O Segredo Mais Bem Guardado
24 Capítulo 24
A primeira semana passou em um ritmo que Hermione teria considerado impossível poucos meses antes.
Ou talvez apenas parecesse rápida porque ela raramente deixava o próprio escritório antes do anoitecer.
O Departamento de Execução das Leis da Magia revelou-se ainda mais complexo do que os relatórios iniciais sugeriam.
Nos primeiros dias, Hermione mergulhou em pilhas de documentos com a mesma intensidade que costumava dedicar aos livros durante Hogwarts.
Processos antigos.
Projetos interrompidos.
Revisões de protocolos.
Relatórios acumulados ao longo de meses.
Memorandos que pareciam ter sido escritos com o objetivo específico de testar sua paciência.
Em determinado momento, seu assistente passou a deixar chá sobre sua mesa sem sequer perguntar.
Pouco depois, aparentemente desistiu de convencê-la a respeitar horários razoáveis de almoço.
Hermione considerou aquilo uma adaptação eficiente.
Ele provavelmente chamaria de rendição.
Ao final da primeira semana, começava finalmente a compreender o funcionamento completo do departamento.
Ou, pelo menos, quais problemas precisavam ser resolvidos primeiro.
O que já era um progresso considerável.
Fora das paredes do Ministério, entretanto, o restante da sociedade bruxa continuava tão interessado em sua vida quanto no dia do baile.
As manchetes mudavam.
A curiosidade permanecia.
Alguns jornais discutiam sua nomeação.
Outros analisavam sua carreira construída na Itália.
Alguns permaneciam fascinados pelo casamento.
Uma revista chegou a dedicar seis páginas inteiras a teorias sobre como ela e Draco haviam conseguido esconder o relacionamento durante tantos anos.
Hermione recusou-se a ler.
Draco leu.
E passou três dias comentando as teorias mais absurdas durante o jantar.
Segundo uma delas, Narcisa havia subornado metade da imprensa britânica.
Segundo outra, os dois haviam utilizado magia ancestral para apagar registros.
A favorita de Draco envolvia uma conspiração internacional.
Narcisa considerou aquela particularmente criativa.
Apesar disso, dentro da mansão, muito pouco havia mudado.
As manhãs continuavam começando com café compartilhado.
As noites continuavam terminando lado a lado na biblioteca, no solário ou diante da lareira.
Havia conforto naquela rotina.
Uma normalidade construída ao longo de anos.
E que nenhum dos dois pretendia abandonar apenas porque o restante do mundo finalmente descobrira sua existência.
Quando o primeiro fim de semana chegou, ambos recusaram convites, ignoraram eventos e passaram dois dias inteiros em casa.
Hermione ocupou parte do sábado no solário com uma pilha de livros que insistia não ser trabalho.
Draco desapareceu durante algumas horas no laboratório escondido atrás do escritório.
Narcisa visitou Andrômeda e Ted.
Os três jantaram juntos.
Assistiram a um filme.
Caminharam pelos jardins.
Leram.
Conversaram.
Descansaram.
Nada extraordinário.
Talvez por isso mesmo aqueles dias tivessem sido tão agradáveis.
A Toca estava cheia naquela quarta-feira à noite.
O tipo de cheia que não parecia organizada, mas de algum jeito sempre funcionava.
O cheiro de comida tomava conta da casa enquanto vozes se misturavam entre a cozinha e a sala de jantar.
Harry já estava sentado quando o restante da mesa se acomodou, ainda tirando o casaco com a familiar sensação de que, ali dentro, o tempo corria de forma diferente.
Arthur foi o primeiro a puxar assunto, como sempre.
— Como estão as coisas no Departamento de Aurores, Harry?
Harry engoliu a primeira garfada antes de responder.
— Ocupadas. Mais do que o normal.
Ron soltou um resmungo.
— Isso significa “papelada infinita”?
Harry soltou um meio sorriso.
— Basicamente.
Arthur assentiu, interessado.
— Houve alguma mudança depois da reorganização do Ministério?
— Sim — Harry respondeu. — Aumentou bastante o volume de relatórios entre departamentos.
Jorge, do outro lado da mesa, ergueu a sobrancelha.
— E isso tem nome?
Harry nem precisou pensar.
— Efeito Hermione.
A mesa inteira reagiu com pequenas risadas.
— Isso é oficialmente uma coisa agora? — Ron perguntou.
— No Ministério, sim — Harry respondeu.
Molly sorriu discretamente enquanto servia mais comida para alguém que claramente não precisava.
— E como ela está? — perguntou ela, depois de um instante.
A pergunta veio leve.
Natural.
Harry apoiou o garfo por um segundo.
— Bem.
— Só bem? — Molly insistiu, gentil.
Harry pensou um pouco antes de continuar.
— Ela está… completamente no ritmo.
— Tivemos algumas reuniões ministeriais juntos já.
