Harry ainda parecia ligeiramente desconfiado da existência daquela terceira refeição.

O que, na opinião de Hermione, era compreensível.

Draco abriu sua lasanha.

— A propósito.

Harry ergueu os olhos.

— Hm?

— O novo protocolo de contenção de magia instável.

Harry piscou.

Claramente não esperava aquela mudança de assunto.

— O que tem?

— Funcionou.

Hermione observou os dois por cima do ravioli.

Interessada.

Harry apoiou o garfo na mesa.

— Qual parte?

— Todas.

Draco deu de ombros.

— Principalmente o treinamento de campo.

Harry demorou um segundo para entender.

Depois pareceu genuinamente surpreso.

— Você está falando do programa de atualização dos aurores?

— Sim.

— Você sabe que a maior parte do Ministério reclamou dele.

— O Ministério reclama quando chove.

— Justo.

— E reclama quando não chove.

Hermione assentiu.

— Também justo.

Harry soltou uma risada.

Draco continuou:

— O número de internações por acidentes durante contenções caiu consideravelmente nos últimos dois anos.

Agora Harry estava prestando atenção.

De verdade.

— Você acompanhou isso?

— O hospital acompanha.

— Certo.

— Faz parte do meu trabalho.

Harry recostou-se ligeiramente na cadeira.

— Quanto caiu?

— Cerca de trinta por cento.

Os olhos dele se arregalaram.

— Trinta?

— Aproximadamente.

— Isso é muito.

— Eu sei.

Pela primeira vez, o orgulho apareceu na voz de Harry.

Discreto.

Mas presente.

— Levamos quase um ano para implementar aquele treinamento.

— Valeu a pena.

Draco espetou um pedaço da lasanha.

— Menos fraturas.

Menos queimaduras mágicas.

Menos admissões emergenciais.

— Então isso foi um elogio?

A pergunta saiu antes que Harry pudesse impedir.

Hermione imediatamente abaixou os olhos para esconder o sorriso.

Draco pareceu refletir.

— Não.

Harry estreitou os olhos.

— Não?

— Foi uma constatação.

— Ah.

— Uma constatação extremamente positiva.

Harry balançou a cabeça.

— Isso continua sendo um elogio.

Draco apontou o garfo para ele.

— Não se acostume.

Harry abriu a embalagem.

— Eu estava prestes a dizer exatamente a mesma coisa.

— Mentiroso.

— Talvez.

Hermione balançou a cabeça enquanto finalmente puxava o próprio almoço para mais perto.

Por alguns instantes, a sala permaneceu em silêncio.

Não um silêncio desconfortável.

Apenas o tipo de silêncio que surge depois de uma conversa importante.

Aquele em que ninguém sente necessidade de preencher todos os espaços.

Hermione experimentou o ravioli.

Os olhos castanhos fecharam-se por um segundo.

— Ainda é ridículo o quanto isso é bom.

— Eu sei.

Ela sorriu.

Harry observou a troca por cima da própria comida.

Ainda havia algo estranhamente surreal em tudo aquilo.

Não Draco.

Não o casamento.

Aquilo ele ainda estava tentando processar.

O estranho era a naturalidade.

Como se aquela dinâmica existisse havia muito tempo.

Porque existia.

Em determinado momento, Draco estendeu a mão para procurar o saleiro.

Nem chegou a encontrá-lo.

Hermione já o havia deslizado pela mesa em sua direção.

— Obrigado.

— Hm.

Nenhum dos dois pareceu perceber o que tinha acabado de acontecer.

Minutos depois, Draco começou a procurar alguma coisa entre os pergaminhos que havia trazido do hospital.

Hermione afastou um deles para longe do prato dele.

— Vai derrubar molho nisso.

— Eu não ia.

Ela apenas arqueou uma sobrancelha.

Draco observou o pergaminho.

Depois o prato.

Depois ela.

— Talvez eu fosse.

— Exatamente.

Harry abaixou os olhos para esconder o sorriso.

Algumas coisas, aparentemente, transcendiam casas de Hogwarts.

Pouco depois, Draco cortou um pedaço da lasanha.

Antes mesmo de levá-lo à boca, empurrou o prato alguns centímetros na direção da esposa.

