadas.
Depois voltou os olhos para Hermione.
— Então.
— Então?
— Você realmente virou chefe de departamento.
Hermione soltou uma pequena risada.
— Aparentemente.
— Não.
Gina balançou a cabeça.
— Sem falsa modéstia.
— Eu não estou sendo modesta.
— Ótimo.
— Estou apenas constatando um fato.
— Melhor ainda.
O sorriso de Gina suavizou.
— É impressionante, Hermione.
A sinceridade da frase a pegou desprevenida.
Porque não havia curiosidade.
Nem julgamento.
Nem ressentimento.
Apenas admiração.
— Obrigada.
— Você trabalhou em dois Ministérios.
— Sim.
— Participou de reformas internacionais.
— Sim.
— Foi consultora para acordos mágicos entre países.
— Sim.
— E agora está chefiando o Departamento de Aplicação das Leis da Magia.
Hermione apoiou os braços sobre a mesa.
— Quando você coloca dessa forma parece mais impressionante.
— Porque é impressionante.
Ela não respondeu.
Mas sorriu.
Gina inclinou a cabeça.
Observando-a.
— Você parece bem.
Hermione sustentou seu olhar.
— Eu estou bem.
— Eu sei.
— Então por que perguntou?
— Porque existe diferença entre ouvir e ver.
Aquilo fez Hermione permanecer em silêncio por alguns segundos.
Gina continuou:
— Você parece feliz.
A resposta veio naturalmente.
Sem esforço.
— Eu sou feliz.
E aquilo era verdade.
Tão simples quanto isso.
Os olhos castanhos de Gina suavizaram.
— Fico feliz.
O silêncio que se seguiu foi confortável.
Familiar.
Como se estivessem reaprendendo uma amizade antiga.
Sem pressa.
Sem cobranças.
— Embora eu admita uma coisa.
Hermione reconheceu imediatamente aquele tom.
— Isso nunca termina bem.
— Estou irritada.
Hermione apoiou o queixo na mão.
— Imagino.
— Estou falando sério.
— Você geralmente está.
Gina estreitou os olhos.
— É culpa sua.
— Naturalmente.
— Não era para concordar.
— Achei mais eficiente.
— Você está passando tempo demais com Malfoy.
Hermione soltou um leve riso.
Gina apontou para ela.
— Eu passei quatro anos tentando descobrir quem era o homem misterioso da sua vida.
— Gina...
— Quatro anos.
— Eu sei.
— Quatro.
— Continuam sendo quatro.
— E era Draco Malfoy.
A gargalhada escapou antes que Hermione pudesse impedir.
— Sim, era.
— Nem eu teria apostado nisso.
— Honestamente?
— O quê?
Hermione apoiou o queixo na mão.
— Nem eu teria apostado nisso aos dezessete anos.
Gina riu.
— Aos dezoito também não.
— Nem aos dezenove.
— Nem aos vinte.
— Acho que você entendeu a ideia.
As duas voltaram a rir.
Gina balançou a cabeça.
— É absurdo.
— Um pouco.
— Um pouco?
— Certo. Bastante.
— Obrigada.
— Disponha.
— E você simplesmente nunca comentou nada.
Hermione arqueou uma sobrancelha.
— O que exatamente eu deveria ter comentado?
— Qualquer coisa!
— "Olá, Gina. Conheci um ex-sonserino irritante e infelizmente ele é bonito"?
Gina engasgou com a própria risada.
— Hermione!
— Estou tentando imaginar como essa conversa teria acontecido.
— Você é impossível.
— Convivo com Draco há anos. Alguma coisa acabou sendo absorvida por osmose.
As duas ainda sorriam quando o assunto começou a mudar naturalmente.
Talvez porque já tivessem rido do suficiente sobre Draco Malfoy para uma única tarde.
Talvez porque, depois dos primeiros minutos, a conversa estivesse começando a encontrar um terreno mais familiar.
Gina apoiou os braços na cadeira e observou novamente a mesa de Hermione.
Os pergaminhos.
As penas.
As anotações.
As pilhas de documentos que pareciam se multiplicar sozinhas.
— Certo — disse ela. — Brincadeiras à parte... o que exatamente você está fazendo aqui?
Hermione acompanhou seu olhar.
— Neste exato momento?
— Sim.
— Tentando convencer cinquenta anos de burocracia que o século mudou.
Gina soltou uma risada.