Ele fez uma pausa.
— E eu também a vejo pelos corredores às vezes.
Gina observava em silêncio agora, mas atenta.
Harry continuou, mais tranquilo:
— Ela está diferente.
— Diferente como? — Arthur perguntou.
Harry inclinou levemente a cabeça.
— Não é bem diferente… é mais como se ela sempre tivesse pertencido lá.
Ele deu de ombros.
— Ela tem um currículo absurdo, na verdade.
Isso chamou atenção da mesa.
— Tipo? — Jorge perguntou, interessado.
Harry contou de forma resumida, como se estivesse apenas organizando pensamentos:
— Trabalhou no Ministério Italiano, braço direito do Ministro lá, participou de reformas legais importantes… tem mais experiência prática do que a maioria dos chefes juntos.
Ron assobiou baixo.
— Isso é… muita coisa.
Jorge abriu um sorriso.
— Basicamente, vocês colocaram uma Hermione no Ministério e esperaram que não acontecesse nada.
Harry soltou uma risada curta.
— Funciona bem até agora.
Jorge inclinou a cabeça.
— Ela deve estar aterrorizando todo mundo.
Harry respondeu sem pensar muito:
— Ela parece uma Malfoy quando quer.
O silêncio durou meio segundo antes de Gina rir.
— Isso foi um elogio ou um defeito?
— Depende. — Harry respondeu rindo.
A mesa voltou ao ritmo leve.
Assuntos se espalharam novamente.
Comida, trabalho, pequenas histórias.
Até que Audrey, mais ao lado, comentou com Angelina:
— As enfermeiras do St. Mungus estão insuportáveis ultimamente.
— Mais do que o normal? — Angelina perguntou.
— Sim. Elas estão irritadas porque Malfoy “não fica mais disponível” como antes.
Harry franziu a testa levemente, mas continuou comendo.
— Como assim? — Bill perguntou.
Audrey revirou os olhos.
— Ele sempre ficava no hospital durante o turno inteiro. Agora ele… sai.
— Sai? — Ron repetiu.
— Pausas normais — ela explicou. — Café, almoço… às vezes ele desaparece por um tempo e volta.
Jorge soltou uma risada.
— Ele virou um funcionário saudável e isso está deixando as pessoas desconfortáveis.
— Exatamente isso — Audrey respondeu.
Harry soltou uma risada baixa.
Gina virou o rosto imediatamente.
— O quê?
Harry deu de ombros.
— Nada.
— Harry.
Ele suspirou.
— Eu só… sei onde ele passa parte dessas pausas.
A mesa inteira virou para ele.
— Como assim você sabe? — Jorge perguntou imediatamente.
Harry apoiou os cotovelos na mesa, tranquilo.
— Porque eu vejo.
— Vê onde? — Gina insistiu.
Harry hesitou um segundo.
— No Ministério.
O interesse cresceu.
— Ele aparece lá?
Harry assentiu.
— Já o vi no horário do almoço, café e perto do fim do expediente.
Jorge abriu um sorriso lento.
Ron bufou.
— Ainda é Malfoy.
Harry deu de ombros.
— Ainda. Mas não exatamente o mesmo.
Gina observava em silêncio, analisando.
Jorge então virou para ela.
— E você? Como estão as coisas no Profeta Diário?
Gina soltou um suspiro cansado.
— Caóticas.
— Todos querem o furo do século — ela disse. — Ninguém fala de outra coisa além de Hermione, Malfoy e o Ministério.
Audrey riu baixo.
— No hospital está igual. A entrada vive cheia de jornalistas.
— Eles não têm mais nada melhor para fazer? — Ron reclamou.
— Não desde o baile — Gina respondeu.
Ela pegou um gole de bebida antes de acrescentar, casualmente:
— Harry basicamente realizou o sonho deles.
A mesa inteira parou.
— Como assim? — Molly perguntou.
Gina deu de ombros, calma demais.
— Ele almoçou com Hermione e Malfoy.
Silêncio.
Jorge foi o primeiro:
— Você fez o quê?
Harry fechou os olhos por um segundo.
— Eu sabia que isso ia voltar.
— Não ajuda — Ron murmurou.
Gina continuou, divertida:
— E não foi só isso. Malfoy trouxe comida. Para ele — ela completou.
Agora a mesa estava oficialmente interessada.
Harry levantou as mãos.
— Ok, antes que isso vire algo maior do que é…
— Já virou — Jorge interrompeu.
Harry fechou os olhos por um instante.
— Eu realmente devia ter previsto isso.
— Devia mesmo — concordou Gina.
— O que aconteceu? — perguntou Molly.
Harry apoiou os talheres sobre o prato.
— Nada muito dramático. Eu e Hermione ainda estávamos conversando depois da reunião. A conversa estava indo melhor do que eu esperava, na verdade.