Hermione roubou o pedaço.

Sem pedir.

Sem hesitar.

Como alguém claramente acostumada.

— Ladrã.

— Casada.

— Isso não é defesa legal.

— Funciona para mim.

— Claramente.

Harry soltou uma risada.

Não conseguiu evitar.

Os dois voltaram-se para ele.

— O quê? — perguntou Hermione.

— Nada.

— Potter.

— Eu só estou tentando entender como isso funciona.

Draco recostou-se ligeiramente na cadeira.

— Nem nós sabemos.

— Mentira.

— Às vezes sabemos.

— Melhor resposta — decidiu Harry.

Por alguns instantes, voltaram a comer.

Hermione comentava alguma coisa sobre uma das novas divisões do departamento.

Draco respondia sem realmente tirar os olhos do almoço.

Às vezes ela terminava uma frase que ele havia começado.

Às vezes ele respondia uma pergunta que ela ainda não tinha terminado de formular.

Harry descobriu, para sua surpresa, que aquela era uma rotina perfeitamente normal.

E talvez fosse exatamente isso que mais o desarmava.

Não parecia um segredo.

Não parecia um escândalo.

Não parecia uma manchete.

Parecia apenas um casal almoçando.

Hermione levou o copo à boca.

Draco imediatamente afastou um dos pergaminhos dela antes que fosse atingido pela água.

Ela nem sequer olhou.

— Obrigada.

— Hm.

Harry observou os dois por alguns segundos.

Depois mais alguns.

Então balançou a cabeça.

— Isso é irritante.

Hermione ergueu os olhos.

— O quê?

— Vocês.

Draco pareceu ofendido.

— Especifique.

— Vocês fazem isso o tempo todo?

— Isso o quê? — perguntou Hermione.

— Isso de saber exatamente o que o outro vai fazer.

Os dois trocaram um olhar.

Curto.

Confuso.

Como se estivessem genuinamente tentando entender a pergunta.

— Não.

— Fazemos sim.

As respostas saíram ao mesmo tempo.

Harry apontou imediatamente para os dois.

— Exatamente isso.

Hermione começou a rir.

Draco pareceu considerar o argumento.

— Certo.

Talvez façamos.

— Talvez?

— Definitivamente fazemos — respondeu Hermione.

— Traição.

— Honestidade.

— Ainda considero traição.

Harry apoiou os cotovelos na mesa.

— Eu retiro o que disse.

— Sobre o quê? — perguntou Hermione.

— Não são vocês que são irritantes.

Draco arqueou uma sobrancelha.

— Não?

— É o fato de vocês claramente gostarem um do outro.

Hermione gargalhou.

Draco pareceu refletir por um instante.

— Justo.

— Você concordou rápido demais.

— Sou um homem eficiente.

— Isso foi a coisa mais convencida que você disse nos últimos cinco minutos.

— Apenas nos últimos cinco?

Harry balançou a cabeça.

Hermione voltou a rir.

E, pela primeira vez, os três terminaram uma conversa compartilhando algo simples.

Não uma explicação.

Não uma discussão.

Apenas um almoço.

O almoço terminou mais rápido do que qualquer um deles percebeu.

As embalagens vazias haviam sido empilhadas em um canto da mesa.

Os pergaminhos voltaram a ocupar parte do espaço.

E o relógio na parede lembrava a todos que o restante do mundo continuava funcionando.

Draco foi o primeiro a levantar-se.

— Infelizmente, existem pessoas insistindo em adoecer enquanto estou fora.

Hermione arqueou uma sobrancelha.

— Que falta de consideração.

— Concordo.

Ele recolheu os próprios pergaminhos.

— Pretendo registrar uma reclamação formal.

Harry soltou uma risada enquanto também se levantava.

Hermione observou o marido organizar tudo dentro da pasta de couro.

Um gesto tão familiar que despertou automaticamente a vontade de alisar a lapela de seu sobretudo.

O que ela fez.

Naturalmente.

Draco baixou os olhos para a mão dela.

Depois ergueu uma sobrancelha.

— Está me arrumando?

— Alguém precisa.

— Cruel.

— Realista.

Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dele.

