A casa estava iluminada apenas por algumas luzes espalhadas pela sala quando Harry chegou.

Já passava das oito.

Talvez das nove.

Ele não tinha certeza.

Depois de um dia como aquele, o horário parecia um detalhe secundário.

O som da porta se abrindo chamou imediatamente a atenção de Gina.

Ela estava sentada no sofá com uma caneca entre as mãos e alguns pergaminhos espalhados sobre a mesa de centro.

— Finalmente.

Harry soltou uma respiração cansada enquanto largava a pasta próxima à entrada.

— Foi um dia.

— Eu imaginei.

Gina recostou-se no sofá.

— O escritório parecia um ninho de explosivins hoje.

Harry riu.

— Tão ruim assim?

— Pior.

— O que aconteceu?

— O que aconteceu?

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Harry, metade do país descobriu que Hermione Granger voltou para a Inglaterra, assumiu um dos cargos mais importantes do Ministério e é casada com Draco Malfoy há anos.

— Quando você coloca dessa forma...

— Quando eu coloco dessa forma parece exatamente tão absurdo quanto realmente é.

Harry soltou uma risada.

Gina apontou para os pergaminhos sobre a mesa.

— Tivemos três reuniões editoriais só hoje.

— Três?

— Três.

— Sobre eles?

— Sobre eles.

— Merlin.

— Exatamente.

Ela levou a caneca aos lábios.

— Teve jornalista discutindo se o casamento foi o maior segredo político da última década.

— Não foi.

— Eu sei.

— Você sabe.

— E isso nunca impediu jornalistas de escreverem sobre o assunto.

Harry não conseguiu discutir esse argumento.

Porque claramente era verdade.

Então Gina inclinou a cabeça.

Observando-o.

— Falando nisso...

— O Ministro reuniu todos os chefes de departamento logo cedo.

— Para apresentá-la oficialmente.

— Exatamente.

— E?

Harry apoiou os braços sobre os joelhos.

— Ela estava impecável.

Gina sorriu.

— Isso não me surpreende nem um pouco.

— Parecia que já trabalhava naquele Ministério há anos.

— Porque provavelmente já entrou sabendo mais do que metade deles.

— Também pensei nisso.

A risada veio fácil dessa vez.

Então ele começou a contar.

A reunião.

A chegada de Hermione.

Os olhares.

A curiosidade dos outros departamentos.

O discurso do Ministro.

E principalmente os cargos que foram mencionados.

— Coordenadora de Cooperação Internacional.

Gina assentiu.

— Certo.

— Assessora direta do Ministro da Magia Italiano.

As sobrancelhas dela subiram.

— Certo.

— Responsável pela revisão de acordos diplomáticos entre três países durante a reforma do Conselho Europeu de Magia.

— Harry.

— Foi exatamente o que eu pensei.

— Merlin.

— Pois é.

Gina encostou-se no sofá.

— Ela realmente construiu uma carreira inteira.

— Sim.

A resposta saiu mais baixa.

Porque aquela era justamente uma das coisas que mais o haviam atingido.

Hermione não tinha apenas ido embora.

Ela tinha seguido em frente.

Crescido.

Construído algo.

E ele sequer sabia.

— Depois da reunião, nós conversamos.

O sorriso de Gina desapareceu suavemente.

Ela conhecia aquele tom.

Então ouviu.

Sem interromper.

Harry contou sobre a conversa.

Sobre a mágoa.

Sobre a culpa.

Sobre as perguntas que finalmente tinham sido feitas.

E as respostas que finalmente tinham sido dadas.

Contou sobre Hermione admitir que deveria ter sido mais presente.

Contou sobre ela reconhecer que algumas pessoas haviam sido machucadas.

Sem desculpas.

Sem justificativas elaboradas.

Apenas honestidade.

Quando terminou, Gina permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Isso parece com ela.

Harry ergueu os olhos.

— O quê?

— Assumir responsabilidade pela parte que lhe cabe.

Ele assentiu.

Porque era exatamente aquilo.

— Eu ainda estou magoado.

— Eu sei.

— Mas acho que ela também estava.

Gina observou-o por alguns instantes.

— Acho que vocês dois estavam.

Harry soltou uma respiração lenta.

Talvez fosse verdade.

Talvez nenhum dos dois tivesse percebido o quanto a distância aumentava a cada ano.

Talvez ambos tivessem esperado que o outro desse o primeiro passo.

O silêncio que se seguiu foi confortável.

Breve.

Até que algo pareceu ocorrer a Harry.

Um sorriso estranho surgiu em seu rosto.

Pequeno.

Incrédulo.

Gina estreitou os olhos imediatamente.

— O quê?

Harry apoiou a cabeça no encosto do sofá.

— Aconteceu outra coisa.

— Harry.

— Honestamente, ainda não tenho certeza se aconteceu mesmo.

— Isso raramente antecede algo normal.

— Concordo.

— O que aconteceu?

Harry virou o rosto para ela.

Então começou a rir.

Daquela forma que só acontecia quando nem ele acreditava no que estava prestes a dizer.

— Existe uma possibilidade real de eu ter sofrido algum tipo de alucinação temporária.

— Harry.

— Ou um feitiço desconhecido.

— Harry.

— Porque não faz sentido.

Gina já estava claramente intrigada.

— Conte logo.

— Depois da conversa com Hermione...

— Sim?

— Draco Malfoy apareceu.

— Certo.

— Com almoço.

— Certo.

— Para Hermione.

— Isso parece normal.

— E para mim.

Silêncio.

Gina piscou.

Uma vez.

Depois outra.

— Desculpe?

— Foi exatamente o que eu disse.

— Para você?

— Sim.

— Draco Malfoy trouxe almoço para você?

— Sim.

— Voluntariamente?