— Isso parece um trabalho impossível.
— Foi exatamente por isso que me contrataram.
— Então você realmente já está mexendo nas coisas?
— Algumas coisas.
— Tipo?
Hermione puxou um dos relatórios para mais perto.
— Revisão dos protocolos de prisão.
O sorriso de Gina diminuiu ligeiramente.
— Certo...
— E do sistema de julgamento.
— Isso parece importante.
— É importante.
Hermione abriu uma das páginas.
— Existem procedimentos que praticamente não mudaram desde antes da guerra.
— Sério?
— Alguns são ainda mais antigos.
Gina arqueou as sobrancelhas.
— E ninguém fez nada?
— Fizeram.
— Ah.
— Criaram mais formulários.
Gina gargalhou.
— Claro que criaram.
— O Ministério tem uma capacidade impressionante de responder problemas com papelada.
— Imagino.
Hermione virou outra página.
— Alguns processos de revisão demoram meses.
— Meses?
— Em certos casos, mais.
A expressão divertida desapareceu do rosto de Gina.
Porque agora aqueles pergaminhos deixavam de parecer apenas burocracia.
Havia pessoas por trás deles.
Casos.
Famílias.
Consequências.
— E você pretende mudar isso?
— Pretendo.
— Em uma semana?
Hermione soltou uma pequena risada.
— Não.
— Ainda bem.
— Mas pretendo começar.
Gina permaneceu observando-a por alguns segundos.
Aquela expressão ela conhecia.
Conhecia muito bem.
Era a mesma que Hermione fazia em Hogwarts quando encontrava um problema que ninguém mais parecia disposto a resolver.
A mesma que surgia antes de passar semanas mergulhada em pesquisas.
A mesma que normalmente precedia alguma ideia considerada impossível.
— Ah.
Hermione ergueu os olhos.
— O quê?
— Agora faz sentido.
— O quê faz sentido?
— Você ter voltado.
Por um instante, Hermione permaneceu em silêncio.
Porque aquela pergunta era mais difícil do que parecia.
— A Itália ainda é minha casa.
— Eu sei.
— Continua sendo.
Gina assentiu.
Hermione passou os olhos pelo escritório.
Pelas estantes.
Pelas pilhas de documentos.
Pelas propostas espalhadas sobre a mesa.
— Mas isso também importa.
A resposta saiu simples.
Honesta.
Sem necessidade de explicações maiores.
Gina sorriu.
Porque entendia.
Talvez não completamente.
Mas o suficiente.
Foi nesse momento que duas batidas suaves ecoaram pela porta.
Hermione sequer precisou olhar.
O sorriso apareceu antes mesmo que pudesse impedir.
Pequeno.
Natural.
Daqueles que surgiam automaticamente.
Gina percebeu.
Claro que percebeu.
— Entre.
A porta se abriu.
Draco entrou segurando uma pasta de couro sob o braço.
O sobretudo escuro ainda trazia pequenas marcas da chuva.
— Eu espero sinceramente que alguém tenha informado ao departamento de poções que não existe justificativa médica para tentar resolver tudo com essência de dittany.
Ele fechou a porta atrás de si.
— Porque se eu encontrar mais um relatório recomendando—
Draco interrompeu a frase.
Os olhos cinzentos encontraram Gina.
Uma pequena pausa.
— Weasley.
— Malfoy.
— Não sabia que o Profeta tinha autorização para acessar áreas restritas.
— Eu poderia dizer o mesmo sobre você.
— Eu sou casado com a chefe do departamento.
— Isso não responde à pergunta.
— Responde para mim.
Hermione fechou os olhos por um segundo.
Exatamente um segundo.
— Olá para você também, Draco.
Ele voltou imediatamente a atenção para ela.
— Olá.
— Como foi o seu dia?
— Três reuniões.
— Péssimo, então.
— Horrível.
Gina observou a troca.
Porque aquilo tinha acontecido tão naturalmente que parecia ensaiado.
Mas não era.
Claramente não era.
Era apenas hábito.
Anos de hábito.
Draco aproximou-se da mesa.
Só então percebeu a quantidade de documentos espalhados.
— Você ainda não saiu daqui.
Hermione arqueou uma sobrancelha.
— Eu trabalho aqui.
— Isso não foi uma resposta.
— Foi exatamente uma resposta.
— Não para a pergunta que eu fiz.
Gina mordeu o interior da bochecha para não rir.