Daqueles reservados quase exclusivamente para ela.

— Qualquer coisa, estou a um patrono de distância.

Hermione sentiu o peito aquecer.

Mesmo depois de todos aqueles anos.

Mesmo depois de toda a rotina construída juntos.

Algumas coisas nunca deixavam de afetá-la.

— Eu sei.

Os dedos dela encontraram os dele por um breve instante.

— E eu vou ficar bem.

— Eu sei.

Ela sorriu.

Porque aquela resposta nunca mudava.

— Nos vemos no jantar?

— Pretendo estar lá.

— Pretende?

— Considerando que você provavelmente vai me obrigar a comparecer.

— Naturalmente.

— Então sim.

Hermione balançou a cabeça, divertindo-se.

— Eu posso acompanhar você até a saída.

Draco imediatamente negou.

— Nem pensar.

— Draco.

— Hermione.

Harry precisou morder o interior da bochecha.

Outra vez.

— As entradas do Ministério ainda estão cheias de jornalistas.

— Eu sobrevivo.

— Eu sei que sobrevive.

Os olhos cinzentos brilharam.

— Estou pensando neles.

Hermione soltou uma risada.

— Que nobre da sua parte.

— Sou conhecido pela minha generosidade.

— Não, não é.

— Detalhes.

Ele apoiou a pasta sob o braço.

— Além disso, já chamamos atenção suficiente por uma semana inteira.

— Uma semana?

— Talvez um mês.

— Mais realista.

— Obrigado pelo apoio.

Hermione aproximou-se apenas o suficiente para ajeitar a gravata dele.

Draco permitiu.

Como sempre.

— Boa sorte no hospital.

— Boa sorte administrando um departamento inteiro.

— Obrigada.

— Você não precisa de sorte.

A voz dele suavizou ligeiramente.

— Mas gosto de desejar mesmo assim.

Por um instante, os olhos dos dois permaneceram presos um ao outro.

Familiar.

Íntimo.

Silencioso.

Então Draco inclinou a cabeça em direção a Harry.

— Potter.

— Malfoy.

— Não deixe minha esposa assinar nenhum decreto revolucionário antes das três da tarde.

Hermione abriu a boca.

— Eu estou literalmente aqui.

— Estou ciente.

— E perfeitamente capaz de ouvir você.

— Também estou ciente.

Harry riu.

— Vou fazer o possível.

— Excelente.

Draco pareceu satisfeito com a resposta.

Então virou-se e caminhou até a porta.

Sem pressa.

Sem olhar para trás.

Como alguém que sabia exatamente onde a encontraria no fim do dia.

A porta fechou-se atrás dele.

O silêncio durou alguns segundos.

Hermione foi a primeira a quebrá-lo.

— Ele exagera.

— Um pouco.

— Bastante.

— Bastante.

Ela sorriu.

Harry observou a expressão dela por um instante.

Aquela serenidade tranquila que aparecia sempre que Draco estava por perto.

Então afastou o pensamento.

Já tinha trabalho suficiente para aquela tarde.

— Bem.

Hermione ergueu os olhos.

— Bem?

— Acho que também preciso voltar a trabalhar.

— Ideia sensata.

Harry caminhou até a porta.

Mas parou antes de sair.

— Hermione?

— Sim?

— Obrigado pelo almoço.

O sorriso dela tornou-se mais suave.

Mais próximo daquele que ele conhecia há anos.

— Obrigada por ter ficado.

Harry assentiu.

E dessa vez não havia mais nada a dizer.

Ao deixar a sala e seguir pelos corredores do Ministério, percebeu que já estava mentalmente organizando os relatórios da tarde.

Os memorandos.

As reuniões.

Os casos pendentes.

Tudo perfeitamente normal.

Então outra percepção surgiu.

Tão repentina que o fez fechar os olhos por um segundo.

Gina.

Harry soltou uma risada sozinho enquanto continuava caminhando.

Porque sua esposa certamente teria apenas uma reação ao descobrir que ele havia passado o horário de almoço inteiro com Hermione e Draco Malfoy.

Sem ela.

E, pela primeira vez em dias, a expectativa daquela conversa pareceu genuinamente divertida.