— Essa também foi uma das minhas perguntas.

Gina encarou o marido.

Harry encarou-a de volta.

Por alguns segundos.

Então ela começou a rir.

E continuou rindo.

— Eu sabia.

— O quê?

— Eu sabia que estava perdendo alguma coisa importante.

— Gina.

— Harry Potter.

Ela apontou para ele.

Ainda tentando recuperar o fôlego.

— Você almoçou com Hermione Granger e Draco Malfoy.

— Sim.

Harry deixou a cabeça cair para trás.

— E como foi? — perguntou Gina.

Harry soltou uma respiração.

— Então foi estranho.

— O almoço?

— Tudo.

Ela apoiou o queixo na mão.

— Elaborar seria útil.

Harry ficou alguns segundos olhando para o nada.

Como se ainda estivesse tentando organizar as próprias impressões.

— Já “sabíamos” que eles eram casados.

— Agora sabe.

— Sim.

— E?

Ele balançou a cabeça.

— Acho que uma coisa é ouvir.

Outra é ver.

As sobrancelhas de Gina subiram.

— Ver o quê?

Harry soltou uma pequena risada.

— Draco Malfoy aparecendo no Ministério com almoço porque sabe que a esposa vai esquecer de comer.

— Isso realmente parece uma frase estranha.

— Não é?

— Bastante.

Ele apontou para ela.

— Exatamente.

— Continue.

— Ele atravessou Londres no horário de almoço. Levou a comida preferida dela e entrou no gabinete como se aquilo fosse perfeitamente normal.

— Para ele provavelmente é.

— Eu sei.

Harry passou a mão pelos cabelos.

— Esse é o problema.

— Problema?

— Eu passei metade do almoço esperando descobrir onde estava a pegadinha.

Gina gargalhou.

— Harry.

— Estou falando sério.

— Eu sei que está.

— Porque ele era um idiota.

— Sem dúvida.

— Um completo idiota.

— Concordo.

— Um idiota arrogante.

— Harry.

— O quê?

— Você já estabeleceu que ele era um idiota.

— Só quero garantir que estamos na mesma página.

Gina riu novamente.

— Estamos.

Harry recostou-se no sofá.

— E agora ele aparece com almoço.

— Ainda estou presa nessa parte.

— Eu também.

— Continue.

— Ele sabia exatamente o que ela iria pedir para comer. Sabia que ela provavelmente não tinha parado para almoçar. Sabia que ela ia acabar enterrada em relatórios. E aparentemente considerou a possibilidade de eu estar lá.

— O que continua sendo estranho.

— Muito estranho.

— Talvez ele esteja doente.

— Foi uma das minhas teorias.

Gina sorriu.

— E?

Harry ficou em silêncio por um instante.

— E não parecia forçado.

A expressão dela suavizou.

Porque agora a conversa estava chegando ao ponto importante.

— Parecia natural.

— Como assim?

— Como se ele fizesse aquilo todos os dias. Como se cuidar dela fosse simplesmente parte da rotina.

Harry observou as próprias mãos.

Pensativo.

— E a parte mais irritante é que ela faz a mesma coisa.

— Hermione?

— Sim.

— Isso não me surpreende.

— Ela passava coisas para ele antes que ele pedisse. Afastava pergaminhos do prato. Corrigia alguma coisa na roupa dele. Coisas pequenas.

Gina sorriu.

— Coisas de casal.

— Exatamente.

Harry apoiou a cabeça no encosto do sofá.

— Eu acho que essa é a parte que continua me pegando.

— Qual delas?

— Eles não parecem um escândalo.

A resposta saiu antes que ele pudesse pensar.

— Não parecem uma manchete. Não parecem um segredo. Parecem só...

Ele procurou a palavra.

— Casados.

Gina ficou alguns segundos em silêncio.

Então um sorriso lento surgiu em seus lábios.

— Acho que isso acontece quando duas pessoas passam anos construindo uma vida juntas.

Harry soltou uma risada.

— Talvez.

— Talvez?

— Certo.

Definitivamente.

Gina observou-o por alguns instantes.

— Você está menos bravo.

Harry abriu a boca para discordar.

Então fechou novamente.

Porque ela tinha razão.

— Não estou exatamente feliz.

— Eu sei.

— Ainda tenho perguntas.

— Eu sei.

— Ainda estou magoado.

— Eu sei.

Harry encarou o teto por alguns segundos.

— Mas hoje foi a primeira vez que eu consegui olhar para aquilo tudo e não pensar apenas no segredo.

— E no que você pensou?

Um sorriso pequeno surgiu em seus lábios.

Daqueles que apareciam sem permissão.

— Que a Hermione parece feliz.

Gina não respondeu imediatamente.

Porque aquela talvez fosse a coisa mais importante que ele tinha dito desde que chegou em casa.

— Isso importa para você.

Não era uma pergunta.

Harry soltou uma respiração lenta.

— Sempre importou.

O silêncio que se seguiu foi tranquilo.

Confortável.

Até que Gina estreitou os olhos.

— Espera.

Harry imediatamente desconfiou daquele tom.

— O quê?

— Você percebeu que almoçou sozinho com Hermione Granger e Draco Malfoy.

— Sim.

— E eu perdi isso.

Harry começou a rir.

— Gina...

— Harry.

Ela apontou um dedo para ele.

— Existem pelo menos oito jornalistas no meu escritório que venderiam a própria varinha por essa informação.

— Oito?

— Talvez dez.

— Impressionante.

— E eu sou casada com a única pessoa que estava lá.

Harry balançou a cabeça.

Ainda rindo.

— Você está tornando isso sobre você.

— Naturalmente.

— Claro.

— É um dos meus maiores talentos.

E pela primeira vez em alguns dias, a risada veio fácil para os dois.