Hermione apontou uma pena para o marido.
— Eu estou ocupada.
— Você sempre está ocupada.
— Obrigada pela observação revolucionária.
— Disponha.
Draco apoiou a pasta sobre a mesa.
Então retirou dela uma pequena caixa.
E a empurrou na direção de Hermione.
Ela olhou para a embalagem.
Depois para ele.
— O que é isso?
— Uma tentativa de evitar que você transforme café em refeição principal.
Gina soltou uma risada.
Hermione abriu a caixa.
Dentro havia pequenos doces.
Os favoritos dela.
Gina percebeu pelo sorriso imediato.
— Você trouxe sobremesa.
— Tecnicamente, isso é um lanche.
— Draco.
— Hermione.
— Eu sou uma adulta.
— Contestável.
— Draco.
— Você almoçou?
Hermione abriu a boca.
Fechou.
Draco apenas ergueu uma sobrancelha.
— Exatamente.
Gina começou a rir.
— Certo. Agora eu entendi.
Hermione apontou para ela.
— Não incentive.
— Eu não estou incentivando.
— Está sim.
— Estou apenas observando.
Draco pareceu satisfeito.
— Finalmente alguém razoável nesta sala.
— Eu vou expulsar vocês dois.
— Você não pode expulsar a imprensa — respondeu Gina.
— Nem o seu marido — acrescentou Draco.
Hermione apoiou a testa na mão.
— Eu deveria ter ficado na Itália.
— Mentira — disseram os dois ao mesmo tempo.
O silêncio que seguiu durou apenas um segundo.
Porque Gina e Draco trocaram um olhar.
E imediatamente pareceram igualmente incomodados por terem concordado.
— Isso foi perturbador — comentou Gina.
— Concordo.
— Eu não gosto disso.
— Nem eu.
Hermione começou a rir.
E, observando a cena, Gina percebeu algo.
Talvez Harry estivesse certo.
Talvez a parte mais surpreendente de toda aquela história não fosse o casamento.
Nem o segredo.
Nem as manchetes.
Era a normalidade.
A forma como aqueles dois simplesmente existiam juntos.
Sem esforço.
Sem espetáculo.
Sem precisar provar nada para ninguém.
E Gina teve a sensação de que estava finalmente conhecendo a vida que Hermione construíra durante todos aqueles anos.
— Certo.
Hermione imediatamente estreitou os olhos.
— Essa frase nunca traz nada de bom.
— Eu vou à sua casa amanhã.
— O quê?
— Amanhã.
— Gina...
— Faz anos que não tomo um chá com você.
— Você está se convidando?
— Sim.
— Sem qualquer vergonha?
— Absolutamente nenhuma.
Hermione observou-a por um segundo.
Depois apoiou os cotovelos na mesa.
— Ótimo.
Gina sorriu.
— Ótimo?
— Claro.
— Eu estava preparada para negociar.
— Que desperdício de planejamento da sua parte.
— Estou chocada.
— Não fique. Apareça amanhã.
A brincadeira desapareceu da voz.
— Sério.
Gina sustentou seu olhar por um instante.
E entendeu exatamente o que não estava sendo dito.
Você é bem-vinda.
Sempre foi.
Talvez tenha levado anos para ambas voltarem a encontrar aquele caminho.
Mas ele ainda estava ali.
— Que horas?
— Três da tarde.
— Tão específico.
— Eu gosto de horários específicos.
— Claro que gosta.
Hermione ignorou o comentário.
— Vou deixar a lareira liberada para você.
— Isso parece perigosamente oficial.
— Eu sou chefe de departamento. Tudo parece oficial ultimamente.
— Justo.
— Então apareça às três.
— Vou tentar.
— Gina.
— Eu vou aparecer às três.
— Melhor.
Draco observou a troca.
Depois inclinou ligeiramente a cabeça.
— Apenas uma observação.
— Lá vem.
— Se for trazer aqueles biscoitos de melaço dos Weasley, avise com antecedência.
— Por quê?
— Para que eu possa providenciar ajuda médica adequada.
Gina pegou uma pena da mesa e atirou nele.
Draco desviou sem dificuldade.
Hermione começou a rir.
E, pela primeira vez desde que retornara para a Inglaterra, a ideia do dia seguinte pareceu estranhamente simples.
Uma amiga.
Um chá.
E nenhuma ponte precisando ser reconstruída.
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