Aquilo arrancou alguns sorrisos discretos de Molly e Arthur.
— Então Malfoy apareceu.
— Fazendo o quê? — perguntou Ron.
— Levando almoço para ela. Porque imaginou que ela acabaria não parando para comer — explicou Harry.
Jorge soltou uma gargalhada.
— Isso é muito Hermione.
— Foi exatamente o que eu pensei.
— Harry, conta direito — interrompeu Gina.
Ele apontou o garfo para ela.
— Eu sabia que você faria isso.
— Porque você está resumindo.
— Estou sendo eficiente.
— Você está omitindo informações.
— Qual a diferença?
— O fato de que ele não apareceu com qualquer almoço.
Agora até Molly parecia interessada.
Gina apoiou os cotovelos na mesa.
— Conta.
Harry suspirou dramaticamente.
— Ele saiu do hospital, passou no Bellini e trouxe o ravioli favorito dela.
— Ah... — murmurou Audrey.
— Exatamente — respondeu Harry.
— Isso muda bastante a história — comentou Angelina.
— Muda, não muda?
— Bastante.
Jorge balançou a cabeça.
— Estou desconfortavelmente impressionado.
— Você não foi o único.
Algumas risadas percorreram a mesa.
— E então? — perguntou Arthur.
Harry tomou um gole de água antes de continuar.
— Eu estava me preparando para deixá-los almoçar sozinhos quando Malfoy me mandou sentar.
— Mandou? — perguntou Bill.
— Da forma mais Malfoy possível.
— O que significa exatamente? — quis saber Jorge.
Harry assumiu uma expressão neutra.
— "Sente-se."
A mesa explodiu em risadas.
— E você sentou? — perguntou Ron.
— Eu estava confuso demais para fazer qualquer outra coisa.
— Justo.
— Aparentemente ele tinha levado comida suficiente para mim também.
— Porque imaginou que você poderia estar lá? — perguntou Molly.
— Sim.
— Isso é... surpreendentemente atencioso.
— Foi o que eu pensei.
Harry girou o copo entre os dedos.
— E o mais estranho é que ele falou aquilo como se fosse completamente normal.
O assunto pareceu se acomodar por alguns segundos.
Harry apoiou os braços sobre a mesa.
— Na verdade, acho que foi isso que mais me chamou atenção.
— O quê? — perguntou Gina.
— Os dois pareciam completamente tranquilos.
Alguns olhares curiosos se voltaram para ele.
— Não parecia que estavam no centro de todas aquelas manchetes. Não parecia que metade do mundo bruxo estava comentando sobre eles. Não parecia nem que tinham acabado de revelar um casamento secreto.
Jorge arqueou uma sobrancelha.
— O que parecia então?
Harry refletiu por um instante.
— Uma terça-feira comum.
A mesa ficou em silêncio.
— Eles estavam almoçando.
— Conversando.
— Discutindo trabalho.
— Brigando por causa de comida.
— Nada extraordinário.
Um sorriso surgiu no canto de seus lábios.
— Era quase irritantemente normal.
— Agora isso parece Malfoy — comentou Rony.
As risadas voltaram.
— Nas pequenas coisas também — continuou ele.
— Tipo? — perguntou Audrey.
— Ela passou o saleiro para ele antes mesmo de ele pedir.
— Ele procurou alguma coisa nos pergaminhos e ela afastou um deles porque percebeu que ele ia derrubar molho.
— Em algum momento ele simplesmente empurrou o prato na direção dela e ela roubou um pedaço da lasanha.
— Sem pedir? — perguntou Jorge.
— Sem pedir.
— Orgulho da Grifinória.
— Jorge — repreendeu Molly.
— Estou apenas observando os fatos.
A mesa voltou a rir.
Harry balançou a cabeça.
— Em determinado momento eu até comentei que eles eram irritantes.
— E o que aconteceu? — perguntou Gina.
— Os dois ficaram me encarando como se não tivessem ideia do que eu estava falando.
— O que só prova seu argumento — concluiu Angelina.
— Exatamente.
Harry sorriu.
— E quando o almoço terminou foi mais ou menos a mesma coisa.
— Como assim? — perguntou Arthur.
— Hermione ajeitou a lapela do sobretudo dele porque aparentemente estava torta.
— Naturalmente — murmurou Gina.
— Naturalmente.
— Depois ela se ofereceu para acompanhá-lo até a saída.
— E?
— Ele recusou. Disse que as entradas ainda estavam cheias e preferia evitar aquilo.
— Sensato — comentou Arthur.
— Foi exatamente o que eu pensei.
Harry apoiou-se na cadeira.
— Honestamente?
Todos olharam para ele.
— Ainda é estranho.
— O quê? — perguntou Ron.
Harry pensou por um instante.
— Ver os dois juntos.
O silêncio que se seguiu foi breve.
— Não ruim.
— Só estranho.
Ele deu de ombros.
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